Journey Into Trickery

25 I'm Glad You Came - Parte Dois


Notas iniciais
Já disse tudo o que seria preciso nas notas da primeira parte! Seguiremos sem spoilers, ehehhehe! Digamos apenas que Miranda vai tirar inspiração de alguns de seus livros preferidos e teremos um momento tenso inesperado na história! Beijos e boa leitura!

Logo, o deus do trovão deu seu parecer final.

– Estão bons o suficiente. – Thor respondeu por todos, após refletir sobre os nomes falsos, e os levou até um grande cais ao final da travessa pela qual passaram. Fandral, caminhando próximo das duas que fechavam a comitiva, virou-se quase silencioso para Miranda, e disse-lhe tão baixo que ela teve de se perguntar se Loki teria escutado.

– Você parece ter algum dom para esse tipo de coisa. – O audaz guerreiro debochou, parecendo, de certa forma, provocá-la, enquanto diminuía o passo para acompanhá-la e também a Sif.

– Você não tem ideia. – Miranda respondeu ambiguamente, entre o séria e o debochada, e ela podia jurar que vira certo movimento na capa que cobria as mãos de Loki, presas as suas costas, metros à frente. Como se tivesse discretamente fechado uma das mãos em riste.

Fandral sorriu, sua aparência sempre tentando buscar alguma galanteria agora contrastante com seus traços idosos, mas não disse mais palavra. Tem algum bom senso, o joselito nórdico. Não vou flertar com você, aesirzinho oxigenado.

Depois de alguns minutos, o grupo encontrava-se parado ao cais, em uma parte mais afastada, próxima do rio, apenas olhando discretamente as embarcações que atracavam e saíam do porto.

Thor discutia com Hogun a melhor maneira de conseguir uma embarcação que os levasse para mais perto do centro de Asgard, e, assim, também mais próximos ao Palácio. A travessia de barco levaria em torno de cinco noites, contando com aquela, e teriam de parar para descansar em alguma taverna próxima ao Palácio Real antes de enfim confrontarem Odin, tendo chegado à conclusão de que o corpo midgardiano de Miranda não seria capaz de suportar, nem com a pedra norn da vida, tamanha concentração de fluido mágico correndo por seu sangue sem algum descanso. Seriam quase sete noites sem dormir, e aquilo poderia ter um efeito extremamente negativo sobre suas energias. Quanto mais pudessem economizar antes do confronto com Hela, melhor seria, todos concordavam a respeito. Porém, como conseguir o barco... Era um pouco mais complicado.

A jovem midgardiana estudava o cais e as embarcações que ali havia, todas seguindo uma mesma arquitetura viking que a fazia realmente sentir-se dentro de uma história medieval. Tinham velas altas, quadradas, e proas finas, em um formato de cauda, com popas mais retangulares. Vira, logo, muitos barcos trazendo tapeçarias, tecidos finos, direto do centro comercial. Eram aparentemente embarcações elegantes, chamativas, tão douradas quanto à cidade. Outras embarcações imensas, levando móveis, instrumentos musicais como pianos e harpas, e utensílios dos mais diversos, saídos das fábricas da periferia de Asgard para ir de encontro às áreas mais nobres. Viu, também, alguns barcos de pesca, finos e pequenos, incapazes de comportar sete pessoas. Todavia... Vira barcos que, apesar de não serem propriamente pesqueiros... Entregavam quilos e quilos de peixe, saindo do porto rumo ao centro de Asgard, levando as provisões pescadas, comportadas em imensos... Barris. Não eram barcos grandes ou pequenos demais, mas sim, do tamanho... Perfeito.

Miranda teve uma ideia que não sabia ser genial ou incrivelmente imbecil.

– Se girasse seu martelo, Thor, poderia levar-nos a todos voando, em alguns dias, até o Palácio. Poderia não ser o melhor meio de transporte possível, talvez alguns ficassem levemente indigestos no caminho, mas... – Loki debochava claramente, mas Thor estava com a paciência curta demais para suportar.

– Se não vai abrir a boca para dizer algo que não seja útil, é melhor que a mantenha fechada se não quiser que eu quebre todos os seus dentes. – Thor respondeu grosseiro, ameaçando começar uma briga em meio ao cais, atraindo a atenção de um rapaz que fazia um nó de marinheiro em um barco pequeno de pesca.

