Journey Into Trickery
23 Not All Those Who Wander Are Lost
Notas iniciais
– Mas é claro, Karnilla. – O deus da trapaça disse, sua voz plácida e calma como se travasse um diálogo amistoso sobre o clima. – A melhor das razões. – Miranda encarou o deus com leve desconfiança, franzindo devagar uma de suas sobrancelhas, pesando o tom que ele usava para se dirigir a deusa que controlava toda aquela escuridão ao redor deles.
Miranda escutou o som de uma risada feminina de escárnio vindo de alguns metros a sua frente. Seus sentidos, aguçados pela magia do sopro de Hela, lhe delatavam a posição de Karnilla, próxima de si. Porém, no momento em que sentia-se mais relaxada por saber onde encontrar a desconhecida deusa, o som do mesmo riso reverberou por todo o cômodo, confundindo seus sentidos.
– Não há motivos para temer. – Loki pareceu debochar, ainda parado na mesma posição de antes, com a diferença de que levantava lentamente seus braços em uma posição de rendição. Seu sorriso enviesado, sua marca registrada, estava presente em seu rosto, e não parecia nem um pouco ameaçado. Será que algum dia eu vou me acostumar com essa capacidade dele de manipular todo mundo?
A jovem moça se esforçava para raciocinar. Entrara no palácio de Nornheim disfarçada como um dos guardas, assim como o deus ao seu lado, e, por alguma razão, seus disfarces foram revelados assim que adentraram aquela construção, mostrando suas verdadeiras formas. Era claro que Karnilla, pelo visto, tinha algum tipo de magia de detecção de ilusões; além disso, fora capaz de multiplicar a própria voz, ou... Multiplicou-se a si mesma? Miranda franzia o cenho, tentando com o máximo de empenho deduzir o que se passava. Curiosamente, a deusa somente o fizera, somente a distraíra assim que a jovem mulher pensara saber... Onde ela estava.
Puta merda, ela lê pensamentos também? Já não bastava a pirralha irritante da Leah? Miranda, nervosa, mordeu o lábio inferior.
– Não leio pensamentos, curiosa midgardiana. – A voz sensual e grave de uma mulher fez-se ouvir por todos os lados, multiplicada de tal maneira que era impossível calcular quantas “bocas”, falsas ou não, a proferiam. – Consigo fazer projeções do que se passa nas mentes menos... Protegidas. Mais fracas. – Sua voz era séria, mas era claro o tom de deboche em suas palavras.
– Já percebeu tão rápido que era uma midgardiana? – Loki perguntou, parecendo interessado e educadamente surpreso. Miranda sentiu vontade de esganá-lo por não tê-la antecipado dos poderes de Karnilla com maiores especificações, e também por falar dessa forma distante a respeito de si mesma. Controle-se. Miranda pensou, temendo que Karnilla pudesse também perceber seus sentimentos por Loki e usá-los de alguma forma que pudesse atingi-la.
Ou atingi-lo.
– Na verdade tive certeza pela projeção que acabei de ver. – Karnilla respondeu secamente, aparentemente se recusando a entrar no jogo de cortesia que o deus da trapaça tentava conduzir.
– Que seria? – Loki insistiu na pergunta, como se tivesse acabado de pedir a deusa que lhe dissesse as horas.
– Não lhe devo satisfação alguma, deus da trapaça. Entretanto, por ter me auxiliado no passado... Posso lhe dar alguns minutos para tentar me convencer a não te matar e não matar a simplória midgardiana que o acompanha. – Miranda engoliu em seco, ofendida, esforçando-se para não demonstrar sentimentos ou expor algum pensamento concreto para que ela pudesse usá-lo contra si. Provavelmente Karnilla a provocava inclusive para tentar descobrir mais sobre ela, a estranha que invadia seu Palácio, levando-a a se revelar por meio de pensamentos e sensações, sem que a deusa tivesse trabalho algum para investigar.
– E eu espero que se lembre que... Se mentir, eu saberei. – A voz da deusa tornou-se mais grave e pareceu, de alguma forma, ampliar a escuridão que os envolvia. Subitamente, Miranda sentiu uma força invisível forçá-la a fechar os lábios e os olhos, baixando os braços contra o próprio desejo de seu corpo, seus músculos movimentando-se contra sua própria vontade. Parou, estática, incapaz de se movimentar e enxergar, tendo apenas a audição, o olfato e o pouco que o tato lhe permitia para se guiar.
– Não há necessidade de tanta hostilidade. – Miranda ouviu a voz de Loki ao seu lado, parecendo mais próxima de si. Ele se aproximara, e ela se perguntou se fora porque ele percebera sua súbita paralisia.
