Journey Into Trickery
3 Harder, Better, Faster, Stronger
Notas iniciais
Now that don't kill me
Can only make me stronger
I need you to hurry up now
'cause I can't wait much longer
I know I got to be right now
'cause I can't get much wronger
Man I've been waitin' all night now
That's how long I've been on you
I need you right now
I need you right now
– Kanye West, Stronger (baseada na música do Daft Punk)
Miranda havia coberto a grama com um saco de dormir usado pela S.H.I.E.L.D em missões de longas distância, e deitara-se, cobrindo o zíper até a altura do estômago. Não tinha frio nem calor; a temperatura, o cheiro e até o ar daquele reino de contos de fadas era diferente, como se tudo estivesse em harmonia. Seus sentidos estavam agradados, seu corpo relaxado, mas sua mente... Em polvorosa.
Ela olhava os elfos da luz, os seres que julgava serem apenas singelos vagalumes, dançando com sua bela luz ao seu redor, e, mais acima, entre uma alta copa de árvore e outra, conseguia antever um céu de um azul muito escuro, totalmente estrelado. Reparava em como havia tantas estrelas naquele lugar, em abundância por um céu aparentemente límpido, mas pensava se estas seriam as mesmas que poderiam ver de Midgard.
Jane adoraria estar aqui para ver isso...
A jovem mulher sentiu um pequeno aperto no peito, como se um nó se torcesse entre seus seios. A sensação de angústia, que agora se tornara comum, subia pelo seu corpo, lentamente tentando arranjar espaço para si, deixando-a nervosa e atormentada. Ainda não conseguia entender por que de fato fizera isso. Por que fugira? Aquele lugar, aqueles seres, a história que agora vivia, não podia, não devia ser a dela. Era demasiadamente distante de tudo o que conhecia e estava acostumada, e um teste para sua sanidade, a cada segundo que se passava. Poderia levantar-se ali, naquele momento, e voltar, procurar o caminho de casa.
Mas alguma coisa a impelia a continuar. Sabia que ficaria ainda mais desesperada se retornasse. Tudo por culpa de um par de olhos verdes em um lindo rosto moldado por cabelos negros como a noite...
Miranda rangeu os dentes de raiva e escondeu seu rosto dentro do saco de dormir, subindo o zíper com fúria. Sentia raiva e vergonha alheia de si mesma, a última uma sensação de fato muito inusitada e até contraditória. Ela era inteligente, era uma mulher astuta e sempre fora independente, nunca precisou de ninguém. Por que agora sentia-se quase presa, emaranhada em meio a sensações novas, sentimentos estranhos, e uma vontade, ah, aquela vontade incansável...
...De estar sempre perto dele?
Ela comprimiu um grito, soltando um som lamuriento dentro de sua boca fechada. Naquele ritmo, ironicamente, ela que mereceria ser chamada de “piradinha”, e não mais o deus nórdico que caíra por acaso em sua vida.
Tentando controlar-se, respirando fundo e fazendo o possível para aceitar a própria situação, Miranda abaixou o zíper do saco de dormir, mais uma vez, sorvendo lentamente o ar puro da noite. Pelo menos eu estou vivendo algo que nunca esperei, e isso tem seu lado bom. Permitiu-se forçar um curto sorrisinho, fechando os olhos, e aproveitando uma brisa que veio bater em seu rosto e em seus cabelos.
Enquanto olhava os pseudo-vagalumes, como nomeara em seu pensamento, Miranda sentiu seus olhos finalmente pesarem, enquanto iam de um lado para o outro tentando acompanhar a dança calma e tranquilizadora daqueles seres. Uau, eles têm até efeito calmante... Vou contrabandear para a Terra e vender como substituto pra rivotril...
Sonhava consigo mesma com dezesseis anos, e o cenário em que se viu fê-la novamente se desesperar.
Estava debruçada pelo muro da cobertura do prédio em que ameaçara um grupo de rapazes alguns poucos anos mais velhos do que ela, e seu olhar ia diretamente para uma moça jovem que acabara de abrir o portão de saída de seu prédio, caminhando em direção à dinamite que explodiria a qualquer momento.
“- Não! VÁ EMBORA, SAIA DAÍ, SAIA!” – Ela se ouviu novamente gritando, mas era como se houvessem duas Mirandas naquele mesmo lugar. Via a si mesma naquela tenra idade, perdida no rumo de sua vida, prestes a cometer um assassinato por motivo algum. Como uma espectadora de alguma cena que estivesse para acontecer.
Só pôde acompanhar com o olhar, tão assustada como a menina de dezesseis anos que via o que acontecia em primeira mão, enquanto a caçamba explodia, levando lixo, entulhos e pedaços humanos pelos ares. Não teve coragem de olhar mais, assim como não conseguira fazê-lo com dezesseis anos.