– Isso é tão típico. Sempre tão gentil, tão sutil. Mas continua me surpreendendo. Nunca imaginaria que o veria fazer algo tão clandestino. Escondido em um cais, na calada da noite, sussurrando e pensando em maneiras ilegais para chegar at... – Miranda tapou a boca de Loki com as mãos, e Volstagg e Fandral soltaram uma risada audível, enquanto Sif e Hogun apenas sorriram, e o deus do trovão mantinha sua pose séria como há alguns dias. O deus da trapaça encarou a midgardiana com uma fúria gélida nos olhos agora cor de mel, mas ela o ignorou solenemente e continuou a dizer, mantendo suas mãos firmes nos lábios de Loki:

– Se me permitem uma sugestão útil – Miranda usou as palavras de Thor – eu tenho uma ideia. Pode parecer loucura, mas já vi... Bem... Já li funcionar. – Se soubessem de onde a midgardiana tirara a ideia, rejeitar-na-iam certamente, mas fora o melhor que conseguira pensar naquele momento de tensão.

– O que é? – Sif insistiu, impaciente.

– Pensem comigo. – Miranda levantou as mãos, elaborando o pensamento, soltando o rosto do deus da trapaça, que infantilmente limpou os lábios com as costas das mãos.

– Temos algumas embarcações de pesca, e outras trazendo inúmeros carregamentos. A maioria dos barcos que vimos que trazem estes mesmos carregamentos em geral são muito amplos, dificilmente considerados discretos. Entretanto, os puramente pesqueiros também são pequenos demais. Temos também, algumas poucas embarcações... Trazendo carregamentos de pesca. Entendem aonde quero chegar? – A jovem midgardiana falou rapidamente, tentando evitar atrair atenção sobre o grupo de sete curiosos membros.

– Não. – Fandral disse, direto, parecendo interessado.

A jovem mulher revirou os olhos. Eles precisam ler mais. – Eu tenho algum ouro comigo. Trouxe de Midgard. – Ela mentiu descaradamente, mas era necessário. O ouro que tinha era falso, pedras simples de Nidavellir, o Reinos dos Anões, transformadas em ouro de mentira, mas apenas Loki sabia disso.

– Posso comprar um barco pequeno de pesca, que caberia, o quê? Talvez uma ou duas pessoas, no máximo, guiando-o do leme e da cabine, porém repleto de peixes muito bem conservados. – Ela explicou, e esperou que finalmente tivessem entendido aonde tentava chegar. Encarou os rostos ansiosos e austeros que a encaravam, mas nenhum parecia ter compreendido. Thor parecia sério, levemente irritadiço, Fandral, curioso, Hogun, indiferente, Volstagg, fazendo esforço para acompanhar, Sif, impaciente como já se apresentava, mas Loki...

– Ela quer dizer que, de nós sete, cinco poderiam se esconder dentro do carregamento de peixes. São barris imensos, pesados, e as embarcações responsáveis por levá-los de fato comportam mais mercadoria que os outros barcos do mesmo tamanho. Os outros barcos restantes são grandes demais para sermos discretos o suficiente, ou pequenos demais para que todos embarcassem. Assim, dentro dos compartimentos de carga, não chamaríamos a atenção de ninguém, pois ninguém em sã consciência imaginaria que cinco aesires, ou não – Loki debochou, mencionando Miranda, e ela se sentiu constrangida pela forma como a tratava na frente do grupo, entre o irritada e o desapontada com sua infantilidade – travariam uma curta viagem de cinco noites dentro de barris cobertos de restos de peixe. – O deus da trapaça por fim disse, falando devagar e debochado, como se explicasse algo simples a muitas crianças. Entretanto, deu um olhar a jovem mulher como se reprovasse sua ideia.

– Precisamente. – Miranda disse, agradecendo internamente a inteligência e astúcia do deus da trapaça, ainda que tivesse acabado de proferir-lhe uma ofensa.

– Esperem um pouco... – Volstagg disse, indignado. – Vocês querem esconder cinco de nós dentro de barris de peixe? Repletos de peixe? Peixe morto? – O antes gordo guerreiro quase gritou, e Thor teve de segurar seu ombro com firmeza para que abaixasse o tom de voz utilizado.

– Por incrível que pareça, achei uma boa ideia. – Thor disse, dessa vez parecendo divertido. – Sinto muito, Miranda, mas temos de escondê-la, sabe que Hela virá atrás de você. Você vai dentro de um dos barris. – A jovem mulher, indignada, tentou protestar, mas o deus do trovão continuou. – Lo... Luke. – Thor disse, dessa vez ele mesmo debochando. – Não preciso dizer aonde terá a honra de seguir viagem, tenho certeza que já foi capaz de deduzir. – Loki encarou o deus do trovão e, em seguida Miranda, furioso e indignado, seus olhos revelando o claro e previsível motivo pelo qual reprovou sua ideia. Em seguida, ela levantou os braços como se dissesse que não tinha culpa alguma em relação aquela decisão. Sif e os Três guerreiros deram algumas gargalhadas curtas, e a jovem moça não pôde deixar de sentir certa revolta subir-lhe pelo seu corpo, esquentando sua cabeça.