– Ela não é um doce? – Karnilla disse, claramente debochada dessa vez, e Miranda sentiu-se corar de raiva ao perceber que ela vira o que pensara a respeito da possível preocupação do deus. Ao paralisá-la dessa forma, talvez a deusa estivesse testando não necessariamente Miranda, mas sim... Loki. E como ele reagiria se ela fosse atingida.
– Sei que invadir sua residência não é a melhor forma de nos reaproximarmos. – O deus da trapaça disse, sarcástico, porém com a voz controlada, fria... A voz que a midgardiana sabia reconhecer como a que usava para ameaçar alguém.
– Não desejo proximidade de nada que tenha relação com Asgard. E isso inclui você, filho desgarrado de Odin. – A deusa debochou. – Da última vez que ouvi a seu respeito, estava recluso e condenado à prisão perpétua. – Karnilla soou ainda mais perigosa.
– E, por mais que sua empatia pela minha sorte seja comovente – Loki debochou em resposta – o que vim tratar não tem relação comigo, não principalmente. Mas com você. E com Balder.
Uma pausa de silêncio seguiu-se depois das últimas palavras do deus, e Miranda se controlava para não pensar em nada, apenas acompanhar o diálogo, mas era difícil não sentir-se levar pela adrenalina de estar ao lado de Loki enquanto ele realizava mais um estratagema dentro de seu plano genialmente traçado.
– Sempre soube o que dizer para soar agradável, deus da trapaça. – A deusa norn respondeu, sibilante. – Mas ambos sabemos que Balder é refém de Hela há anos, e dependerá apenas de sua vontade libertá-lo ou não. Sua língua de prata não me convence.
– Mas talvez a presença da discípula de Hela tenha lhe despertado dúvidas e anseios a respeito da deusa da morte. – Loki disse lentamente. Miranda instantaneamente franziu o cenho e teve o impulso de encarar o deus arregalando os olhos, mas seu corpo não lhe obedeceu, estático na paralisia movida pelo feitiço de Karnilla.
– A pequena Leah a quem esta midgardiana chama de “pirralha irritante”. – Karnilla deu uma risada curta e sarcástica mais uma vez. – Eu sabia que você saberia que ela me procuraria. Não deixou de tramar tudo isto, não é mesmo? – A deusa falou tão lentamente quanto Loki, soando consideravelmente ameaçadora, como uma aranha que enxerga um pequeno inseto preso em sua teia.
– De fato tramei. Mas esta minha trama é o que lhe permitirá ter seu amado Balder de volta. – Loki parecia manter uma espécie de duelo cordial e verbal com a deusa que os mantinha consideravelmente cativos e ameaçados.
– Esta sua trama é o que permitirá que todos os Nove Reinos sejam destruídos. – Karnilla respondeu seca. – Não que me importe com isso. Será divertido rir da ruína de todos, afastada em meu trono. – Ela falou com amargura.
– Precisamente. – Loki concordou avidamente. – E é por isso que não importa que meu plano funcione ou não: você sobreviverá, ilesa, alheia... E com Balder ao seu lado. Mas só conseguirá estar com ele se eu interceder. – O deus da trapaça riu discretamente. – E se ela interceder também.
– Como uma midgardiana poderia sequer sonhar em me auxiliar em algo? – Karnilla desdenhou, porém após uma pequena hesitação de meros segundos.
– Desfaça esta ilusão. Ilumine novamente seu Palácio, libere-a de seu feitiço, e toque em seus dedos. Sinta o fluxo mágico que corre dentro dela, o mesmo que, estou certo, a aprendiz desgarrada – Loki usou as palavras de Karnilla para debochar dela – de Hela já havia lhe informado a respeito. – O deus parecia amigável e despreocupado.
– Se sabe tanto a respeito da pequena aprendiz, deus da trapaça, por que será que deveria confiar em suas palavras? Será que ela não passa de mais uma peça movida por você, para tentar me enganar? – Karnilla mais uma vez baixou o tom de voz, ameaçadoramente.
– Você pode desconfiar o quanto quiser. Ela não é uma peça minha, mas de que servirá minha palavra para atenuar suas desconfianças? – Loki parecia debochar. – Entretanto, é facilmente dedutível que, se a aprendiz aqui esteve, como você me revelou, ela viria para lhe alertar de que é a próxima a ser vítima de Hela. – A voz do deus mais uma voz voltou ao tom calmo que usara anteriormente em outros momentos.
– E você me apresenta minha salvação? – Karnilla riu audivelmente, provavelmente sem acreditar. O som de sua risada reverberando por todos os lados era assustador e, simultaneamente, quase ensurdecedor.
