Journey Into Trickery

30 Do You Have To Let It Linger? - Parte Um


Notas iniciais
Olá, queridas leitoras! Demorei um bom tempo, um intervalo de quase dois meses, eu sei. Mas não é novidade para ninguém a carga imensa de trabalho e estudo que eu tive ultimamente, e, nessa altura do campeonato, a fic demanda momentos mais sérios e reflexivos. Tenho de pensar bem para escrever direitinho como vai ser essa guerra, e eu tento sempre me esforçar no que escrevo, para não sair malfeito, chato ou corrido. Assim, venho com dois capítulos, divididos em duas partes! Temos primeiro o final da conversa de Thor com Odin, algumas reflexões, e as primeiras funções de Sif, os Três Guerreiros, Thor e Miranda na guerra que se iniciará muito em breve. Ao final do capítulo, teremos uma surpresa, e nossa jovem midgardiana passará por mais um teste... Na segunda parte, teremos o desafio que Miranda enfrentará, e mais momentos Miloki que eu sei que todas gostam HAHAAHAH! =D É isso. Espero que apreciem os capítulos Devo agradecer à leitora Baggins, que voltou depois de muuuito tempo e comentou nessa segunda parte da história até o final! Peço a todas as comentaristas que por favor deixem reviews nas duas partes dos capítulos, por uma questão de cortesia mesmo. Agradeço especialmente às leitoras TheWitness e Baggins pelas maravilhosas recomendações, que me deixaram muito feliz! Aviso que a fanfic conta com 118 leitoras em Journey Into Trickery e 59 favoritações, bem como 135 leitoras em Living La Vida Loki, e 94 favoritações! Yaaay! Obrigada a todas que leem, e fantasminhas, espero que se sintam à vontade para se pronunciar! =D Respondo a todo mundo com gosto! Assim, beijos e boa leitura!

If you, if you could return
Don't let it burn
Don't let it fade
I'm sure I'm not being rude
But it's just your attitude
It's tearing me apart
It's ruining every day
For me
I swore I would be true
And fellow, so did you
So why were you holding her hand?
Is that the way we stand?
Were you lying all the time?
Was it just a game to you?
But I'm in so deep
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger...
Do you have to let it linger?
Do you have to...do you have to...do have to let it linger?

Oh, I thought the world of you
I thought nothing could go wrong
But I was wrong, I was wrong
If you, if you could get by
Trying not to lie
Things wouldn't be so confused
And I wouldn't feel so used
But you always really knew
I just want to be with you
And I'm in so deep
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do have to let it linger?
Do you have to...do you have to...do have to let it linger?

And I'm in so deep
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do have to let it linger?
Do you have to...do you have to...do have to let it linger?

You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do have to let it linger?
Do you have to...do you have to...do have to let it linger?

The Cranberries — Linger

A alvorada despontava no horizonte fulgurante de Asgard, banhando as terras da Cidade Dourada com os primeiros raios de sol da manhã. O céu, delineado pelo azul e rosa da aurora, parecia limpo, pacífico, em oposição ao clima pesado que pairava sobre o Palácio aesir.

Em uma larga varanda de pedra branca folheada com detalhes de ouro, Odin, o Pai de Todos, e seu filho primogênito, Thor, o deus do trovão, mantinham-se travando uma discussão aparentemente longe de qualquer acordo ou consenso.

– Pai... Seja razoável. – Thor implorou uma última vez, sua voz, porém, não usando um tom submisso, mas sim seguro e assertivo.

– Não há história ou apelo sentimental que poderá me convencer. – Odin voltou-se para o filho mais velho mais uma vez, seu olhar duro exibindo sua rigidez. – A única razão que me faz permitir que esta... Midgardiana – Thor, sentindo seus músculos enrijecerem de irritação pelo tom levemente superior que seu pai impeliu à última palavra, o lembrando de, ironicamente, seu irmão – continue perambulando sob meu teto e meu reino, foi pela súplica de sua mãe. – Odin mantinha o olhar firme e severo nos olhos azuis celestes de Thor.

Sabia o que ele queria dizer com isso. Frigga fora a única, dentre sua família e grande parte da Corte de Asgard, que de fato sempre se mantivera fiel ao pai. Thor já o desobedecera, Sif e os Três Guerreiros foram contra sua vontade mais de uma vez, todas estas relacionadas a decisões que envolviam o deus do trovão e Loki... Seria preciso listar as vezes em que de fato obedecera ao pai, e não o contrário.