– Os restantes. – Thor continuou, rindo de leve. – Terão de tirar a sorte para ver quem irá aos barris que sobrarem. Como a prima de Jane bem disse, só uma ou duas pessoas deverão seguir na cabine e no leme da embarcação. Mas serei justo. Tirarei a sorte com vocês. – O deus do trovão disse, decidido, e, junto aos cinco restantes, preparou-se para escolher quem seria menos afortunado.

Ironicamente, Miranda viu um deus e quatro guerreiros nórdicos realizarem o jogo que os midgardianos conhecem por “zerinho ou um”, sem acreditar no que vivia. Ok, já participei de uma batalha medieval, pego um príncipe revoltado, estou tendo certa dificuldade pra me aproximar do irmão mais velho dele, que, curiosamente, minha prima pega, e estou tentando limpar minha barra com os amigos dele e agora vou participar de um remake de uma cena de O Hobbit em Asgard e, como se não bastasse tudo isso... Estou os vendo decidirem a sorte num jogo que eu aprendi no jardim de infância. A vida é mesmo cheia de surpresas. Ela piscava os olhos, incrédula, sem saber, mais uma vez, se deveria cair na gargalhada ou em prantos.

Por fim, Thor conseguira se safar do barril fétido, e também Volstagg, que comemorara audivelmente, fazendo gestos possivelmente obscenos para Fandral, que, não bastando à aparência idosa, fora condenado a tal triste destino. Miranda sentiu vontade de rir da expressão indignada de Sif e de Fandral ao saberem que passariam por volta de cinco noites navegando dentro de barris de peixe morto, mas não era grande consolo, considerando que faria parte dos mesmos. Hogun, sempre tão indiferente, também não parecia muito satisfeito.

– Vamos. Não temos tempo a perder. – Thor os liderou, resoluto, e ninguém teve sequer chance de confrontá-lo.

A jovem midgardiana acompanhou de longe Thor e Volstagg, transformados em outras pessoas, comprarem uma embarcação e carregamento de peixes na noite que já caía escura pelo cais usando o ouro clandestino que ela mesma forneceu, sem imaginarem sua origem real. Miranda calculava ser por volta de uma da manhã quando as transações terminaram de ser realizadas, e só sobrava o grupo, alguns marinheiros aesires bêbados e prostitutas próximas aos cais. Nem mesmo os deuses estão imunes aos prazeres da carne... Mas isso eu comprovei pessoalmente. Miranda pensou, sorrindo lasciva consigo mesma.

A comitiva foi pouco a pouco adentrando a embarcação, nos mesmos moldes vikings que pareciam ser o tipo mais comum em Asgard. Thor e Volstagg assumiram o controle do leme do barco, revezando entre a pequena cabine do capitão e a navegação junto à proa. O resto do grupo, em seguida, discretamente iniciou a tarefa de retirar dos barris a quantidade de peixe necessária para que pudessem se sentir os mais confortáveis possíveis dentro do carregamento. Miranda auxiliou Loki a limpar seu próprio barril, ainda algemado, e se recusava a olhar para ele, sabendo que provavelmente a culpava por isso.

– Você foi incrivelmente estúpida hoje. No nível de Thor, realmente. – Loki disse irritado, sibilando entre os dentes. A jovem midgardiana sabia que ele estava furioso com a ideia de passar cinco noites preso dentro de um barril repleto de peixes a beira de estragarem. Logo ele, sempre com uma atitude tão desdenhosa e arrogante, dentro de um barril de peixes mortos. Seria muito engraçado, se Miranda não tivesse de passar pela mesma provação.

– Não fiquei muito atrás de você. Pelo menos minha ideia vai funcionar, enquanto você ficou fazendo cócegas no dragão semi-acordado sem ajudar em nada. – Miranda fez a piadinha com referência a Harry Potter, mas esqueceu-se que Loki não poderia compreender. – Argh! “Nunca faça cócegas em um dragão adormecido”. Seu irmão é o dragão, que, sinceramente, anda soltando fogo pelas ventas desde que descobriu suas travessuras! – Ela pegou um haddock morto e apontou-o perto do nariz fino do deus da mentira, que recuou, sentindo repulsa. – E você fica de palhaçada enchendo a porra da paciência do grandalhão de escova progressiva, que, vamos combinar, já não é muita para ficar desperdiçando com besteira! – Miranda, irritada, jogou o peixe na água de qualquer jeito.