– Exatamente. – Loki respondeu sério.
– Eu deveria lhe destruir pela insolência, deus da trapaça. – Karnilla falara do mesmo ponto que Miranda havia lhe percebido anteriormente. Subitamente, os olhos da midgardiana retornaram a se abrir, assim como pôde recuperar o movimento de seus lábios, mas seu corpo continuava estático. Momentos após ter consciência disso, ela viu inúmeros lustres pendurados a incontáveis metros de distância acenderem suas velas, deixando sua luz bruxuleante iluminar consideravelmente o que seria o salão de entrada do Palácio de Karnilla.
– Mas você é... Muito divertido para se jogar fora tão rápido. – A jovem humana aferiu a deslumbrante riqueza daquele salão, branco e dourado, repleto de pilastras construídas em um estilo similar ao que seria a arquitetura romana de Midgard, multiplicadas tantas vezes que pareciam impossíveis de contar. O salão tinha um teto tão alto que Miranda sequer podia tentar enxergar. Logo, os grandes olhos cor de mel da midgardiana se fixaram em uma mulher que encontrava-se parada acima de uma larga escadaria de uma dúzia de degraus, seu braço esquerdo segurando um cetro tão dourado quanto os detalhes das imponentes pilastras, e seu braço direito na altura de sua cintura. Era esbelta, parecendo consideravelmente alta, e tinha olhos de um tom verde muito brilhante, pálidos, quase cinzas, lembrando um diamante esverdeado.Sorria um sorriso sem alegria, simultaneamente melancólico e debochado, e parecia, apesar da linda aparência feminina, ter anos e anos de idade. Seu corpo parecia jovem, assim como seu rosto, apesar de algo na aura ao seu redor, e, talvez, na composição de sua magia, denunciar sua idade avançada. Usava um vestido negro, com uma enorme abertura em cada uma de suas pernas, e detalhes rendados em seus ombros. Era irritantemente magra, parecendo ter seios e curvas pequenos – porém, infelizmente, bem marcados, e Miranda não pôde deixar de se perguntar, contra sua própria vontade, se a deusa não fora uma das inúmeras “vítimas” femininas de Loki.
– Não se preocupe. Jamais teria tamanho mau gosto. – Karnilla riu debochada, e Miranda, corando outra vez de raiva, evitou o olhar de Loki, que sabia ter se dirigido para si com a indireta da dona daquele palácio.
– Acho que poderia tirar este feitiço paralisante de mim. – Miranda soou levemente ameaçadora, começando a irritar-se de verdade com Karnilla. Não conhecia a deusa e não sabia o que usar para se defender contra ela, mas não sabia se resistiria muito mais tempo a um embate físico. Tivera que lidar com muitas reviravoltas nos últimos dias, e sua paciência com o deus da trapaça e suas maquinações já estourara o limite.
– Não sou tola, pequena midgardiana. – Karnilla sequer a encarou, ainda parecendo estudar Loki e seus propósitos reais. – Mas eu tenho tempo. E tenho o poder para tanto. – Os olhos verdes de Karnilla brilharam sagazes, enquanto piscava ainda encarando o deus. – Se este deus que a acompanha estiver mentindo... Talvez eu me divirta vendo como ele reagiria vendo-a perecer primeiro. – A deusa finalmente dirigiu o olhar para Miranda, e, nesse preciso instante, um corte superficial passou a sangrar em sua bochecha direita. Piranha.
– Não precisa fazer nada disso. – Loki interveio instantaneamente, aproximando-se de Karnilla com cuidado. Miranda o encarou, novamente irritada por sair ferida em mais uma das tramas do deus, mas engoliu em seco ao ver que seus olhos não encaravam a deusa, mas sim, o corte em sua bochecha. Seus lábios crisparam-se quase imperceptivelmente, parecendo, por um momento, profundamente desagradado. Aquilo não pôde deixar de diminuir um pouco sua irritação, e a deusa riu com escárnio mais uma vez, levando Miranda a respirar profundamente. Esforçou-se para tentar controlar as próprias emoções, tão aparentes quando tratava-se de Loki.
– Realmente, isto está ficando divertido. – Karnilla debochou, e Loki encarou-a devagar, seus olhos mostrando uma espécie de raiva contida.
– Hela está a caminho. – O deus foi direto, contradizendo seu comportamento usual. Parecia preocupado. – Sabe o que ela quer. Não precisaria de Leah para lhe informar, apesar de ser certo que ela lhe confirmou. – As palavras de Loki saíam cortantes de seus lábios.
