Notas iniciais
Anna decide que é hora de se abrir

Anna observou Thorin entrar na tenda, com um olhar apreensivo. Ela sabia que o diálogo a seguir não seria nada fácil, mas era melhor enfrentar tudo de uma vez. E não era pouca coisa.

Gandalf notou o olhar de Anna mudando e virou-se. Ao ver Thorin, o mago se apressou em dizer:

— Oh, Thorin, que bom que chegou. Eu preciso ir ver Lord Elrond, mas não queria deixar Anna sozinha. Poderia fazer companhia a ela?

O Rei Sob a Montanha aquiesceu:

— Claro, Gandalf, pode ir em paz.

— Obrigado, meu caro.

Gandalf podia ser bem polido quando queria, pensou Anna. Ela esperou o mago sair para perguntar, de maneira tímida:

— Ainda está chateado comigo?

Thorin respondeu:

— Talvez sim.

— Preciso lhe dizer uma coisa, e acho que ficará ainda mais chateado comigo — adiantou-se Anna. — Só espero que entenda as minhas razões.

Thorin a encarou, notando que era sério.

— Mas não prefere primeiro saber o que penso sobre a data do casamento?

Anna abaixou a cabeça, dizendo, com angústia genuína:

— Não estou certa que haverá casamento depois que eu lhe contar o que preciso.

— Pequena — Thorin sentou-se na cama dela, preocupado —, o que foi?

Ela fechou os olhos, dizendo, em voz miúda:

— Menti para você. Peço mil desculpas, mas eu não vi outra opção. Só que eu não quero me casar com isso entre nós. E… se você não quiser mais se casar comigo, eu vou entender.

Ele a encarava, abismado.

— É tão grave?

— Por favor, me escute. Acontece que, ao longo de nossa jornada, fui descobrindo que as mudanças em mim foram maiores do que meramente ter um corpo novo e menor. Descobri também ser capaz de falar línguas que antes nunca ouvira falar. Entendo a língua de seu povo, e dos elfos também. Pude até falar com um tordo!

Thorin se espantou:

— Como isso é possível?

— Não tenho certeza — confessou Anna. — Mas isso não é tudo. Graças a Beorn, descobri que também sou capaz de trocar peles.

A isso ele reagiu encarando-a com um misto de ceticismo e apreensão. Anna continuou:

— Eu também não acreditei, a princípio. Achei que Beorn estivesse fazendo troça de mim, mas… ele me ajudou a treinar. E quando fui experimentar, bem, deu certo. Eu consegui.

— Então você… é um urso também?

— Essa é a diferença. Eu posso ser qualquer animal. Na verdade, eu preciso dizer que… Desculpe, Thorin, mas não posso mais esconder isso.

— Esconder o quê?

— Não existe Safira. Na verdade, Safira existe, só que... ela sou eu.

Ele se ergueu, assustado, e deu dois passos para trás. Anna se encolheu, envergonhada.

— Desculpe, por favor, Thorin. Eu vou entender se você não quiser mais se casar comigo.

O rei anão a encarou, uma expressão indecifrável. Anna podia sentir a decepção emanando dele em ondas. A voz dele estava muito estranha quando ele perguntou:

— Por quê?

Ela não pôde evitar lágrimas:

— Você ia ficar doente, e se soubesse de meu segredo, poderia querer me usar. Eu só procurei me preservar. Se você soubesse desse poder enquanto estava doente, poderia tentar me forçar a fazer algo que eu não queria. Tente entender.

Thorin virou-se de costas para Anna. A moça tentou se controlar, mas estava difícil evitar as lágrimas. Na verdade, ela se sentia muito culpada por ter mentido daquele jeito, mas ela não vira nenhuma alternativa. E isso poderia ter lhe custado seu futuro com Thorin. Talvez ela devesse mesmo aceitar a proposta de Elrond e se mudar para Lothlórien. Ou para Bag End, com Bilbo.

Anna não pôde deixar de pensar na ironia que era em ter amigos que lhe ofereceram lugares para morar num mundo ao qual ela não pertencia. Ao menos ela não estava desamparada. Sim, podia ficar sozinha, pois sem Thorin ela não teria mais ninguém em sua vida, mas não estaria totalmente desamparada.