– Ela será imprescindível para a nossa vitória. Porta consigo a pedra norn da vida, presenteada pessoalmente por Karnilla. – Thor defendeu.

– Presenteada? – Odin riu com escárnio. – Thor, terá se iludido tanto assim com o monstro que eu trouxe para nosso lar? – O Pai de Todos falou ferinamente, e o deus do trovão tentou manter sua postura firme, apesar do desprezo claro do pai contra Loki perturbá-lo.

– Loki trapaceou e nos enganou a todos para estar onde está agora. – Thor concordou. – Mas não temos como mudar o que já passou. – O deus do trovão tentou apelar mais uma vez para o bom senso de seu pai. – Não teremos de lidar apenas com Hela. Teremos de enfrentar Surtr, Hreidmar e todos os exércitos e criaturas de Muspelheim e Nidavellir. – O deus do trovão se adiantou, antes que Odin pudesse mais uma vez enfurecer-se com o fato de que fora Loki quem gerara todo este problema.

– Meu irmão nos jogou dentro de um ninho de serpentes. Mas jogou-nos com as armas para vencê-las. – Thor apelou. – Temos quatro pedra norns conosco, dentre elas uma que é fonte de uma energia sem igual em todos os Nove Reinos. Sabe o que significa termos a pedra norn da vida conosco nesse embate. Enquanto a mantivermos, não haverá derrota. – O deus do trovão falou, repleto de razão. A pedra norn de Karnilla que concentrava dentro de si a essência do que era o poder da vida, a única energia capaz de fazer frente à destruição e definhamento geradas pela energia assoladora da morte, era a fonte de poder mágico mais forte de todos os Nove Reinos.

– Enquanto a mantivermos. – Odin concordou. – Sabe que Hela tentará a todo custo conseguir este elemento. – Ele ralhou.

– Poderemos impedi-la. Poderemos impedir a todos os nossos inimigos, agora. – Thor insistiu, segurando o cabo do Mjolnir com tanta força que temeu parti-lo em dois. – Loki poderia ter clamado as pedras para si. Mas ele queria, desde o início, deixá-las exatamente com os portadores que agora as guardam. – Thor disse, relembrando toda a história de sua jornada até então, e o plano de Loki que já explicara ao pai, contado sob o feitiço do juramento, o impedindo de mentir.

– Ele quer sua liberdade de volta. – Odin disse, rangendo os dentes. – Acha que, se triunfar neste embate, sua sentença será evitada. – O olhar do Pai de Todos faiscou. –Sua frieza assassina e egoísmo foram capazes de colocar a vida de todos dos Nove Reinos em risco, para apostar na chance de sair-se bem sucedido. Não há perdão para os crimes deste monstro. – Ele sentenciou, por fim.

– Não contestarei seu julgamento. Nem o que fizer de mim. – Thor disse, a contragosto. Loki o traíra mais uma vez, e talvez esta amargura jamais fosse superada. Mas o tratamento que seu pai agora despendia ao filho adotivo apenas confirmava as palavras rancorosas do deus da trapaça a respeito da própria família. Odin não parecia nutrir nem mais respeito pela figura do filho mais novo, quanto mais sequer afeição.

Loki... Você tanto buscou que conseguiu ser exatamente o que dizia que era. Thor pensou, atormentado.

– Mas faço-lhe um último apelo. Tire-o da prisão. Liberte-o e faça-o cumprir todos os juramentos que quiser. – Thor interpelou. – Precisaremos de Loki nesta guerra, e sabe disso. – O deus do trovão implorou mais uma vez.

– Não. – Odin negou. – Ganharemos as batalhas com base nos poucos aliados que posso ter. – O Pai de Todos o encarou duramente, fazendo menção a recente traição de Thor. – Minha ínfima confiança em você está por um fio. É bom que saiba disso. Aja um movimento diferente do que combinarmos, e eu mesmo me encarregarei de sentenciar sua execução. – Odin falou, sua voz implacável trazendo um aflito nó no peito de seu filho mais velho.

Thor esforçou-se para não engolir em seco.

