Jornada Para Erebor
47 Um novo amanhecer
Notas iniciais
— Nãão!!
Bilbo berrou, desesperado, mas sua voz foi abafada pelos gritos de alegria dos anões, que saíram de trás dos contrafortes bem a tempo de ver a espetacular queda dos dois bichões.
O impacto dos dois dragões sobre a superfície do lago criou uma grande onda, uma que invadiu o Rio Corrente e varreu boa parte do vale como se fosse um tsunami. A entrada de Erebor, o Portão Dianteiro, estava longe da inundação, mas o Morro do Corvo foi lambido pela água.
Smaug ainda teve espasmos que, em terra, teriam criado centelhas e brasas, mas que na água do lago produziram apenas chiados altos e levantaram uma grande massa de vapor, uma névoa branca no fim de noite, tornada prata pela luz da lua. Depois que a maré causada pela onda gigante se aquietou, ainda era possível ver os últimos estertores de um redemoinho borbulhante.
O ruído suave das bolhas na água anunciou o fim de Smaug.
Bilbo estava longe demais para ouvi-las, mas mesmo se estivesse perto não poderia escutar. Primeiro por causa da algazarra que os anões faziam em seu redor, gritando, pulando, berrando, abraçando-se. Dwalin e Fíli ergueram Kíli nos ombros, Bofur e Bifur se abraçavam, Bombur pulava, Óin parecia dançar sozinho desengonçadamente, e todos comemoravam.
Mas Bilbo não via motivo para comemorar. Ele ainda ouvia em seus ouvidos o som horrível da queda de Anna no lago. Ele não queria admitir a verdade, mas as lágrimas o venceram, e ele caiu de joelhos no chão, desanimado.
A névoa começava a levantar, o vento frio retorcia o vapor em grossas colunas e nuvens. O amanhecer se anunciava, tímido. Bilbo ouviu a voz grave de Thorin, sua mão a bater-lhe nas costas:
— Pode chorar, ladrão. Chore de alegria! Smaug está morto e Erebor é mais uma vez nossa!
O pobre hobbit, ajoelhado, curvou-se em dois, agora soluçando alto. Ele teria que contar a verdade. Como ele poderia contar a Thorin que Anna morrera? Como contar ao rei sob a montanha que a mulher que ele amava dera sua vida por Erebor?
Que seu herdeiro também tinha perecido?
As duas últimas vítimas de Smaug.
Bilbo ergueu os olhos para Thorin, vendo o rosto do outro franzir-se ao perceber que o hobbit não tinha lágrimas de alegria. Os olhos azuis percorreram o rosto de Bilbo, querendo respostas.
— Mestre Baggins?
Os olhos claros do hobbit, vermelhos de tanto chorar, pareciam incapazes de parar de verter lágrimas. Ele tentou dizer, entre soluços:
— Thorin...
A voz falhou, ele não conseguiu concluir. Thorin urgiu:
— Em nome de Durin, ladrão, o que está acontecendo?
Bilbo tentou mais uma vez:
— Thorin... Eu acho que...
Foi interrompido pelos gritos dos anões:
— Lá! — Kíli, ainda nos ombros de Dwalin, foi o primeiro a avistar. — O que é aquilo?
O vapor tinha subido e revelado um corpo estirado, deixado nas margens do rio pela onda gigante. Não estava muito longe do portão.
Bilbo se ergueu, o coração acelerado.
— Acho que é Anna!...
Não precisou repetir. Praticamente toda a Companhia, Thorin à frente, correu até o local.
— É ela! — reconheceu Dori, enquanto corria. — Posso ver agora!
— Rápido! — urgiu Glóin.
Finalmente chegaram ao local. Thorin entrou no rio para retirá-la em seus braços. Anna estava desacordada, encharcada, e parecia ferida. Ela foi posta no chão, Thorin a tentar reanimá-la. Óin se adiantou e examinou-a ali mesmo, às margens do rio, enquanto o dia, alheio aos acontecimentos momentos, amanhecia sem cerimônia.
— Ela está gelada — disse o anão curador a Thorin. — Mas não se afogou. Acho que foi varrida pela onda gigante e ficou exposta ao vento frio. Ela pode estar ferida: vejo vestígios de sangue.
— Ela vai ficar boa?
— Ainda não sei — respondeu Óin. — Vou precisar olhá-la com mais atenção.
Thorin decidiu:
— Vamos para dentro, então.
O grupo deslocou-se para dentro, Thorin levando Anna em seus braços e mostrando o caminho. Pela primeira vez, entravam em Erebor sem a nefasta presença de Smaug.
Uma vez lá dentro, Bilbo pôde finalmente apreciar a beleza da cidade, que os anões tanto falavam. Mesmo num ambiente sujo devido ao abandono e destruído pelas idas e vindas do dragão, o hobbit localizou ornamentos de grande beleza e estátuas majestosas. Havia corredores imensos e longas escadas, que se uniam a outras escadas e se dividiam em mais degraus numa geometria harmoniosa e labiríntica que atordoava Bilbo.
Thorin conhecia cada corredor e cada curva. Eles subiam as escadas, ignorando os destroços, indo cada vez mais alto nos caminhos largos, fazendo eco. Bilbo notou a falta de vida, as pedras cortadas com precisão e maestria.
— Vamos para a ala real — explicou Thorin. — Ela pode ficar nos meus antigos aposentos.
Um burburinho começou. Glóin protestou:
— Isso não é apropriado, rapaz. Não antes do casamento, por questão de decoro.
Ori concordou, em tom decidido:
— Isso mesmo!
Thorin garantiu:
— Pretendo me alojar no quarto do rei. Bilbo pode ficar com Anna.
