Journey Into Trickery
33 Don't You Worry Child
Notas iniciais
There was a time
I used to look into my father's eyes.
In a happy home
I was a king, I had a golden throne.
Those days are gone,
Now the memory's on the wall.
I hear the songs
From the places where I was born.
Upon a hill across a blue lake,
That's where I had my first heartbreak.
I still remember how it all changed.
My father said,
"Don't you worry, don't you worry, child.
See heaven's got a plan for you.
Don't you worry, don't you worry now."
Yeah!
"Don't you worry, don't you worry, child.
See heaven's got a plan for you.
Don't you worry, don't you worry now."
Yeah!
There was a time
I met a girl of a different kind.
We ruled the world,
I thought I'd never lose her out of sight.
We were so young,
I think of her now and then.
I still hear the songs
Reminding me of a friend.
Upon a hill across a blue lake,
That's where I had my first heartbreak.
I still remember how it all changed.
My father said,
"Don't you worry, don't you worry, child.
See heaven's got a plan for you.
Don't you worry, don't you worry now."
Yeah!
Oh, oh, oh!
Oh, oh, oh!
See heaven's got a plan for you
See heaven's got a plan for you
See heaven's got a plan for you
"Don't you worry, don't you worry, child.
See heaven's got a plan for you.
Don't you worry, don't you worry now."
Yeah!
Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh!
Yeah!
Swedish House Mafia — Don't You Worry Child
Loki piscou os olhos, acordando mais uma vez. Algo instintivo lhe despertara, um formigamento na pele lhe alertando, em seu sono leve, que algum ser mágico ou dotado de considerável poder se aproximava.
Sua visão nebulosa pelo sono do qual recém despertara logo registrou a imagem de uma mulher usando um elegante vestido azul, longo até seus pés. Na altura de seus ombros, viu camadas protetoras de ombreiras, bem como um colete protetor ao redor de seu torso.
Frigga.
– Não conseguem passar um dia sem me ver? – Loki respondeu, debochado. Sua voz soou fria e mordaz, propositalmente querendo afastar qualquer pretensão sentimental que sua mãe poderia querer trazer consigo. Esquivou seus olhos da visão materna, pondo-os em uma pequena estante em sua cela de imensidão branca, que já começava a angustiar-lhe os olhos.
Passara alguns dias encarcerado, e já estava deveras impaciente. Por mais que ser detido por Odin estivesse dentro de seus planos anteriores, formulados desde Midgard quando decidira seus mais recentes esquemas manipulativos, ele já esperava ter sido solto há mais tempo. O velho deus estava cada vez mais difícil de dobrar, pelo visto.
– Sabe muito bem que por mim lhe veria todos os dias. – Frigga por sua vez disse, doce. Doce demais para suportar. E o pior era perceber francamente a mais pura sinceridade em suas palavras piegas.
– Tem algum motivo em especial para essa visita, além de amaciar meu ego? – O deus da trapaça falou, mordaz. Esforçava-se para manter o tom de sua voz gélido e desagradável. Mantivera-se sentado, na mesma posição em que estava quando acordara pela aproximação de sua mãe adotiva, de forma a fazê-la desistir do que quer que tramava com aquilo.
Frigga caminhou pela cela, abaixando-se próxima dele. Ao seu lado esquerdo, estavam alguns livros que Loki deixara empilhados de qualquer jeito no chão branco de mármore. Sua mãe adotiva pegou-os, um a um, e andou até a estante, com passos leves. Passou a organizá-los, como faria para ele quando era criança e bagunçava seu próprio quarto.
– O que está fazendo? – O deus da trapaça perguntou, sibilante, passando a se sentir um tanto irritadiço. Sentira uma espécie de nó no peito ao lembrar de como sua mãe era próxima de si, na infância, e tudo o que acontecera depois disso.
– Arrumando o que você desarrumou. – A deusa-mãe respondeu, sua voz suave não fazendo eco ao sentido oculto naquela frase, que Loki compreendeu de imediato.
– Não me recordo de ter pedido sua ajuda. – O deus da trapaça retrucou, seu timbre frio.