– É irresistível. – Loki soltou uma risadinha baixa, e ela segurou o sorriso, movida pela diversão dele. – Admita. – Ele provocou.

– Seria engraçado, se não estivéssemos com nossos cus na reta. – Ela disse completamente deselegante, enquanto ele franziu as sobrancelhas, desgostoso pelos termos grosseiros que não condiziam com a beleza da jovem mulher. Miranda jogou mais alguns peixes para fora do barril, que já estava quase pronto para a “estadia” do deus da trapaça.

– Se fosse necessário, eu intercederia. Mas sabia que você pensaria em uma boa solução, o que de fato foi, apesar de consideravelmente escatológica e repulsiva. – O deus sorriu enviesado. – Queria que os surpreendesse mais uma vez, que a vissem com melhores olhos ainda, como alguém que pode acrescentar a este grupo desprezível. – Loki disse inteligentemente, e Miranda não soube o que responder, subitamente introspectiva, desarmada pelo elogio discreto que ele lhe fizera.

– ...E eu tinha me esquecido da sua falta de recato. – O deus da trapaça complementou debochado, sorrindo um sorriso de canto de lábios, referindo-se a expressão grosseira que Miranda falara, agora retornando à sua personalidade desdenhosa e debochada habitual. – Faz aqueles marinheiros do cais parecerem damas da Alta Corte de Asgard. – Ele a provocou, entrando com um movimento inimaginavelmente gracioso dentro do barril, seus olhos agora cor de mel como os de Miranda faiscando na escuridão.

– E eu tinha me esquecido de como você é extremamente playboy. Uma vez eu te comparei aos Príncipes Harry e William da Inglaterra, mas você é o inglesinho mais mimado que existe. Se a Rainha e seus pimpolhos pudessem ver aquele Palácio... – A jovem mulher debochou.

– Você ainda não viu nada. Nem sequer entrou lá. Ainda vou te mostrar. – Loki deixou escapar, junto a um sorriso empolgado, para depois modificar completamente sua expressão, tornando-se um poço de frieza, ajeitando-se no barril. Miranda sentiu seu coração escapar uma batida, pelo gesto gentil e carinhoso que ele não foi capaz de conter. É essa doçura contida que mexe tanto comigo... Filho da puta. E agora ele vai fechar a cara por horas. Ela revirou os olhos, suspirando e entrando em seu próprio barril, com uma abertura considerável na altura dos olhos e nariz pela qual respirava e podia ver um pouco do que se passava do lado de fora.

Passaram-se alguns minutos de profundo tédio, e a jovem mulher tentava se acostumar com o cheiro revoltante que a envolvia. É bom que alguém saiba uma bela magia de limpeza nessa merda. A midgardiana de olhos antes cor de mel tentou tapar o nariz com as mãos, mas apenas piorou a sensação úmida e fétida. Espero não vomitar.

Miranda tentou se concentrar no que acontecia do lado de fora, mas a noite estava calma e plácida, escura, sem nada acontecendo. Nuvens cobriam o céu, mas ela sabia que Thor controlava os trovões e tempestades, e não se preocupou com a segurança da embarcação caso chovesse. Sentiu o balanço gostoso do rio movendo os barris de lugar, e foi capaz de ouvir um ligeiro ressonar vindo de um barril próximo, no qual sabia conter Fandral e muitos salmões. Está que nem velho mesmo, roncando que nem um porco. Ela deu algumas risadas, o que pareceu chamar a atenção do deus da trapaça, no barril ao seu lado.

– Você continua bela mesmo com essa aparência diferente, pequena. É difícil te transformar. As expressões do seu rosto nunca vão mudar. – Loki sussurrou pela abertura do barril, e Miranda sentiu seu coração acelerar-se, por tantos elogios em uma mesma frase. Não saberia dizer se ele fora honesto ou se estava apenas brincando com ela. Provavelmente os dois.

– O que quer dizer com isso? – Ela perguntou tímida, sem conseguir dar uma resposta mais divertida ou elaborada. Você consegue melhor do que isso, Miranda!

– Interprete como bem preferir. – O deus respondeu prontamente, parecendo debochar.

– E você prefere com essa aparência de “Branca de Neve” a la femme fatale ou a Miranda de sempre? – A jovem midgardiana perguntou, também provocando, sem saber de onde tirara tamanha coragem. Quase se arrependeu, em seguida.

