Jornada Para Erebor

6 Aquele momento constrangedor


Notas iniciais
Tudo parece conspirar para Anna meter os pés pelas mãos

Sem que Anna pudesse ouvir, uma discussão acalorada acontecia entre Gandalf e o líder da companhia, Thorin Oakenshield. O anão estava nervoso.

— Não pode dizer que não seja conveniente! Ela não disse nada, na realidade: quem é, de onde veio, para onde vai, o que está fazendo aqui. Não sabemos nada sobre ela. Isso não me agrada nem um pouco.

Gandalf tentou argumentar:

— Talvez ainda esteja em choque. Dê-lhe tempo.

— Tempo que deveríamos empregar indo para Erebor. Mais um de seus projetos de caridade, Galdalf? Não bastava o hobbit, agora ela?

— Essa pequena tem uma função primordial na sua busca por Erebor, Thorin Oakenshield. Posso sentir isso. Mas isso não é tudo: ela foi marcada por Azog. Separada dos outros escravos e marcada pessoalmente por ele.

— Mais uma razão para ela deixar essa companhia. Ela é um risco! Pode ser até uma espiã dos orcs.

— Escute só o que acabou de dizer. Como pode pensar assim? É um absurdo!

— Ela não sabe lutar, não sabe se defender. Não tem lugar entre nós. É mais um fardo.

— Pense na vantagem: se o dragão não conhece o cheiro de um hobbit, imagine só o cheiro que ela exala. É óbvio que ela não é uma criatura dessas terras.

— E de onde ela veio então, Galdalf? E o mais importante: por quê?

— Confesso que ainda não sei. Talvez nem ela mesma saiba.

— Ainda digo que mantê-la por perto é uma má ideia. Ainda não estou muito convencido sobre o seu hobbit, mas nada vai me convencer que essa pequenina vai ser de alguma vantagem para nós.

Gandalf franziu o cenho.

— Cuidado com o que diz, Thorin Oakenshield. Posso ser capaz de apostar que antes da próxima lua, você vai ser obrigado a negar suas próprias palavras.

Thorin o encarou.

— Você parece ter muita certeza sobre ela.

— Não, na verdade só tenho duas certezas sobre ela: devemos protegê-la a todo custo e ela é a coisa mais preciosa dessa companhia no momento. — O mago olhou em volta, localizou Bilbo Baggins adiante, parecendo nervoso, tentando não olhar para uma moita às suas costas. — Nada disso está acontecendo por mero acaso. Nós precisávamos encontrar essa moça, precisaremos dela. Mas acho que ela ainda não está em condições de nos ajudar.

— Eu sou o líder dessa companhia — lembrou Thorin. — Tenho uma missão. Não posso bancar a babá –

Gandalf o interrompeu:

— Eu me responsabilizarei por ela até parte do caminho. Depois eu a deixarei com a única pessoa que pode ser capaz de ajudá-la. Vocês poderão seguir o seu caminho até Erebor. Ela os encontrará quando for hora.

Thorin manteve o olhar fixo no mago, uma expressão indecifrável no rosto.

E a discussão se encerrou. Pelo menos, naquele momento.

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Vestida, mas ainda abalada, Anna se juntou aos demais à volta da fogueira à medida que o dia morria. A noite caía quando a sopa ficou pronta. Anna estava com tanta fome que uma sopa rústica pareceu o melhor banquete do mundo. A mão ferida doeu um pouco, e um dos anões, Óin, tratou com um unguento. Enquanto isso, os planos eram feitos ao redor da fogueira.

— Partimos de manhã para a Curva do Rio — decidiu Thorin. — Devemos chegar lá ao entardecer. Precisamos de víveres, e os pôneis precisam de descanso. Seria bom ficarmos alguns dias. Nesse meio tempo, podemos trabalhar ou trocar produtos.

Balin quis saber:

— Será conveniente parar? Temos um longo caminho a percorrer.

— As estradas parecem estar movimentadas ultimamente — argumentou Gandalf. — Não queremos atrair atenção. Além disso, ganhamos algumas outras urgências que não haviam sido previstas.