Havia um silêncio tenso no ar. Anna sentia um buraco no estômago, um que ameaçava fazer voltar a deliciosa refeição de Bombur.

E Thorin nada dizia.

De repente, ele quebrou o silêncio, em voz suave, sem se virar para ela.

— Mais uma vez, não sei o que fazer com você.

Anna sentiu seu coração se partir ao ouvir isso, mas não respondeu. Thorin indagou, ainda de costas:

— Pretende continuar a manter segredo disso?

Anna deu de ombros:

— Sim. É o melhor a fazer. Essas habilidades já serviram ao propósito que eu queria: ajudar a salvar você e a reaver a montanha. Mas entendo que outros podem querer cobiçá-las ou usar aqueles a quem amo para me forçar a fazer coisas que não quero. Por isso jamais contarei a ninguém sobre elas. Mas eu não poderia esconder tamanho segredo de você. Para ter um casamento cheio de mentiras, prefiro não ter casamento algum.

Foi quando Thorin se virou. Anna viu os olhos azuis a encará-la, avaliando sua determinação e sua sinceridade. Era um escrutínio que a deixava desconfortável, e ela desviou os olhos.

— Conte-me quando usou essas… habilidades.

Como prometera, Anna não lhe escondeu nada: falou da sua chegada à Cidade do Lago, quando adoeceu por conta dessas trocas de pele. Ela notou os olhos de Thorin se arregalando quando ela contou que esteve frente a frente com Smaug — e que foi o dragão que revelou sua gravidez, quando ela nem mesmo sonhava com isso.

Thorin nada comentou, e Anna continuou a falar, em tom de desabafo, sobre Safira. Ela jamais pensou em voltar a trocar sua pele para a de um dragão depois que Smaug morrera, mas sua única forma de ajudar os anões de Erebor durante a batalha seria sendo um animal grande e feroz, então ela recorrera a Safira. Contudo, Anna confessou que ia ficar difícil esconder-se debaixo das escamas azuis e verdes, se ela continuasse a sumir toda vez que Safira aparecia. Alguém eventualmente ia terminar notando e talvez ligasse as coisas, expondo seu segredo.

Anna explicou:

— Eu pretendia me transformar em um outro animal durante a batalha, mas aí eu vi Kíli nas mãos de Azog, e perdi a cabeça. Não pensei, agi por instinto.

Thorin indagou, sentando-se na cama:

— É verdade que tinha desistido de mim?

Anna abaixou a cabeça, envergonhada:

— Pensei que você tivesse desistido de mim, pelo que fiz com a pedra de seu pai e de seu avô. Achei que não me quisesse mais.

Thorin ficou em silêncio e depois indagou:

— Essa sua... habilidade... Ela também ajuda a convencer pessoas?

Ela respondeu, curiosa:

— Não. Por que está perguntando isso?

— Você parece ter grande influência sobre os elfos e também os humanos.

Anna se constrangeu:

— Oh, bem, eu já ia entrar nesse ponto. É que, por causa dessa habilidade, de alguma forma, os elfos acreditam que eu seja uma criatura ligada à raça deles.

— Você tem sangue elfo...? — Thorin indagou com uma voz quieta, uma que Anna sabia ser a mais perigosa que ele tinha.

— Não, não é isso — ela se apressou a dizer, coração acelerado. — Na verdade, Lord Elrond me disse algumas coisas que eu nem acreditei, sobre eu ser de uma outra raça, coisas assim. Acho que não importa muito. Mas o fato é que eles me consideram um tipo de... parente. Sei que você não gosta de elfos, mas eu fiquei com a impressão que eles... er... me adotaram, ou coisa assim.

Anna estava vermelha, envergonhada. Thorin não ia gostar nada daquilo, mas ela tinha prometido que não mentiria mais. No momento, ela estava preocupada com a reação de Thorin.

E tinha razão. Ele ficou vermelho:

— Eles não têm nenhum direito sobre você!

— Eles não reclamam nenhum direito sobre mim. Mas eles me protegerão se eu pedir. Acho que até me abrigarão, se você me expulsar de Erebor.

Anna viu Thorin praticamente mostrar os dentes ao rosnar:

— Como ousam achar que eu a expulsarei? Que acham eles que sabem a meu respeito? São elfos!