– Pai... – Ele tentou apelar para o emocional de Odin, mesmo sabendo que seria uma tarefa no mínimo arriscada. – Se Loki não estiver ao nosso lado, se Loki não lutar... Teremos certamente muito mais baixas. – O deus do trovão argumentou.

– E essas vidas não serão responsabilidade minha. Serão mais mortes para a lista dele. Mais destruição. Mais loucuras geradas por essa... Aberração. – Odin falou, ainda mais ressentido.

Thor deixou seus olhos fixarem-se na imensa ponte que se erguia até o centro da Cidade Dourada, passando a brilhar por baixo do sol da manhã que já começava a adquirir uma tonalidade mais forte. Ainda não era a hora de discutir. A atitude inflexível de Odin dificultaria e muito suas decisões, mas a confiança do pai ainda estava por demais abalada. Precisava recuperá-la, de alguma forma, antes.

– Temos de libertar Sif, Fandral, Hogun e Volstagg. Preciso treiná-los para as futuras batalhas. Eles poderão liderar partes de nosso exército. – Thor sugeriu, fingindo que acatou a decisão do pai.

– Faça isso. Quero que todos se apresentem, depois, junto a você, para me prestarem os devidos juramentos. – Ele deu as costas para o filho, voltando para dentro do Palácio. Thor o encarou caminhar para as portas da varanda, com seu batente tão dourado quanto os detalhes folheados a ouro da sacada na qual se encontrava.

– E quanto à Miranda Foster? – Thor perguntou, tentando tocar no nome da midgardiana com alguma delicadeza.

– Traga a midgardiana também. Quero todos prontos para lutar. – Odin exigiu. – E, à noite, Thor... Quero ter uma conferência a sós com ela. Mantenha o assunto em sigilo. – O Pai de Todos ordenou, e o irmão mais velho de Loki compreendeu o que pretendia. Odin estava curioso quanto à pedra norn, e queria examinar Miranda e o artefato que portava sem a interferência de Frigga, que agora zelava pela parceira de Loki como uma águia feroz protegendo seus filhotes.

Aquilo divertiu Thor o máximo possível, dentro da situação apreensiva na qual ele e todos os Nove Reinos se encontravam. O levou a imaginar se a mãe agiria desta mesma forma com Jane Foster, e o despertou pontadas de saudade que não sentia há tempos, desde que seus pensamentos foram consumidos pela mais recente traição do irmão mais novo. Quase o fez desejar que Jane estivesse ali, consigo, mas sabia que isto seria perigoso além da conta.

– Farei isso. – Thor concordou com as ordens do pai, que saiu austeramente de sua vista, sua capa balançando por trás de seus passos firmes que não denunciavam sua idade avançada.

Heimdall fora destituído de seu cargo, pela traição que cometera à Odin ao não contar-lhe sobre os planos de Thor de desobedecer suas exigências e ter libertado Loki. Tampouco ter-lhe contado a respeito do clone que o próprio Thor conjurara e mantivera na prisão no lugar do deus da mentira, durante todo o tempo em que esteve por Midgard e vagando pelos Nove Reinos afora, e até mesmo sobre o chão de Asgard. Ao voltarem ao Palácio asgardiano, e Loki ter sido novamente preso, Thor desmaterializou a imagem e o deus da trapaça voltou a ocupar seu lugar... De origem.

Arranjarei um jeito de fazê-lo lutar? Thor pensou, angustiado, e outro pensamento, pior, acometeu a si mesmo enquanto um lindo dia passava a se delinear pelos terrenos aesires. E se Loki não quisesse lutar? E se seu plano louco fosse, na verdade...

...Suicida?

Teria Loki encomendado a destruição de todos os Nove Reinos? Teria ele adiantado o Ragnarok, para ver de perto a destruição de toda a ordem e divertir-se, como um maníaco, ao ver de camarote o fim de toda a existência?

Lembrou-se da expressão ensandecida do irmão mais novo acima da Torre Stark, ao ver que seu próprio plano saíra do controle, há um ano atrás, em Midgard. Os invasores traziam destruição além do que eles mesmos poderiam saber, descontrolados, morte e caos assolava a tudo e a todos, e o rosto de Loki mostrara medo. Medo por, talvez, ter mordido mais do que conseguiria mastigar. Ter apostado mais do que conseguiria pagar.

