Journey Into Trickery
31 Do You Have To Let It Linger? - Parte Final
Notas iniciais
Seguindo seus instintos guiados pela pedra norn da vida e a direção que Leah lhe indicara, Miranda, Sif e a aprendiz de Hela subiram em um veículo aéreo que Odin lhes permitira usar para chegar no ponto em que as criaturas de Helheim haviam invadido Asgard com mais rapidez, e em algumas horas já estavam na periferia de Asgard, em uma região ao sudoeste da Cidade Dourada, um tanto mais rústica e bem menos suntuosa do que o centro.
Sif, a pilota do veículo, o parou em uma rua ampla, e, assim que desceram dele, perceberam algo de muito estranho no ar. Literalmente.
Uma névoa acinzentada pairava em volta das casas, se movendo agourentamente, devagar, como se fosse consumir aos poucos toda a Cidade Dourada. Toda aquela região a sudoeste parecia ter sido sorvida pela penumbra, a qual era estranhamente gélida.
Não parecia natural, porém. A névoa não tinha relação alguma com a cerração de inverno que alguns países em Midgard dispunham, mas sim com algo gerado por uma força diferente das meras estações do ano. Estavam em dias do fim de novembro, e inverno começaria muito em breve até mesmo em Asgard, segundo o que Frigga lhe contara, mas ainda assim aquele frio, aquela sensação enregelada que entrava por dentro de seus poros, ia até a sua alma... Aquilo estava errado.
Era algo sobrenatural.
– Façam todo o silêncio possível a partir de agora. – Leah disse, muitíssimo séria. O grupo de três mulheres pareceu assumir um ar de austeridade sombria, avançando lenta e cuidadosamente em meio à névoa.
Era tão densa que Miranda sequer conseguia enxergar a própria mão adiante de si mesma. Lembrou-a, com uma sensação desconfortável em seu estômago, sentindo sua bile subir como se fosse vomitar... Da escuridão de Helheim.
– Esse é o primeiro estágio. – Leah sussurrou, claramente lendo os pensamentos de Miranda mais uma vez.
– Quem é que está fazendo isso? — A jovem midgardiana perguntou, murmurando, e Sif se mantinha aprumada e silenciosa. Seus olhos negros, porém, faziam Miranda perceber o quanto estava assustada com tudo aquilo. Provavelmente não tinha familiaridade alguma com o horror vindouro de alguns locais de Helheim.
– Só posso imaginar. – A aprendiz da deusa da morte respondeu, fechando os olhos, como se tentasse sentir a presença da criatura que fosse e adivinhar sua identidade. – Sei que esta névoa é o primeiro estágio para criar uma zona de desespero. Como o lago de Helheim que você conheceu. – Ela mencionou o lago das almas desafortunadas que cometeram diversos crimes em vida, condenadas a pagá-los até enfim ter paz. Miranda sentiu um calafrio horrendo subir pela sua espinha dorsal, e teve de se controlar para lutar contra o pavor. Sua mão direita apertou com força a pedra norn da vida, pendurada no colar em seu pescoço, que parecia incrustar-se cada vez mais em seu peito, ferindo-o também.
– É por isso que era tão escuro? – Miranda perguntou, referindo-se ao ambiente aterrorizante das regiões de Helheim que visitara, tétrico, funesto, que também a impedia de ver um palmo na frente do nariz. Lá, passou o tempo todo sentindo-se vigiada por sentinelas no escuro, sombras espreitando em meio à completa escuridão.
– Sim. – Leah assentiu. – A névoa veio primeiro. Igual a esta. Conforme as almas iam chegando, desesperando-se cada vez mais em sua punição, sua essência de desconsolação e maldade ia se espalhando pelo lago e os lugarejos próximos, contaminando-os com isso. Esta névoa é a materialização dos desejos cruéis destes espíritos e do horror que eles mesmos sentiam. Qualquer ser mortal é afetado por isto, seja um deus ou... Uma midgardiana.