Frigga voltou os olhos devagar para seu filho mais novo. Em seus orbes azuis claros, o espelho dos olhos de Thor, ele percebeu compreensão... E misericórdia.
Aquilo o irritou profundamente.
– Não pediu, e não preciso que peça para que eu venha ao seu auxílio. Você é sempre tão perceptivo, Loki. Já deveria saber que eu o faria. – A deusa aesir falou em tom resoluto, enquanto guardava o último tomo na pequena estante que havia na cela do deus da mentira.
– Não o disse por não sabe-lo. Apenas por não deseja-lo. – O deus da trapaça manteve sua postura rude.
– Será mesmo que não, meu filho? Assim como tantos outros desejos que insiste em negar? – Frigga disse, e ele compreendeu.
Sua mãe adotiva se referia a Miranda.
O deus levantou-se com alguma brusquidão. Frigga não se mexeu nem um centímetro. Suas mãos estavam cruzadas a frente de seu colo. Ela sequer piscou ao ver o filho levemente balançado, movimentando-se sem harmonia.
– Pergunto-me de onde lhe vem tanta certeza para julgar me conhecer tão bem assim. – Loki disse debochado.
– Eu o conheço melhor do que ninguém. Inclusive, melhor do que si mesmo. – Frigga sorriu tristemente, aproximando-se devagar do filho adotivo.
O deus recuou um passo.
– Pelo visto, falhou cegamente em prever meus últimos atos, senão não precisaria fingir que seus dedos não estão trêmulos, segurando-os com firmeza um contra o outro. Algo lhe perturba, e é por isso que veio me visitar. – O deus da trapaça apontou com o queixo para as mãos da mãe adotiva, cujos dedos tremelicavam delicadamente.
A deusa aesir manteve-se em silêncio. Ao percebê-la desviando levemente o olhar, Loki confirmou o que já sabia; deduzira corretamente.
– Leio-a melhor do que o faz comigo. Acho que precisa aumentar seus conhecimentos. – Loki debochou, sorrindo enviesado.
– Por que será que estou preocupada? – Frigga perguntou, com alguma ironia. Os olhos verdes do deus se levantaram para o rosto materno, mas ela ainda mantinha seu sorriso convidativo, apesar do tom entristecido de sua voz.
– Compreendo que seja uma pergunta retórica. Mas meu plano não irá falhar. Sabe que Odin será obrigado a me libertar, quando a guerra enfim se iniciar. – O deus respondeu, seus lábios endurecendo à medida que mencionava o falso pai.
– Pensa que é isso o que me perturba? – A deusa-mãe o questionou outra vez. Sua expressão carinhosa, firme em seu rosto, deixava Loki cada vez mais irritadiço.
– Não posso fingir minhas condolências por você ter um filho condenado pela justiça aesir. Não quando se trata de mim mesmo. – O deus da trapaça debochou.
Destarte, Frigga se aproximou rapidamente. Loki fez menção de recuar, mas a mãe foi mais rápida.
A deusa-mãe tocou seu rosto com as duas mãos.
Então, dessa vez, não era uma ilusão. Sua mãe fizera questão de visitar-lhe em carne e osso.
Algo grave ocorria.
– Meu filho, você está tão perto, e tão, tão longe ainda... Apenas me prometa que não deixará escapar de suas mãos. – A deusa falou, e Loki se recusou a entender o que ela queria dizer. Seus dedos longos tocavam seu rosto com delicadeza firme, como se não quisesse soltá-lo jamais.
– O que está acontecendo? – O deus da trapaça perguntou, e retirou as mãos da mãe de seu rosto, displicente.
– Apenas me prometa. Não quero que jure, não quero obriga-lo. – Frigga insistiu. – Prometa-me, de seu coração, que não colocará tudo a perder. Eu sei o que o guia agora, o que sempre o guiou. – Sua mãe adotiva insistiu.
– O que pretende, Frigga? – Loki tornava-se cada vez mais frio, afastando-se passos da mãe.
