Jornada Para Erebor
65 Planejamento e execução
Notas iniciais
Durante uma noite inteira, Anna temeu a reação do senhor de Rivendell quando ela fosse obrigada a dizer que, por mais honrada que ela estivesse, era obrigada a declinar do convite. No fim, foi muito menos doloroso do que imaginava.
Anna sorria ao dizer:
— Espero que esteja presente a meu casamento, Lord Elrond.
O elfo inclinou-se numa reverência.
— Ficarei honrado e feliz.
Anna dirigiu-se aos demais elfos presentes em sua tenda:
— Estão todos convidados, e também Lord Gwaihir. — Ela pegou a mão de Thorin, que estava a seu lado. — Faço questão de todos vocês, pois eu os considero minha família. Na cerimônia que vai oficializar o início de minha família com Thorin, eu os considero indispensáveis.
Gandalf era todo sorrisos:
— Desejo muitas felicidades ao casal.
Thranduil e seu filho Legolas também se curvaram.
— Que Ilúvatar derrame muitas bênçãos em vocês dois e todo o seu povo.
Thorin pigarreou antes de dizer, desconfortável:
— Erebor pode marcar sua reconstrução com base na amizade entre nossos vizinhos humanos... e elfos.
Elrond ergueu uma sobrancelha, sem esconder a surpresa. Gandalf estava com um sorriso tão grande que seu rosto parecia prestes a se partir em dois, bem como Bilbo. Thranduil, por sua vez, estava com os olhos tão arregalados que eles corriam o risco de saltar de suas órbitas. Eldrin e Legolas traziam sorrisos para Anna, que encarava Thorin com um orgulho quase palpável. Bard quebrou o silêncio:
— É uma declaração auspiciosa, rei Thorin.
Anna adiantou:
— Devido às circunstâncias de grande perda entre nossos povos, preferimos uma cerimônia simples, praticamente apenas para nossos amigos e família. Não é uma ocasião para banquetes.
Gandalf concordou:
— Muito sensato. E quando serão as bodas?
Anna respondeu:
— Não demora. Alguns preparativos já começaram, mas eu preciso ser liberada de meus curadores primeiro.
— Isso não deve demorar — comentou Bilbo. — Você parece cada vez melhor.
Thranduil se dispôs:
— Com a permissão do Rei Sob a Montanha, os elfos de Mirkwood gostariam de ajudar a preparar um local especial para o casamento.
Bard se adiantou:
— Como prova de apreço, os homens da Cidade do Lago gostariam de oferecer um jantar em comemoração às núpcias.
Thorin se curvou:
— É generoso de sua parte, Rei Thranduil, Rei Bard.
Anna acrescentou:
— É prático também. Calculo que Lord Gwaihir vá ficar desconfortável dentro da montanha.
Legolas sorriu:
— Melhor começarmos os preparativos, então. E muitas felicidades.
Anna esperou que todos saíssem e então se virou para seu futuro marido, beijando-lhe a bochecha:
— Obrigada, Thorin. Sei que não deve ter sido fácil.
O Rei Sob a Montanha respondeu, com um suspiro:
— Vou nomeá-la conselheira para assuntos estrangeiros. Não sei se vou aguentar isso de maneira permanente.
A Consorte sorriu:
— É um grande homem, futuro marido, será um grande Rei para Erebor e pode sempre contar com minha ajuda.
Eles se beijaram. Naquele momento, o futuro era todo feito de promessas e alegria.
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Um dia antes dos curadores a liberarem, Anna descansava sozinha quando um anão que ela nunca vira antes entrou na sua tenda. Ela ficou apreensiva, saudando:
— Sim?
Ele se apresentou, com uma mesura floreada:
— Dáin Ironfoot, a seu serviço.
Anna abriu um sorriso:
— Dáin! O primo de Thorin, claro! Sente-se, por favor. Eu sou Anna.
Ele obedeceu, rosto sério, as longas barbas crespas bem tratadas.
— Sim, senhora, sou eu. Já que meu primo não nos apresentou, achei melhor fazer isso eu mesmo.