Miranda já tremia dos pés à cabeça. Lembrou-se completamente da sensação de profunda angústia de estar em Helheim, e de como queria contar os segundos para abandonar aquele lugar medonho. Não tinha a escolha de fugir, agora, apesar de seu corpo todo implorar para que ela assim o fizesse. Leah a olhava com uma postura questionadora, como se duvidasse da resistência de Miranda.
Vou provar para eles. Para todos eles.
Subitamente, o coração de Miranda ameaçou parar. Sua boca abriu-se no mais profundo pavor, ao reconhecer o grito agudo e horripilante que escutara.
– Onde está Sif? – Ela perguntou, olhando ao redor de si mesma, já cedendo um pouco ao medo. Passou a dar voltas em círculos, sem pensar, até que Leah a segurou.
– Calma. – A menina de olhos verde esmeralda a puxou por uma das mãos. – Tente raciocinar. O que eles mais querem é que você ceda ao terror. – Ela insistiu. Leah fora criada em meio a esse ambiente, aquilo tudo não era novidade para ela, apesar de não saber quais foram as criaturas libertadas das tumbas de Helheim.
– Como podemos derrotá-los? – Miranda tentou raciocinar, nervosíssima, seus joelhos bamboleando tanto que não compreendia como sequer conseguia avançar. Sua mão segurando a pedra norn da vida já sangrava novamente, intensificando ainda mais a profundidade do ferimento em sua palma da mão.
– Use este seu artefato. – Leah disse, como se fosse óbvio, mas Miranda não conhecia o suficiente o poder da pedra norn de Karnilla que lhe fora oferecida para saber como fazer frente ao que estava gerando tudo aquilo. Sentiu mais uma vez raiva de Loki por não ter-lhe instruído o suficiente, e a manipulado tanto que de novo se encontrava em uma situação de risco de vida.
Irritando-se e magoando-se mais uma vez com a postura negligente e cretina do deus da trapaça consigo, Miranda foi capaz de superar um pouco do medo, sentindo mais raiva do que temor. A partir disso, estudou as casas campesinas que surgiam aos poucos em meio à névoa vultosa, mostrando detalhes de portas, janelas e pequenos muros de pedra campestre.
– A população toda está escondida em suas casas. – Miranda sussurrou para Leah. – A névoa consegue entrar nas construções? – Ela perguntou.
– Acredito que não. – Leah falou. – Este tipo de penumbra é gerada por criaturas espirituais, mas é bem mais forte do que a feita pelos espíritos atormentados que você viu. A escuridão ao redor do lago era claridade em comparação a alguns outros locais de Helheim. – A aprendiz de Hela disse, macabra. Miranda sentiu o mesmo calafrio outra vez, tremendo dos pés à cabeça.
– Para entrar dentro das casas, o que precisaria acontecer? – Miranda perguntou em murmúrios, vendo alguns corpos mortos – ou desacordados – nas ruas pelas quais seguiam. Seus rostos pareciam petrificados em expressões de horror, e ela se esforçava para não olhar.
– Serem convidados. Teriam que deixar uma porta aberta, ou janela, algo do gênero. – Leah disse.
– Tenho uma ideia. – Miranda sussurrou para Leah, enquanto pensava em seu plano.
– Pode funcionar. – Leah respondeu, suas sobrancelhas franzidas em uma expressão pensativa. – Procurarei por Sif. – A aprendiz de Hela falou. – Faça o que fizer... – Ela baixou ainda mais a voz, e desta vez pareceu angustiada. – Não deixe que eles te peguem. – Leah disse, parecendo levemente preocupada, e, antes que Miranda pudesse respondê-la, moveu as mãos e sumiu em uma pequena nuvem de fumaça preta em meio à penumbra acinzentada.
Estava sozinha agora.
E tinha de botar sua ideia em prática.
A passos largos e demorados, Miranda sentia seu corpo pesando como se fosse um fantasma carregando correntes atrás de si. Era difícil avançar sem a companhia de Leah, que aplacava um pouco a aterrorizante sensação de desespero que sentia, por sua calma e indiferença em frente aos habitantes hostis que haviam em Helheim.