Quando finalmente abriu os olhos de novo, agora lacrimejantes, não havia mais nada à sua volta. Era um cenário completamente em branco, um limbo, um "meio do nada". Sentia seus pés pisarem algum solo, embora o piso fosse invisível, apenas um amontoado de branco aos seus pés, acima de si, e em todas as direções que olhasse. Franziu as sobrancelhas, sem mais entender o que se passava naquela imensidão alva.
Ela apenas sabia o óbvio: seria visitada em breve, como em todos os seus "sonhos verdes", mediúnicos.
Naquele momento, pensando que, provavelmente, sua visitante seria aquela mulher, ela preferia sequer imaginar o que lhe estaria reservado.
Passado um curto período de tempo, ela percebeu um vulto disforme aproximando-se ao longe. Engoliu em seco, sentindo a ansiedade pulsar em cada veia do seu corpo, assustada pelo que estava por vir.
Aos poucos a imagem de Irene Rogers ia ficando cada vez mais nítida, mas, estranhamente, ao invés de surgir com as feições que Miranda esperava: ódio, rancor, ou até mesmo profunda tristeza; a mulher, pelo contrário, portava um sorriso no rosto, e aparentava tranquilidade, ou até mesmo... Profunda paz.
– Não se assuste. – A voz da mulher era grave e doce, tranquila como o semblante que apresentava.
Miranda tentou abrir a boca para exprimir algo; queria pedir-lhe desculpas, ajoelhar-se e implorar de joelhos que a perdoasse, pois jamais quisera aquilo, nunca desejara que sua vida terminasse daquela forma hedionda, e, também, não queria trazer tamanho horror e tristeza para a vida de seu marido. Os pensamentos surgiam-lhe a mente como balas atiradas por uma metralhadora, tão rápidos que começou a sentir-se zonza, e não sabia sequer por onde começar.
Irene apenas sorriu, e virou o rosto levemente de lado.
– Sei de seus sofrimentos, e que jamais quisera isso. Não se culpe mais. – Ela mantinha a mesma voz calma enquanto falava de sua própria morte.
– Como? – Miranda agora sentia as lágrimas grossas subirem aos seus olhos. – Por quê? Eu não mereço isso. – Suas mãos tremiam, assim como todo seu corpo.
– Se você não estivesse naquele lugar, eu não teria morrido. Mas, ao mesmo tempo, você não desejava me matar. Meu Marcel não conseguia aceitar isso. Ele precisava culpar alguém por não conseguir lidar com a própria dor, como você mesma fez ao longo da sua vida. – Miranda estava espantada; como a mulher poderia saber tanto sobre si?
– E assim, ele enlouqueceu... Ele suprimiu o amor que tinha por mim, e o transformou em um ódio ferrenho e irracional, incapaz de ser um dia desfeito. O rancor que nutriu por você chegou a ser maior do que o sentimento que já teve por mim... – O sorriso da mulher falhou, e Miranda ainda chorava silenciosamente.
– ...E assim, dedicou o resto de sua vida para se vingar. Isso não trouxe paz para meu espírito, apenas tristeza. Tristeza por ver aquele que eu amava definhando, jogando-se cada vez mais em um abismo de sofrimento, sem poder aproveitar a dádiva que era sua vida, e usá-la para um fim maior... – Ela baixou os olhos, e suspirou. – Ele tirou a vida do seu irmão acreditando que isso lhe traria conforto, paz, mas apenas piorou seus sentimentos. Quando descobriu a respeito do homem que a acompanhava – Miranda sentiu seu coração bater mais forte à menção de Loki – achou que, se também levasse a vida dele, finalmente conseguiria estar em paz. Mas a loucura daquele ódio já havia se apoderado dele, e estava resoluto em tirar a vida de quem quer que fosse para não mais sofrer... Até a de si mesmo. – Ela estava séria, embora ainda calma, e Miranda soluçou baixinho.
– Você o matou. Isso é algo que jamais será considerado correto. – Ela levantou os olhos para Miranda, que sentiu seu coração apertar-se a um nível do insuportável. – Mas foi assim que você pôde evitar que ele ferisse pessoas inocentes. Não havia outra escolha, e você sabia que carregaria esse fardo consigo, machucaria ainda mais a sua alma, para proteger os outros. Aqueles que você amava. Aquele que você ama. – A mulher mantinha seus olhos firmes nos de Miranda, que sentiu um estranho e forte calor subir-lhe ao peito.
– Você sacrificou a sua paz, o seu bem-estar e talvez até sua vida futura para salvar alguém. E eu sei que um dia meu Marcel compreenderá isso, como eu compreendo. Quando eu o encontrei, finalmente livre, pude ver em seus olhos o homem que eu amava, e não apenas sofrimento e ódio. Por isso, apesar de tudo, eu a perdoo.