– A pedra da vida. – Karnilla não mais sorria, e encarava Loki, séria, do alto da escadaria em que estava parada. – Não há nada que me convença a entregá-la, não àquela que me tomou Balder para sempre, e tentou extrair de mim a jóia que construí de maior poder. – A deusa puxou o cetro que segurava com a mão esquerda para a frente de seu corpo, se segurando nele com as duas mãos, inclinando o corpo e o rosto para baixo. Seus olhos se estreitavam, como se ainda desconfiasse de Loki e de sua proposta por vir.
– Exceto se... Ela lhe oferecer Balder de volta. – O deus concluiu, passando impaciente uma das mãos em seu queixo. – O que você sabe que fará.
– E ela não aceitará outros termos que, no mínimo, a pedra norn da vida em troca. – Karnilla franziu as sobrancelhas, claramente confrontada com um dilema. – E como você pode me oferecer uma solução confiável? Você, o deus da mentira e da trapaça? – A deusa perguntou, duvidosa.
– Pois pretendemos enganar a deusa da morte. Você precisará da nossa magia para entregar-lhe uma cópia da pedra norn da vida. – Miranda respondeu por Loki, que a encarou devagar, juntamente com Karnilla, por si só parecendo ainda mais desconfiada. O deus aparentou inicialmente irritação, e, depois, parecia estranhamente satisfeito. Sorriu enviesadamente, e voltou os olhos para Karnilla.
– Apesar de sua grande habilidade mágica, sabemos que não é uma especialista em réplicas, ao contrário da ilusão que criou neste palácio. – Loki encarou as diversas pilastras e a enorme altura do teto, sorrindo discretamente. – Suas ilusões são críveis até certo ponto, pois ambos sabemos que não duram... Por muito tempo. Ao contrário das minhas, que só desfaço a meu bel-prazer. – O deus da trapaça fez um floreio com uma das mãos, e Miranda controlou uma exclamação de surpresa.
Inúmeros, incontáveis “Lokis” surgiram até onde seu campo de visão alcançava, na frente do deus, atrás dele, à sua direita, a sua esquerda, ao redor de Miranda e... Ao redor de Karnilla, multiplicando-se infinitamente de forma a parecer que cada centímetro do palácio de Nornheim havia sido ocupado por uma cópia do deus da trapaça.
– “Um inglesinho incomoda muita gente... Dois bilhões de inglesinhos incomodam muito mais!” – Miranda arfou sarcasticamente, sem saber se ria ou se deveria entrar em desespero com o incrível poder de Loki.
– Impressionante, filho de Odin. – Karnilla debochou, ignorando as inúmeras ilusões que a rodeavam, ainda encarando o verdadeiro Loki parado alguns metros à sua frente, abaixo da escadaria branca como marfim. – E qual seria o crédito que seria dado a esta sua... Companheira? – A deusa deu um rápido olhar a Miranda, que sentiu-se estranhamente ameaçada. Não vou pensar em nada. Não vou lhe dar o gostinho. Vadia. A jovem moça levantou uma sobrancelha para Karnilla em desafio.
– A mente dela é muito grosseira para ser perdoada. Vocês invadiram meu Palácio e ainda agem rudemente, não acho que há misericórdia aplicável nessa hipótese. – Karnilla parecia irredutível, e pouco a pouco apontava o cetro para Miranda.
– Se a matar, não haverá chances de derrota para Hela. E eu sei que você não quer vê-la triunfar. – Loki respondeu, tentando parecer o mais frio possível, mas Miranda percebeu que algumas de suas ilusões sumiram, após a ameaça de Karnilla.
– E por que esta mera midgardiana seria imprescindível para a derrota de Hela? – Karnilla ainda apontava seu cetro para Miranda, porém encarava Loki, parecendo entre o divertida e o desconfiada.
– Porque ela recebeu uma réplica, imutável, dentro de si... Dos poderes da deusa da morte. – Loki ainda encarava a deusa sem parecer se abalar.
– E... – Karnilla debochou, levantando as sobrancelhas e sorrindo provocante, mas o deus da trapaça já parecia impaciente.
– E ela é a única, a única além de você, que poderia superar Hela em forças... Se portar a pedra norn da vida. – Loki finalmente revelou o segredo final, fazendo desaparecer todas as outras cópias que conjurara.
Karnilla baixou lentamente o cetro, voltando seu olhar devagar para Miranda. Seus olhos pálidos brilharam ainda mais, estreitando-se até quase se fecharem.