Loki demorou para responder. Ela jurou ter escutado sua respiração tornar-se mais devagar, e um imperceptível suspiro mal contido, quase parecendo estar... Impaciente?

– O que você acha? – Ele respondeu. Sua voz era grave, sensual, sem aparentar deboche algum. Parecia ponderado, como se a pergunta evasiva significasse que a resposta era muito clara. Aquilo deixou Miranda completamente desarmada, e ela teve de olhar para fora do barril, pela pequena abertura perto da altura de seus agora olhos de lince, enquanto o barco fazia uma curva perigosa próximo a uma viela algumas boas milhas longe do porto do qual saíram.

Tentando se concentrar em dar uma resposta para aquilo, sorrindo como uma idiota, ela olhou para fora, seus olhos perdidos nas poucas pessoas que caminhavam naquela hora tardia pelas vielas próximas ao rio, com muitas casas parecendo abandonadas, por conta de tão pouco movimento. Estranhamente, ela reparou que aqueles que ali caminhavam pareciam incomodados, como se sentissem algum mau agouro, alguma presença indesejável, mas nada parecia realmente fora do lugar. Era apenas uma paisagem que apresentava algumas pequenas ruas estreitas, na beira do rio, com alguns archotes acesos.

E assim, Miranda a viu.

Suas mãos subiram instintivamente à boca, suprimindo um grito de pavor.

Usando uma capa preta que se arrastava pelo chão, mais escura do que a própria escuridão, Miranda pôde ver um par de olhos cruéis faiscarem em seu negrume em meio à calada da noite, surgindo das trevas noturnas. Rondando a rua abandonada, Hela fez-se visível a olhos nus e caminhava devagar, calculisticamente, como se sondasse uma presa frágil e desprotegida. Pôde ver um relance de seu cetro branco e hediondo, feito de ossos humanos, brilhar agourento dentro de sua capa. Sua presença mágica, antes já forte e desagradável, era ainda pior agora que parecia revelar, em sua enorme carga de poder, grande revolta contra o logro que acabara de passar. Ela já descobriu que Karnilla lhe entregou as pedras falsas.

Não olhe para cá. Não olhe para cá. Não olhe... Miranda entoava em sua própria cabeça, como uma prece, como um feitiço de proteção, seus olhos arregalados, suas mãos cobrindo tão firmemente sua boca que quase machucavam a pele próxima dela, tendo o ato tão defensivo que suas unhas mergulhavam fundo em sua própria carne.

Hela parou. Seu rosto, coberto pelo capuz, moveu-se discreto e perigoso como uma criatura da noite que percebe uma aproximação. Mesmo muitos metros adiante, pareceu estudar a embarcação que agora passava, silenciosa, aparentemente inocente, com dois tripulantes que não pareciam ser nada mais do que camponeses das terras fronteiriças de Asgard levando para o centro comercial uma extensa carga pesqueira.

A jovem moça de olhos antes cor de mel não podia sequer vislumbrar o rosto terrível de Hela, belo e simultaneamente assustador, por trás de seu capuz. Uma sombra cobria sua face por inteiro, impedindo qualquer um de enxergar a direção a qual seus olhos se dirigiam. Miranda fechou os próprios olhos, respirando com dificuldade, comprimindo, por instinto, a boca com uma das mãos, e, a outra...

...Descera, até encontrar a pedra norn da vida em seu pescoço. Segurou-a com todas as forças, machucando a palma de sua mão, que sangrou um tanto, por conta do movimento defensivo e muito intenso. Quase podia ouvir os sussurros assustadores da deusa da morte dentro de sua cabeça. Em segundos, ela perceberia sua presença. E tudo estaria perdido para sempre.

Subitamente, Miranda instintivamente abriu os olhos outra vez.

Ao abri-los de novo, movidos por uma súbita sensação de segurança, ela sentiu-se livre da angústia que Hela trouxera consigo. Devagar, a jovem midgardiana pôde visualizar que não havia mais traço algum da deusa da morte naquela pequena viela estreita.

– Ela... Ela... – Miranda balbuciou, nervosa, sussurrando para Loki, dificilmente se controlando.

– Eu vi. – O deus da trapaça respondeu baixo, sério como ela poucas vezes o escutara. Não podia ver seus olhos ou tampouco a expressão que poderia naquele momento emoldurar seu rosto, mas bastou o tom de sua voz para aferir a gravidade da situação. – Mas ela não nos desvendou. – Ele garantiu. – Não se preocupe mais. – Loki respondeu, assertivamente, usando de poucas palavras, o que não era de seu feitio.

– Como pode ter certeza? – Miranda perguntou, ainda apertando a pedra norn da vida com uma das mãos, pendurada pelo colar simples na altura de seus seios.