Miranda não sabia o que dizer. Provavelmente fora o espírito mais iluminado que já encontrara, e não tinha palavras para expressar o misto de emoções que sentia: pesar, culpa, alívio e gratidão, além de algo mais quente e terno, quando lembrava-se de Loki e dos momentos derradeiros antes que Marcel quase explodira a todos pelo ar.
– A única coisa que eu peço é que se lembre deste seu ato de proteção... O poder que tem consigo permitirá muitos atos, bons e ruins. Peço-lhe apenas que procure sempre fazer a melhor escolha... A escolha de proteger, e não destruir. – Ela deu-lhe um último sorriso, e virou de costas para Miranda.
Miranda arregalou seus olhos cor de mel e levantou uma das mãos em direção do corpo – ou da alma — da mulher que se afastava, e sentiu-se ser puxada para trás por uma força invisível, enquanto gritava com veemência:
– ESPERA! – Miranda acordou com a mão direita levantada em direção ao céu estrelado da madrugada, seus olhos banhados em lágrimas. Sentiu seus lábios tremerem e desatou a chorar baixinho, lembrando-se das palavras da mulher, e do que já havia feito a ela.
Sentiu que todos os seus traços pessoais estavam cada vez mais aguçados. Não apenas seus sentidos humanos, como também o dom que Hela lhe dera, de comunicar-se com os mortos. Miranda carregava consigo a amargura que a vida lhe trouxe, e o fardo das vidas que uma vez já havia tomado; sempre fingia ser distante e não se importar com nada nem ninguém, mas era evidente o quanto aquilo era apenas uma farsa de muito mau gosto. Amava Jimmy, amava sua prima Jane, e, quando sozinha, ainda lembrava dos rostos sem vida das pessoas que, uma vez, tiveram seu futuro ceifado por sua culpa.
E agora... Também tinha novos sentimentos em relação à outra pessoa. Fortes, quentes, vibrantes e mais envolventes do que tudo que uma vez já havia sentido antes.
Ela levantou-se de seu saco de dormir, e limpou seus olhos molhados com as costas das mãos. Segurou os pequenos soluços que ainda insistiam em sair, e finalmente permitiu-se ir em busca de algo que sabia que a tranquilizaria, ao menos por aquela noite.
Ela pôde ouvir com clareza a voz de Irene ressoar em sua mente: “- A escolha de proteger, e não destruir.”
Apressou o passo, resoluta na decisão que tomara. Seus sentidos aguçados pelo sopro de Hela permitiram que sua visão não se atrapalhasse pela escuridão noturna, nem que seus ouvidos fossem distraídos pelos sons da floresta. Seus passos eram silenciosos, praticamente inaudíveis, e, em pouco tempo, encontrou o que queria.
Loki descansava, suas costas apoiadas no tronco de uma árvore que parecia tão antiga quanto aquele reino milenar, e alguns elfos da luz dançavam em frente ao seu rosto, iluminando-lhe de vez em quando suas feições adormecidas. Miranda sentiu a mesma sensação quente e tranquilizadora de quando o via adormecido em sua casa, aquele rosto sempre tão sarcástico e que também escondia suas dores a sete chaves por trás de máscaras de vingança e rancor, e admirou o quanto assim, indefeso, adormecido, era muito mais honesto com sua verdadeira essência.
Conseguia ver no rosto daquele lindo homem as suas expressões de garoto carente e inseguro. Sorrindo brevemente, Miranda caminhou até ele, conseguindo que seus passos não fizessem ruído algum. Podia ouvir o ressonar baixo do deus, e deitou-se, sem usar o saco de dormir, acima da grama ao seu lado, deixando sua cabeça próxima ao seu colo, mas não tocando em seu corpo para não acordá-lo de seus sonhos.
Respirou fundo e sentiu o sono vir acalentá-la mais uma vez, tão bem-vindo naquele momento, enquanto sua pele sentia com alívio o contato tão natural com a relva levemente úmida e convidativa.
– E quando eu precisar... Você também vai me proteger? – Miranda sussurrou, mais baixo que o ressonar de Loki, como se implorasse.
***
Loki acordou junto ao raiar do dia. Uma aurora de um rosa-claro exuberante delineava-se pelos céus de Ljusalfheim, e os elfos da luz não mais se encontravam no local. Apenas a luz diurna começava a banhar a floresta e as ruínas próximas, feixes de luz atravessando as grossas copas das árvores, dando um ar ainda mais sonhador ao lugar.
O deus não se sentia muito a vontade ali, diferentemente de Miranda, que parecia extasiada com a beleza daquele reino. Loki precisava daquele espaço quase não-habitado para que pudesse dar a midgardiana as primeiras lições e se habituasse a seus novos poderes. Mas as memórias que tal região lhe incitava não eram muito bem-vindas.