– A pergunta não é o que eu pretendo, Loki. E sim, o que você pretende. O tempo de mentiras já cessou. E o maior tolo, você sabe... – A deusa mãe continuou.
– ...É Thor? – Loki debochou.
– ...É aquele que tenta enganar a si mesmo. – Frigga respondeu, séria.
– Não posso prometer-lhe algo que sequer compreendo o que é. – Loki respondeu, debochado. Entendia o rumo que sua mãe queria levar com aquela conversa, mas não a ajudaria com aquilo.
– Tempos difíceis aguardam, meu filho. Quero apenas que saiba que estou com você. E estarei, sempre. – Ela andou até ele, seus braços movendo-se devagar em volta dos ombros e pescoço do deus. Abraçou-o.
Loki engoliu em seco. Não sabia como reagir.
Ainda assim, o deus da trapaça não se moveu. A deusa mãe continuou abraçando o filho adotivo, mesmo sem a recíproca do gesto.
– Eu sou sua família. – Frigga falou, e Loki percebeu a melancolia na voz dela apenas aumentar.
Por mais piegas e sentimental por demais que aquilo fosse, apelativo quase, o deus da trapaça sentiu certo nó subir-lhe à garganta. Mas não se moveria. Não daria forças para esse tipo de chantagem emocional.
– Quer você queira, ou não. – A deusa mãe da dinastia aesir falou, seu tom de voz soando maroto e travesso, como quando Loki era criança, e sua mãe lhe ensinara sua magia.
Ele não pôde evitar rir, um riso curto, seco, e também entristecido como a voz materna. Pois se lembrara.
Lembrara da época em que ainda era inocente, que tinha esperanças de reconhecimento, de sucesso. De ser alguém valorizado. Antes de saber que era uma besta, uma piada de mau gosto, um filho adotado de gigantes de gelo, um fantoche para acompanhar e divertir Thor. Antes de saber ser o tolo de quem toda Asgard e os Nove Reinos riam pelas costas.
O tempo em que seus sorrisos eram puros, e o futuro era bom.
– Eu tenho de ir agora. – Frigga respondeu, afastando-se, no mesmo momento em que Loki levantava os braços para enlaça-la de volta. Ele sentiu o nó na garganta aprofundar-se ainda mais, em seguida.
– Eu prometo. Se isso a fará sossegar. – O deus da trapaça levantou uma sobrancelha, troçando da mãe e lhe sorrindo. Um sorriso mais sincero, dessa vez.
Frigga parou de andar, e girou nos calcanhares em direção ao filho. Piscou os olhos, como se não acreditasse no que ele dissera. Em seguida, caminhou para perto do deus.
– Você voltou, meu filho. – Frigga sorriu mais amplamente, agora. Levantou seus braços, tocando o rosto de Loki com as mãos, mais uma vez. – Você voltou.
– Tem algum tempo, não? – Ele respondeu, sarcástico, levantando as sobrancelhas.
– Você sabe o que eu quero dizer. – Ela abaixou as mãos. – Apenas lembre-se do que eu lhe disse, por favor.
– Não se preocupe, mesmo em meio aos inúmeros eventos emocionantes desta cela solitária, farei esforço para me recordar. Será difícil me esquecer dessa conversa enigmática. – O deus debochou, troçando de sua condição de prisioneiro recluso.
– Seu pai irá lhe soltar em breve. – Frigga disse, mas seu sorriso parou. Percebera que cruzara uma linha de limite.
– ELE NÃO É MEU PAI! – Loki respondeu, gritando agressivo, perigoso. Afastou-se da mãe adotiva, virando-lhe as costas. Sua irritação anterior lhe voltara, agora com força total.
– ...E eu não sou sua mãe? – Sua mãe adotiva repetiu as palavras que lhe dissera na primeira vez em que o visitara em sua cela. Sua vontade era de botar-lhe para fora aos pontapés, mas resistiu ao impulso.
Olhou devagar para trás, encontrando de imediato os olhos dela. A deusa mãe da dinastia aesir o encarava com doçura, como se aquela pergunta fosse, por si só, uma espécie de teste. E que, ao mesmo tempo, já estava respondida.