– Feche os olhos. Sinta o fluxo mágico aqui, agora. – O deus da trapaça respondeu calmo. – Consegue perceber a diferença? – Ele inquiriu.

A jovem mulher fez o que lhe foi pedido, e se concentrou. Seus instintos lhe responderam mais rápido, como era de praxe quanto a questões mágicas, desde que ganhara o sopro de Hela, e, agora, a pedra norn da vida. A sensação de segurança que adveio não foi causada por nada mais, nada menos, do que o afastamento da deusa da morte.

– Posso perceber. – A jovem dos olhos de lince, antes cor de mel, respondeu. – Ela está bem longe. Fora do nosso alcance. – Miranda suspirou audivelmente, começando a relaxar.

– Sim. – Loki pareceu ainda mais assertivo, com um tom de voz levemente... Orgulhoso, saindo de dentro de seu barril de atum. — Tente descansar agora. Esse tipo de confronto, mesmo que apenas de sua parte, exaure bastante suas forças. – O deus da trapaça disse sem nenhum traço de desdém na voz, parecendo quase... Preocupado.

– Descansarei. É uma boa ideia. Se esses haddocks me deixarem dormir com esse cheiro que mais parece bacalhau. Pra não dizer coisa pior. – Miranda debochou, tentando trazer algum humor para a situação.

– Está melhor do que Sif. Ela realmente está num barril cheio de bacalhau. Imagine só sua expressão quando sair lá de dentro. – Loki respondeu, debochado, e os dois riram levemente. Um último calafrio de medo percorreu a espinha de Miranda, que, pouco a pouco, relaxava e sentia a exaustão atravessar cada poro de seu corpo. Podíamos dividir um barril... O cheiro seria escroto, mas pelo menos ele poderia me dar a mão e eu não teria mais tanto medo...

Quase adormecendo, Miranda tentava lembrar-se da risada de Loki e seu sorriso de menino para sentir-se mais confortável e segura. Próxima de finalmente adentrar o mundo dos sonhos, a jovem midgardiana teve apenas mais um doce pensamento, enquanto sonhava com a imagem do mais belo par de olhos verdes que já existiram, jurando-lhe querer protegê-la.

Foda-se a minha sanidade. Fodam-se as minhas reservas. Eu o amo, e ele provavelmente não tem ideia de metade do que eu sinto.

****

As cinco infames noites enfim se passaram, e a lua cheia subia alta, refletindo-se no rio, junto a inúmeras estrelas que brilhavam tão próximas como se tivessem sido pintadas na superfície das límpidas águas de Asgard. Miranda lembrava-se da difícil estadia junto aos peixes mortos, ao cheiro pestilento e aos curtos diálogos que tivera com Loki após a aparição de Hela. Na maior parte das vezes, era apenas uma pequena troca de palavras envolvendo perguntas sobre a possibilidade de terem visto ou não a deusa da morte outra vez e poucas piadas debochadas e levemente repetitivas sobre os hóspedes dos barris.

Sentira enjôo na maior parte do tempo, embora gostasse do balanço das águas na embarcação, pois sempre fora apaixonada por barcos, e não fora capaz de dormir muito bem, preocupada com a proximidade de Hela. Na maioria dos momentos em que adormecia, acordava com a mão direita fechada em volta da pedra norn da vida, em um gesto protetor que repetidamente cortava cada vez mais fundo a palma da sua mão, levando-a a sangrar sempre no mesmo ponto. É, Frodo. Agora eu realmente te entendo.

Assim, o grupo atracou em um pequeno porto em uma região mais movimentada da “Cidade Dourada”, e Loki, sendo discretamente retirado de seu barril primeiro, foi responsável, ao ter suas algemas soltas e proferindo curto juramento a Thor, a conjurar uma ilusão de pessoas em volta do barco, para que nenhum olhar curioso pudesse antever os outros cinco saindo de dentro do carregamento pesqueiro. No mesmo juramento, garantira ao irmão mais velho que não sairia da companhia do grupo enquanto o deus do trovão não o permitisse, e os acompanharia durante o descanso na taverna que o grupo escolhesse.

– Foi uma ótima viagem! – Volstagg debochou audivelmente. – Sinto-me tão descansado, próximo para outra aventura. Mas acho que gostaria de comer um peixe assado antes. – O guerreiro fanfarrão gargalhou gostosamente, debochando de Sif e dos outros dois guerreiros amigos.