O burburinho morreu, e eles finalmente chegaram ao destino. Era um corredor reservado e protegido, uma vez que sua entrada estava num nicho escondido na pedra.
Thorin entrou numa porta que dava a um amplo aposento, agora empoeirado e com sinais de abandono. Ricos tecidos nas cortinas e tapetes estavam puídos e desbotados, madeiras estavam podres. Dwalin foi até a cama e bateu vigorosamente no colchão, esperando a nuvem de pó baixar antes de gesticular para Thorin depositar ali a forma inerte de Anna.
Óin se aproximou e pediu:
— Vou precisar de água limpa. Muita.
Ori se ofereceu:
— Eu pego!
— Deixe que eu ajudo — ofereceu-se Bofur.
— Ela precisará trocar de roupas por peças secas — disse Óin. — Mestre Baggins, como tio de Anna, acho que pode me ajudar.
Dori lembrou:
— A trouxa dela ficou no túnel. Vou buscá-la.
Thorin ordenou:
— Vamos todos recolher nossas armas, objetos e suprimentos. Precisaremos organizar um esquema de sobrevivência. À exceção de Bilbo e Óin, vamos nos encontrar no Portão Dianteiro em meia hora.
Com suas ordens, todos começaram a deixar o quarto, mas Thorin ficou por último. Depois que todos saíram, o rei anão virou-se para o curandeiro.
— Óin — disse ele. — Por favor...
— Não se preocupe, Thorin — garantiu. — Ela vai ficar boa.
O rei anão assentiu, antes de sair também. Bilbo se sentou à cama, de olho em Anna, encarando o rosto pálido, as bolsas debaixo dos olhos, os cabelos curtos fazendo os cachos molhados se grudarem na sua testa.
— Óin — perguntou o hobbit, sem esconder o nervosismo —, ela vai mesmo ficar boa?
O velho anão suspirou:
— Tudo indica que sim, mas ela parece muito fraca, Mestre Baggins. Se o senhor tiver suas pederneiras, tente acender aquela lareira.
Bilbo obedeceu, determinado. Ele sabia que Anna provavelmente estava exausta, e iria precisar de toda ajuda que pudesse conseguir.
O hobbit não fazia a mínima ideia do quanto estava certo.
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Não foi antes do dia seguinte que Anna mostrou sinais de consciência. Bilbo não pôde deixar de observar quantas coisas tinham acontecido naquelas horas.
A saúde de Anna estava melhorando. Mas Óin descobrira um corte profundo lateral, que parecia ter parado de sangrar como se tivesse sido cauterizado em fogo. O velho curandeiro estava intrigado com o ferimento, que parecia recente. Bilbo decidiu não oferecer nenhuma das teorias que estavam na cabeça dele.
O fato mais relevante, para o hobbit, tinha sido um golpe de sorte (ou azar, ele ainda não tinha certeza), pelo qual ele tropeçara na lendária Arkenstone, também chamada de o Coração da Montanha. Os anões estavam enlouquecidos à procura da pedra, sem falar em outra coisa. Thorin se mostrava verdadeiramente obcecado com isso, e era um fato inusitado que Bilbo tivesse iteralmente topado com nela em meio às pilhas e pilhas de ouro e outros tesouros no antigo covil de Smaug.
Engraçado que Bilbo relutara em ir até o tesouro onde encontrara a pedra. Na primeira vez, ele tinha rejeitado a visita ao local quando Fíli o chamara, alegando que não queria deixar Anna sozinha (até Óin se juntava à loucura do ouro). Depois, quando Bofur o convidara, Bilbo quase rejeitara pela segunda vez, mas o anão pareceu tão decepcionado que Bilbo aceitou — era só esperar a volta de Óin para cuidar de Anna, que ainda não despertara.
A verdade é que o hobbit não tinha interesse no tesouro, o menor interesse. Ele só estava preocupado com Anna e com a volta para sua casa em Bag End. Com Smaug morto e Erebor retomada, a aventura chegara ao fim, e Bilbo só pensava em voltar para sua toca, dormir na sua cama macia e a lareira quentinha.
Suas recusas em ver as riquezas de Erebor eram alvo de mágoa para seus amigos. Anões valorizavam objetos materiais. Bilbo percebeu que, aos olhos dos anões, ao menosprezar o tesouro, ele menosprezava seus próprios amigos. "Esses anões são mesmo estranhos", pensou Bilbo.
Quis o destino (se é que tal coisa existe) que a famosa Arkenstone caísse nas mãos da pessoa que menos se importava com ela: o hobbit. Bilbo decidiu não revelar a descoberta a seus amigos, mas não saberia explicar o motivo de sua atitude.
No fundo, Bilbo estava assustado com os anões, especialmente Thorin. Antes, se Anna se sentisse mal, Thorin não sairia do lado dela, numa mistura de protecionismo e possessividade natural em relação ao ser amado. Agora, porém, Bilbo tinha ido dar notícias sobre Anna, esperando ter que produzir um relatório completo, e as palavras de Thorin o alarmaram:
— Que bom que ela está melhor. Quero mostrar-lhe a Arkenstone assim que for encontrada!
Ele não falava de outra coisa que não a Arkenstone e não fazia outra coisa a não ser procurar a Arkenstone. Os demais, claro, cumpriam suas ordens sem questioná-las.
A esperança de Bilbo era que Anna pudesse acordar e devolver a normalidade à companhia. Ela não parecia ter tanto amor assim ao ouro. Sim, pensou Bilbo, Anna pode dar um fim a essa loucura.
Pobre Bilbo. Não podia imaginar que as coisas ainda precisassem ficar muito mais loucas antes de alguma sanidade retornar ao ambiente.
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