Journey Into Trickery
24 I'm Glad You Came - Parte Um
Notas iniciais
The sun goes down
The stars come out
And all that counts
Is here and now
My universe will never be the same
I'm glad you came
You cast a spell on me, spell on me
You hit me like the sky fell on me, fell on me
And I decided you look well on me, well on me
So let's go somewhere no-one else can see
You and me
Turn the lights out now, now I'll take you by the hand
Hand you another drink, drink it if you can
Can you spend a little time, time is slipping away
Away from us so stay, stay with me I can make
Make you glad you came
The sun goes down
The stars come out
And all that counts
Is here and now
My universe will never be the same
I'm glad you came
I'm glad you came
You cast a spell on me, spell on me
You hit me like the sky fell on me, fell on me
And I decided you look well on me, well on me
So let's go somewhere no-one else can see
You and me
Turn the lights out now, now I'll take you by the hand
Hand you another drink, drink it if you can
Can you spend a little time, time is slipping away
Away from us so stay, stay with me I can make
Make you glad you came
The sun goes down
The stars come out
And all that counts
Is here and now
My universe will never be the same
I'm glad you came
I'm glad you came
I'm glad you came
So glad you came
I'm glad you came
I'm glad you came
The sun goes down
The stars come out
And all that counts
Is here and now
My universe will never be the same
I'm glad you came
I'm glad you came
The Wanted — Glad You Came
Após a realização do feitiço ilusionista de cópia das quatro pedras norns restantes, as pedras da água, fogo, terra, e da famigerada pedra da vida... Miranda refletia sobre tudo o que se sucedera desde então e anteriormente ao que estava sendo a maior aventura de sua vida, enquanto a tarde caía por sobre os Nove Reinos de Yggdrasil.
Caminhava silenciosa junto ao grupo de Sif, os Três Guerreiros, Thor e Loki, pelo túnel abaixo de uma das mais altas raízes de Yggdrasil, parecendo quase suspensa no ar de tão elevada. Já tinham passado horas desde que começaram a caminhada, mas ainda não via sinal do fim do túnel.
Loki uma vez comentara que Asgard era o Reino supremo dentre todos os Nove, o mais elevado, mas ela jamais imaginaria que isso também seria procedente de uma maneira não metafórica, e sim literal.
Thor, que os encontrara em Jotunheim saindo por este mesmo túnel, alertara aos outros seis estranhos companheiros que a jornada seria longa. Demorariam dias para chegar ao Palácio Real de Asgard, caso não quisessem chamar atenção e colocar todos os planos por água abaixo.
Por mais que pudessem atravessar mais rapidamente o túnel que levava das terras áridas de Yggdrasil até Asgard, chegariam apenas nas terras fronteiriças, na periferia do enorme Reino, e precisariam passar despercebidos para enfim ter a devida audiência com o Pai de Todos. Os cidadãos comuns, os camponeses e outros membros do povo asgardiano não poderiam desconfiar da identidade real de nenhum deles, pois a notícia seria rapidamente levada a Odin, mesmo que não por Heimdall, que jurara trabalhar ao lado de Thor.
Especialmente se desconfiassem que Loki, o deus da trapaça, caminhava junto a seu virtuoso irmão mais velho.
Miranda sentiu seu coração se acelerar ao lembrar-se da despedida de Karnilla. Miranda e Loki tiveram de juntos, conjurarem perfeitas ilusões das pedras norns da água, fogo, terra e vida, duradouras e plausíveis para que nem mesmo uma deusa traiçoeira como Hela pudesse desconfiar de tal falcatrua.
A jovem midgardiana ainda se acostumava com o imenso poder – e peso – simultâneos da pedra norn da vida, que a possibilitou unir suas forças mágicas com as de Loki em um movimento quase coreografado, gracioso, harmonioso, e transformar pequenas pepitas de ouro em jóias idênticas em aparência e peso as cobiçadas pedras norns de Karnilla. Para tanto, juntaram suas mãos, as mãos de Loki abaixo das costas das mãos de Miranda, estas unidas em concha segurando as quatro pedras falsas, proferindo em uníssono as palavras de ordem do encantamento para que as cópias idênticas pudessem ser feitas.