Frigga levantou as mãos, como se quisesse que Loki as segurasse.
Ele se aproximou da mãe, lentamente. Devagar, tocou as palmas da mãe com as suas, sentindo sua pele macia e quente, as mãos que há muito já o haviam embalado, as únicas mãos naquele reino podre de deuses soberbos e hipócritas que de fato já o abraçaram, já o aceitaram.
As mãos que ele sabia que o amavam.
As únicas mãos que ele sabia amá-lo... Bem como um outro par de mãos.
De imediato recordou-se da expressão cândida nos olhos de Miranda, grandes, redondos e cor de mel, vestida naquele traje de noiva aesir, sua tiara prateada resplandecente em seu lindo vestido verde, seus cabelos trançados como uma dama da corte, uma princesa a ser desposada...
Uma pequena travessura de sua mãe, que tinha a verdadeira marca dela, e que compreendera tudo rápido demais para o gosto de Loki.
Não era à toa que eram tão parecidos.
De certa forma, eram mesmo mãe e filho.
– Ele não é meu pai. – Loki insistiu, em tom de quem encerra a conversa. Em seguida, deu um pequeno apertão nas mãos da mãe e a soltou. Seus olhos verdes estavam sérios, graves no olhar azul celeste dela. O olhar que lhe lembrava inveja, tormento e rancor, os olhos que eram os olhos de Thor.
Mas que também eram os olhos de Frigga.
Sua mãe aparentou desistir. Deu-lhe um último sorriso triste, e se afastou do filho.
Ele a contemplou aproximar-se do campo de força da cela. Frigga sussurrou algumas palavras que não pôde compreender, e, em volta do corpo dela, passou a pairar um campo de força similar ao que lhe prendia ao seus aposentos confinados. Ela caminhou alguns passos, e saiu.
Quando já estava longe, Loki enfim permitiu-se responde-la devidamente.
– Ele não é meu pai. – Loki reiterou mais uma vez. Frigga parou de caminhar, mas não voltou-lhe o olhar. Mantivera-se de costas para ele, próxima de cruzar o corredor das masmorras e sair do alcance do olhar do deus.
– Mas você é minha mãe. – Loki respondeu. Ele viu as mãos de Frigga moverem-se, embora ela estivesse de costas. Percebeu-a levando-a uma mão de encontro a outra, e a fitou parada, assim, por alguns segundos.
O silêncio imperou, e Frigga voltou a caminhar.
Loki não mais a viu.
****
Devido ao marasmo, tédio e cansaço psicológico de estar preso por tantos dias, o deus cochilava com frequência. Mais uma vez encontrava-se sentado no chão branco da cela, suas costas apoiadas na mesma detestável parede, o queixo pendendo em um arco discreto para baixo, adormecido.
Horas mais tarde, naquele mesmo dia, foi acordado novamente por uma presença feminina. Uma presença feminina e de intensa carga mágica. Carga, agora, tão poderosa que poderia ser equivalente ao ancestral poder da deusa mãe da dinastia aesir.
Uma companhia que ele ansiara mais do que a da mãe, mas que não esperava ver de novo tão cedo. De fato, não era um bom sinal.
As duas no mesmo dia... Estão tentando me enganar.
Loki abriu os olhos, mesmo tendo acordado antes de sequer pisca-los.
– Vocês duas buscam o quê, me agradar? O que pretendem, supõem que vão me convencer a mudar meus planos? – O deus passou a debochar, sua voz soando sarcástica pela amplitude solitária das masmorras.
Curiosamente, sentia Miranda por perto. Porém, não a via. Sequer a ouvia.
O deus da trapaça moveu o rosto para a frente, de forma a tentar enxergar melhor o que lá havia. Archotes brilhavam acesos pelo ambiente de pedra escura, soturno. Suas chamas tremeluziam, bruxuleantes, trazendo sombras esquisitas para o piso.
Pareciam vislumbres de mau agouro.