Todos os olhares se voltaram para Anna, que subitamente se sentiu envergonhada e abaixou a cabeça, ruborizada.

— Lamento estar atrasando vocês.

Balin tentou emendar.

— Não é sua culpa, dona. É que não é comum ter patrulhas orcs por estas bandas. E esse orc em especial não é boa notícia nunca.

Anna estremeceu ao se lembrar de Azog, e Bilbo colocou um cobertor nas costas dela. Ela ficou profundamente agradecida e sorriu para ele. Gandalf fumou seu cachimbo longo e considerou:

— Se os orcs estiverem por aí, eles estarão procurando por uma fêmea sozinha. Mesmo que esteja no meio de uma companhia com um mago, um hobbit e treze anões. Precisamos disfarçar Anna.

— Mas como? — indagou Bofur. — Ela é pequena demais. Se não fosse tão minúscula, podíamos disfarçá-la, como fazemos com nossas mulheres quando viajam. Mas nossas mulheres não são tão miúdas. Mas o que você é, mesmo?

Anna respondeu, intrigada:

— Sempre achei que fosse uma humana normal. Acreditem, eu nunca fui tão baixinha assim. Não sei o que houve.

— Ela é menor do que o nosso ladrão! — brincou Fíli, o louro. — E isso é uma façanha.

Os outros riram, e Anna tentou levar na brincadeira. Gandalf concordou:

— É verdade. Ela é pequena até para um hobbit adulto. Mas talvez tenha o tamanho ideal para ser um hobbit adolescente, ou pré-adolescente acompanhando um parente numa longa viagem pelas montanhas. Acho que uma pessoa assim não atrairia a atenção de patrulhas orcs.

Anna arregalou os olhos e os demais se entreolharam, surpresos. Bilbo pareceu animado.

— Excelente ideia! Poderia ser um dos meus parentes distantes, os Bolger de Budgefort. Eles têm sangue cascalvo, são outros tipos de hobbit, com pés pelados.

— Isso explicaria vocês serem diferentes. Outras idades, outras famílias: muito bom! — Bofur gostava da ideia.

Bilbo indagou:

— O que diz, dona Anna?

Ela teve que sorrir:

— Acho brilhante. Foi mesmo uma excelente sugestão.

Thorin decidiu:

— Hobbits não são como anões. Usamos nossos cabelos e barbas compridos, e nossas mulheres também. Mas hobbits cortam seus cabelos. Por isso o disfarce só vai dar certo se você cortar seu cabelo. Você aceita?

Murmúrios de horror percorreram o grupo, espantando Anna. Ela achou inusitado, mas respondeu a Thorin:

— Farei o que for preciso. Ainda mais se isso for dar mais segurança a todos nós. Não quero arriscar vocês, que estão sendo tão gentis comigo.

O horror foi substituído por admiração. Anna não entendia direito a reação deles. Bilbo explicou:

— Barbas e cabelos são muito importantes na cultura de anões. Não sei se você notou que eles trazem os cabelos adornados por tranças, contas e outros enfeites.

Ela disse:

— Sim, eu tinha reparado. São tranças lindas, e muito bem cuidadas. Mas não sabia que tinham tanta importância. Vão precisar me dizer essas coisas.

Thorin elevou a voz aos demais:

— Quero que todos vocês pensem no gesto de Dona Anna por nós, sacrificando seu próprio cabelo pela segurança de toda a companhia. Lembrem-se dessa atitude de lealdade de alguém que não é de nossa gente, mas já é de nossa companhia.

Mais uma vez Anna ficou ruborizada. Thorin decidiu:

— Cortaremos o cabelo pouco antes de partir. Dwalin, você faz o corte. Procure imitar o do hobbit.

Ori, um anão bem jovem, com um lindo corte estilo monge, lamentou-se:

— Eu acho que não vou conseguir olhar...

Anna tentou confortá-lo:

— Está tudo bem. Vai dar tudo certo.