Andando mais um tanto, Miranda reparou em uma porta fechada entre montes e montes de neblina cinzenta, e pediu desculpas imediatamente em pensamento à família que ali poderia morar.
Ela abriu a porta, e teve de fazer um esforço sobrehumano para olhar para trás.
Sabia que o que quer que estivesse ali, atendera ao seu chamado.
Vindos, pairando no ar, arrastando-se pela chão, de todas as direções... Criaturas e criaturas em formas de vultos, a substância da qual eram feitos os pesadelos, sombras com longas unhas em mãos putrefatas, saindo pelo que pareciam vestes imateriais de horror, chegavam cada vez mais perto de Miranda, assombrando-a de todos os lugares.
Eram a própria escuridão e o desespero personificados em formas indistintas humanoides, rindo com escárnio, soltando seu hálito de morte por todos os cantos, aumentando a penumbra cada vez mais.
Uma das mãos se aproximou dela, e ela olhou aterrorizada para as unhas amareladas e putrefatas que quase tocavam sua pele. Lembrou vagamente de Leah dizendo que, se a tocassem, tudo estaria perdido. Percebia o controle de sua mente e corpo indo embora pouco a pouco e cedendo lugar ao desespero, e tudo o que queria era que tudo acabasse logo.
A centímetros de ser tocada por inúmeras das criaturas, as mãos em garras aproximando-se tanto que destoavam pela névoa do horror acinzentado, ela passou a ouvir.
Ouviu primeiro a voz de Jimmy gritando por ela quando morreu. A voz dele foi substituída pela voz de Jane, berrando de dor como se estivesse sendo torturada, para depois passar à voz de Loki... Gritando descontrolado como se alguém arrancasse fora cada centímetro de sua pele.
Miranda não pensou. Simplesmente agiu.
Tirou o colar ao redor do pescoço, e manteve a pedra norn à frente de si, como se a estivesse exibindo para as criaturas com as mãos em concha. Sua boca passou a se mover, proferindo o encantamento que aprendera com Loki, antes que sequer pensasse em realizá-lo. Sentiu seus olhos se arregalarem cada vez mais, mas não sentia mais medo.
Apenas fúria.
Ninguém tocaria nele. Ninguém.
A pedra norn da vida passou a cintilar com uma intensidade que quase cegou os olhos de Miranda. Foi obrigada a fechar os olhos enquanto gritos de horror eram proferidos, mas não por parte dela ou reproduzindo vozes de pessoas que ela amasse. Sentiu raios de luz saírem de dentro da pedra da vida, atirados em todas as direções, parecendo infinitos e indefensáveis.
Os espíritos agourentos de Helheim estavam apavorados, berrando como se estivessem sendo levados pelo mais profundo terror.
Miranda abriu os olhos depois de alguns segundos, e pôde ver, quase sem acreditar, seus vultos sendo estilhaçados em mil pedaços imateriais de névoa escura, e ver, pouco a pouco, a penumbra acinzentada que geraram se dissipar. Podia ver cada vez mais os contornos das construções ao redor, as árvores nas imediações, e até mesmo o céu azul cerúleo brilhando festivo acima de si.
Começou a rir, aliviada. A sensação de pavor se fora, e ela pôde colocar o colar portando a pedra em volta de seu pescoço mais uma vez. Respirou fundo, recuperando-se devagar, enquanto caminhava, sentindo-se muito cansada, procurando Sif ou Leah. Viu um sinal de uma silhueta de uma menina usando um vestido verde esmeralda como seus olhos, e a armadura vermelha e prateada de Sif resplandecendo ao longe.
Completamente esvaída de suas forças, Miranda fechou os olhos sentiu que iria desmaiar.
A última frase que ouvira fora proferida pelo que pareceram muitos e muitos habitantes de Asgard, bradando.
“Ela nos salvou! A maga verde nos salvou!”