– Uma midgardiana... Entretanto, com uma carga mágica considerável, como pude perceber assim que entrou em meu palácio... – Karnilla caminhava lentamente, descendo as escadas, até onde estava uma paralisada Miranda. A sua mão direita, que não carregava o cetro, pouco a pouco aproximava-se do rosto da jovem mulher, sua face e seus olhos frios parecendo medir o perigo e o risco da proposta de Loki.
– Uma estranha midgardiana, como jamais foi vista antes, carregando o poder de uma deusa dentro de si. Da deusa mais mortal de todas. – Karnilla abriu os olhos subitamente, e Miranda sentiu pontadas desagradáveis de dor de cabeça. Sentiu que seu corpo estava outra vez livre, mas sabia que não deveria ataca-la ou se movimentar naquele momento. Estavam por um fio.
– E, ao mesmo tempo, que ignora sua magnitude... Ainda não se conhece totalmente. – A mão de Karnilla quase tocava o rosto de Miranda, e, agora, ela percebia o quão mais alta a deusa era, provavelmente quase 17 centímetros maior do que ela mesma. Seu rosto belo como se esculpido em frio mármore encarava a jovem mulher de cima, parecendo estuda-la como a uma curiosa descoberta.
– O nome é Miranda. O prazer é todo seu. – Miranda não resistiu a piada, e ergueu o queixo para não parecer submissa perante uma mulher tão mais alta do que ela.
Karnilla riu com sarcasmo. – É tão ousada quanto você, deus da trapaça. – A deusa voltou os olhos rapidamente para Loki e depois os moveu para Miranda. – Mas não será a ousadia que os salvará de nada. Vamos ver até onde você pode ir. – Sem aviso, Karnilla tocou com a mão direita, sua mão livre, o rosto de Miranda, suas unhas compridas, pintadas de dourado forçando sua bochecha, abrindo o corte que acabara de fazer na bochecha direita dela.
Tudo doía. Não apenas seu rosto quanto sua bochecha, seu corpo, e a jovem mulher sentiu uma enxaqueca tão gritante que não pôde se controlar e gritou agudo. Seus braços de movimentaram até a mão direita de Karnilla, e, quando abriu seus olhos, firmes no rosto dela, sentiu que retirara algo de seu corpo.
Sentiu um irrefreável instinto de pronunciar palavras de auto-proteção em um idioma antigo, a língua ancestral dos feitiços de Hela, e, instantaneamente, suas mãos, que tocavam a mão firme e forte de Karnilla, passaram a brilhar na mesma luz cegante que a magia que conjurara para impedir as criaturas de Helheim em Ljusalfheim no dia anterior. Miranda sorriu e encarou os olhos verde-claros e estreitos de Karnilla, que, por um segundo, hesitou, como se tivesse recebido uma forte descarga elétrica das mãos da esperta midgardiana.
A jovem mulher empurrou para longe a mão e o corpo da deusa norn, que, surpresa, voou metros para longe dela, isolada por esse movimento e feitiço de auto-defesa. Antes de cair, a deusa conseguiu graciosamente movimentar seu corpo em um arco para trás, como uma cambalhota improvisada, e aterrissou com uma perna esticada próxima ao chão, para seu lado direito, e seu joelho esquerdo dobrado, apoiado em sua mão esquerda que segurava o cetro que lhe permitia naquele momento a sustentação de tudo. A deusa passou a mão direita em seu rosto, enquanto recobrava o porte que apresentara em outros momentos anteriores, sorrindo enviesado. A jovem midgardiana não resistiu e olhou para a direção onde sabia que ele estaria lhe encarando, movendo seu rosto para a direita, preocupada.
Loki encarava Miranda, parado a alguns metros de distância, na frente da escadaria da qual a deusa norn havia descido. Ele mal disfarçava seu sorriso, como se estivesse honestamente orgulhoso de seu desempenho. Seus olhos verdes, do tom verde que ela achava honestamente belo, pareciam conter, além da satisfação...
– Entendo seu ponto. Tentei ver as memórias desta midgardiana, e, de fato, a resistência que ela tem não condiz com suas limitações. – Karnilla olhou de Loki para Miranda, interrompendo os pensamentos inoportunos de Miranda, piscando lentamente, parecendo calcular os riscos. – Esta energia... Essa força disfarçada, esse poder fatal... Isto é a marca de Hela. Não são muitos os deuses que poderiam ousar tentar travar um embate comigo. Eu reconheço. – A deusa parecia refletir seriamente.
– O que diz, então? – Loki perguntou diretamente, tão diferente de sua abordagem comum.
– Eu aceito seus termos... Com uma condição. Quero que façam esta réplica antes de saírem de meu Palácio, e apenas depois de ela me jurar. – Karnilla parecia irredutível.