— Que bom que fez isso. Eu não tinha certeza se voltara às Colinas de Ferro e ia pedir a Thorin que nos apresentasse o quanto antes. Queria agradecer a sua ajuda e a de seus guerreiros para a defesa de Erebor.
Com o jeito ríspido de anões, ele comentou:
— Francamente, madame, eu fiquei curioso para conhecer a estrangeira de que tanto falavam e que virou a cabeça do Rei Sob a Montanha.
Ela enrubesceu:
— Se falou com os membros da Companhia, saiba que eles podem exagerar muito. Especialmente Bofur!
— Mas não há exagero sobre virar a cabeça de Thorin. Tem planos de se tornar rainha?
Anna sentiu o tom inamistoso do anão e não se intimidou:
— Já assinei um contrato de casamento a esse respeito. Ele me concede o título de Consorte. Como não sou de sua raça, não posso ser rainha.
— Humpf — fez ele, com desprezo. — E a criatura que carrega, terá título?
Desfazendo-se de qualquer ar amistoso, Anna escolheu as palavras para responder:
— O filho do Rei Sob a Montanha deve ser chamado de príncipe, não deve?
— Não se ele for apenas um bastardo da realeza.
Anna garantiu, já tentando se conter:
— Esta criança não nascerá fora do casamento. Thorin e eu nos uniremos na semana que vem. Como parte da família, Dáin, está convidado para a cerimônia. E eu sugiro que não decline do convite.
Aí mesmo é que o anão fechou a cara:
— Tem uma língua atrevida para querer dar ordens ao senhor das Colinas de Ferro!
— Meu senhor, foi apenas uma sugestão, não uma ordem. Em nome da boa convivência dentro da Linhagem de Durin, também estou disposta a esquecer sua visita e seus modos em se aproveitar da ausência de Thorin. Mas para isso terá que mostrar mais boa vontade do que fez até agora.
Ele ficou vermelho:
— Recorre, então, à chantagem, senhora?
Anna suspirou, desarmando-se. Essa não era a melhor maneira de lidar com ele. Ela não queria brigar, não com Dáin. E foi isso mesmo que disse, em tom sincero:
— Não, nada disso, meu senhor. Só estou tentando poupar Thorin de aborrecimentos desnecessários. Não quero dar a ele o desgosto de enfrentar resistências dentro de sua própria família. Thorin teceu-lhe grandes elogios e pareceu-me ter grande afeição a sua pessoa. Penso apenas que nós dois poderíamos evitar essa decepção. Deixemos animosidades de lado, por favor — por Thorin. Pode me odiar o quanto quiser, mas não o magoe, eu lhe peço.
Dáin a encarou para avaliá-la. Depois apertou os olhos e indagou:
— Faria isso só para não magoá-lo? Engoliria seu orgulho?
— Meu único orgulho é que Thorin me ache digna de seu amor da mesma forma como eu o amo — respondeu Anna sinceramente. — Se tinha intenção de me ofender por eu ser quem sou, Lord Dáin, lamento dizer que não me ofendeu. Mas gostaria de saber se podemos evitar que Thorin tenha esta decepção.
O anão observou:
— Sabe que outros de meu povo podem levantar essas objeções a seu respeito, não sabe?
— É claro que sei, e espero por isso — respondeu ela. — Mas outros não são família. E é só isso que importa.
Dáin ficou calado, pesando as palavras dela.
— Como vou saber que não é uma estrangeira interesseira, que pretende trair meu primo e pilhar Erebor?
Ela deu de ombros:
— Acho que não tem como ter garantias. Terá que ter confiança.
Dáin fez uma expressão de suspeita:
— Confiar em você?
— Não. Terá que confiar no julgamento de Thorin.
Mais uma vez o anão calou-se, assentindo. Então se aproximou dela, dizendo de maneira conspiratória:
— Tem certeza que não é uma bruxa, ou coisa assim?
— Oh, não. O mago por estas paradas é Gandalf.
— Oh, bem.
Anna acrescentou, também de maneira conspiratória e divertida:
— Mas se isso ajudar, saiba que o rei élfico Thranduil disse na minha cara que eu o assusto.
Dáin arregalou os olhos, encarando-a como se a visse pela primeira vez.