— São minha gente agora — lembrou ela. — E isso pode não ser de todo ruim: quem sabe agora poderemos ter mais harmonia com os elfos silvestres? São vizinhos de Erebor, e devemos ter boas relações com os vizinhos. Se eu puder ajudar nisso, ficarei feliz.

Thorin ficou em silêncio por uma pausa. Depois indagou:

— É por isso que quer adiantar o casamento?

— Não. Eu não sabia de nada disso quando sugeri que nos casássemos o quanto antes. Mas agora eu tenho toda essa família para considerar. Não posso deixar de convidá-los. Eu já queria convidá-los antes, po motivos diferentes. Lord Elrond me salvou a vida duas vezes, e o rei Thranduil deve ser convidado por questões políticas.

De novo, Thorin se ergueu em silêncio e olhou para outro lado, comentando:

— Eu não fazia ideia da extensão de seu segredo.

Anna respondeu:

— Por ser um segredo extenso é que eu não posso mais escondê-lo de você. Também espero que ver a extensão deste segredo ajude você a entender meus motivos para não torná-lo conhecido.

O Rei Sob a Montanha sentou-se perto dela e pegou em sua mão. Pela primeira vez, Thorin disse palavras que tranquilizaram Anna.

— Não pense que estou raivoso, minha pequena. Só fiquei surpreso. Primeiro estava surpreso que pudesse ter me traído de verdade. Agora vejo que não é este o caso. Depois fiquei surpreso com seu julgamento, sábio além de seus jovens anos. Tem razão: é um poder que pode despertar a cobiça de muitos. Muito provavelmente, durante minha vergonhosa doença, eu pudesse ter tentado usá-lo, com consequências desastrosas. Esse poder é seu, e somente seu, para usar como lhe aprouver.

Anna levou o rosto à mão dele, acariciando-o:

— Oh, Thorin...!

Ele a envolveu em seus braços, e Anna sentiu um manto de alívio cobrindo-a com os braços do homem que amava.

— Como pôde acreditar que eu haveria de não querê-la mais, ghivashel?

Anna aninhou-se a ele, com um suspiro:

— Confiança é tão importante quanto amor. Temi que você não confiasse mais em mim, e sei que esse tipo de dúvida pode não ter volta.

Thorin beijou o topo da cabeça dela, dizendo:

— Suas palavras me deram grande alegria. Estou tão orgulhoso de você, pequena. Eu não poderia desejar mulher mais digna para compartilhar comigo o trono de Erebor.

Anna ergueu o rosto:

— Tem certeza que vai me querer a seu lado?

— Agora mais do que nunca. Você será minha conselheira real.

— Mas eu nada entendo de reinos, política, e essas coisas!...

Thorin sorriu para ela e cochichou:

— Basta ficar atenta e chamar a atenção do rei quando ele estiver prestes a cometer uma asneira.

Anna sorriu.

— Está se tornando minha especialidade.

— Outra especialidade que você está aperfeiçoando é ter boas ideias.

— Como assim?

— Sua ideia de antecipar o casamento é excelente. É disso que precisamos para levantar os ânimos de todos. Devemos consultar Óin sobre sua saúde e fazer isso o quanto antes.

Anna abriu um sorriso como não fazia há muito tempo:

— Mesmo? — Ela o abraçou com força. — Oh, Thorin, obrigada!

— Fico muito feliz que tenha gostado.

— Devemos comunicar os convidados imediatamente! — disse ela, entusiasmada, mas então se lembrou: — Seu povo tem algum ritual especial de casamento que eu deva saber?

Ele ficou em dúvida:

— Suponho que não. Basta reunir os convidados, jurar amor eterno diante de Mahal, unir as mãos e queimar a fita. Depois há a festa, canto, dança. Só isso.

Anna o encarou, incrédula.

— Simples assim?

— Isso mesmo.

— Agora me responda: se eu fizer essa mesma pergunta à sua irmã, ela me responderia desse jeito?

Thorin a encarou, absolutamente intrigado, quase ofendido:

— O que minha irmã tem a ver com qualquer coisa?

Pacientemente, ela explicou:

— Eu só quis dizer que às vezes uma mulher tem uma percepção diferente da percepção de um homem. Sua irmã poderia mencionar costumes aos quais você provavelmente nunca prestou atenção.