– Está brincando de se esconder, agora? – O deus troçou, insistindo no sarcasmo. Não compreendia, porém, porque ela não se mostrara. Miranda se aproximava sempre com tanta ânsia dele, quase como se fosse atravessar o campo de força que o prendia dentro daquela cela. Aquele comportamento era de fato um tanto inusitado.
– Eu... Achei que assim seria mais fácil. – A voz de Miranda soou. Frágil, quebradiça. Distante.
O coração de Loki bateu um pouco mais forte. O que ela está tentando engendrar?
– Do que está falando? – O deus respondeu, sua voz ressoando agressiva, sibilante. Moveu-se para perto do campo de força, levantando-se de maneira abrupta. Seus olhos varreram as sombras das masmorras, e logo encontraram um vulto encapuzado. Vestindo roupas de viagem.
Os olhos de Miranda tremeluziram como as chamas dos archotes. Moveram-se, levantando-se até encontrar os olhos do deus da trapaça.
O olhar dela era firme. Resoluto... E distante, como sua voz.
– Eu não sei como... Como explicar. – A midgardiana parecia ter dificuldades em manter sua voz em um tom decidido. Suas palavras falhavam, seu timbre falhava. Ela estava enfraquecida, e parecia ter olheiras abaixo de seus doces olhos cor de mel.
– Comece pelo início. – O deus da trapaça debochou, porém sem sombra de humor em sua voz. Seus lábios endureceram em uma linha reta, compreendendo que algo desagradável estava por vir.
Mas não demonstraria abalar-se com o que quer que fosse.
– Odin... Odin não irá soltá-lo. Ele se recusou. – Miranda olhava para baixo, para os próprios pés, como se não tivesse coragem de encará-lo. Loki engoliu em seco, prevendo o pior.
– E você acredita? – O deus da mentira perguntou, duramente.
– Eu... Eu não sei. – A jovem mulher passou as mãos pelos cabelos, que caíram em cascata para fora do capuz. Abaixou-o, em seguida, e levantou o rosto para o deus mais uma vez.
– O que você sabe, então? – Loki foi direto, sentindo-se cada vez mais pesaroso, mas soando indiferente. Não admitiria o que quer que o abalasse. Manteria sua postura ainda mais distante do que a dela.
Ela não o veria vacilar.
– Onde pretende ir? – O deus da trapaça falou certeiro.
Miranda abaixou o rosto, abraçando os próprios ombros.
Então aconteceu.
Finalmente.
Aconteceu.
– Sua mãe me deu essa opção... Eu... Eu vou devolver a pedra da vida à Karnilla, em troca de proteção. Eu não sei mais o que fazer, Loki. Estou sozinha aqui. Completamente sozinha. E Hela está vindo. – O coração de Loki passou a retumbar dentro de seu peito.
– Você é patética. – O deus a desprezou, ignorando a sensação de estilhaçamento que sentia dentro de si. Ignorando a dor que sentiu em seu peito por ofendê-la, a dor ainda maior pelo que ela lhe dissera, pelo que ela pretendia e faria. – De fato, nem tudo correu conforme meus planos. Eu a julguei mais corajosa do que deveria... – Loki troçou, menosprezando a midgardiana. — ...Mas realmente não passa do que aparenta. Nem a pedra norn da vida foi suficiente para melhorar sua natureza. – O deus levantou uma das mãos, a abanando na direção de Miranda.
– Sua natureza fraca. Midgardiana. Sua natureza... Comum. Pífia. – O deus a desprezou, virando-lhe as costas.
– Você fez com que tudo fosse assim. – Miranda respondeu, ainda distante, porém sua voz transparecendo uma crescente ira. O deus se voltou para ela, girando em seus calcanhares. Seus olhos cor de mel brilharam, levantando-se e encarando os dele, em fúria. – Você me escondeu tudo, desde o começo. Você me usou, Loki. Arriscou a mim, a você, a todos nós. E agora você está preso, e permanecerá assim para sempre, mesmo que todos os Nove Reinos caiam e que você seja o último a ver o fim de tudo, assistindo do alto de sua cela. – As mãos de Miranda se crisparam em punho.