– Aproveite e frite tudo o que tem aqui dentro, você consegue comer quantidade maior que eu já vi. – Sif respondeu, muitíssimo irritada, saindo duramente de dentro de seu barril, chutando o carregamento para longe com desprezo e nojo, em uma atitude agressiva não condizente com sua aparência de donzela do campo. Balançou seus cabelos agora loiros e encaracolados, tentando limpar das pontas dele o sangue e a umidade fétida dos cadáveres de bacalhaus.

– Por Odin, Silla! – Fandral disse seu nome falso, saindo com a leveza do ágil aesir que realmente era de dentro do barril, de um pulo só, incongruente com sua imagem agora idosa. Sua voz debochada estava repleta de fingida indignação. – Você consegue feder mais do que todos nós três juntos. Pior do que eu, Theon, Volantis e Hoggart voltando de uma semana de caça de javalis e ursos! Essa sua mania de “macheza” foi longe demais! Faça o favor de honrar sua imagem de donzela pastoril! – O antes loiro asgardiano riu debochado, e Miranda, saindo com cansaço e dificuldade de dentro de seu barril, teve de se segurar para não acompanhá-lo.

Em um segundo, Sif alcançou a figura idosa de Fandral, girando em um movimento serpentino e gracioso, porém não menos repleto de técnica, ameaçando-lhe com sua espada retirada de um dos bolsos do vestido de camponesa que usava para disfarçar sua verdadeira origem de deusa da guerra. Mantinha a lâmina presa, segurando-a em sua garganta.

– Sempre soube que os velhos, quando tolos, eram insolentes. Mas acho que não tanto a ponto de quererem morrer com cheiro de urina e flacidez. Seu destino pode ser igual ao desses peixes aqui. – A guerreira valente lhe respondeu, furiosa e ameaçadora.

– Amigos, amigos... Lembre de todos os nossos anos de proximidade e união, lembre de tudo o que passamos juntos! – Fandral levantou as mãos em rendição, deixando de lado metade de seu sorriso.

– Assim você só me dá mais motivos para te ameaçar de morte. Sem gracinhas, “Farrow”. – Sif respondeu, ainda ameaçadora. – Ou eu corto fora. – Fandral arregalou os olhos. – Exatamente isso o que está pensando. – Seus olhos agora azuis cerúleo como os de Thor faiscaram de raiva, e a agora loira guerreira afastou-se do amigo de anos.

Fandral voltou-se para Hogun, que seguia mais atrás, e Miranda, que fechava a comitiva, pôde vê-lo. Antes que Sif a escoltasse e sequer percebesse o que diziam, o antes jovem e sempre ousado guerreiro falava em linguagem labial o que pensara para o amigo de traços que lhe lembrava dos povos orientais de Midgard.

– “Deve estar naqueles dias. Sempre soube que deixava cheiro de bacalhau, mas não tanto assim.” – Fandral disse em linguagem labial para Hogun, que soltou uma pequena risada silenciosa e seca. Miranda comprimiu o riso e respondeu-lhe, antes de seguir com Sif:

– Segura o machismo aí, Sor Salmão, que seu cheiro em totalidade não está também nada agradável. Considerando a bexiga de velho, acho que você não se segurou muito bem por cinco noites. – A jovem midgardiana defendeu Sif, que a olhou desconfiada. Porém, logo em seguida, permitiu um curto sorriso desenhar-se rapidamente em seu rosto agora mais doce e gentil, por conta da nova aparência de camponesa. Logo que Miranda lhe sorriu em resposta, contudo, a guerreira nórdica voltou-se séria para frente, guiando a jovem mulher para que seguisse junto ao grupo.

Bem, já é algum avanço. Talvez ela não me odeie pra sempre. Só a você, Jane. Miranda pensou, debochada, lembrando-se da prima e de seu envolvimento com a paixão de Sif, o deus do trovão, e em sua solene rejeição.

Ao fim da descida de cada um, Thor, Sif e os Três Guerreiros, Loki e Miranda abandonaram o barco aesir em formato viking com o carregamento de pesca já revirado no cais. Tinham jogado os restos de peixe na água, e tapado os barris para manter o disfarce por mais algum tempo. Passados alguns dias, certamente desconfiariam de uma embarcação largada em um estado tão bom, perdida e amarrada de qualquer jeito, mas não precisariam se preocupar com questionamentos futuros, quando já estariam no Palácio Real de Asgard.

Odin já seria preocupação o bastante.