– Jurar o quê? – Miranda perguntou desconfiada.
– Jurar que só portará a pedra norn enquanto Hela não estiver derrotada. Assim que Hela for destruída, contando somente a partir de sua destruição... Lhe darei o prazo de quatro dias, nada mais e nada menos, para me retornar a pedra norn da vida. – Karnilla respondeu encarando friamente Miranda.
– Como poderei saber onde lhe entregar? – A jovem mulher perguntou desconfiada, levantando uma das sobrancelhas, e irresistivelmente consultando Loki com o olhar, que parecia ponderar os termos apresentados.
– Posso lhe jurar de volta que não sairei de Nornheim. O custo a ser pago por mim, caso abandone o juramento, é o mesmo que você. E, se eu morrer enquanto o juramento estiver em curso...
– ...Não terei de cumpri-lo depois. – Miranda completou.
– Contudo, precisaremos de mais do que a pedra da vida. – Loki interrompeu, sério. – Para lidarmos com a guerra que Hela deseja travar, a sua própria versão do Ragnarok, precisaremos de magia ancestral que possa fazer frente ao poder grosseiro de Surtr, e Hreidmar. – O deus alertou, amaciando o terreno. — Sei que já sabia dos aliados de Hela, e a ameaça que significam. — Loki completou, sério.
– Quer que eu lhe ofereça a pedra norn da terra, da água e do fogo? – Karnilla gargalhou quase histericamente. – Inacreditável. – Ela encarou o deus da mentira maliciosa.
– Sabe que não há outra possibilidade de resistência. Não contra todas as criaturas de Helheim, as chamas de Surtr e todo o poderio bélico de Hreidmar. – O deus insistiu.
– Jamais entregaria a você, Loki, tanto poder. – Karnilla falou secamente, seus olhos estreitando-se cada vez mais.
– Não serei eu a portá-las. Será Odin a portar a pedra do fogo, Frigga a portar a pedra da terra, e Thor a portar a pedra da água. Sei que controla os elementos independentemente dessas pedras, porém a carga de magia contida nelas poderá fazer a diferença na derrota... Na única chance de derrota da sua maior inimiga. – O deus ofereceu a proposta. – Estou preso a um juramento a Thor, pode confirmar se quiser. – Loki ofereceu a mão direita a Karnilla, que deu alguns passos e a tocou descrente, e pareceu transferir a deusa as memórias recentes do juramento. A deusa piscou os olhos e franziu as sobrancelhas, parecendo desagradada com a dificuldade de escolher o que fazer, comprimindo seus sombros e os soltando depois, expirando audivelmente, parecendo irritada.
– É pegar ou largar. – O deus sorriu debochado. – É a sua chance de se livrar de Hela, e é a sua chance de ter Balder de volta.
– Que garantia posso ter de que conseguirei minhas pedras de volta, além da pedra norn da vida? – Karnilla insistiu.
– Nenhuma. Não ficarão comigo, mas não posso me comprometer pelos três aesires. – Loki debochou, parecendo desprezar a família, mas Miranda percebia a falsidade em seus gestos. – Porém, você sabe não só por mim como pela pequena visita da aprendiz de Hela que esta é a melhor possibilidade. A sua única chance. – Loki frisou, sério.
– O que me diz? – Karnilla respondeu para Miranda com uma pergunta, mantendo os termos do juramento apenas a respeito da pedra norn da vida, e aceitando as condições sobre das outras pedras.
– Aceito. – Miranda tocou a mão livre de Karnilla e proferiu o juramento, sentindo algo dentro de seu sangue se modificar por aquele feitiço verbal proferido naquele momento.
A deusa encarou Loki novamente, para depois olhar rapidamente para Miranda, olhando-a de baixo para cima.
– Leve isto. – A deusa entregou a Miranda o cetro que carregava e do qual eram oriundos seus fetiços. — Suba as escadas e vá para a primeira porta a esquerda. Se for mesmo uma deusa midgardiana – Karnilla deu uma pequena risadinha sarcástica – saberá onde acha-la. – Era bem claro que mencionava a localização da pedra norn da vida.
Loki a encarou desconfiado, assim como Miranda, e não se moveram.
– Eu não a atacarei sem o cetro. – Karnilla respondeu, revirando os olhos. – Apesar de ser capaz. – Ela debochou ameaçadoramente. – Não trataria meus hóspedes desse jeito. Eu juro. – A deusa debochou, enquanto uma de suas mãos moveu-se para tocar palma com palma a mão de Loki, desta vez, parecendo demorar muito naquele gesto, mais do que realmente precisaria.