Mas a realidade não era mais assim. Ele vira a forma com que o irmão olhava para a midgardiana. Os ciúmes que sentia dela, e a forma protetora com que a tratava, por mais que nem ele nem ela o percebessem com clareza. A forma como se dirigia a ela, e o desprezo forçado que tentava impingir em suas palavras quando se referia a ela, querendo disfarçar o que realmente sentia.

Mas Miranda estava constantemente nos olhos e nos pensamentos de Loki.

Thor percebia isso abertamente.

Mais do que seu pai, e talvez tanto quanto sua mãe, Thor conhecera Loki desde criança. Um menino arredio, distante, sempre inseguro, envolto com suas ideias mirabolantes e travessuras silenciosas. Somente Frigga conseguia mais abertura da parte dele, e Thor, quando estavam sozinhos em suas brincadeiras, e, um tanto mais velhos, em suas aventuras. Do resto, ele mantinha-se afastado, erguendo uma barreira invisível contra a aproximação alheia, como se temesse ser rejeitado.

Loki sempre se julgara pior e mais incapaz do que Thor, e por isso sabia que o invejava a um ponto doentio. Seu nascimento de irmão mais velho o permitia determinados privilégios que o irmão não dispunha, e talvez Odin se identificasse mais com o deus do trovão do que com seu filho adotivo. Mas o irmão jamais fora capaz de ver realmente a si mesmo. Ver que Thor e ele eram complementares, e transformar isso em uma energia construtiva, e não destrutiva.

Com o tempo, aquilo o consumiu em silêncio por dentro. Ao descobrir sobre sua adoção, Loki sentiu-se traído em último grau, como a última gota suportável. Foi o estopim para toda essa loucura, e esse desejo insano de vingança que o deus poderia nutrir até hoje.

Mas Thor percebia que aquilo amaciara um pouco. Vira o irmão apresentar reações e expressões mais verdadeiras nos últimos dias do que no último ano que se passara. De alguma forma, a figura de Miranda Foster o acalmara, e o próprio plano de Thor, elaborado há tanto tempo, com a ajuda de Jane... Aparentemente fora bem sucedido.

Loki não queria destruir a tudo e a todos.

Não agora que tinha alguém para proteger.

O que faz de mim o responsável indireto por toda esta guerra... Thor engoliu em seco.

O tabuleiro estava montado, e as peças estavam se movimentando. Era a hora de respirar fundo e se preparar para o que viria.

E, se possível... Ter alguma esperança.

Thor se lembrou da forma com que Loki olhara para Miranda, na estalagem que pernoitaram junto a Sif e os Três Guerreiros, alguns dias atrás. Dos ciúmes pelas provocações e flertes tolos de Fandral, e da forma cuidadosa com que a tratava, por mais que insistisse em agir rispidamente com ela, como se pudesse esconder seu afeto. Loki estava profundamente mexido pela midgardiana, e seria uma questão de tempo até realmente percebê-lo.

****

Miranda acordou nas primeiras horas da manhã, sendo despertada por criados do Palácio avisando-lhe que fora recrutada para o treinamento.

Mas que porra é essa? A jovem mulher bocejou, saindo dos cobertores pesados e dourados da cama oval que dormia, em um dos quartos de hóspedes do Palácio de Asgard. Suas paredes, pintadas em um tom acobreado, tinham inscrições em runas que desconhecia que faziam seu sangue ferver, sendo, possivelmente, dizeres de poder mágico, talvez feitiços de proteção para quem descansasse naqueles aposentos. Na frente de seu leito, havia uma enorme penteadeira com um espelho comprido e também arredondado em suas bordas, entalhado a ouro, com desenhos de pequenas flores desenhadas em sua borda como um arranjo circular pelo espelho, lembrando uma coroa de flores.

– Treinamento? – Ela perguntou, para a criada que já saía do quarto de hóspedes.

– O príncipe Thor e os nobres Sif e os Três Guerreiros terão de prestar juramento à Odin esta manhã. E deverá acompanhá-los, por ordens do Pai de Todos. – A servente, uma jovem moça morena, com olhos estreitos e azuis claros, explicou. – É tudo o que sei. – Ela explicou, sem jeito.