Miranda sorriu, sentindo seu corpo cair contra as pedras brilhantes das ruas aesires, e perdeu a consciência.
****
Acordou e já tinha anoitecido.
Miranda abriu os olhos, e, sentadas em volta de sua cama, estavam Frigga, Leah, Elaine e agora... Sif. Piscou algumas vezes, percebendo que a “comitiva de mulheres” agora contava com uma membra a mais.
– Você foi maravilhosa hoje. – Frigga a elogiou com doçura, e Miranda sentiu-se imediatamente lisonjeada. Mal tinha acordado, e já sentira suas bochechas ficarem enrubescidas pelo elogio.
– Bem... Não sei nem o que eu fiz. – Ela admitiu, rindo, e Frigga lhe sorriu em resposta. Sif, parecendo um pouco mais aberta, sorriu também, e ela reparou que a guerreira tinha os cabelos negros agora com mechas grisalhas, algumas até mesmo brancas. Elaine tinha lágrimas nos olhos, e Leah revirou os seus, como se a ignorância de Miranda a respeito de magia não fosse mais do que o esperado.
– O que aconteceu com o seu cabelo? – Miranda perguntou, engolindo em seco.
– Foram os espíritos hostis de Helheim. – Leah respondeu, indiferente. – Foi por pouco que você a salvou de ter sua alma devorada. Eu não conseguiria impedir. – A menina disse, como se o assunto não a emocionasse em nada.
Miranda compreendeu que Sif perdera a cor dos cabelos de tanto pavor. Sentindo-se empática com o sofrimento da guerreira tão corajosa e disposta, Miranda tentou tocar em uma de suas mãos demonstrando apoio, mas ela a desviou antes que ela pudesse tocá-la. Criaturinha difícil. Parece alguém que eu conheço. Ela pensou, lembrando-se de Loki, e Leah revirou os olhos mais uma vez, provavelmente lendo seus pensamentos um tanto melosos.
– Eu acho que posso curar esse efeito. – Elaine se prontificou. – Conheço alguns bons encantamentos de cura, mas demorarão algum tempo até permitir que seus fios voltem à cor normal. – A ninfa loira garantiu, sorrindo. Miranda percebeu que Sif não gostava muito dela. Elaine representava o tipo oposto da guerreira apaixonada por Thor, e era previsível que a aesir morena fosse ser cheia de dedos com ela.
– Não me importo com estas futili... – Sif já ia responder, ríspida, mas o modo como Elaine se assustou com seu tratamento duro fê-la levantar uma sobrancelha, surpresa. O jeito infantil e indefeso da ninfa era surpreendente para a guerreira aesir.
– É bom para manter sua boa aparência. – Frigga respondeu, tentando conciliar as duas, dando uma piscadela para Sif, como se estivesse sugerindo algo. Miranda percebeu que estava se referindo ao interesse da guerreira morena por Thor, e não sabia se deveria incentivá-la ou não, estando do lado de Jane e, ao mesmo tempo, querendo agradar Frigga.
– Se Vossa Graça assim desejar... – Sif baixou os olhos e assentiu, e Frigga levantou seu rosto, sorrindo-lhe também do jeito acolhedor que lhe era típico.
– Frigga. Conheço-a desde que era uma menininha, menor do que Leah. – Ela pediu que a tratasse com mais informalidade.
– Não sou uma menininha! – Leah exigiu, agora ofendida, e todas riram. Sabiam que Leah tinha a aparência de uma criança por ser aprendiz de Hela, sua fisionomia era o espelho da posição de submissão que ocupava, mas na verdade era mais velha do que metade das presentes daquele quarto.
– Miranda. – Frigga voltou-se para ela mais uma vez. – Temos de lhe agradecer pelo que fez hoje. Falo por todas, e por toda Asgard. Mas, agora que despertou, Odin lhe aguarda para conversar consigo. Pediu pessoalmente a mim que lhe chamasse. – Ela lhe disse, calma. As outras três mulheres levantaram-se e saíram dos aposentos, a um gesto de Frigga, pedindo-lhes privacidade.