Miranda sentiu-se desconfortável por esta leve aproximação, mas ignorou seus sentimentos a contragosto, e deu as costas aos dois, subindo as escadas. Andando a passos largos, desejando sair logo daquele palácio repleto de uma energia mágica tão forte que parecia ser capaz de consumir a todos a qualquer instante, finalmente abriu a porta mencionada.
****
Ela caminhava cada vez mais próxima dele, seus passos lentos e graduais, e tudo nela exalava a sua ilimitada carga mágica. Como a maré que se retira da praia horas antes de um maremoto, disfarçadamente alertando a respeito do esplendor do seu poder. Houve uma época em que eu realmente a admirava. Loki pensou, surpreso consigo mesmo.
– Sabe... – Karnilla disse, aproximando-se sinuosa de Loki, parecendo tentar provoca-lo, tão alta que tinha a mesma altura que o deus. – Eu nunca esperaria ve-lo assim. Tivemos pouco contato, mas sempre consegui le-lo com mais facilidade que os outros deuses. O pária. O solitário. Alguém parecido comigo. – A deusa debochou, enquanto seu dedo indicador passeou lentamente pela bochecha direita de Loki, fazendo o mesmo contorno que fizera o corte superficial no rosto de Miranda.
O deus ignorou Karnilla, ainda aguardando o retorno da jovem mulher com a pedra norn para que terminassem logo aquela parte do plano. Sentia-se incomodado, desagradado desde que entrara naquele Palácio, e a pequena luta entre Karnilla e Miranda apenas acentuara aquilo, apesar de deixa-lo inevitavelmente orgulhoso com seu desempenho. É apenas porque a treinou. Apenas por isso. Porque foi seu mérito. Loki esforçava-se para convencer a si mesmo, mas não sentia-se muito bem sucedido. Pelo menos podia sentir-se satisfeito por seu poder protege-lo das habilidades de Karnilla para atingir o que pensava.
O deus desviou o rosto, evitando o toque de Karnilla, que baixou as mãos até seus lábios e mordeu o indicador que passara no rosto dele.
– Mas você tornou-se ainda mais parecido. – Ela insistiu, mantendo o olhar.
– Não compreendo o que está falando. – Loki a interrompeu secamente, olhando para a porta na qual Miranda havia entrado, segurando a própria ansiedade.
– Ah, você compreende. Só não quer aceitar. – A deusa voltou-se de costas para Loki, caminhando para o primeiro degrau da escadaria.
– Pensei que você não gostasse de indiretas. – O deus respondeu debochado.
– Comigo certamente não. Não é divertido provar do mesmo feitiço, não é mesmo? Você começou esta conversa tão bem humorado... Foi apenas tocar no seu ponto fraco. – Ela provocou outra vez, abaixando seu rosto para encarar o deus da altura do primeiro degrau.
Loki sabia o que ela queria dizer, mas evitaria entrar nesse tipo de conversa.
– O medo de falhar não é meu ponto fraco. Estou bem certo que meu plano funcionará. – O deus disse, resoluto, tentando desviar o assunto.
– É claro que não teme falhar. – Karnilla concordou. – Teme que ela falhe. – A deusa sorriu largamente para Loki, que tentou manter sua expressão o mais indiferente possível.
– Ela não falhará. Estou por trás de cada um de seus movimentos. – Loki manteve a indiferença, falando de Miranda como se fosse apenas sua peça, e sentindo-se instantaneamente desagradado depois. Engoliu em seco, em seguida, para controlar a irritação contra si mesmo.
– É exatamente isto o que eu quis dizer. – Karnilla apoiou-se no corrimão dourado, deixando seu corpo derramar-se de forma delicada e feminina por cima dele, parecendo uma serpente encontrando uma posição confortável. – Você e eu somos muito parecidos. Renegados, possivelmente os deuses mais poderosos de todos, detestamos Asgard... – Ela disse, devagar, piscando os olhos.
– Não somos parecidos. – Loki pensou em Miranda, inevitavelmente, lembrando que, dela sim, aferira alguma vez grande semelhança.
– Não terminei. Se fosse apenas por isso pareceríamos muito com Hela. – Karnilla respondeu, divertida.
– Não vejo a que ponto levará esta conversa. – O deus respondeu, ainda seco.
– Houve uma época que sei que teve interesse em mim. – Karnilla respondeu, provocante, parecendo divertir-se, e Loki sentiu-se verdadeiramente irritado com a presunção da deusa. – Mas sempre lhe desprezei. Você era previsível. Sempre podia esperar que fosse desonesto, um mentiroso, um traidor. E então conheci Balder. – A deusa disse e suspirou.