– Você me abandonou primeiro! – Ela se aproximou do campo de força, atirando a verdade no deus da trapaça como uma das bolas de fogo que aprendera a conjurar com esmero. – E é por isso que eu vou embora. Porque esta guerra não é minha. Você trouxe isso a você. A mim, e a todos nós. Você me envolveu nisso até o pescoço, arriscou a minha vida, e me tratou apenas como uma peça, desde o começo! – A jovem midgardiana respondeu, seu queixo tremendo.
Loki, de fato, não tinha como contestar aquilo. Não era tampouco imprevisível que ela reagisse daquela forma. Era o mais esperado, o mais compreensível, o mais justo, até...
...E por que o machucava tanto?
Miranda aguardou em silêncio, limpando as lágrimas que lhe caíam pelos olhos com as costas das mãos.
Ela o amava. Ele sabia disso. Tão claramente como sabia que sua mãe o amava, e era por isso que Frigga a protegia, era por isso que esconderia a midgardiana com Karnilla, agora que Hela chegava, e Odin ainda não o soltara. Porque até mesmo Frigga percebia o quanto ela o amava.
Loki experimentara na pele como afeição, admiração, companheirismo... Amor, tudo isso, todo esse sentimentalismo barato, era algo volúvel, e fugidio. Ele, que na infância, fora criado com um igual em relação a Thor, com o passar dos anos descobriu que a realidade não era bem assim. Conforme crescia, percebia que era desfavorecido em detrimento do irmão mais velho, tanto no que concernia aos seus direitos futuros, como nesses quesitos mais... Abstratos.
E Loki... Quem era Loki? Nada além do adotado.
Daquele por quem nutriam comiseração. Quando muito.
Thor é que era verdadeiramente amado; Thor era admirado, querido, vangloriado. Ele era apenas mais um figurante na história do irmão, do futuro Rei de todos os Nove Reinos. Loki era mais um na multidão, que deveria sorrir e saudar Thor, e recolher-se à sua insignificância. O mais amado por Odin. O mais amado por Sif. O mais amado pelos Três Guerreiros. O herói do povo aesir. O herdeiro de Mjolnir.
O merecedor.
Agora, Loki via, seus planos finalmente falhavam, e tudo porque confiara no que era, justamente, o fator mais sensível e traiçoeiro de todos.
Os sentimentos de Miranda para com ele.
Assim como tudo o que uma vez tivera, ela também fora tomada de si.
E, ele sabia...
...Porque ele mesmo o fizera assim.
– O que está esperando, então? – O deus da trapaça respondeu, debochado.
– Eu fiz tudo por você, tudo. – Miranda disse, sua voz soando cada vez mais baixa. O coração de Loki pareceu ter sido atingido por uma estalactite cortante, dividindo-o em dois pedaços feridos.
– Eu tentei até o meu limite. Mas não posso aguentar mais. – Ela falou, e ele sabia que seriam suas últimas palavras. A jovem mulher parecia resoluta, e Loki não conseguiria convencê-la do contrário.
Não quando tudo o que ela dissera não passara da mais pura verdade.
Verdade esta que nem mesmo o deus da mentira, do logro e da trapaça conseguiria distorcer.
– Adeus. – Loki disse por ela, facilitando seu próprio trabalho.
Miranda levantou os olhos para ele, uma última vez. Seus olhos cor de mel encharcados de lágrimas não conseguiam conter o pranto que transbordava por eles, ainda que as costas de suas mãos insistissem em secá-lo repetidamente. Aquilo o encheu de uma maldita sensação de carinho tão grande que ele mesmo poderia ter se suicidado, atravessando o campo de força de sua própria cela.
Vá.
Antes que eu também não possa aguentar.
– Adeus, Loki. – Ela respondeu, e lhe virou as costas tão rápido quanto surgiu. Em segundos havia desaparecido.