– Muito obrigada. – Miranda soou agradecida. A jovem foi dispensada, e logo saiu dos aposentos, fechando a porta. Ai, ai... A moça de olhos cor de mel pensou, nervosa, enquanto usava sua magia para prender seus cabelos na mesma trança que usara na noite anterior, descendo por suas costas. Colocou a mesma tiara de prata em sua testa, que pessoalmente apreciara muito, um dos diversos presentes recebidos por ela, vindos de Frigga. Se o “sogro” fosse tão fácil quanto a “sogra”...

Seria a segunda vez que se encontraria com Odin, depois de quando se conheceram daquela forma desastrosa. Sabia que ele provavelmente fazia péssimo juízo de si, dado seu envolvimento com Loki, o qual agora era certamente de seu conhecimento após Thor ter-lhe mostrado suas memórias da jornada deles até então.

Mas algo estava diferente. Assim que a criada se referira aos nomes de Sif e dos Três Guerreiros, Miranda percebera que Thor conseguira convencer o deus rei da dinastia aesir a libertá-los. Mas ele continua preso... A jovem midgardiana de cabelos castanhos sentiu-se angustiada, aflita para libertá-lo. Em seguida, ela recordou-se imediatamente das feições dele durante o que passaram no dia anterior, quando fora visitá-lo em sua cela em segredo.

A expressão de Loki, ao vê-la vestida com as roupas de noiva aesir, enganada docemente por Frigga... Fora algo que jamais imaginara poder ter a sorte de vislumbrar. O deus da trapaça, sempre arrogante e pretensioso, parecia sem jeito, realmente admirado, mostrando claramente em seu rosto suas feições de garoto, puras, de uma alegria tão genuína que a emocionara tanto que ela sentira vontade de chorar.

Seu coração palpitava dentro de seu peito, enquanto vestia a armadura que conjurara copiando o modelo da que Sif usava. Tinha consigo, guardada na mochila de pano simples com a qual viajara, a adaga de Fandral que Thor lhe dera, mas nenhuma outra arma. Loki... Ela pensou no deus da trapaça, o homem que tanto amava, e sentiu sua coragem recobrar-se dentro de si. Falta pouco agora. Tenho de insistir.

Assim, olhou para seu próprio reflexo no espelho. Em todos os seus 26 anos de vida, jamais imaginara que um dia estaria vivendo dentro de um romance de fantasia medieval... E mitologia nórdica. Como aquilo era possível era uma pergunta que passava muitas vezes dentro de sua cabeça, mas não havia mais tempo para isso.

Estavam caminhando para o “clímax da história.” Muitas batalhas travariam-se em poucos dias. O sinal da guerra já soara, e todas as partes já se movimentavam para se preparar.

Farei meu melhor para ajudar a todos. Miranda pensou, decidida, lembrando-se mais uma vez de que fora Loki quem expusera a todos e os deixara em perigo, mas que também lhes dera a chance de livrar-se de inimigos antigos e da maior ameaça em forma de profecia que pairava sobre os Nove Reinos: o Ragnarok.

“Até mesmo a menor das pessoas pode mudar o rumo do futuro.” Miranda lembrou-se da frase de seu livro preferido, e respirou fundo. Com sua mão que ainda não cicatrizara, ferida por apertar com força a pedra norn da vida em circunstâncias em que quase entrara em embate direto com Hela, a deusa da morte, ela ajeitou seus cabelos. Depois, tocou mais uma vez o artefato que portava.

Ela abriu a porta dos seus aposentos, e seguiu pelo corredor, decidida. Perguntou para o primeiro criado que encontrou, gentilmente, para onde deveria se dirigir para encontrar o Pai de Todos, e seguiu a direção.

Coragem, “Portadora do Anel”. Afinal de contas, você é uma das protagonistas desta história.

****

O dia se passou sem maiores dificuldades.

Miranda rumou até uma sala redonda, amplamente ornamentada com armas dispostas em estantes e compartimentos, como uma espécie de museu. Era iluminada por sólidos archotes dispostos ao longo de suas paredes, queimando em chamas altas e imponentes. A sala não tinha janelas, e se localizava bem abaixo do térreo do Palácio Real aesir, e suas paredes e chão eram compostas por mármore, diferentemente do tom dourado do resto do paço.