Após ter dito corretamente as palavras do feitiço, Miranda abriu os olhos, que fechara para concentrar-se. Percebera que não mais sentia apenas o toque das palmas de Loki nas costas das suas mãos, mas também uma energia quente fluir da ponta de seus dedos para dentro da carne dela, saindo das palmas das mãos do deus. Como se o sangue dele e o sangue dela fluíssem juntos, naquele momento, como se seus corações batessem simultaneamente, ritmados, em conjunto, em um mesmo invólucro de alma...
...E assim, uma pequena aura verde, lumes esverdeados como os olhos do deus da trapaça, brilhantes e fosforescentes subiram para além das mãos de Miranda, envolvendo as mãos dela e as de Loki como caules de flores movimentando-se em zigue-zague, e, por fim, sumiram para dentro das mãos dos dois, deixando para trás como seu rastro a cópia perfeita que desejaram fazer.
Fora algo único de se sentir, uma união tão profunda e poderosa que parecia quase... Sexual. Um momento tão estranhamente romântico como o do dia anterior, no qual Loki lhe jurara querer protegê-la, e ela sentira seu coração acalmar-se junto ao dele, graças ao feitiço do juramento.
Fora como um momento mágico digno de uma história de contos de fadas, e a expressão terna no rosto do deus da trapaça apenas lhe aumentava essa impressão.
Contos de fadas... Os contos de fadas mais distorcidos de que se tem notícia. “O Príncipe da Trapaça, A Midgardiana Maluca e outras histórias.” Miranda pensou, debochada e simultaneamente melancólica.
Fora difícil conter uma quase irrepreensível alegria e timidez que aquele momento lhe proporcionou. Sentira-se quase igual à Loki, não apenas como antes já se sentira similar, quanto aos seus sentimentos confusos e conflitantes a respeito de sua própria família e sua personalidade trapaceira e manipuladora, mas sim dentro de suas veias, em seu sangue, pelo poder que agora fluía dentro de seu próprio corpo. Como se eu fosse... Uma deusa.
A expressão que o deus da trapaça fizera, antes contida e concentrada no ato que realizavam, fora digna de um largo sorriso por parte de Miranda, contido ante a presença desagradável de Karnilla. Quando atestou a perfeição do feitiço, Loki não pôde deixar de lhe permitir um olhar cúmplice, surpreso, divertido... Satisfeito. Orgulhoso. Quase, Miranda ousava pensar... Feliz. Como se jamais a desprezasse ou desmerecesse. Como se também a considerasse igual a si. Como se nunca pudesse imaginar que pudessem se unir inclusive magicamente.
Como se a considerasse... Seu par.
Suas mãos retorceram-se impacientes nas algemas que as prendiam, pois pedira a Thor, duas noites atrás, para que a mantivesse presa enquanto estivessem na companhia de Loki. Pretendia com isso que o mesmo se sentisse contemplado, mas Miranda se arrependera, no dia anterior, ao julgar que ele tinha-lhe mentido por completo, e que a significância que ela tinha para si seria apenas a de ser utilizada como uma peça, uma isca viva para que pudessem triunfar por sobre a deusa da morte.
Porém, não esperava que ele lhe jurasse tanto, e se mostrasse de certa forma, frágil, na sua frente. Negando suas suspeitas de que fosse um mero objeto, apenas mais uma alma a ser movida ao bel-prazer do deus da mentira para atingir seus fins. Era um pouco mais do que isso... Miranda era alguém que ele desejava proteger.
Ela deixou seu olhar vagar para alguns metros a sua frente, encarando as costas do deus da trapaça que também caminhava, silencioso e algemado, escoltado por Hogun. Vê-lo fragilizado, preso, ainda era algo que a revoltava internamente, apesar de sabê-lo perfeitamente merecedor. E era também inacreditável pensar que, de todos os deuses e seres dos Nove Reinos, ele escolhera logo a si para...
Não sou apenas eu. Ele também se importa com Thor, por mais que, atualmente, negue até a morte. E se importa muito com Frigga...
Miranda fechou os olhos por instantes, respirando profundamente, tentando ordenar melhor seus pensamentos, que sempre se tornavam indomáveis e confusos quando tratava-se de Loki.
Primeiramente, iriam para Asgard. Era a manobra decisiva e definitiva para o sucesso na guerra que seria advinda, e precisaria de toda sua sagacidade e inteligência para garantir o melhor resultado possível. Sabia, pelo pouco que ouvira dos lábios dos dois irmãos que a acompanhavam nesta pequena comitiva, que Odin seria difícil. Frigga lhe parecia mais simpática. E, de qualquer forma, ainda havia todo um exército e o povo aesir para ganhar a confiança...