Não gostava de lembrar-se de seu dia a dia infantil ao lado de Thor. Naquela época, julgava ser muito feliz, mas quando recordava da falsidade daquelas lembranças, agora adulto, depois de tudo o que se passara entre ele e sua falsa família... Era como chafurdar em um poço de mentiras, e perder-se em meio a elas não era algo que ele pretendia se permitir fazer outra vez.
Levantou-se devagar, e ficou levemente surpreso ao ver Miranda, deitada de lado acima da relva, apoiada em sua lateral direita, os braços unidos próximos ao seu rosto, ainda adormecida. Julgara que ela reagiria bem a magia encontrada em Ljusalfheim, mas talvez ela também tivesse seus segredos que a perturbavam tanto quanto os de Loki o incomodavam. Ela, normalmente, seria orgulhosa demais para se aproximar daquela forma, mostrando a própria fragilidade.
Nada que eu realmente me importe, afinal... Loki se forçou a pensar, e sorriu enviesado. Buscou afastar-se da midgardiana, mas, sentindo uma curiosa pontada de culpa com seu último pensamento, não pôde evitar olhar para trás.
Sem realmente saber o que fazia, sentou-se à sua frente, e sua mão foi quase que hipnoticamente levada na direção de seu rosto. Mexeu em seus cabelos, ajeitando-os e acariciando-os, como naquela vez em que ela repousara em seu colo durante a fuga em Midgard, como se levado por um encanto maior...
Assim, os mais belos e grandes olhos que já vira abriram-se, ainda enevoados pelo sono, seu brilho cor de mel fitando profundamente os olhos do deus.
Miranda sorriu docemente, de uma maneira tão distinta para ela, meiga e inocente, e em seguida disse, fechando os olhos e alargando ainda mais seu sorriso:
– Acho que você vai... – Ela soltou uma risadinha baixa, que não parecia em nada com um riso de escárnio.
O deus sentiu uma leve palpitação em seus batimentos cardíacos, e crispou seus lábios.
– Irei o quê? – Ele perguntou, afastando bruscamente a mão que a acariciava.
Ela apenas abriu os olhos de novo e fitou-o profundamente. Olhos cor de mel em olhos verdes, enquanto ela se levantava devagar, deixando seu corpo sentado na altura do dele.
– Nada. – Ela rapidamente aproximou-se, e, antes que Loki pudesse – ou quisesse — reagir, deu-lhe um rápido selinho. – E aí, pé na estrada? – Ela espreguiçou-se, seus ombros estalando ruidosamente.
Gastaram toda a manhã para retornar ao túnel de Yggdrasil e, finalmente, rumaram para aquele que Loki sabia levar a Svartalfheim. Preocupava-se levemente com a reação de Miranda. Se ela não se sentira tão bem assim no reino dos elfos da luz, como se sentiria no reino dos elfos das trevas, responsáveis muitas vezes pelos pesadelos humanos? Mas seria necessário, e aquilo apenas a fortaleceria.
O túnel, dessa vez, era bem mais estreito e escuro. O deus disse a Miranda que fosse na frente, pois já predissera suas reações mais primárias. Enquanto caminhavam mais além, ela finalmente se manifestou.
– Eu estou me sentindo... Esquisita. – Ela disse, disfarçando o que realmente sentia.
– Quer dizer que está sentindo medo. – Loki riu baixinho. Não tinha como não se divertir com aquilo; ele era um deus, e não era afetado por aquelas fragilidades dos mortais. Já ela, apesar do sopro de Hela, não deixava de ser humana, uma dos seres mais fracos de todos os mundos.
– Não estou com medo! – Miranda disse, quase bufando, orgulhosa. – Quer dizer, esse lugar me passa uma má impressão... Uma sensação ruim, como se algo fosse acontecer. – Ela disse, sua respiração entrecortada e rápida, o temor evidente em seu comportamento.
– Eu sabia que se sentiria assustada. – Loki disse, desdenhando. – Você é humana. Os elfos das trevas se alimentam do seu medo. E eu preciso que você supere isso. Vou treiná-la para tanto. – Ele continuou rindo baixinho, evidentemente se divertindo.
– Eu acho que você me trouxe aqui só pra tirar uma com a minha cara... – Miranda sibilou de raiva. – E eu estou morrendo de fome, não comi nada ontem, e quero tomar banho, e roupas novas, e... – O túnel era inclinado, cada vez mais para baixo. Quanto mais desciam, mais ela tagarelava, Loki percebia, apenas para disfarçar o temor crescente. Uma parte de si se divertia com a ideia de um humano adentrando aqueles locais totalmente desconhecidos para sua espécie, mas, por outro lado, ele também sentia uma estranha e indesejável culpa por saber que poderia estar a fazendo sofrer, mesmo que por um motivo necessário.
– Estamos quase chegando. – Loki interrompeu o tagarelar excessivo de Miranda, que forçou seus olhos para ver mais adiante. Ela subitamente parou, estancada no lugar onde estava.