O coração do deus da trapaça ainda retumbava dentro de seu peito, descompassado. Aquele breve diálogo com a midgardiana lhe ferira mais do que as ofensas de seu pai, as injúrias dos gigantes de gelo quando fora a Jotunheim, a inveja mortal que nutria por Thor. Sentia como se seu corpo e sua alma tivessem sido surrados, seus músculos doíam, e a dor era tamanha que era quase anestesiante.
Então aconteceu. Ele piscou os olhos, encarando o vazio das masmorras.
Miranda se fora. Finalmente criara juízo e decidira abandoná-lo, depois de tudo que fizera a ela.
Loki fechou os olhos, angustiado. Tentou respirar fundo para se acalmar, mas o próprio movimento da inspiração forte lhe machucava. Deixou-se cair, lentamente, ao chão. Ao quedar inerte, suas costas arqueadas para a frente, sua cabeça pendeu para baixo, como se pesasse toneladas.
É assim que começará o Ragnarok?
O deus da trapaça pensou, e começou a rir nervosamente. Um riso sem som, enlouquecido.
Ao não conseguir mais gargalhar, Loki fechou os olhos, crispando as mãos em punho. Respirou devagar, tentando manter-se com alguma sanidade.
Depois de muito, muito tempo... Não sabia o que fazer.
Foi por isso que Frigga veio antes. Por isso todo o sentimentalismo fajuto. Nada daquilo viria de graça, é claro.
Estava tentando me consolar?
O deus da trapaça fechou os olhos, levando as duas mãos à cabeça, passando-as nervosamente por seus longos cabelos.
Fechar os olhos fora pior do que abri-los.
No escuro de sua mente, a imagem de Miranda brilhava ainda mais forte. Seus olhos cor de mel piscando com as sombras de mau agouro, despedindo-se furtivamente dele, na escuridão das masmorras. Abandonando-o, como tudo o que ele já prezara, como tudo que ele achara um dia ser dele.
Era tão previsível. Ele sabia que aquilo aconteceria. Mais cedo ou mais tarde.
Era uma questão de tempo até que ela o deixasse também.
Afinal, quem não deixaria Loki, o rejeitado?
Bem, Hela, pode vir agora.
Estou pronto.
Loki manteve os olhos fechados, crispou ainda mais os punhos, e gritou.
Enquanto gritava, soltara dentro de si uma concentração mágica tamanha que os objetos que haviam na sala flutuaram e foram atirados em todas as direções. Sua raiva, sua frustração, sua amargura contida misturavam-se à intensa angústia e agonia que sentia, e não seria impossível que ele mesmo destruísse o campo de força que havia na cela apenas com tal explosão de energia.
Lembrou-se do dia em que, nas praias de Vanaheim, Miranda tropeçara no Brisingamen. O colar de Freya, forjado para a deusa, e o símbolo do que aquilo representava. Lembrou-se do que sentiu, naquele momento, e o quanto aquilo o afetara.
Ela mal o deixara, e passou, contra todos os seus esforços, a lembrar-se de cada detalhe dela. O recente machucado em sua mão, criado por apertar com demasiada força a pedra norn da vida, um símbolo de sua fragilidade. Seus sorrisos travessos. Seus sorrisos doces. Seus sorrisos tímidos. A forma com que suas bochechas coravam quando ele se mostrava solícito a ela. As mil e uma expressões em seus olhos cor de mel.
Miranda chorando. Miranda sorrindo. Miranda gargalhando. Miranda xingando. Miranda o atacando. Miranda o defendendo.
Miranda deleitando-se em seus braços, enquanto ela o tomava para si.
Miranda se fora. Assim como se foram suas esperanças infantis, e sua certeza e segurança de lar. Se fora como os laços familiares que julgava uni-lo a Odin, Frigga, e Thor. Se fora como seus sonhos pueris de tornar-se um dia Rei de Asgard, e de ser alguém que todos iriam admirar.
Se fora como sua mãe biológica. Se fora como sua pretensão ao trono. Se fora como sua dignidade, sua honra, seu respeito.
Sua Miranda se fora.
E a culpa era toda dele por isso.

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