— Ora, ora! No final de contas, meu primo não está enfeitiçado! Alguém capaz de meter medo naqueles elfos comedores de mato não pode ser má pessoa!...
Anna e Dáin Ironfoot trocaram sorrisos, num clima muito mais amistoso. A moça pensou o que Thorin diria sobre isso, quando soubesse, mais tarde.
Muito mais tarde.
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No fundo, o casamento foi bem menos complicado do que Anna imaginara. A cerimônia foi pela manhã, e as comemorações vararam noite adentro.
Além da comida, os homens da Cidade do Lago também providenciaram mulheres para ajudar Anna em seu vestido de noiva. Embora muitas das tradições a que estava acostumada não fossem seguidas, era costume a noiva ter um vestido especial. Foi aí que Anna conheceu Ruth, uma mulher que foi de imensa ajuda nesse quesito. Dori também ajudou, para que as tradições do povo dos Barbalongas fossem observadas.
Até chegar o casamento, a tenda que Anna ocupara durante a convalescença terminou virando uma espécie de quarto privado. Thorin disse que o quarto real dentro da montanha estava sendo preparado para recebê-la após o casamento. Eles só viveriam no aposento quando fossem marido e mulher.
Quando o grande dia chegou, meros três dias depois que os curadores a liberaram, a manhã era fria, com um sol pálido que se confundia com o nevoeiro de inverno. Felizmente, não havia vento, e os convidados se concentraram no espaço ao ar livre preparado pelos elfos ao lado de uma grande tenda preparada em caso de chuva. O grande rio estava ao lado do campo onde Gandalf se postava no centro, os convidados dispersos num padrão claro: anões de um lado, elfos e humanos de outro. Todos esperavam a chegada da noiva.
Sob o anúncio de uma trombeta élfica, Anna entrou no local, conduzida por Bilbo. Ela estava num vestido de veludo cinza com detalhes em pele. Tinha pedras no cabelo e estava adornada com fitas que ostentavam o selo de Thorin Oakenshield. Após uma discussão com Dori (que queria enchê-la de joias), Anna concordara em usar um anel em cada mão, um colar e uma pulseira. Um buquê, contudo, era impossível, pois que era inverno. Mais uma vez Dori tinha sido a salvação, ao sugerir que ela levasse na mão uma pequena coroa trançada de azevinho e carvalho, duas madeiras complementares. O carvalho, claro, era uma referência a Thorin. Por sua vez, Bilbo vestia sua elegante camisa de mithril com o cinto de pérolas sob um rico casaco bordado.
Bilbo levou-a para diante de Gandalf, onde Thorin a esperava. Como o Rei Sob a Montanha não havia tido uma cerimônia formal de coroação, ele usava apenas uma tiara principesca. Sua túnica era na sua cor, azul real, e ele usava também uma jaqueta de couro e peles, botas finas de couro e anéis nos dedos, além das contas de ouro nas tranças do cabelo cuidadosamente penteado. Seus olhos emitiram um brilho profundo ao fitar Anna. Os demais convidados dividiram-se entre finos trajes elegantes (elfos de Mirkwood e os dois de Rivendell) e reluzentes uniformes militares (anões e humanos).
Anna não podia negar sentir um bando de borboletas no estômago ao ver Thorin a esperando, muito elegante, um largo sorriso, ao lado dos sobrinhos igualmente arrumados e sorridentes, cabelos e barbas impecáveis. Parecia que tudo era um sonho e que ela iria acordar a qualquer momento.
E quem precisava ouvir a Marcha Nupcial?
Bilbo levou-a até Thorin, e Anna beijou-lhe a bochecha, sorrindo. Depois o hobbit pôs a pequena mão da moça na de seu noivo e postou-se ao lado de Elrond. Thorin beijou a mão de Anna e sorriu para Bilbo, antes de se virar para Gandalf.
