Jornada Para Erebor

48 Enquanto você dormia


Notas iniciais
Anna surpreende a companhia

O corpo de Anna estava inundado de sensações desagradáveis antes mesmo que ela se sentisse totalmente consciente. Parecia haver algodão no céu da boca e chumbo derretido em suas veias. Os olhos se recusavam a obedecê-la, e a garganta seca sequer conseguia produzir gemidos decentes. Alguém a ajudou a beber água, e aquilo a aliviou muito. Mas ela voltou à inconsciência.

Demorou pelo menos mais uma tentativa antes de Anna ter sucesso em voltar à consciência. Bilbo ficou muito animado, e ainda que Anna ainda estivesse zonza, ele insistia em contar as novidades enquanto a ajudava a tomar o caldo grosso indicado por Óin.

— Então aqui é Erebor? — indagou Anna.

— Isso mesmo, ou o que resta de Erebor depois de Smaug — confirmou Bilbo. — Sei que não parece muito, mas deve ter sido esplendoroso nos dias de glória.

— E os outros?

— Todos bem, eu acho. Mas eles só falam de ouro, e da Arkenstone, e de riquezas.

Anna viu como Bilbo parecia infeliz e tentou animá-lo:

— Vai dar tudo certo, você vai ver. Mas você disse que eu dormi um dia inteiro?

— Quase dois, se contarmos...

Anna o interrompeu:

— Perdemos muito tempo. Quais são as notícias da Cidade do Lago? Muitas vítimas? Estamos ajudando?

— Não sei nada sobre isso. Vimos Smaug atacar a cidade, mas ninguém foi até lá.

Anna tentou se erguer:

— Preciso falar com Thorin. Ai...

Ela cambaleara, fraca, e Bilbo disse, alarmado:

— Não, não, nada de se levantar, moça.

— Então me traga alguém! — pediu ela, angustiada. — O tempo é curto, se nada foi feito!

— Anna, o que há? E quanto àquela explicação? Você ficou de me dar respostas.

— Bilbo, não sei o que posso explicar.

Ele abaixou a voz, cochichando:

— Pode me explicar onde está aquele dragão azulado, por exemplo. Você... você era o dragão, não era?

Anna deu de ombros:

— Bem... Vamos dizer que sim, Bilbo. Não posso contar isso a ninguém. Vou ter que inventar uma história.

Ele perguntou, baixinho:

— Você é Istari, como Gandalf?

— Não, claro que não. Bilbo, nem eu entendo isso. Beorn disse que eu poderia trocar de peles. Mas não sei por quê. Agora pode manter isso em segredo?

— Não vai falar para os outros? Por quê?

— Quanto menos gente souber, melhor. E o que você acha que eles diriam se eu dissesse que posso virar dragão?

Ele assentiu:

— Entendo. Mas vai contar aquela outra coisa, não vai?

— Que outra coisa?

— Que você está grávida.

Anna suspirou:

— Sim, claro. Thorin precisa saber. Se é que eu ainda estou.

— Que quer dizer?

— Para matar Smaug, posso ter sacrificado o bebê.

Bilbo notou:

— Não parece muito feliz, seja com o bebê ou a falta dele.

— Eu não contava com isso, não estava nos meus planos — admitiu Anna. — E também não sei como Thorin vai reagir. Estou apreensiva, só isso.

— Mas você mesmo previu que queria ter filhos... Está no contrato.

— Claro que quero ter filhos! Não me entenda mal. Estou feliz por estar grávida de Thorin, se eu ainda estiver grávida. Eu o amo. Mas o momento é... digamos, delicado. E eu tenho medo.

Bilbo sorriu.

— Agora é minha vez de dizer: vai dar tudo certo. Smaug está morto, tudo vai ficar bem. Vou chamar Thorin. Espero que isso o faça esquecer-se do ouro.

Quando ele saiu e Anna viu-se sozinha, ela notou que pensava exatamente nos mesmos moldes do hobbit.

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Óin foi o primeiro a entrar no quarto. Anna indagou:

— Thorin não vem?

— Ele está terminando inventário de armas — respondeu o curador. — Enquanto isso, quero fazer um exame rápido em seu corte. Como se machucou desse jeito?

— Não me lembro — foi o que ela respondeu. — Na verdade, não me lembro de muita coisa. Bilbo me contou que vocês me tiraram do rio. Como fui parar lá?

— Aye — confirmou ele. — Foi uma onda imensa que se formou quando as duas feras caíram no lago. Sente algum osso quebrado?

— Não, só estou fraca. Óin, tenho uma pergunta a lhe fazer depois. Pode ficar por perto?

— Claro, menina. Você está bem?

— Espero que sim, meu amigo.