– Acredito que ele queira entender um pouco mais a respeito do poder que porta consigo. – Frigga disse dubiamente, sem se referir apenas a pedra norn da vida. Sua frase deu a Miranda a impressão de conter múltiplas interpretações no que queria dizer. Talvez a respeito do porque era capaz de usar a pedra norn da vida sendo uma midgardiana, um ser fraco demais para levar energia tamanha. Talvez tivesse de lhe contar que recebera o toque de Hela, e será que ele não a julgaria perigosa demais?
Será que, dentro das possíveis interpretações do que Frigga queria dizer... Ela estivesse mencionando um possível poder até mesmo sobre... Loki?
– Eu... – Miranda não sabia o que esperar, e não tinha certeza se poderia perguntar a Frigga o que seu marido pretendia. Mas a deusa foi mais rápida, outra vez.
– Acho que você pode ter alguns minutinhos para se munir de coragem antes de falar com ele. – A deusa mãe da dinastia aesir lhe piscou os olhos, e ela sorriu de volta, compreendendo.
– Mas como posso descer aos calabouços? Não podemos tentar distrair os guardas duas vezes seguidas sem que pareça suspeito... – A jovem midgardiana de olhos cor de mel disse, sem saber como Frigga poderia permitir que visse Loki, antes de “enfrentar” Odin.
– Eu tenho meus... Truques. – A deusa mãe brincou, e fez um gesto cúmplice com as mãos, para que Miranda se levantasse. Em seguida, uma defronte a outra, Frigga transformou a armadura que Miranda usava no mesmo vestido da noite anterior, sorrindo-lhe travessa. A deusa mãe disse palavras que a jovem mulher não entendia, e, antes que soubesse o que se passava, Miranda se viu dentro da cela de Loki.
Deitado adormecido em um canto, Miranda sentiu seu coração palpitar ao vê-lo, depois de um longo dia. Antes, até desejara que ele visse seu sucesso na região de Asgard atacada pelas criaturas de Hela, mas agora, sentiu-se feliz por vislumbrá-lo seguro, mesmo que preso.
Emoções controversas invadiram seu ser, entre a raiva por tudo que ele a escondera e o quanto a manipulara até então, a fúria contra Odin por deixá-lo preso, por mais que o deus da trapaça o merecesse, e o amor que já sabia nutrir por ele transbordando por cada poro de seu corpo.
Loki estava ali, descansando, seguro. Só isso a deixava radiante de felicidade.
Os olhos do deus da trapaça se moveram lentamente, e, em um espasmo de surpresa, ela viu seu corpo tremer, seus olhos verdes se arregalando ao fixarem-se no rosto de Miranda. Um sorriso percorreu seu rosto, parecendo surgir involuntário, enquanto ele logo depois tentou endurecer sua postura e manter-se sério.
Porém, ainda assim suas feições demonstravam a mesma admiração do dia anterior, ao vê-la vestida com vestes de noiva aesir. Seu sorriso de garoto continuava brincando em seu rosto, por mais que ele aparentasse tentar disfarçá-lo.
Sentindo suas bochechas enrubescerem, Miranda aproximou-se dele, que foi lentamente se levantando.
– O que está fazendo aqui? Ela te enviou outra vez? – Loki perguntou, tentando deixar sua voz indiferente, porém saindo macia e até mesmo carinhosa. Miranda sentiu suas bochechas queimarem ainda mais, e era difícil não atirar-se no pescoço dele e beijá-lo como se nada no mundo importasse além disso.
– Sim. Odin quer conversar comigo. – Miranda explicou, levantando uma sobrancelha, desconfiada.
Loki franziu as sobrancelhas. Não parecia esperar por isso. Ele passou a andar ao redor de Miranda, um tanto desconfiado, suas mãos cruzando-se às costas. Ela reparou que ele passara a vestir uma camisa verde, simples, e calças um tanto largas, longe das roupas vaidosas que ele costumava utilizar.
