Jornada Para Erebor

5 Um tipo de resgate


Notas iniciais
Pessoas novas aparecem, mas são antigas

Anna abriu os olhos lentamente, tonta e desorientada.

— Ai...

A visão ainda estava desfocada, mas havia uma pessoa a encarando. Era o homem com aquele chapéu engraçado, bigode, barba, que sorria jovialmente para ela.

— Olá, pequenina! Está melhorzinha agora?

Num reflexo, ela soltou um grito agudo e tentou se arrastar para trás:

— F-fique longe! Q-q-quem é você?

— Bofur — foi a resposta bem-humorada. — A seu dispor, dona. Não precisa ter medo. E você é...?

— A-anna.

O grito dela atraíra os demais, que vinham correndo pela floresta. Eram muitos mais do que apenas aqueles quatro. Anna se assustou e se sentou, encolhida, cercada, vendo que seu corpo estava coberto por uma manta. O velho gentil veio falar até eles.

— Bofur, o que você está fazendo?

— Dando oi para A-anna. É o nome dela.

— Ah — sorriu o velho. — Já que se sente melhor, podemos fazer as apresentações. A-anna é seu nome?

— Anna — ela interrompeu, ainda com o coração acelerado. — Meu nome é Anna.

— Muito prazer, Anna. Ninguém aqui vai machucá-la, não precisa ter medo. Meu nome é Gandalf. E você está entre a Companhia de Thorin Oakenshield. Bofur já se apresentou, mas esses são Dwalin, Balin, Bifur, Bombur, Ori, Nori, Dori, Bilbo, Óin, Glóin, Kíli, Fíli e o próprio líder desta companhia, Thorin, filho de Thráin, filho de Thrór.

Ela encarou todos: cabeludos, barbudos, armados até os dentes, alguns atarracados, mas todos a encaravam com olhos atentos. Ela jamais gravaria todos aqueles nomes.

Anna tentou sorrir:

— Muito prazer. Agradeço muito terem me salvado. — Ela recomeçou a tremer. — Achei que estava morta.

Gandalf pediu:

— Diga o que aconteceu. O que estava fazendo naquela caverna abandonada de trolls?

— T-tro-olls? — Ela repetiu, voltando a tremer. — Trolls?

— Pode continuar. O que fazia ali?

Ela respondeu, tremendo, sem saber direito o que dizia:

— Um monstro horrível me prendeu lá. Havia um bando deles, montados em feras enormes! Eles me prenderam com outras criaturas numa jaula que era uma carroça. Aí aquele monstro me tirou da jaula... — A voz dela começou a tremer. — E-e aí me arrastou para a caverna, e ele me bateu, e ele... rasgou minhas roupas e... ele tentou me... tentou me...

Não conseguiu completar a frase, lágrimas frescas no rosto. Gandalf tentou dispersar a tensão.

— Está tudo bem. Agora você está segura. Mas como os orcs a pegaram?

— Orcs? — repetiu Anna. — Esse é o nome daquelas criaturas?

— Pelo que você diz, posso presumir que sejam orcs montados em wargs, um animal que parece um lobo gigante.

Anna estava aliviada. Afinal, eles acreditavam nela, mesmo que ela falasse em coisas meio amalucadas, como monstros.

— Isso mesmo! Então aquele monstro branco também era um orc?

— Branco? — repetiu Gandalf. — Um orc branco?

— Sim, foi ele que me atacou. Era muito maior que os outros. Acho que era o chefe deles.

— Um orc gigante? Montava um warg branco? Tinha olhos claros?

Ele parecia muito interessado. Anna confirmou, animada:

— Esse mesmo! E ele não tinha um dos braços. Usava uma seta ou lança de ferro. Sabem quem é?

Todos os outros pareciam espantadíssimos. O mais novo barbudo, Thorin, estava lívido.

— Não pode ser...! Eu o matei em batalha há muito tempo!... Você está enganada.

Gandalf dirigiu-se a ele, pesadamente:

— Acho difícil haver algum engano. Ela descreveu Azog perfeitamente. Ele tem o nome de O Profanador exatamente por causa do tpo de agressão que Anna sofreu. E ele a marcou.

Anna perguntou:

— Vocês não os viram? Não lutaram com eles? Não foram vocês que os espantaram?

Gandalf respondeu:

— Seja lá o que os tenha atacado, matou alguns deles, soltou os escravos e espantou os demais. Mas eu imagino o que Azog esteja fazendo tão longe de Moria...

O líder Thorin indagou diretamente para Anna:

— Quando foi capturada, de onde vinha e para onde ia?

— Tentava sair da floresta — respondeu ela. — Não faço ideia de onde esteja ou como vim parar aqui. Esperava encontrar alguém que me explicasse.

Bofur quis saber:

— Mas o que você é?

Anna o encarou.

— Desculpe, não entendi a pergunta.