— Só precisa se alimentar direito. Mestre Baggins me disse que não tomou seu caldo todo.

— Não estou com muita fome agora. Talvez mais tarde.

Thorin entrou nesse momento, com Kíli e Fíli. Anna sentiu um impacto ao vê-los. Estavam em cotas de malha e armaduras, peças em ouro e prata com intrincados trabalhos de entalhe e grande beleza. Todos os três estavam ricamente vestidos, com aparência régia.

— Minha pequena — saudou Thorin, que veio à cama e beijou suas mãos. — Como folgo em vê-la disposta!

Anna sorriu, impressionada:

— Nossa, vocês estão todos tão bonitos e elegantes.

Kíli disse:

— Tem que ver a sala do tesouro, minha tia! Pilhas e pilhas de ouro e prata!

Fíli completou:

— Pedras cortadas, joias montadas e mais riqueza do que qualquer um jamais viu!

Thorin garantiu:

— Vou cobri-la de ouro e joias, tecidos dignos de você, minha rainha. Essa foi minha promessa. E seu cabelo sempre terá contas de pedras, especialmente rubis.

— Rubis? — repetiu Anna.

— Simbolizam paixão — esclareceu Thorin, ainda segurando as mãos dela. — Emeraldas para amor, safiras para desejo e lealdade, e opalas para esperança. Eu as farei pessoalmente e ficarei orgulho por você usar trabalho de minhas mãos. E isso é muito menos do que você merece.

Anna o encarou:

— Soa lindo, mas não é meio exagerado?

— Como eu disse, você merece muito mais. É apenas digno da Consorte do Rei sob a Montanha.

Anna o encarou, sorrindo, e então se virou para os dois jovens:

— Rapazes, será que podem me fazer um favor?

— Claro, tia — disse Kíli. — Qualquer coisa.

— Gostaria de ter Bilbo aqui. Podem ir buscá-lo enquanto eu falo com Thorin?

Fíli se alarmou:

— Anna, está tudo bem?

Ela respondeu, apenas:

— Eu preciso falar a sós com Thorin uns minutinhos, por favor.

Os dois se entreolharam, depois buscaram permissão de Thorin, que assentiu. Só então eles saíram como lhes fora pedido.

— Pequena — disse Thorin, preocupado —, o que aconteceu? Sinto que é sério e está perturbada.

— É mesmo sério — confirmou ela — e minha perturbação pode ser precipitada, mas é algo que precisa saber.

— O que é?

Anna nem titubeou ao dizer, em palavras simples e curtas:

— Acho que estou grávida.

Durante um minuto quase inteiro, nada aconteceu. Thorin a encarou, e Anna pôde ver uma sucessão de emoções estampada no rosto dele: choque, espanto, incredulidade, medo, esperança...

Os olhos azuis faiscavam como poças profundas banhadas pelo sol de verão. Baixinho, quase como numa reverência, ele repetiu:

— Grávida...?

Anna assentiu, ainda de olho nele, acrescentando:

— Mas não tenho certeza. Acho melhor Óin confirmar, mas não sei se ele tem experiência nesse tipo de coisa.

Thorin nada disse. Ele se ergueu num pulo e saiu do quarto, gritando:

— Óin!

Nem mesmo o velho anão surdo teria deixado de ouvir o chamado. Anna só ouviu Thorin gritando com Fíli, Kíli e Bilbo para não entrarem, antes de voltar com Óin.

— O que foi, menina? — indagou o curador, ao entrar agitado. — Qual a urgência?

Thorin quis saber:

— Você sabe cuidar de mulheres grávidas?

Óin franziu o cenho e respondeu:

— Thorin, isso é serviço de parteira! Eu... — Ele se interrompeu, arregalando os olhos e encarando Anna, admirado. — Por Mahal!... Pequena, você está com... criança?

Anna deu de ombros e Thorin pediu:

— Precisamos que confirme, Óin. Pode fazer isso?

O velho anão respondeu, decidido:

— Bem, precisaremos fazer um exame. Thorin, nos dê licença.

Ele resistiu:

— Eu...

— Não interessa o que fizeram antes — disse Óin severamente. — Aqui vamos manter a decência. Não vou deixá-lo ver esse exame.

Anna indagou:

— Bilbo não pode entrar? Ele é meu tio.

— Mesmo sendo tio, não seria decente, menina — insistiu Óin, suavemente. — Agora, Thorin, por favor, nos dê licença.

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Mal pôs o pé no corredor, Thorin foi cercado por Kíli e Fíli.

— Thorin, o que está havendo?

— Ela piorou?

Thorin respondeu:

— Não sei. Óin a examina agora: não me deixou ficar.

— O ferimento se abriu?

— Ela voltou a sangrar?