É a armeria do Palácio de Asgard. A jovem mulher de olhos cor de mel pensou, lembrando-se dos castelos e palácios que já visitara na Europa, em Midgard, que, geralmente em níveis subterrâneos, dispunham uma espécie de depósito e museu de armas.

Pela sala, ela via diversas ferramentas de guerra que reconhecia e outras que desconhecia, de lanças, facas, adagas a espadas, bestas, arcos e flechas, machados, martelos de guerra e armas similares a armas de fogo, em um formato curiosamente moderno e medieval ao mesmo tempo.

Todas pareciam bem conservadas, afiadas e prontas para o uso. Engolindo em seco, ela caminhou pelo chão de pedra que faziam os passos de suas botas pesadas como as de Sif ecoarem pelo grande salão de armas, e mais uma vez encarou Odin, o pai adotivo de Loki.

Seu olhar implacável estava tão rígido como na primeira vez que o vira. Se recusara a olhar para Miranda, aparentemente, durante todo o juramento, que fez o possível para não desviar seus grandes e redondos olhos cor de mel do rosto majestoso do pai do deus do trovão e do deus da trapaça. Estranhamente, ela reparou que o próprio Thor mal dirigira a palavra a si mesma. Ele deveria estar mais cheio de si por ter libertado os amigos... Algo aconteceu. Ela reparou, astuta.

Depois de fazerem os devidos juramentos a Odin, o deus apenas exigiu que os guerreiros treinassem e organizassem o exército aesir para estarem preparados quando os exércitos de Muspelheim, Helheim e Nidavellir viessem. Foi deixando-os a sós no que ela percebeu ser uma sala de combate, além de uma armeria. O formato redondo e espaçoso permitia que os combatentes tivessem espaço o suficiente para treinar, sem o risco de trombar contra algum móvel ou algum objeto parecido.

– Sif, deixarei o treinamento de Miranda a seu encargo. – Thor disse seguramente, num tom que não aceita não como resposta. – Fandral, Hogun e Volstagg. Tenho tarefas diferentes para cada um de vocês. – O deus do trovão falou, parecendo ansioso, enquanto os amigos se aproximavam e aguardavam suas ordens.

– Volstagg, você é amigo dos rufiões e dos povos bárbaros da periferia da Cidade Dourada. Quero que reúna os bons combatentes, os que poderiam ser soldados, e os convença a lutar do nosso lado. – O homem corpulento que lembrava Miranda da ideia de um dos anões crescidos das histórias de Tolkien concordou com a cabeça, cruzando os braços e passando os dedos pela lâmina do consistente machado que carregava em seu cinto.

– Hogun, preciso que vigie as fronteiras. Heimdall foi libertado e poderá vigiar o paradeiro de Hela, Surtr e Hreidmar, mas preciso que você descubra se temos traidores entre nós. Malfeitores ao longo das fronteiras de Asgard que permitissem a passagem de nossos inimigos. – Thor exibiu a inteligente estratégia, surpreendendo Miranda.

– Fandral, pedirei que lidere o exército aesir, por enquanto, e patrulhe a qualidade de guerra de nossos soldados em relação aos inimigos que vamos enfrentar. Hoje, farei companhia a você nesta tarefa. Lidaremos com guerreiros muito diferentes entre si, armas das mais variadas e magias diversas. Por nossas viagens, sei que conhece o que já enfrentamos em Muspelheim e Nidavellir. Helheim ainda é uma incógnita até mesmo para mim. E é aí que entra você, Miranda. – Thor virou-se subitamente para ela, enquanto ela ainda estava de queixo caído vendo a habilidade de general do deus do trovão.

– Oi? – A jovem midgardiana de cabelos castanhos ondulados perguntou, surpreendida.

– Se é a portadora da pedra da vida, é o contraponto para os poderes de Hela. Caso venhamos a sofrer um ataque surpresa de Helheim, algo menor e localizado, como imagino ser possível – Thor sugeriu com um brilhantismo e experiência bélicos que Miranda jamais imaginaria que ele poderia ter – teremos de ver até onde essa pedra norn poderá nos ajudar. Acredito que será o diferencial contra Hela. – O deus do trovão disse com propriedade.