E eu achava que minha vida em Midgard era complicada. A jovem midgardiana sentiu vontade de chorar e de rir e ao mesmo tempo, e suspirou levemente, levando Sif, que ainda era a responsável por sua escolta, a encará-la, desconfiada. Apenas por diversão e petulância, Miranda lhe sorriu e deu-lhe uma piscadela, ao que a guerreira morena bufou e virou o rosto para frente, irritada.
As tramas de Asgard seriam as mais importantes. E as mais arriscadas.
Lembrou-se de Karnilla se despedindo dos dois, e do olhar convencido e debochado que ela dirigira a Loki quando se despediram. Sussurrara algo em seus ouvidos, demoradamente, o que deixou Miranda a ponto de explodir de raiva e ciúmes, dado o histórico de “galinhagem” do deus da trapaça entre as inúmeras deusas nórdicas que conheceram. A jovem mulher fizera um grande esforço para escutar o que ela dissera, mas falhara em compreender.
Porém, não fora a atitude ambígua de Karnilla que lhe fazia pensar. Na verdade... Fora a expressão no rosto do deus da trapaça, ao ouvir o que a deusa dissera quase como se tivesse sido ofendido, provocado. Ao saírem do Palácio de Nornheim, Miranda continuara encarando Loki, estudando sua reação estranha às palavras que não pudera ouvir de Karnilla. Ele se recusava a encarar Miranda, parecendo sério e austero, mas ela já percebera que o deus adotava esse tipo de atitude defensiva – e levemente infantil – quando era obrigado a confrontar-se com algo que não desejava. Isto sendo, geralmente, relacionado a... Questões sentimentais.
Entretanto, ao se transformarem, por meio da magia “doppelganger” do deus da mentira nos mesmos dois guardas que assumiram a aparência para adentrar o território da deusa de Nornheim, Loki prontamente pôs-se a dar ordens sobre como deveriam proceder para encontrar novamente o grupo nas fronteiras de Nornheim e honrar o juramento feito, sob a pena radical que Miranda já conhecia. Conseguiu distrair os pensamentos da midgardiana, que, apenas naquele momento de reflexão, pôde outra vez concatenar a respeito.
Terá Karnilla insinuado algo sobre mim?
A deusa de Nornheim os encarara, após a realização do encantamento de ilusão com o maior de seus sorrisos convencidos no rosto. Parecia expressar que entendia perfeitamente o que acontecia, portando feições pretensiosas e cheias de si em seu semblante debochado. A presença de Karnilla simultaneamente irritava e ameaçava Miranda, mas não no sentido feminino, como antes ela julgara ser uma possibilidade.
A deusa não parecia interessada em Loki, e ele tampouco nela. Mas havia algo na forma com que ela dirigia o olhar para ele, uma presunção exacerbada, como se compartilhassem algo. Esse inglesinho de merda ainda vai me enlouquecer de vez...
A midgardiana assim decidiu guardar o pensamento e confrontar Loki em um futuro próximo, quando tivesse a oportunidade. Estava bastante curiosa a respeito do que a deusa de Nornheim poderia ter-lhe segredado, e o que significa essa aura cúmplice que os dois apresentavam.
E, por fim... Antes de retornarem a Yggdrasil para adentrar o túnel que ligaria uma das raízes dos Nove Reinos a uma entrada pouquíssimo conhecida de Asgard, parados nas fronteiras de Nornheim e sua respectiva raiz... Mostraram o resultado de mais uma “operação” bem sucedida a Thor, Sif e os Três Guerreiros. Os olhos azuis celestes de Thor brilharam com uma mistura de surpresa, empolgação e, o que mais perturbou Miranda... Uma espécie de temor contido, ao visualizar as jóias de poder imensurável que Karnilla havia lhes cedido.
Ao enfim dar por si, Miranda acabara de perceber que finalmente o túnel de Yggdrasil havia findado. Alcançaram as terras fronteiriças de Asgard, e, depois de Thor, Loki, Hogun, Volstagg e Fandral, finalmente fora sua vez de atravessar as fronteiras. Todos os sete, assim, encontravam-se parados em uma fenda no topo de uma altíssima montanha, repleta de uma grama dourada como o sol que se punha naquela tarde, e tinham uma visão privilegiada de toda Asgard.