– O que houve? – Loki dizia, entre o preocupado e o divertido.
Miranda respirou fundo. Parecia um animal acuado, era exatamente como uma presa olhando nos olhos do predador que, em segundos, a devoraria. Seu rosto suava levemente, seus olhos brilhavam, tremeluzentes, encarando assustados a entrada daquele reino, e seu corpo visivelmente tremia. Em outras épocas, Loki talvez se divertisse às custas da reação da midgardiana, mas, naquele momento, sentia uma curiosa culpa e uma ainda mais estranha solidariedade aos seus sentimentos.
– Não consegue ir adiante...? – Loki provocou, sabendo qual seria a resposta.
– É claro que consigo! – Ela disse, orgulhosa, e, a passos tortos e trêmulos, foi andando adiante, as mãos encostadas nas paredes escuras do túnel, até atravessá-lo totalmente. Loki riu consigo mesmo, enquanto Miranda finalmente chegava às fronteiras de Svartalfheim.
– Cacete... – Ela disse, baixinho, e mais uma vez parou para olhar o ambiente. Era como se estivessem em uma enorme caverna, com pedras mais negras do que a noite, em um breu quase total. Não se conseguia ver as paredes da caverna, tamanha a sua vastidão. Ruídos estranhos e cortantes, baixos, quase sibilantes, eram passíveis de serem escutados, mas poderiam levar o ouvinte a pensar se realmente os ouvia ou apenas imaginava, uma sensação angustiante que beirava à loucura. O ar era levemente fétido, com um cheiro de podre, de morte, misturado ao ar rarefeito do subterrâneo em que se encontravam.
Era um perfeito cenário de um horrível pesadelo.
– Por... Que... Tem... De... Ser... Aqui...?! – A midgardiana falava, entoando cada uma das palavras devagar, respirando fundo para acalmar-se.
Loki segurou em seus ombros, mas ela afastou-se bruscamente, olhando para ele com raiva. Parecia julgar que ele apenas queria provocá-la, fazê-la passar por uma situação desagradável e desnecessária.
– Porque é parte do seu treinamento. E do meu plano. – Ele disse, agora mais sério e irritado pela pequena rejeição. – Vamos. – Loki caminhou à frente de Miranda, guiando-a pelo caminho menos utilizado e mais afastado que conhecia.
– Tinha que ser debaixo da terra... No meio desse escuro todo, cheio de baratas nojentas, e ainda, por cima com esses malditos risinhos! – Miranda tinha pequenos espasmos de susto quando ouvia as risadas gélidas e secas dos elfos das trevas, escondidos em meio à escuridão, alimentando-se ao longe de seu medo. — Eu já nunca fui fã de andar de metrô, não sou rato para ficar debaixo da terra. – Ela resmungava, pulando para longe quando avistava as enormes baratas que ali haviam, tentando evitar o medo. Quando chegassem a um local específico, Loki a treinaria para superar aquela sensação. Por enquanto, era importante que ela estivesse exposta a ela, para poder enfim superá-la.
– Como está se sentindo agora? – Ele perguntou, quando enfim avistou um ponto mais afastado, outro túnel estreito que levava a uma pequena câmara supostamente abandonada. Sabia que ali dormiam inúmeros elfos negros, uma espécie de dormitório comum dentro daquele reino.
– Morrendo de nojo. – Ela disse, fazendo uma careta, e chutando para longe uma barata cascuda que se aproximava. O temor era evidente em suas palavras, mas Loki sabia que chegara a hora derradeira.
– Entre. – Ele apontou para o túnel, indicando que Miranda o atravessasse.
Ela olhou-o mais uma vez, fuzilando-o com o olhar, ainda descrente do que ele pretendia. Caminhou devagar para dentro do túnel, e virou-se de costas.
– E aí? Não vem não? – Ela falou, e Loki reparou que no tom de sua voz havia um que de pedido, como se realmente não quisesse entrar a sós.
– Não. – Ele sorriu brevemente. – Desta vez você vai sozinha.
– ‘Cê só pode tar de sacanagem comigo. Daí eu entro no túnel da Laracna, e uma porra de uma aranha gigante me come na teia dela, ou um baratão do King Kong me faz em pedaços, ou um desses Gollums das sombras me corta em pedacinhos e rói os ossos depois? Nem fodendo! – Ela praguejou, afastando-se da entrada do túnel.
– Ah. Como eu imaginava. – Loki riu debochado.
Miranda parou e fuzilou-o mais uma vez com o olhar.
– Medo do escuro, de baratas, de simplórios elfos das trevas... De que mais teria medo? Da própria sombra? – Ele riu com escárnio. — Fraca como eu sempre pensei. Estava certo desde o início: sabia que não teria coragem.