– O que você fez? – O deus da trapaça falou, entendendo, e dessa vez sua voz saiu gélida.
– Odin pediu que eu enfrentasse as criaturas de Hela. Não tive outra escolha. – Miranda falou, omitindo o fato de que mesmo se o pai adotivo de Loki não tivesse exigido que lutasse contra elas, teria ido do mesmo jeito. A expressão de Loki ficou ainda mais inquisidora, e ela passou a explicar desde o ataque repentino até as feições das criaturas, o que ocorrera com Sif, o que Leah lhe dissera, o feitiço que realizara e quando enfim acordara depois de desmaiar.
– Ele queria lhe testar. – Loki confirmou o que Miranda desconfiara, seus dedos brancos passando por seus lábios franzidos em uma linha reta. Parecia profundamente desagradado com a atitude do pai. – Aquele velho raposa queria ver o quanto você dominava seus próprios poderes. – Ele adicionou. – Deu a ele uma bela amostra. – Loki sorriu sarcástico, entre o divertido pelo que provavelmente fora a surpresa do pai, e o irritado com a exposição que ele fizera de Miranda, aparentemente.
– O problema é que Hela agora também sabe. – Miranda pontuou, inteligentemente, sua mão ferida indo de encontro à pedra norn da vida ao redor de seu pescoço. Loki a encarou realizando o gesto, e teve o impulso de puxar a mão dela, impedindo que ela apertasse a pedra contra o machucado mais uma vez. Ao tentar tocar-lhe, a mão de Loki atravessou a mão de Miranda, como se ela fosse apenas uma imagem.
Uma ilusão. Frigga tem o mesmo poder que ele. Ela olhou para as próprias mãos, compreendendo o truque o qual a deusa mãe realizara.
Parecendo um tanto frustrado, o deus da trapaça lhe respondeu quase indiferente:
– Ela saberia de outras formas. Hela tem noção das capacidades mágicas de Karnilla, mais do que meu limitado falso pai. – O deus debochou. – O importante é que você mantenha a promessa que fez a mim. – A expressão de Loki subitamente mudou de debochada para resoluta. Seus olhos verdes fulminantes estavam nos olhos cor de mel de Miranda, que sentiu que seria uma tarefa quase impossível manter a mentira.
– Vou manter. – Ela mentiu, e se esforçou para não demonstrar a verdade.
– Não vai. – Loki já sabia, e passou a olhar com raiva para Miranda. Afastou-se dela, andando a passos largos pela cela. – Não vai, percebo que não vai. Mesmo que ninguém lhe obrigue a nada. – Ele disse, irritado.
– Mas eu tenho a pedra norn da vida comigo. Não vou fazer nada, estou protegida. – Miranda tentou defender-se, mentindo.
– Não está! Não está protegida! – Loki bradou, sério, sua voz sibilante subindo alguns tons. Miranda recuou alguns passos, sentindo-se um pouco ameaçada pela ira do deus.
Em seguida, ambos olharam na direção de onde, ao longe, haviam alguns guardas, temendo que pudessem ter escutado algo suspeito. Aguardaram alguns minutos em silêncio, e Loki logo continuou:
– Você terá de confiar nessa pedra norn às cegas, porque não vão me permitir treiná-la. – Ele disse, e Miranda, sem saber exatamente por que, viu-se bobamente enrubescendo mais e mais.
– Não preciso de mais treinamento. Funcionou muito bem hoje e... – Ela sabia que estava dizendo bobagens, mas precisava acalmá-lo. Queria apenas vê-lo, não exaltá-lo, o que ia contra o que planejara com Frigga. Loki prontamente a interrompeu, furioso:
– O que você fez hoje foi ridículo. – Loki disse, sério. – Acha que vai enfrentar meros espíritos de horror dos confins de Helheim? – Ele soltou um riso seco de deboche. – Já a julguei mais inteligente do que isso. Não se faça de sonsa. – O deus da trapaça a atacou.