— Sua raça, qual é? Obviamente não é anã, é pequena demais para ser um da raça dos homens e com certeza não é elfa. Você é ainda menor do que o nosso hobbit! Não é, Mestre Bilbo?

E foi essa palavra que detonou uma enxurrada de pensamentos na cabeça de Anna. Num átimo, tudo fez sentido.

Ou quase.

Apreciadora de livros, Anna tinha lido sua cota de obras de ficção, desde a mais tenra idade: Crônicas de Nárnia, Tom Sawyer, Peter Pan, Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Guerra dos Tronos. E a palavra voltou à sua mente.

Hobbit.

Incrédula, Anna começou a ligar os pontos. Olhou para o velho, Gandalf, que a encarava, curioso.

Depois ela olhou atentamente para todos, procurando, e lá estava o único rosto limpo, sem barba, sem bigode, orelhas ligeiramente pontudas, cabelos cacheados, um olhar doce e gentil.

Bilbo. Bilbo Baggins.

Como apreciadora de Sherlock Holmes, Anna sabia da máxima dedutiva: “Quando você tiver eliminado o impossível, aquilo que permanece, mesmo que improvável, deve ser a verdade".

Infelizmente, dessa vez não dava para eliminar nem o impossível. Pois o impossível estava diante dela, vivo, de pés peludos e com olhos arregalados, encarando-a. Um hobbit de verdade, com sangue pulsando nas veias. Não apenas um hobbit qualquer: era o hobbit, aquele hobbit que encontraria o Um Anel.

A conclusão lógica, portanto, era que, de alguma forma, ela tinha vindo parar em Arda (termo em élfico para Terra Média), cruzara com orcs sanguinários e tinha sido encontrada por Gandalf e Bilbo Baggins na busca por Erebor com 13 anões. Ela não se lembrava muito bem do livro naquele momento, mas sabia que havia um dragão.

Mas como isso tudo acontecera?

— Dona Anna? — A voz preocupada de Bofur a trouxe de volta ao momento. — A senhora está bem?

Ela o encarou, confusa, ainda sob impacto da nova dimensão das coisas.

— Desculpe, Sr. Bofur. Eu acho que estou mais abalada do que pensei.

Gandalf disse:

— E é muito compreensível. Podemos conversar mais depois. Agora você precisa de roupas, um pouco de comida e boa companhia.

Thorin olhou Anna longamente. Depois olhou em volta e decidiu, falando com os demais:

— Vamos parar aqui por hoje. Dwalin, procure um bom lugar para levantar acampamento. Kíli, Fíli, vejam se tem um rio próximo e carne para o ensopado. Bombur, prepare fogo baixo. Ori, Nori, descarreguem os pôneis.

Todos se puseram a trabalhar. Gandalf sugeriu:

— Meu caro Bilbo, talvez você possa emprestar algumas roupas para a nossa recém-chegada.

— Claro, Gandalf. Só um minuto. — Ele sorriu para Anna e saiu.

Thorin acompanhou o diálogo, com uma expressão indecifrável no rosto. Depois se dirigiu ao mago.

— Gandalf, se puder lhe falar, um minuto.

Anna acompanhou os dois saindo e ajeitou o cobertor contra o corpo nu. De repente viu-se só. Estava sem saber direito o que fazer, muito menos o que pensar.

Ela ainda tinha dificuldade em absorver tudo que estava acontecendo. Estava se sentindo como Alice no País das Maravilhas. Correção: poderia estar se sentindo como Alice, isso se Alice tivesse sido capturada por um tipo de jaguadarte tarado e tivesse sofrido uma tentativa de estupro assim que caíra pelo buraco.

Anna lembrou que Alice também pensara estar num sonho. E, segundo Alice, num sonho nada podia fazer mal.

“Desculpe o palavrão, mas, Alice, mas você é uma babaca que não sabe merda nenhuma sobre orcs hardcore,” pensou Anna, sarcástica.

Ai, por que não fui parar em Hogwarts?

A chegada de Bilbo com umas roupas interrompeu seus pensamentos. Ele passou a trouxinha a ela.

— Trouxe essas roupas. Espero que sirvam.

— Fico muito agradecida, Sr. Bilbo.

— Não precisa agradecer. Olhe, lamento muito tudo que aconteceu com você.

— Obrigada.

— Pode se trocar ali, atrás do arbusto. Eu fico olhando. — Então ele se deu conta do que dissera e enrubesceu. — Não! Er, quer dizer, não vou olhar, só quero dizer que, bom, vou ficar de olho, er. Quero só dizer que sua virtude está segura comigo. Não que não esteja com os demais, não é isso, pode ficar tranquila porque...

Anna teve que rir e interrompeu-o.

— Está tudo bem, eu entendi, Sr. Bilbo, obrigada. Foi muito gentil.

Ela foi para trás da moita indicada, um milhão de coisas se passando em sua cabeça. A poucos passos dali, outras coisas se passavam.