Depois de levantar os olhos para além do túnel que lhe levara até ali, Miranda não pôde conter um suspiro audível da maior sensação de assombro que tivera em vida até aquele momento.
Seu queixo caiu como nunca d’antes naquela viagem.
Era inacreditável.
Sob a luz do sol poente, a tarde dourada refletia-se em cada uma das construções simultaneamente modernas e perceptivelmente ancestrais do que era, de fato, um gigantesco Reino construído por... Ouro? Abaixo de si, via estradas de brilhantes, como se feitas por jóias, e não pedras brutas, e até mesmo as casas camponesas pareciam faiscar como pepitas de ouro. A imensidão do dourado unia-se com uma vegetação deslumbrante, com árvores altas e frondosas, a maioria também dourada por conta do outono que já se aproximava de seu fim. Um enorme rio corria por dentro de todo o Reino, seu azul escurecido pela tarde que findava, e aqui e ali ela podia ver o que pareciam ser diversas cachoeiras.
Mais adiante, léguas e léguas além, milhas e milhas realmente distantes... Miranda podia ver uma construção digna da imponência de tudo o que agora via, em um formato que lhe lembrava os enormes órgãos dos pianos europeus que já vira em suas viagens por Midgard, e uma ponte prateada que refletia todas as cores do arco-íris bem ao centro daquele Reino de maravilhas e deslumbramento. A construção era mais alta do que tudo, e as casas, rios e outros prédios pareciam convergir para o ponto em que estava localizada.
O Palácio Real. Inacreditável...
– Bem-vinda a Asgard. – Loki, Thor e Fandral disseram em uníssono, Loki e Fandral levemente debochados, embora por motivos diferentes, e Thor, com honestidade. Em seguida se entreolharam desconfortáveis, ao que Hogun, Volstagg e Sif não puderam deixar de responder com um risinho seco. Miranda não pôde conter uma risada simultaneamente constrangida e divertida pela coincidência, e andou para mais perto da beira da montanha, ainda sem conseguir acreditar em tudo o que via.
Pela joanete de Odin!
– Com o perdão da palavra... Puta que pariu. Puta que pariu! – Miranda xingou audivelmente, arfando, seus olhos cor de mel arregalados, ainda sorvendo as maravilhas com que fora agraciada, toda a beleza inimaginável da “Cidade Dourada”. Respirava rápido, sem saber se deveria rir ou gritar com tamanha beleza. Jamais fora preparada para testemunhar uma paisagem daquelas.
Enquanto ainda olhava para a localidade idílica que se delineava muitos metros abaixo da montanha que se puseram a descer, Miranda fora mantida escoltada ao final do grupo por Sif, enquanto os outros três guerreiros, Thor e Loki continuavam a descida com mais velocidade.
– Ande logo. Não temos tempo a perder. – A guerreira dos cabelos negros que era tão similar ao mito das valquírias avisou, irritada, cutucando as costas de Miranda, que ainda usava a armadura que copiara do modelo dela, com a ponta da espada. Ignorando a leve ameaça, a jovem midgardiana voltou os olhos para ela, sabendo que se mantinham arregalados. Seus orbes cor de mel estavam emoldurados com a expressão infantil que fazia quando estava realmente empolgada e deslumbrada com algo.
– Mas não está vendo?! Isso é lindo DEMAIS! É o Reino mais espetacular de todos, tenho certeza! – A midgardiana riu honestamente, ainda incrédula, um sorriso largo sem querer deixar seu rosto, fazendo arder suas bochechas de tão exultante que estava. – Como você conseguiu se acostumar? – Miranda perguntou tão sinceramente quanto uma criança o faria, e Sif não resistiu e lhe deu um sorriso verdadeiro em retorno.
– Para todos nós... Isso é normal. Crescemos aqui. – Ela disse curta, seca e de poucas palavras como parecia ser, porém seus olhos negros mostravam pequenas faíscas de diversão.
– Ah, meu Deus! – Miranda quase gritava, tentando conter a excitação, enquanto ainda tentava acompanhar a paisagem com o olhar, enquanto todos desciam por uma trilha íngreme em meio à montanha. – Só posso imaginar como deve ser o Palácio Real por dentro. Será que consegue ser ainda mais bonito? – Ela olhou de novo para Sif, com a mesma expressão infantil de deslumbramento.