— Seu cabelo é tão bonito — comentou Ori. — Devia aproveitar o verão e usar flores nele. Eu podia fazer uma trança nele de despedida!

Nesse instante, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Ori arregalou os olhos, percebendo que tinha falado uma coisa muito errada. O anão a seu lado lhe deu um tabefe sonoro na cabeça, e um vozerio irado se ergueu antes mesmo que Anna pudesse responder qualquer coisa.

— Que insulto é esse?

— Retire já o que disse!

— Que palavras são essas, menino?

Ori tentou dizer, horrorizado:

— Desculpe, eu não quis ofender!

Anna se assustou, e o anão de barbas brancas, Balin, explicou:

— Por favor, Dona Anna, perdoe o menino. Ele é novo e não sabe o que diz.

— Não estou entendendo — disse ela. — O que ele fez?

O anão experiente estava enrubescido ao explicar:

— Tenho certeza que Ori queria fazer uma gentileza, mas ele lhe fez uma proposta que só familiares ou casais íntimos devem compartilhar. Apenas pessoas casadas ou amantes fazem tranças uns dos outros. Por exemplo, Fíli e Kíli são irmãos. — Os dois sorriram para ela. — Um pode fazer as tranças do outro. Ou Óin e Glóin, embora Glóin prefira que sua mulher faça isso, tenho certeza. — Os demais riram. — Mas um homem não sugere trançar o cabelo de uma mulher que não seja a sua, a não ser que a esteja convidando para intimidade indevida. Ori lhe fez um insulto muito grande.

Ori estava quase chorando, envergonhado:

— Por favor, Dona Anna, não pense mal de mim nem me queira mal! Tente me perdoar!

Anna tentou suavizar a aflição do rapaz.

— Não se preocupe, Ori. Tenho certeza que não teve intenção de ofender. Não estou chateada. Fique em paz.

Mais uma vez, Thorin ergueu a voz, altivo.

— Dona Anna foi generosa, mas ofensas contra ela não serão toleradas. Agora ela é parte dessa companhia e será tratada com o respeito que merece. Esse respeito terá a defesa de minha espada. Espero que a de vocês também.

Era um discurso impressionante e Anna se sentiu lisonjeada ainda mais. Os modos solenes de Thorin fizeram uma informação esquecida saltar dos confins do cérebro de Anna.

Ele era um rei. Mesmo que no exílio, expulso de sua terra, ele era um rei, neto de um rei, filho de um rei.

Anna o encarou, admirada. Só que se lembrou: Thorin não podia saber que ela sabia quem ele realmente era.

Portanto, ela bancou a idiota:

— Fico muito agradecida. Espero poder retribuir à altura.

Thorin apenas meneou a cabeça.

— Muito bem, todos já têm suas escalas de guarda. O plano é ficarmos uns poucos dias na Curva do Rio. Diremos que somos um grupo de mineradores que está a caminho das Colinas de Ferro para negociar direitos de mineração. Os hobbits, Mestre Baggins e seu sobrinho, Mestre Bolger, são tradutores.

Anna indagou, alegremente:

— Oh, então é por isso que estão viajando? Primeiro pensei que fosse alguma expedição de caça.

De repente, o ar mudou. Todos a encararam, com olhares desconfiados. Thorin especialmente, e ele parecia prestes a acusá-la. Anna se sentiu tão intimidada que tentou dizer:

— Er... Desculpem, eu não quis ser intrometida. Puxa, fui mesmo indiscreta. Eu sinto muito, não tive intenção. Acho que é o cansaço. Espero que me perdoem. Se me derem licença, é melhor eu ajudar com os pratos. Para que lado mesmo fica o rio?

Bofur, sempre falante, apontou:

— Naquela direção. Quer que eu vá junto?

— Obrigada, Mestre Bofur, mas preciso ser capaz de pelo menos achar o rio sozinha.

Gandalf lembrou:

— Talvez precise de ajuda com esses pratos. Posso fazer isso antes de me recolher. Minhas pernas precisam mesmo se esticar um pouco.