Bilbo disse:

— Calma, rapazes. Deixem Óin terminar o exame e saberemos.

Kíli parecia o mais aflito.

— Ela não vai morrer, vai? Não agora!

— Não diga isso! — ralhou Bilbo.

O pequeno hobbit estava prestes a dar mais broncas nos irmãos quando a porta se abriu e Óin chamou:

— Thorin, por favor.

Thorin se aproximou e Óin cochichou algo brevemente em seu ouvido. Instantaneamente, Thorin se virou para os filhos de sua irmã:

— Chamem a Companhia! Devem parar o que estão fazendo! Venham todos, o quanto antes! Agora!

— Mas...

— Vão! Rápido! — Fíli e Kíli saíram apressados e Thorin sorriu. — Entre, Mestre Baggins. Anna perguntou por você.

Bilbo entrou no quarto, receoso:

— Anna, tudo bem?

Ela sorria:

— Sim, tudo bem. Thorin quer fazer um comunicado a todos.

Thorin assentiu, com um sorriso:

— Todos devem saber.

Em pouco tempo, a companhia se reuniu, alguns intrigados, outros alarmados.

— Homens — chamou Thorin, para dar fim ao burburinho. — Chamei todos para compartilhar boas notícias. Depois de retomar a montanha e reconquistar a vasta riqueza de nosso povo das garras do dragão, eu trago a Erebor uma nova promessa de futuro. Além dos anões que virão repovoar nosso reino, uma nova geração nascerá em nossa cidade. Quis Mahal que o primeiro anão dessa nova geração fosse o filho do próprio Rei sob a montanha. Amigos, Anna espera uma criança, o primeiro filho de Erebor!

O ruído foi tão ensurdecedor que Bilbo podia jurar que havia reverberado para fora da montanha. Thorin foi efusivamente cumprimentado, Anna também. Aparentemente, notou o hobbit, a notícia de um bebê a caminho superava qualquer repreensão pela constatação de que o casamento já tinha sido consumado.

— E para quando é? — quis saber Balin.

Anna respondeu:

— Eu esperava que Óin me desse uma resposta mais precisa. Não sei quanto tempo dura a gestação de um anão. Se for como uma gravidez dos homens, pode ser que chegue no fim da primavera.

— Já? — indagou Dwalin. — Erebor não estará reconstruída até lá.

Thorin sorriu:

— Tenho certeza de que o pequeno não vai se importar, meu amigo.

Óin deu de ombros:

— Há uma chance que ele chegue no verão. Mas se puxar ao lado anão, pode ser que não tenhamos um bebê real antes da primavera seguinte a essa.

Bilbo indagou:

— Por quê? Quanto tempo leva a gravidez de um anão?

— Quase dois anos.

Anna se espantou:

— Eu não fazia ideia.

Thorin apressou-se em dizer:

— Tudo vai dar certo, não se preocupe. Traremos parteiras das Colinas de Ferro e até de Ered Luin, se precisar.

Kíli deu um tapa em Fíli, mal contendo a alegria:

— Ouviu isso, irmão? Vamos ter um primo!

Glóin observou, satisfeito:

— É uma garantia de sucessão, se Fíli não tiver herdeiros. A linhagem de Durin se renova!

Anna disse:

— É cedo para pensar nisso, não acham? E se for uma menina?

Thorin respondeu, embevecido, beijando a mão de Anna:

— Nesse caso, tenho certeza que será tão linda quanto sua mãe.

Enquanto Anna enrubescia, os demais sorriam. Thorin beijou-lhe a testa e ordenou:

— Óin, tome conta dela. Agora, mais do que nunca, é meu dever encontrar a Arkenstone. É o legado de meu herdeiro.

Anna chamou:

— Thorin, espere! E a cidade?

— Cidade?

— A Cidade do Lago — lembrou Anna. — Smaug deve ter deixado um rastro de destruição e dor. Devemos ajudá-los!

— Não vejo como podemos fazer isso — Thorin deu de ombros. — Somos apenas 13 e ainda temos que reconstruir Erebor.

— Thorin — lembrou Anna —, a Cidade nos ajudou quando precisávamos. Temos uma dívida com aquele povo.

Ele franziu o cenho:

— Eles querem apenas nosso ouro. Acham que o ataque de dragão é nossa culpa.

— Bom, eles temiam a fúria do dragão, e com razão!

Por um segundo, Thorin pareceu que ia se enfurecer. Mas o rosto dele se suavizou e ele beijou a testa dela, dizendo:

— Não se preocupe, minha pequena. Deixe que eu cuido disso.

E saiu, apressadamente. Bilbo sentiu Anna afundar na cama, pesadamente:

— Estamos condenados...