Miranda fechou os olhos e respirou fundo. Em seu rosto, Loki percebeu que ela sabia que a estava manipulando, mas seu orgulho era grande demais para desistir agora, depois de ser tão ofendida com termos que realmente mexiam com ela.
– Vai à merda, deus da trapaça. – Ela disse, e foi pisando firme em direção ao túnel, atravessando-o quase correndo.
Loki riu com mais gosto, fitando-a enquanto ela entrava.
***
Miranda fechou os olhos, correndo com as mãos à frente do corpo, ignorando os barulhos de seres rastejantes e nojentos que permeavam em abundância aquela escuridão quase infinita. Quando abriu os olhos de novo, seu queixo caiu, em pleno horror.
Inúmeros seres descarnados, com braços mais compridos do que as pernas, a pele cinzenta e azulada, com cabeças horrendas e desproporcionais, deitavam-se em buracos imundos nas paredes, indo desde o solo até o teto o qual ela não enxergava. Baratas caminhavam por todo aquele lugar, suas antenas explorando as superfícies pelas quais andavam.
Miranda sentiu vontade de vomitar, a adrenalina subindo pelo seu sangue em nível máximo, repleta de medo e repulsa. Finalmente via quem eram os elfos negros, e encarava-os, cheia de horror.
Como se despertados por todo o medo que sentia, os seres, pouco a pouco, foram abrindo seus olhos. Seus horríveis olhares, com pupilas negras e íris vermelhas, eram ainda mais assustadores. Pareciam querer sugar seu medo, seu horror, sua alma... Deixando-a seca, morta, para que as baratas a devorassem depois.
Em uma questão de segundos, os elfos saíram de seus buracos, em revoada, pulando na direção de Miranda. Parecia que tudo se passava em câmera lenta. Ela podia ver seus olhares assassinos, famintos por seu medo, quase enlouquecendo-a. Tinha apenas duas opções.
Poderia sucumbir ao terror e a repulsa, e acabar ali, daquela maneira hedionda, tendo de ser socorrida por Loki, que jamais a deixaria em paz depois disto.
Ou poderia superar seu medo.
Ela fechou os olhos, e lembrou-se de quando acordou. Loki olhava para seu rosto, enquanto acariciava seus cabelos, sua expressão de menino, atenta e cuidadosa, como se Miranda lhe fosse algo precioso, algo para ser cuidado, protegido... Alguém muito querida.
Lembrou-se firmemente da voz de Irene, como se ressoasse por todo o local.
“- A escolha de proteger, e não destruir.”
Ela abriu os olhos e levantou as mãos, unidas em concha. Encarando sem mais temor algum os elfos, uma bola de luz energizava-se no meio das suas palmas, ameaçando-os e iluminando totalmente o local.
Os elfos foram surpreendidos em seu voo, suas expressões malignas substituídas por um súbito medo, como se agora eles fossem as vítimas, e Miranda, alguém que devesse ser respeitada e temida. Ela sentiu-se ela mesma alimentando-se daquilo, daquele súbito sentimento de triunfo, e, sem perceber o que fazia, agiu rapidamente.
Instintivamente, ela fechou as mãos, fazendo desvanecer a bola de energia. Em seguida, ela juntou os braços e os cotovelos a frente do corpo, e palavras desconhecidas em uma língua que ela não imaginava saber saíram de sua boca, enquanto fechava os olhos.
Quando abriu-os novamente um clarão de luz havia iluminado o local, como o ruído de um trovão, dando a impressão de que um raio havia caído no centro daquela câmara antes escurecida. Seus ouvidos escutaram um som abafado, supersônico, e o ar a sua frente pareceu ter adquirido uma espécie de cor arroxeada, formando uma barreira... Um escudo invisível.
Em segundos, os elfos negros gritavam gritos terríveis, temerosos, escondendo-se novamente nos túneis em que dormiam, sumindo para dentro da escuridão, junto com as baratas, também assustadas.
Miranda socou o ar à sua frente, sacudindo seus cabelos, sem ter entendido o que realmente fizera, comemorando tolamente seu feito, enquanto pouco a pouco o espelho protetor também sumia.
Voltou pelo mesmo túnel, sem mais sentir temor algum.
– Saúdem Miranda, a Caçadora de Gollums! – Ela saiu do túnel abrindo os braços e levantando-os, como se pedisse a Loki e a uma multidão invisível uma salva de palmas.
– Muito bem. – Loki sorriu, não mais debochado, porém divertindo-se. – E eu presumo que não tenha ideia do que acabou de fazer.
– Presume corretamente, senhor. – Miranda debochou, imitando a voz dele.
– A fonte de alimentação dos elfos negros é o medo dos humanos. Eles sobem a Midgard à noite, invadindo com sua magia os sonhos dos que ali vivem e instalando pesadelos. Assim, conseguem sobreviver. – Loki explicou brevemente. – Este é um reino subterrâneo, assim como Nidavellir, o reino dos anões, que, por vezes, também passam por Svartalfheim.