– Bem... – Sif ia se esforçar para responder, deixando antever um meio sorriso em seu rosto, divertida com a excitação da jovem mulher, mas, poucos metros adiante, Miranda escutou a voz de Loki, e voltou seus olhos e sua face para ele instantaneamente.
– Depende de que local do Palácio visitar. – O deus debochou, enquanto Hogun o empurrava para que Loki voltasse o rosto para frente. Apesar da grosseria do guerreiro de traços similares a midgardianos orientais, Miranda pôde ver a expressão do deus da trapaça por um átimo de segundo. Não sorria; os músculos de sua face estavam sérios, rígidos, mas seus olhos... Seus verdes olhos sorriam para ela, e expressavam um brilho carinhoso que Miranda jamais julgaria possível aferir de seu rosto.
Ela engoliu em seco, sentindo suas bochechas queimarem por dentro. Sif também teve de cutucá-la outra vez, pois novamente atrasara o passo, desajeitada com o olhar do deus da trapaça. Miranda fez o maior esforço que pôde para conter um sorriso largo, maior até do que os sorrisos que dera ao ver a maravilha que era Asgard pessoalmente.
Ele sabia que eu ficaria desse jeito. Bobo... Está se divertindo. Miranda baixou os olhos para o chão, tentando conter um sorriso ensimesmado, subitamente tímida, do jeito que ainda não se acostumara a ficar, mas que sempre ocorria por causa de Loki. Naquele momento, desejou ferrenhamente que estivessem sozinhos, para que ele pudesse rir-se dela e contar-lhe tudo o que quisesse sobre Asgard, como tanto fizeram em outros Reinos durante essa bela e triste jornada. Faria eco à empolgação infantil de Miranda, tentando contê-la, mas sorriria verdadeiramente também, sorriria seu lindo sorriso discreto e ao mesmo tempo honesto, tão raro para o deus da mentira... Seu sorriso de menino. Asgard era provavelmente o lugar que lhe era mais querido dentre todos os Nove Reinos.
E também o local que lhe despertara tamanhas emoções controversas... Como será que ele lidará com tudo isso? Ela lembrava-se de que Loki havia planejado cada detalhe da jornada, e já o conhecia bem o suficiente para antever que não faria qualquer movimento sem pensar... Mas, ao mesmo tempo, ele sempre fora pretensioso e fugidio no que dizia respeito ao que não queria enfrentar. Seu conflito emocional em relação a Thor sempre foi encarado pelo irmão mais novo por meio de negação, ela percebia, e alguma projeção agressiva para soltar uma enorme carga aparentemente reprimida de raiva... Mas também de culpa.
– Silêncio! – Thor ordenou de longe, liderando a comitiva de poucas pessoas. Sua voz parecia séria e decidida. – Todo cuidado é pouco a partir de agora. Estamos muito perto. – O deus do trovão disse sorumbaticamente, e Miranda presumiu que o melhor a ser feito era, no mínimo... Fingir obediência.
Pode deixar, Gandalf loiro L’oreal. A “Portadora do Anel” não quer muito papo contigo mesmo não. Mas se pudesse liberar o irmãozinho, ao menos... Miranda pensou, debochada.
****
A noite já havia caído quando todos enfim terminaram de descer a montanha.
Caminhando pelas ruas e vielas estreitas – porém não menos aprazíveis – da “Cidade Dourada”, Thor fora forçado a libertar Loki, para que o mesmo pudesse transformar todo o grupo em aparências distintas. Thor, Volstagg, Hogun, Fandral, Sif e Miranda passaram a ter traços idênticos a alguns camponeses que encontraram no caminho. Loki mudara apenas a cor de seus próprios cabelos e olhos, agora arruivados, curtos e encaracolados, seu olhar de brilho verde agora cor e mel como os olhos reais de Miranda, e todos vestiam as mesmas roupas campesinas que o povo mais simples de Asgard. Miranda tornara-se uma moça morena de olhos estreitos e negros como os de um felino, usando um vestido de lã escura, quase negro, e tinha pele tão alva quanto à de Sif, que, por sua vez, parecia uma jovem com loiras madeixas encaracoladas, de baixa estatura e olhos azuis claros como os de Thor. A roupa conjurada para a agressiva guerreira fora um vestido cor de rosa, que combinava com sua nova aparência, de jovem moça delicada, de ombros estreitos, quadril largo e corpo em formato violão. Miranda riu internamente, pensando que enfim estava mais alta do que a guerreira arrogante, e mais ameaçadora fisicamente.