– Não se preocupe, meus caprichos juvenis de lhe conhecer melhor já se foram há muitos anos. – Loki desdenhou, fazendo pouco da idade avançada da deusa.
– Ah, eu sei bem que já se foram. – Karnilla parecia ter chegado ao ponto que queria. – Assim como os meus desejos por qualquer outro homem. – Seus olhos verde-claros brilharam ao encarar Loki, agindo como se o encurralasse.
– Então deveria agradecer por estarmos lhe ajudando a trazê-lo de volta. – Loki mais uma vez tentou desviar o assunto, desta vez mais polido.
– O que temos de parecido é exatamente isso: nos apaixonamos pelos seres mais fracos, mais... Diferentes. Mais improváveis. – Karnilla fuzilou-o com o olhar, e o deus sentiu sua raiva apenas aumentar.
– Nunca me apaixonei por ninguém. – Loki insistiu, mantendo seu semblante indiferente da melhor maneira possível.
– É claro. – Karnilla concordou, enquanto ouvia o som da porta escadaria acima ser aberta. Olhou para Miranda, distante por alguns metros, incapaz de escutá-los. – Até agora. – A deusa sorriu largamente, parecendo feliz com suas provocações.
– Está errada. – Loki insistiu, respirando devagar, fingindo plena frieza.
– Continue dizendo isso para você mesmo até não conseguir mais negar, tolinho. – Karnilla provocou. – Você é um perito na arte da manipulação, mas, no fim das contas... Engana-se melhor a si mesmo. – A deusa insistiu, e Loki decidiu continuar em silêncio até que Miranda se aproximasse, para tentar constranger Karnilla e enfim fazê-la se calar.
Quando a jovem midgardiana estava a passos de descer as escadas, Karnilla falou, sussurrando, uma última vez:
– Apenas não seja tolo, como eu fui com Balder, de permitir que Hela a leve de você. – Ela encarou Miranda e falou em alto e bom som:
– Não demorou muito tempo para encontrá-la. Acho que não me arrependerei dos termos que foram então acertados. – Karnilla sorriu largamente para Miranda, totalmente destoante de como agia há alguns minutos atrás durante a conversa com Loki.
– Ok, eu realmente me sinto como o Frodo. Esse troço parece pesar uma tonelada. – A jovem mulher disse, sem cerimônia, em seu humor tipicamente incompreensível, descendo os últimos degraus.
A midgardiana se aproximava de Loki, usando em seu pescoço o colar simples, feito de algum metal simples como o ferro, no qual pendia uma única pedra, negra e branca ao mesmo tempo, brilhante como um diamante em alguns momentos, e escura como uma opala em outros. Era uma jóia belíssima, rara, e Loki sabia que, em outros tempos, teria parado um bom tempo para admirá-la, pois até já a cobiçara em outra época. Porém, por mais que não desejasse, seus olhos eram atraídos irresistivelmente para o rosto de Miranda.
Ela parecia cansada, como se o peso da pedra norn da vida realmente fosse algo difícil de se acostumar, e o deus inevitavelmente sentiu uma mistura de ternura com certa culpa por tê-la ao seu lado em tamanha dificuldade.
Seus grandes olhos cor de mel o encaravam, parecendo ansiosos, esperando o próximo passo. Expressavam o tolo companheirismo de sempre, e a ingênua carência e o sentimento suicida que ela nutria por ele, e que tanto tentava esconder, o qual ele já percebera há tempos atrás e muitas vezes se aproveitava disso, por mais que se arrependesse depois... Mas, acima de tudo, eram os olhos que refletiam as palavras de Karnilla e um dos maiores medos de Loki nos últimos tempos, que o faziam se sentir o maior tolo. Mais tolo que os inúmeros deuses que enganara, mais tolo que Thor, tornando-se o maior idiota de todos...
Ele jurara tanto para ela nas fronteiras de Nornheim, lhe revelara tanto, logo agora que conseguira seus poderes. Tudo, tudo o que mais queria de volta, e tão próximo de conseguir o que sempre sonhara, sua liberdade, seu reconhecimento, e, quem sabe um dia, até mesmo o governo de Asgard, enfim sua redenção, enfim tudo o que merecia...
E o que ele mais prezava estava ali. Naqueles grandes, hipnotizantes, naqueles estúpidos olhos.
Naqueles lindos olhos cor de mel, ali brilhava a jóia de maior valor para Loki. Seu verdadeiro tesouro.
Não se preocupe, Karnilla. Hela não a levará, eu sei. De forma alguma.
Eu jamais permitirei.
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