Miranda sorvia as palavras, e já ia abrir a boca para perguntar como ela fizera o que fizera, mas Loki levantou a mão esquerda para interrompê-la. A midgardiana levantou uma sobrancelha por conta do gesto, e esperou.
– Quando não mais sentiu medo destes seres, eles se surpreenderam, e você pôde deixar fluir a magia que existe no seu corpo. É como se você tivesse lhes tirado sua forma de subsistir.
Miranda franziu as sobrancelhas, olhando para o chão, tentando compreender.
– Mas eu falei coisas que eu não sei repetir agora, e formei um campo de força muito irado, e fiz praticamente uma fireball e um raio sair do nada... – Ela dizia tolamente.
– Você disse “coisas” que Hela conhece. A magia de Hela fluiu por você. É claro que pode aprender a fazê-la conscientemente, o que, aliás, é o que pretendo ensinar-lhe. Mas isso não significa que, em uma situação de necessidade, não possa fazê-lo por... Instinto de sobrevivência. – Loki sorriu, satisfeito com a dimensão dos poderes de Miranda, e em como aquilo iria beneficiá-lo.
– Ainda não consigo acreditar... — Miranda dizia, enquanto Loki começava a caminhar em direção ao próximo destino daquele dia, e ela o seguia, seus olhos brilhando de assombro.
***
Mais uma vez naquele mesmo dia, Loki levava Miranda para além de Yggdrasil, desta vez descendo pelo túnel próximo ao de Svartalfheim, o que levava-os para Nidavellir, o reino dos anões.
Acreditava que este seria do agrado de Miranda, o local tinha tavernas, nascentes de rios e rochas vulcânicas, e era lá que deveriam ser vistos. Primeiro.
Mas seu treino com os elfos das trevas também fora o início da visão que pretendia.
Quando adentraram as fronteiras do reino, Loki parou Miranda e deu-lhe as seguintes instruções.
– Não pode usar estes trajes. E preciso que transforme os meus. – O deus ainda usava as mesmas vestes de humano de quando saíra de Midgard, e não pretendia ser visto com elas.
– Vamos pelados, então? – Miranda brincou, mas, a um único olhar censor de Loki, ela revirou os olhos, e assentiu com a cabeça.
– Toque nas mangas das minhas vestimentas. – Loki disse. – Eu preciso que você lembre da textura de uma grande capa, com um longo capuz capaz de cobrir meu rosto, esconder meus traços. A veste deve ser longa o suficiente para cobrir meus pés, e as mangas também vastas, capazes de esconder meus braços, se necessário.
Miranda fechou os olhos e seguiu as instruções. Tocou nas mangas de Loki, primeiro pensando em como aquilo era ridículo, mas sentiu algo quente fluir pelo seu sangue e sair pela ponta dos seus dedos, como se formigassem. Quando abriu os olhos de novo, via o tecido da jaqueta negra de couro que ele usava se modificar para uma grossa capa escura de um material parecido com lã. Viu surgir o capuz nas costas do que uma vez fora a jaqueta, e admirou seu próprio trabalho.
Em seguida, olhou para a altura da cintura de Loki e pôs-se a rir gostosamente.
– Isso é ridículo. Faça-o direito! – Loki mandou, ralhando com ela, sua voz sibilando de raiva. Miranda vingara-se de tudo o que ele lhe fizera passar no dia, transformando apenas a parte de cima de suas roupas. Abaixo da cintura, deixou-o completamente nu.
– Eu prefiro você assim, se quer minha opinião. – Ela provocou, seus olhos semicerrando-se em um de seus sorrisos sensuais. Loki apenas encarou-a firme, ainda irritado, apesar de uma leve faísca de interesse ter percorrido seu verde olhar.
Em seguida, Miranda tocou seus braços e terminou a tarefa. Perfeitamente como pretendia, Loki usava uma comprida capa, capaz de esconder-se a si mesmo se desejasse.
– Sua vez. – Loki disse, não mais irritado, mas um tanto ansioso para finalmente terminar o que queria fazer.
A midgardiana abraçou-se a si mesma, tocando o tecido do uniforme da S.H.I.E.L.D, seus olhos fechados, o cenho franzido e concentrado. Em segundos, ela também usava uma capa, porém de cor mais clara, e deixando seus seios totalmente expostos.
– Faça isso direito! – Loki exigiu, quase rangendo os dentes de raiva das provocações da mulher. Miranda riu, e depois, com seu semblante outra vez sério, concentrou-se e finalmente transformou sua vestimenta em uma capa na qual também poderia se esconder.
– Ainda acho que a outra versão era mais sexy. A minha e a sua. Imagina nós dois sendo vistos assim? Na Asgard fashion week? – Ela gargalhou, enquanto Loki apenas levava a mão direita ao rosto, controlando sua costumeira irritação.