Ele ainda não tinha certeza se deveria ficar indignado ou não, mas respondeu:

— Suponho que tenha razão. Seu povo tem muitos rituais de casamento?

— Oh, muitos: noivas usam branco, há padrinhos e madrinhas, o pai entrega a noiva ao noivo, o casal abre as danças da festa, a noiva joga o buquê...

— Buquê? Que buquê?

— Toda noiva leva em suas mãos buquê de flores. Depois ela joga para as convidadas casadoiras. Reza a tradição que quem pegar o buquê será a próxima a casar.

Thorin franziu o cenho:

— Não me recordo de buquês. Vocês têm alianças?

— Sim, sim! Como fui esquecer? — respondeu ela. — Normalmente é um anel liso, de ouro, usado no quarto dedo da mão esquerda.

— Liso? Sem pedras?

— A tradição é que a aliança seja sem pedras nem ranhuras. A aliança lisa simboliza um casamento sem dificuldades e percalços para o casal.

— Interessante — foi tudo que ele disse.

Anna o encarou, intrigada com o tom dele, que de repente se tornara sóbrio. Tentou ler o rosto dele, mas nada encontrou. Então indagou:

— Thorin? Você ficou sério de repente. O que houve, meu amor?

— Você falou em dificuldades. Fico pensando em quantas vamos enfrentar.

— Thorin... Eu estive pensando nisso. — Anna começou a dizer, com cuidado. — Sei que seu povo tem tradições e costumes muito rígidos, e eu não sou um de vocês. Então... Se por causa disso você se prejudicar, eu quero que me diga.

Ele a ajeitou em seus braços, suspirando:

— Eu gostaria de dizer que não, que não haveria problemas. Mas meu povo desconfia de estranhos, é cheio de suspeitas com outros povos. Seria ingenuidade minha achar que todos a aceitarão de braços abertos. Eles não a conhecem, ghivasha. Não sabem como você é preciosa. Já seria difícil em circunstâncias normais, mas minha posição só complica a situação.

— Você é o rei sob a montanha, líder deles. Por isso é que proponho não divulgarmos o fato que eu sou parente de elfos. Que acha?

— Parece uma boa ideia. Mas não deveria fazer isso, se eles são realmente sua família.

— Thorin, sua consorte não pode ser motivo para uma fraqueza política. Prefiro não ser sua esposa a ser o motivo de uma crise em Erebor.

— Pois prefiro abdicar do trono a ficar sem você. Se o seu lugar é a meu lado, meu lugar não é longe de você!

Anna se escandalizou:

— Thorin, você é um rei, um líder de seu povo. Não pode negar isso!

— Fíli é meu herdeiro, da Linhagem de Durin — lembrou Thorin. — Tenho a quem entregar o trono. Poderia voltar a ser um ferreiro em Ered Luin, ter vida nova com minha mulher e meu filho.

Anna o encarou, já sem saber o quão seriamente ele falava. Depois indagou:

— Thorin, não pode estar mesmo pensando em deixar o trono de Erebor! Depois de tudo que passamos? Não mesmo!

Ele a encarou, os olhos azuis faiscando:

— Se Mahal me dissesse que esse é o preço a pagar para ter você a meu lado, eu pagaria de bom grado. — Thorin adquiriu um ar divertido no rosto sisudo ao indagar: — Se eu fosse um simples ferreiro, sem tesouro, sem coroa e sem montanha, deixaria de me amar, pequena?

Anna lembrou, com um sorriso:

— Quando eu o conheci, Thorin Oakenshield, você não tinha coroa, nem tesouro, nem montanha, mas você já era meu rei.

Thorin a apertou entre seus braços e cobriu os lábios de Anna com os seus, sussurrando:

Ghivashel...

Após entregar-se ao beijo, Anna sorriu, envergonhada, indagando:

— Será que posso pedir um presente de casamento ao meu futuro marido?

Thorin sorriu e concordou antes mesmo de saber o que era. Quando descobriu o que tinha acabado de prometer, porém, teve vontade de rosnar.

Pensando bem, Anna teve a impressão de que ele chegou a rosnar baixinho.

Palavras em Khuzdul:

ghivasha = tesouro

ghivashel = tesouro de todos os tesouros