O deus do trovão agora era um forte homem moreno de olhos escuros e pele bronzeada, usando vestes discretas cinzas, e Volstagg se apresentava similar a um jovem rapaz de cabelos castanhos e compridos, livres e lisos até o meio das costas, de olhos cansados e amendoados, vestido com roupas de um laranja escuro quase ferrugem. Hogun como um homem levemente calvo e de ampla barba escura, de olhos azuis marinhos de brilho rápido, com roupas campesinas de um profundo tom de roxo, e Fandral...
...Parecia um idoso magro, alto, de nariz proeminente e adunco, com uma estrutura corporal perceptivelmente frágil e enfermiça. Seus antes cabelos loiros e cheios de vida eram agora fios grisalhos e ralos, e usava roupas manchadas brancas, como se não fossem lavadas há muito tempo por descaso.
Apenas Thor foi capaz de segurar o riso.
– Isso foi claramente pessoal. – Fandral disse, irritado, sua expressão audaz em nada condizendo com os traços físicos do idoso que agora aparentava ser, e Volstagg e Sif não resistiram, ainda fazendo coro as risadas agudas de Miranda. – Thor, se me permitir dar uns bons murros nessa cara presunçosa dele... Acho que o prisioneiro esqueceu seu lugar. – O antes ousado loiro disse perigosamente, fazendo Thor ranger os dentes e bradar com todos, exigindo silêncio. Antes de todos se aquietarem, Miranda encarou Loki, que sorria satisfeito consigo mesmo, encarando o velho que Fandral tornara-se e que avançava furioso contra si, seus antes verdes olhos, agora cor de mel como os de Miranda, brilhando travessamente de um jeito irresistível, como se, de certa forma, o ato de transformá-lo em um “velhote” fosse uma espécie de vingança por algo.
Seu deus da trapaça infantil e ciumento... A jovem midgardiana pensou com carinho, mordendo os lábios e remexendo as mãos nas algemas que Sif estava quase terminando de retirar de seus punhos. Tinha de livrar-se delas, para que não chamasse tanta atenção, embora o grupo não parecesse tão animado a arriscar o mesmo com Loki.
– Basta. Sem mais tempo desperdiçado. Não me importa a aparência de ninguém nesses disfarces, contanto que estejam irreconhecíveis. – Thor, imponente, empurrou Loki para longe de Fandral, puxando-o pela parte de trás das vestes e algemando-o novamente. Miranda engoliu em seco, preocupada, tentando conter suas emoções dúbias a respeito daquilo. Era difícil vê-lo tratado daquela forma, por mais que fosse justo, considerando tudo o que armara para cada um deles.
O deus da mentira ainda mantinha o olhar debochado e provocativo fixo nos olhos de Fandral, que mantinha seu olhar em resposta e parecia ter dificuldades em conter a raiva, sua expressão tipicamente presunçosa contrastando risivelmente com a figura idosa que agora tinha. O antes jovem guerreiro fez menção de contestar, mas Thor aproximou-se dele rapidamente, sério, encarando-o do alto de seus olhos agora escuros, como se dissesse silenciosamente que não escutaria mais nenhuma palavra. Miranda reparou em Sif, ao seu lado, segurar a respiração enquanto o confronto silencioso entre a liderança de Thor e a obediência do antes loiro amigo de anos terminava, enfim, em uma resolução.
– Cuidado com a pressão, Fandral. Se ficar tão irritado assim pode começar a sentir taquicardia. – Sif fez a piada, já recuperada, enquanto Miranda franzia os lábios para não rir. Surpreendentemente, a rabugenta guerreira estava sorrindo divertida por provocar o amigo que parecia ser praticamente de infância, e, discretamente, escoltava e cobria a moça dos olhos antes cor de mel para que se mantivesse no mesmo caminho que a comitiva trilharia. Isto, agora, era um tanto divertido, considerando que a antes morena guerreira estava alguns centímetros mais baixa do que a nova aparência da jovem mulher.