O mago sorria para eles com afeição palpável, mas se dirigiu a todo o grupo:
— Ilustres amigos, queridos convidados, sejam todos bem-vindos. Estamos juntos hoje na celebração da união de um dileto filho de Mahal e uma criança de Yavanna, sob a bênção dos deuses e dos Valar. Embora esta combinação seja inédita de muitas formas e maneiras, ninguém pode dizer que seja equivocada. O amor de Thorin por Anna e de Anna por Thorin não deve ser duvidado por ninguém, e certamente trará frutos além do que qualquer um aqui é capaz de prever. Amigos, somos testemunhas de um dia extraordinário, e o futuro de Erebor e toda a Terra Média se desenha com uma expectativa notável. E antes que eu comece a me estender muito, convido todos que queiram a externar seus votos ao casal.
A palavra ficou aberta a todos, e muitos dela fizeram uso. Elrond falou de harmonia, Eldrin citou fidelidade, Thranduil de fartura, Bilbo desejou fertilidade, Dáin mencionou prosperidade e Gwaihir desejou céus limpos e ventos benéficos. Anna não pôde deixar de se emocionar diante da demonstração de apreço de seus amigos.
Gandalf agradeceu a todos e continuou:
— Após as bênçãos e votos de nossos amigos, chegou a hora do casal se pronunciar diante de todos. Thorin, é de sua própria vontade que você toma essa mulher como sua esposa para dela cuidar, amar e respeitar?
Ele olhou para Anna, um sorriso nos olhos, e respondeu:
— Sim.
— E você, Anna, é de sua vontade receber esse homem como seu esposo para amar, respeitar e honrar?
— Sim — ela respondeu, emocionada.
O mago pediu:
— O portador das alianças agora vai produzi-las.
Kíli se adiantou:
— Sou eu! Aqui.
Gandalf convidou:
— Os noivos agora trocarão alianças. Thorin, você colocará a aliança em Anna e ela fará o mesmo em você, com a ajuda de Kíli. O formato das alianças, um círculo perfeito, sem início nem fim, simboliza a eternidade de seu amor e de sua união abençoada por todos os Seres Superiores.
Assim foi feito, Anna sem conseguir esconder as mãos trêmulas de emoção. Kíli se afastou e Gandalf chamou:
— Fíli, o portador da fita, agora vai proceder às amarras nupciais.
Mesmo sabendo do que se tratava, Anna se surpreendeu quando Fíli usou uma espécie de cipó cerimonial enfeitado com fitas para amarrar seu braço ao de Thorin. Nas fitas, estavam escritos mais votos de prosperidade, proteção, harmonia e amor. Para lacrar a amarra, Fíli derramou mel. Gandalf ergueu os braços unidos e proferiu:
— Sejam todos testemunhas da união dos destinos deste homem e dessa mulher até o fim dos seus dias. O mel significa a doçura que vai permear sua união por toda a eternidade. Saiam daqui, agora unidos, e vivam um para o outro e os dois abençoados por Valar, filho de Aulë e filha de Yavanna.
Thorin e Anna deram uma volta em frente aos convidados, exibindo os braços unidos, seguidos pelo portador das alianças e o portador da faixa. Em seguida, a fita foi queimada. Isso concluíra a parte da cerimônia.
Agora começava a parte da festa. E Anna não podia dizer, com sinceridade, que tenha prestado muita atenção à sua festa de casamento. É que havia muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Uma festa sem muito tempo de preparação e no rastro de uma batalha obviamente era marcada pelo improviso e a informalidade. Embora Lord Elrond e Eldrin parecessem bem à vontade, Thranduil tinha um aspecto mais reservado, e Anna se desculpou por não poder oferecer uma festa à altura dos banquetes de Mirkwood. Legolas circulava bastante, e o elfo era alvo da curiosidade de Bain, filho de Bard. Anna teve pena do isolamento a que foi submetido o Senhor da Cidade do Lago e foi cumprimentá-lo.
Normalmente, o casamento de um rei seria ocasião para um festim de vários dias, mas Thorin considerou muito sensatas as considerações de sua noiva. Uma festa grandiosa seria de mau gosto diante do recente desastre à volta. Famílias tinham perdidos seus entes queridos para a fúria do dragão ou para os horrores da guerra. Thorin concordou em deixar a grandiosidade cerimoniosa para outra ocasião.