Parecia imperioso como Odin ao liderar o grupo, apresentando seus lautos conhecimentos, e Miranda reparou nas expressões de profundo respeito de Sif e dos Três Guerreiros. Ainda que tenham sofrido o que sofreram, sendo presos e humilhados, por somente decidirem ter ajudado Thor, tinham uma obediência e reverência ao amigo sem igual. Logo ela passou a compreender um pouco da inveja que Loki sentia.

– Tenho sua palavra? – Thor perguntou mais uma vez, despertando Miranda de sua surpresa.

– Sim. – Ela se esforçou para manter-se tão resistente quanto o irmão mais velho de Loki, sem vacilar em sua resposta.

– Mais tarde, precisarei conversar com você. – O deus do trovão continuou. – A sós. – Ele olhou carrancudo para o resto dos companheiros.

Ai, fodeu. Miranda pensou, agoniada, percebendo que certamente enfrentaria mais algum desafio até o final do dia. Em seguida, movimentou a cabeça lentamente, aquiescendo a Thor.

Não tinha outra escolha.

Passaram-se alguns minutos, e cada guerreiro tomou sua posição. Sif e Miranda foram deixadas sozinhas para treinar, e ela reparou que a aesir morena parecia um pouco mais simpática à sua companhia, enquanto treinavam o combate corpo a corpo com a adaga de Miranda, seus respectivos escudos, e Sif passava a lhe ensinar a lutar com uma espada.

Talvez sentisse falta de alguma companhia feminina, ou talvez a jovem midgardiana tenha apenas se provado forte aos seus olhos, por tudo o que passaram juntas, mas de fato Miranda percebia algum conflito na forma com a qual a tratava.

Quando sorria de alguma piada que a jovem mulher de olhos cor de mel contava, logo em seguida fechava o rosto em uma expressão séria e desagradada. Quando baixava a guarda e respondia as perguntas de Miranda sobre a vida em Asgard com mais gentileza, logo depois soltava uma frase ríspida e deselegante. Talvez não apenas o fato de ser a “companheira” de alguém que Sif desprezava não fosse o único motivo, mas sim, curiosamente, o que poderia pesar mais em seu julgamento fosse o fato de ser parente de uma mulher que ferira mais o espírito de Sif do que todas as traições de Loki.

Sua prima Jane Foster, a amada de Thor.

Quantas almas atormentadas... Miranda pensou mais uma vez, debochando, enquanto girava sinuosamente e desferia um golpe certeiro na borda esquerda do escudo de Sif, despedaçando-o em dois. Evoluíra bastante na arte espadachim em uma tarde.

Ironicamente ou não, o pensamento que teve foi seguido de uma estranha sensação familiar de formigamento pelo seu corpo, seu sangue fluindo rápido por todos os seus membros. Seus pelos se arrepiaram, e ela sentiu que algo estava muito, muito errado.

– Está sentindo isso? – Miranda perguntou para Sif retoricamente, sabendo que ela negaria. A guerreira de cabelos escuros a encarou como se não compreendesse, e, em segundos, a porta da sala de armeria se abriu, enquanto uma fumaça negra surgiu em meio ao chão da sala, precedendo uma visitante que ela já conhecia.

– Miranda! – Frigga, fechando as portas com brusquidão, veio correndo em direção da midgardiana, sua trança loira esvoaçando elegantemente no ar enquanto se movimentava rapidamente. A jovem mulher reparou no olhar confuso de Sif, indo da deusa mãe da dinastia aesir para ela, como se estranhasse – e invejasse – o fato de terem ficado um tanto próximas com facilidade. As duas se curvaram em direção da deusa mãe, que segurou os ombros de Miranda, parecendo preocupada, olhando para a fumaça preta que já se esvanecia, revelando quem se escondia por trás dela.

– Criaturas de Helheim estão atacando. – A fumaça preta ao lado de Miranda sumia no ar, enquanto ela viu olhos verde esmeralda faiscarem em meio ao vapor escuro que desaparecia aos poucos. Leah. – Tem de vir comigo, agora. Thor tinha razão. – Leah disse enquanto lia os pensamentos de Miranda, lembrando-se de imediato ao receber a notícia do ataque de Hela de que o deus do trovão havia previsto o acontecimento.