– Eu não deveria levá-la para lá, pois não merece. – Ele disse a frase enigmática, e pôs-se a caminhar mais uma vez à frente de Miranda.
– Levar-me para onde? – Ela perguntou interessada. – Ah vai, eu fui super boazinha. Mandei umas macumbas loucas e tudo. – Sorriu debochada para ele.
– Para uma taverna. A taverna mais frequentada de Nidavellir. – Loki disse, um sorriso enviesado em seu rosto.
– TAVERNA? – Miranda gritou. – FINALMENTE A RECOMPENSA! – Miranda deu um pulinho caricato, batendo os calcanhares dos pés. Loki não pôde evitar rir de sua gracinha.
Em seguida, caminharam até um local próximo a taverna em que pretendia levar a midgardiana, onde havia uma nascente de água congelada, com um grosso cristal de gelo desprendendo-se do teto.
Quando ali chegaram, ele pediu a Miranda que aguardasse, e, quando a chamasse, fosse até ele de prontidão.
Loki esticou o braço direito para tocar naquele cristal de gelo tão antigo do que a própria Midgard, repleto da magia ancestral de Nidavellir, e, aos poucos, foi sentindo sua já gelada temperatura diminuir mais e mais. Ao contrário do que gostaria, a sensação de ter o gelo tocando sua pele era agradável, familiar. Enojado, reparou em como sua pele ia pouco a pouco assumindo um tom azulado, seu sangue congelado espalhando-se por suas veias, colorindo sua pele até seu tom natural.
Ele chamou Miranda, sentindo repulsa por si mesmo, e respirou fundo.
– Preciso que toque minha pele. – O deus disse, quando ela se aproximou.
Miranda chegou perto, silenciosa, admirando enquanto ele ficava cada vez mais parecido com sua origem jotun. Ela tocou lentamente suas mãos, e Loki sentiu seu coração esquentar-se, apesar da temperatura gelada de seu corpo. Havia algo na forma dela olhá-lo, agora, que mexia com algo escondido na sua alma, no fundo de seu coração antes congelado, que parecia, pouco a pouco, se derreter.
– ...Agora. – Ele disse, tentando evitar aquelas sensações indesejadas. – Preciso que mantenha esta temperatura que meu corpo atingiu. Toque as veias de meu pulso, aperte-as, e tente assim sugar o pouco calor que resta com os dedos da sua mão.
Miranda franziu as sobrancelhas, em um silêncio solene, aparentando estar confusa. Ele preferia que ela assumisse sua postura tresloucada e debochada, do que ficasse agindo desta maneira cerimoniosa, como se aquilo tivesse uma importância enorme para ela.
Mas, ao mesmo tempo, sentia-se grato por ela agir assim.
Ele sentiu os dedos da midgardiana apertarem suas veias, e não pôde evitar sentir seu batimento cardíaco aumentar. Sua temperatura também aumentou um pouco, e ele olhou para ela, assustado, pensando se ela teria notado. Miranda apenas encarou-o brevemente, e deu um sorriso curto. Não debochado, mas meigo e... Solidário.
Loki baixou os olhos, entre a gratidão e a irritação.
Ela apertou mais firmemente seu pulso, e, em segundos, ele sentiu sua pele inteira ficar ainda mais fria. Miranda suava, arfando um pouco, como se tivesse roubado o calor de sua temperatura corporal.
Ele encarou-a, sabendo que ela o estava vendo mais uma vez em sua aparência Jotun, algo que, ele sentia em seu íntimo, lhe gerava sentimentos contraditórios. Por algum motivo, a maneira com que ela o encarava não o incomodava, pelo contrário. Lhe despertava algo mais quente, como... Afeição. Gratidão. Mas, ao mesmo tempo, ela era a última pessoa que ele queria que o visse daquela forma, o motivo pelo qual fora sempre rejeitado.
Antes que pudesse reagir, Miranda abriu um de seus raros e meigos sorrisos, seus olhos cor de mel sempre tão sensuais, desta vez, brilhando cálidos e cândidos.
Ela aproximou seu rosto rapidamente e beijou-o, enlaçando-o pelo pescoço. Um beijo doce, calmo, terno... Íntimo.
Quando o soltou, Loki ainda não tinha reagido. Miranda apenas o encarava, seus grandes olhos cor de mel brilhando de maneira ainda mais doce, enquanto ela dizia, baixinho, como uma criança que conta um segredo.
– Eu sempre quis fazer isso... – A sua ninfa midgardiana falou delicadamente, tão baixo quanto as batidas do seu próprio coração.
Ela andou na direção na qual voltariam e poderiam se encaminhar para a taverna, mas Loki ainda estava parado, entendendo o que acabara de acontecer. Por que ela queria aquilo? Não entendia, simplesmente não entendia...
Ou apenas não queria entender.
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