No mais, a festa ocorreu como se podia esperar de toda festa: havia música, bebida, comida, alegria, celebração. Era grande a animação entre os anões, um grupo ruidoso por sua própria natureza. Anna, porém, prestava atenção em seu marido (e ela ainda tinha dificuldade em absorver a realidade de estar casada com Thorin), tentando fazer um exercício de imaginar o futuro: como seria sua vida em Erebor, seu filho, um reino na montanha...
Ela estava um pouco distante, distraída com esses pensamentos quando uma voz a interrompeu:
— Então esta é sua escolha?
Anna encarou Elrond, que a olhava com uma expressão profunda. Ao se dar conta do que ele perguntava, Anna respondeu:
— Eu escolho a felicidade, meu senhor. Seu convite me honra mais do que posso dizer, mas não sinto que eu tenha escolha neste assunto.
O elfo assentiu:
— Entendo. Desejo-lhe toda a felicidade do mundo. E lembre-se: somos sua família. Sempre que precisar, estaremos prontos a apoiá-la.
Ela disse, sinceramente:
— Obrigada, Lord Elrond.
— É melhor voltar para junto de seu marido. Ele a procura.
Anna voltou para a festa mais tranquila. Apesar de toda a excitação, ela se sentia em paz.
Quando o sol se punha, Balin cochichou algo a Thorin, que estendeu a mão a Anna, convidando:
— Hora de nos recolhermos.
Ela sorriu e ergueu-se da mesa para despedir-se dos convidados. A maioria, contudo, estava tão envolvida na festa, que sequer prestou atenção nos dois. Um dos mais animados era Bilbo, que dançava vigorosamente quando Anna deixou o local da festa, enquanto as primeiras tochas eram acesas.
Thorin guiou-a para dentro da montanha, e era impossível Anna não notar a diferença no local: como os companheiros disseram, o interior tinha sido limpo. Os industriosos anões tinham feito um excelente trabalho, e a montanha perdera o ar de decadência e destruição.
Anna olhava para cima, maravilhada:
— Thorin, tudo está tão lindo!...
— E ainda não terminou. Espero que goste de nosso quarto.
Anna deixou-se levar escada acima até a ala real, que já conhecia. Mas Thorin a levou a um quarto diferente, os aposentos do rei. Ele abriu a porta e deixou que ela entrasse primeiro.
— Sua nova casa, minha rainha. Seja bem-vinda.
O amplo local de paredes de pedra já estava com a lareira acesa, o que o tornava ainda mais aconchegante. Havia uma cama dupla grande, com cobertores e peles, tapetes e cortinas, além de tapeçarias nas paredes. Dois armários altos (um deles aparentemente embutido) e uma cômoda com cinco grandes gavetas eram os móveis do local, mas também havia um baú grande, uma poltrona e uma escrivaninha, que Thorin já começara a usar, pois havia pilhas de papéis, pergaminhos e pastas.
Ao lado da cama, uma mesa alta tinha um jarro e uma bacia de abluções. Uma mesa baixa tinha um jarro de água, uma ânfora de vinho e uma cesta com frutas. Uma porta lateral dava para uma sala de banho ampla.
Anna a tudo observava sem nada dizer. Thorin interpretou aquilo como um mau sinal e observou, tentando conter a decepção:
— Claro, vamos mudar tudo o que você não gostar.
Ela notou o tom dele e apressou-se em dizer, abraçando-o:
— Não quero mudar nada! Eu adorei, Thorin. Obrigada.
Ele sorriu suavemente para ela:
— Quero que seja feliz aqui, minha pequena. Vou fazer tudo para isso acontecer.
Anna sorriu, ainda agarrada a ele:
— Thorin, já está acontecendo.
Os lábios deles se encontraram, acendendo um fogo que ambos ansiavam por apagar. Em minutos, os dois arfavam e seus corpos se apertavam um contra o outro. Thorin sussurrou entre beijos:
— Minha pequena...
Anna o acariciava, suas mãos percorrendo as longas madeixas de Thorin entre gemidos.
— Meu amor...
Ambos ainda estavam enganchados um nos braços do outro quando conseguiram chegar aos tropeções à cama. Lá, ambos desvencilharam-se dos intrincados trajes de festa e entregaram-se um ao outro.