Miranda lembrou-se do plano que haviam combinado, e de como mentira para Loki dizendo que não sairia de onde estava. Nervosa, franziu as sobrancelhas e passou a mão pelo rosto, mas já decidira como agiria.

– Vossa Graça. – Miranda referiu-se a Frigga com polidez, que franziu os lábios como se não gostasse do tratamento distante despendido por alguém que ela mesma fizera questão de considerar a “noiva” de seu filho mais jovem. – Irei sozinha. – Ela falou, resoluta.

– Não é uma boa ideia. – Leah disse, seus olhos duramente fixados nos olhos redondos e grandes de Miranda, como se a julgasse estúpida. – Precisamos ao menos de mais um acompanhante. – Ela insistiu.

– Sif? – Miranda perguntou, séria, desconsiderando a ideia de colocar Frigga em perigo. Sabia o quanto Loki amava sua mãe, ouvira-o resmungando em seus sonhos em Jotunheim, e vira seu conflito a respeito quando encontrou-se com Farbauti. Sif concordara com a cabeça, também parecendo ansiosa para enfim ir de encontro ao que espreitava lá fora.

– Eu irei também. – Frigga insistiu. No mesmo instante, as portas se abriram com um barulho surdo muito mais potente do que quando Frigga correu desabalada para dentro da armeria.

– Não. – O Pai de Todos caminhava imponente para perto de sua esposa, negando em tom de ordem. – Ela é a portadora da pedra norn da vida. – O olhar de Odin faiscou, finalmente falando diretamente com Miranda.

– Veremos o que é capaz de fazer. – Odin disse, e Miranda percebeu que aquilo era um teste.

Leah baixou o rosto, parecendo um tanto inibida na presença do deus pai da dinastia aesir, curvando-se junto a Miranda e Sif em uma postura de submissa educação. Nem mesmo essa fedelha insolente é indiferente a presença dele. Miranda pensou, enquanto a aprendiz de Hela lhe olhava, lendo seus pensamentos, seus olhos mostrando irritação pela jovem midgardiana ter reparado em seu desconforto.

– Leah. – Miranda referiu-se à aprendiz de Hela rapidamente. – Sinto, pelo peso no ar, que esta é magia vinda de Helheim. Mas não consigo aferir a presença de Hela. – Ela aguardou assim a confirmação tácita da garota de olhos verde esmeralda.

– Hela não está aqui. – Leah confirmou, e Miranda sentiu-se um mínimo mais aliviada. – Ela mandou apenas servos. Entretanto, ao perceber a presença deles, não perdi tempo conferindo quem eram. Vim o mais rápido que pude para alertá-los. – A garota falou, olhando para todos menos para Odin, que imaginava possivelmente desconfiar dela.

– Faça o que deve fazer. – Odin ordenou, e mencionou implicitamente o juramento. Foi assim realizado de prontidão por Leah, parecendo aflita por ter de tocar nas mãos do deus rei da dinastia aesir. – Sif, acompanhe-as. – O deus decidiu pelas três mulheres.

– E lembrem-se... Só poderão voltar se tiverem eliminado esta ameaça. – Odin pontuou, ameaçador. Não precisa lembrar do óbvio, velho simpático. Miranda pensou, levemente amargurada por ver o tratamento autoritário que o deus despendia a todos, por mais que estivesse querendo proteger Frigga com tal atitude. Reparou que um sorrisinho minúsculo surgira no rosto de Leah, que lera seus pensamentos mais uma vez.

Fazendo uma última curvatura para os dois, Miranda olhou discretamente para Frigga, que lhe deu um olhar significativo de volta, como se pudessem conversar por telepatia. Percebia que a estratégia da mãe de Loki, para discordar de Odin e de sua postura, era fazer o que queria por debaixo dos panos, parecendo submissa sempre a ele, à sua frente.

Cuide dele por mim. A jovem midgardiana de olhos cor de mel pensou, nervosa, lembrando de Loki, preso em sua cela. Sabia que Frigga compreendera a intensidade de seu olhar, pois lhe dera uma piscadela basicamente imperceptível de apoio.

Mas Miranda sabia que voltaria. Tinha de voltar. Não apenas por Loki, mas por si mesma.

Iria provar para Odin do que a parceira do deus da trapaça era capaz.

Notas finais
Aguardando reviews nas duas partes! Sejam meigas, por favor, e comentem! =D