– Há muito pior para enfrentarem, e esse velho maldito ousa me deixar trancafiado, quando sabe que precisará de mim! – Loki socou a parede com força, deixando a discrição de lado. A marca de seu punho se fez visível contra a superfície branca, antes completamente harmoniosa.
– Você disse que eu estava protegida. Você me garantiu isso. – Miranda disse, séria, tentando acalmar o deus e confrontá-lo ao mesmo tempo.
Loki levantou o rosto rápido, e seus olhos pareceram subitamente preocupados. Parecia que ele queria ir em direção dela... Como se tivesse controlado o impulso de abraçá-la. A jovem mulher de olhos cor de mel sentiu seu coração retumbar sem ritmo dentro de seu peito.
– Eu sei. – Sua voz saiu mais calma e branda, e Miranda sentiu suas faces queimarem outra vez. – Você está, enquanto estiver ao lado dela. – Loki se referia a Frigga, enquanto caminhava mais para perto de Miranda. – Mas é fundamental que não saia de sua proteção. – Ele insistiu, sério. – Peça a ela que tente convencer o velho teimoso e limitado. – Loki ofendeu o pai adotivo.
– Está sendo muito difícil. Essa situação em que você me colocou. – Miranda sentiu suas emoções aflorarem. Raiva, culpa, medo, paixão, amor, decepção, frustração... Saindo enquanto via aqueles olhos verdes que mais amava em todos os Nove Reinos. Não mais temia parecer fraca na frente dele. Apenas queria que tudo fosse mais simples.
Que o que sentisse fosse muito mais simples.
Loki foi até ela, caminhando a passos largos. Parou bem a sua frente, e levantou uma das mãos, como se pudesse tocá-la, parando no meio do movimento. Miranda e ele se olharam por segundos que pareceram uma eternidade, e ela se perguntava porque não poderiam, simplesmente, estar juntos.
– Eu sei. Mas você está segura, seguindo o que lhe falei. – Loki disse, a mesma voz macia e reconfortante que fazia o coração dela saltitar. A jovem moça levantou uma das mãos para tocar a mão dele que parara no ar, e vira o fluxo de energia da magia de Frigga brilhar enquanto praticamente se tocavam.
Tão perto, e tão longe...
– Está tão linda agora, pequena... – Loki falou menos do que um sussurro, sua voz dizendo implicitamente o quanto queria poder tocá-la. Miranda soube, naquele momento, que não era ela apenas que desejava que tudo fosse mais simples. Ela fechou os olhos e encostou a cabeça em seu peito, sentindo que queria chorar, sem conseguir de fato encostar nele.
Mas não choraria agora. Se recusaria.
Sentindo seus olhos marejados, ela levantou os olhos para Loki, que enlaçara a figura de sua ilusão, mesmo que não pudesse tocá-la. Seus dedos finos e longos passavam bem rente à tiara que usava, com as duas asas laterais, suas sobrancelhas franzidas em uma expressão que parecia profundamente carinhosa e preocupada, estudando o rosto dela, sua trança, seu vestido, mais uma vez. Era tudo tão sincero e surpreendente que era difícil não chorar.
Ele queria sair logo daquela cela, e ela percebia isso claramente.
– Acho que tenho que ir. – Miranda disse a contragosto, vendo que sua ilusão começara a desaparecer. Queria mergulhar mais fundo naqueles orbes verdes, o verde do amor mais profundo que já sentira.
– Espere um pouco. Já vou sair daqui. – Loki lhe garantiu, enquanto ela desaparecia, pouco a pouco.
Enquanto desvanecia, ela percebia os múltiplos sentidos em sua fala. O deus sabia que em algum momento Odin teria de ceder e pedir sua ajuda, e seria libertado. Sabia que seu plano daria certo, era apenas uma questão de tempo.
E lhe pedira para esperar por ele, mesmo que o tenha dito de forma implícita.
Pedira que o aguardasse para mais uma vez caminharem lado a lado.

Fale com o autor