Durante horas o fogo do amor de um pelo outro ardeu com intensidade. Embora não fosse mais uma paixão proibida, o ardor deles não diminuíra, alternando momentos de ternura com desejo incontrolável. Thorin beijava o ventre levemente inchado de Anna, que o abrigava em seus braços. Ele a adorava sem cessar, e Anna demonstrava a saudade que seu corpo sentia. Quando a paixão de seus corpos esfriou um pouco, descansaram enrodilhados.
Ainda era noite quando Anna acordou nos braços do marido. Thorin ressonava suavemente, uma expressão tranquila em seus traços. Anna sorriu, feliz, o coração se inchando de amor. Ela se enrolou numa coberta e foi até o armário embutido.
Para sua alegria, descobriu que era uma porta. E dava para uma janela com uma sacada.
Anna ajeitou a coberta nos ombros e saiu para ver a noite. Não havia vento, mas isso não impedia que o frio cortante a deixasse arrepiada. Ela olhou para cima, vendo a silhueta da lua crescente no horizonte e uma miríade de estrelas acima. Era uma vista linda.
Anna se assustou ao sentir uma pesada manta de peles sendo posta em seus ombros e o corpo quente de Thorin a envolvê-la.
— Está frio, ghivasha.
Ela admirava a paisagem:
— É tão lindo aqui fora...
— Mandei fazer essa janela especialmente para você.
— Sério? Obrigada! Eu adorei, Thorin.
— Sigin-Tarâg Ursul.
— Como?
— É tradição que na noite de núpcias o casal troque seus nomes secretos. Não o usamos nunca, pois esse é o nome com o qual Mahal vai nos receber quando formos aos Salões de Mandos. O meu nome é Singin-tarâg Ursul.
— Singin-Tarâg Ursul — repetiu ela. — Qual é o significado?
— Quer dizer "fogo do povo de Durin".
— Digno de um rei. Lamento não poder retribuir a gentileza. Não tenho um nome secreto. Mas meu nome tem um significado.
— Um significado?
— A palavra Anna é de uma língua antiga da minha terra. Quer dizer "graciosa".
Thorin sorriu, beijando os cabelos de Anna.
— É um nome muito apropriado, minha graciosa.
— O seu também lhe cai bem. Agora fiquei emocionada e triste.
— Triste?
— Por não ter um nome secreto. Espero que isso não signifique que Mahal vá nos separar quando chegarmos aos Salões de Mandos.
— Eu enfrentarei Mahal e Mandos em pessoa, mas não ficarei longe de você, khebabinh. Além disso, podemos pensar num nome em Khuzdul para você.
Anna o encarou, desta vez sem sorrir:
— Thorin, por favor, me diga com sinceridade... Preferiria ter se casado com alguém de seu povo? Alguém que pudesse lhe dizer um nome secreto, essas coisas?
Thorin a apertou contra si.
— Claro que não, ghivashel. Você é tudo que quero, até o fim de meus dias.
Ela se entregou ao abraço, aninhando-se em seu peito com um suspiro suave:
— Eu nunca pensei que fosse possível amar alguém tanto quanto amo você.
— Eu também não — disse ele. — Depois de tanto tempo, pensei que eu não teria mais chance de encontrar amor.
Os dois trocaram um beijo suave e ficaram abraçados, na sacada, um respirando o ar do outro. Após alguns minutos, Thorin alertou:
— Veja. Vai amanhecer.
Anna virou a cabeça e viu o céu se tingindo de azul ao longe. Ainda iria demorar até o sol sair, especialmente daquele lado da montanha. Parecia que o dia seria claro, de céu limpo e muito frio. Ela sussurrou:
— Um novo dia. Um começo.
Anna ergueu a cabeça e sorriu para Thorin. Ele devolveu o sorriso.
Estava começando o primeiro dia do resto de suas vidas. Os dois sabiam disso. Instintivamente, Anna levou a mão à barriga, acariciando seu outro novo começo. A mão de Thorin, maior e calejada, cobriu a mão pequena de sua mulher.
Um futuro os esperava. Mas essa já é uma outra história.
E naquele momento Anna agradeceu não ter ido parar em Hogwarts.
Fim
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