– É, vovô, talvez seja melhor você sentar e se acalmar. Cuidado para não soltar a bexiga! – Volstagg continuou a provocação rudemente, e Sif caiu em gargalhadas, sendo acompanhada pela risada discreta, porém não menos entusiasmada, de Hogun. Loki, Thor e Miranda não sorriam, o deus da trapaça e a midgardiana contendo a própria diversão, e o irmão mais velho de Loki, sério, buscando trazer mais seriedade ao grupo. Fandral parecia fora de si, furioso, resmungando consigo mesmo, volta e meia lançando olhares sinistros em direção ao deus do logro e da trapaça, que fingia caminhar inocentemente.
Ao menos eles conseguem rir... Menos mal que sejam amigos. Quem diria que o inglesinho ajudaria a quebrar a tensão, e não a piorá-la? Miranda pensou, lançando um olhar cúmplice e divertido para Loki, que o retribuiu rapidamente, franzindo os lábios e modificando a expressão logo depois, como se tivesse se sentido desagradado. Aquilo foi como uma pequena pontada aguda no coração da jovem mulher, como se uma agulha a pinicasse por dentro, mas ela decidiu ignorar. Os ânimos estão confusos agora. Tenho de relevar por um tempo.
– Quais serão nossos nomes, irmão? – Loki perguntou para Thor em um tom debochado, especialmente quando dissera a palavra “irmão”, apesar da pergunta não ser nada menos do que estritamente necessária. – É possível que sejamos questionados ao longo do caminho até o Palácio Real. Ainda mais se pretende pernoitar em uma taverna. – O deus da trapaça fingiu explicar, e Thor o calou com um olhar.
– Ainda não escolhi. Escolham de preferência o que parecer com nossos nomes antigos, será mais fácil de guardar. – O deus do trovão bradou com sua voz retumbante e grave, marchando a passos largos na frente da comitiva, acompanhado ao seu lado por Loki, este sendo escoltado por Hogun e Volstagg. A jovem midgardiana reparou que o deus da trapaça utilizava naquele momento uma capa simples que cobria seus braços algemados atrás de seu corpo, provavelmente evitando maiores suspeitas oriundas de algum possível curioso. Ela sentiu algo apertar em seu peito, ao constar aquilo, mas respirou fundo e ignorou tais sensações. Miranda e Sif seguiam atrás, com Fandral fechando o grupo, mantendo-se inconformado com os seus novos traços físicos.
– Excelente ideia. – Loki respondeu debochado ao irmão mais velho. – Ninguém jamais desconfiaria, me pergunto como não pensei nisso antes... – O deus da trapaça começava a provocar a ira do irmão, mas Miranda foi rápida ao interromper e desviar possíveis tensões.
– Thor pode ser Theon! Theon Greyjoy, se precisar de um sobrenome para fazer as reservas dentro da taverna que pernoitaremos! – A jovem midgardiana disse em alto e bom som, se inspirando descaradamente em As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, estimulada pelo ambiente medieval que a circundava. – O som é parecido, as letras lembram o nome verdadeiro, é mais fácil de guardar. – Ela continuou, sem acreditar realmente no que estava fazendo. — Sif pode ser Silla, Volstagg pode ser Volantis, Fandral... Ah... Farrow? – Miranda levantou a sobrancelha, tentando raciocinar rápido, enquanto o antes loiro guerreiro a encarava franzindo o cenho. – Hogun pode ser Hoggart, Loki... – O deus da trapaça a encarou, levemente surpreso, seus olhos brilhando à luz dos archotes que iluminavam uma rua portuária em meio ao imenso rio que banhava Asgard, mais similar a um oceano. Por instantes, ela perdeu a linha de raciocínio, e Sif conteve um riso seco. Cala a boca, vadia!
– ...Loki pode ser Luke, se bem que de Skywalker ele ‘tá mais é pra Anakin mesmo... – Miranda fez a piada sem que ninguém compreendesse, e revirou os olhos, insatisfeita com o público ignorante da cultura geral que tanto conhecia.
– E você? – Hogun perguntou rascante e direto.
– Bem... Corrijam-me se eu estiver errada, mas em Asgard ninguém conhece meu nome. Além de vocês. – Ela sorriu travessa para o grupo, que se entreolhou. Thor, Sif e os Três Guerreiros, todos tão distintos de aparência, pareciam ponderar, e, por fim, acataram às sugestões. Loki a encarava, ao longe, mas, dessa vez, ela não conseguia ler por trás de sua aparência. Pare com isso. Miranda pensou, irritada, sentindo-se desarmada pelo olhar profundo que ele lhe dirigia.
Estou tentando o meu melhor... Enquanto ainda não enlouqueci de vez.

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