Depois de caminharem alguns metros por ruas agora mais sofisticadas e ornamentadas do Reino de Asgard, próximas ao seu centro comercial e região mais bem abastada, conseguiram rapidamente encontrar uma viela sem saída na qual Hogun foi capaz de retirar de todos os cheiros fétidos e impregnantes de peixe agora podre, e, ironicamente, com Sif enfrentou maiores dificuldades. O guerreiro soturno vinha de Vanaheim e conhecia inúmeros feitiços e encantamentos dos vanires, mas fora difícil deixar a guerreira agora loira sem vestígio algum daquele fedor pútrido.

Em razão disso, Fandral segurava as próprias risadas, seus ombros tremendo na aparência idosa como se pudesse a qualquer momento explodir em gargalhadas. O olhar decidido e ameaçador da deusa da guerra, agora azul claro, estava firme nos olhos velhos e cansados de Fandral, que brilhavam com a esperteza e audácia que tinham quando em sua aparência de galante aesir.

Porém, a indignação de Sif era tamanha que nem mesmo Loki e Miranda demonstravam alguma expressão de humor, para não piorar a situação.

Enfim, após alguns esforços da parte do guerreiro de origem também vanir, todos estavam prontos para encontrar alojamento.

Miranda permitiu que seus olhos fossem levados para deleitarem-se com a beleza de cada uma daquelas casas, lojas e construções diversas, estando em uma cidade medieval ancestral e moderna, com archotes luminosos como as estrelas que não conseguia ver, tamanha a iluminação da cidade mesmo durante a noite, e sobrados góticos construídos em um estilo arquitetônico que lhe lembrava uma mistura deslumbrante das construções midgardianas turcas e européias de influência francesa e romana. A rua estava polvilhada de pedras de brilhantes, ainda mais belas que as de Nidavellir quando em conjunto com tamanha beleza arquitetônica, resplandecentes como estrelas que caíram ao solo apenas para enfeitá-lo com sua beleza etérea.

Homens e mulheres de cabelos compridos caminhavam pelas ruas em roupas medievais de maior requinte, parecendo sires e damas da Corte saídos direto de um livro de fantasia como os de Tolkien, lembrando os homens de Gondor e as donzelas élficas de Lothlórien e Valfenda, com uma pitada viking que apenas deixava tudo ainda mais interessante. As mulheres pareciam valquírias, e os homens, bravos guerreiros medievais. É tudo tão lindo que é de matar.

No segundo que pensou isso, Miranda instintivamente olhou por sobre seu ombro esquerdo, para trás, levando as mãos para o discreto pingente que a pedra norn da vida parecia ser, quando sua magia não era utilizada. Parecia uma pedra acinzentada, escurecida, como se não tivesse muito valor, e a corrente simples que a segurava, ao redor do pescoço e colo de Miranda, favoreciam a impressão errada.

Quando voltou seus olhos para frente, respirando devagar, apenas Sif lhe olhava de relance, parecendo desconfiada. Mas, mais a frente, ela viu o rosto de Loki se voltar lentamente, como se tivesse sentido o desconforto angustiante da jovem mulher. Seus olhos antes verdes, naquele momento cor de mel, faiscaram à bela luz dos archotes, e ela instantaneamente se sentiu mais calma.

Eu sentiria, se ela estivesse por perto. Thor ainda não contou aos outros sobre Hela, e tenho certeza que ele percebeu que ela estava perto na primeira noite que viajamos de barco. Não sei se Volstagg sabe, mas no mínimo o “big bro” pelo jeito está tentando evitar que os outros entrem em pânico. Suas mãos relaxaram um pouco, soltando devagar a pedra da vida, enquanto seus olhos agora negros estavam perdidos nas botas de Loki mais a frente, e sua mente divagava. Mas Sif ainda a encarava, e perguntou:

– Está tudo bem? – A deusa da guerra levantou uma sobrancelha, mas seu rosto expressava algum companheirismo de sua parte. Ela aparenta ser uma amiga leal.

– Sim. Foi só... Um mau pressentimento. – Miranda respondeu, misteriosa, tentando não dialogar a respeito.

– Vamos descansar um pouco, de verdade, muito em breve. Tente relaxar. – Sif disse, mais gentil do que Miranda julgaria ser possível para sua personalidade arisca e distante, e a jovem mulher abriu a boca, surpreendida.

– Bem... Muito obrigada. Tentarei. – Ela agradeceu, começando a preocupar-se se sua preocupação não estaria muito clara para qualquer um poder ver. Primeiro é o inglesinho que fica solidário, depois ela. Ou o meu charme só aumentou nessa aparência de “Branca de Neve”-feminina-porém-selvagem, ou está na cara que eu estou com o cu na mão.

Sobre as delícias de se viajar em barris de peixe... Heheh!

Notas finais
Aguardando comentários das leitoras lindas!