Jornada Para Erebor

23 Sozinha em meio a toda essa gente


Notas iniciais
Aos cuidados dos elfos, Anna prossegue em sua aventura

Por alguns dias, a rotina de Anna foi muito diferente de tudo que ela já vivera: cuidados com a saúde, idas à biblioteca de Lord Elrond, longos exercícios de espada duas vezes ao dia e vida saudável, com alimentação especial e muito sono. Eram dias cheios de atividades, excelentes para quem sentia um vazio tão grande na alma.

A prática da espada foi menos desastrosa do que ela previra. Como não era esgrima, ela precisava desenvolver força nos músculos dos braços para que seus golpes fizessem mais do que furos no inimigo. Então, o instrutor alternava todo o tempo em fazê-la se acostumar ao peso da espada e fazer exercícios com os braços. Era uma rotina bem mais puxada do que tai chi chuan ou ioga, mas Anna não contava mais com a proteção dos anões. Dali para frente, tinha que tentar se defender sozinha.

Na biblioteca, ela conheceu Estel, um menino inteligente, de olhos tristes, que cativou Anna quase imediatamente. Ela simplesmente procurou esquecer que aquele menino era Aragorn, já que nem ele sabia disso. Então ela apenas se referia a ele como Estel, um menino de uns oito anos, vivaz e adorável com quem partilhava a biblioteca. Ele tentou ajudá-la a ler em Sindarin, mas para a tristeza de Anna, a habilidade dela parecia ser só na linguagem oral. Ela mal conseguia juntar duas frases naqueles caracteres sinuosos e ilegíveis.

A pedido de Estel, eles jantavam juntos. Era o bálsamo de Anna. Com o menino, ela ria e brincava. E o garoto também. Dava para ver que os elfos eram atenciosos, cuidadosos, mas não afetuosos. O menino sentia falta de proximidade emocional e demonstrações de carinho.

Esse era outro aspecto que fazia Anna sentir falta dos anões de Erebor: carinho. Ela sentia saudade de Bofur e suas piadas, de tudo que Bilbo representava na sua vida, de Balin e sua sensatez, do jeito doce de Ori e até das maneiras severas de Dwalin, bem como os demais. Sem mencionar Thorin, Kíli e Fíli.

Era um grupo barulhento, desordeiro e adorável, lembrou Anna, com uma dorzinha de saudade. Muitos eram parentes entre si, ressaltou ela, talvez por isso o ambiente na companhia fosse tão parecido com o de uma grande família.

Geralmente, era depois do jantar agradável na companhia de Estel, quando ela se via sozinha, que a saudade apertava, e Anna se debruçava na sacada, na ilusão que o magnífico vale à sua frente de algum jeito pudesse mitigar a sua dor. As lágrimas eram diárias. Anna tentava se controlar, mas parecia que a dor jamais teria fim. Ela sabia que estava totalmente apaixonada por Thorin, que a dor persistiria por muito tempo, mas de algum jeito teria que ir adiante.

Foi numa noite dessas que ela viu Lindir se aproximar, receoso e respeitoso.

— Sra. Anna?

Ela se virou, enxugando as lágrimas:

— Sim, Sr. Lindir?

Ele se inclinou, dizendo:

— Gostaria de lembrá-la que está tudo pronto para iniciar nossa jornada até Mirkwood na próxima madrugada.

— Obrigada pelo aviso, Lindir. Eu já ia me recolher.

— Bom descanso, senhora.

— Para você também, Lindir.

O elfo fez uma mesura e ia saindo, quando parou e voltou.

— Sra. Anna? — Ela o encarou, intrigada. — Lamento que seus amigos tenham partido sem a senhora.

Aquilo a surpreendeu, e Lindir baixou os olhos:

— Desculpe-me. Fui inconveniente. Não devia ter dito nada.

— Agradeço muito, Lindir. — Ela não pôde evitar mais lágrimas. — Mais do que imagina.

Ele se inclinou novamente, saindo rapidamente. Anna soltou um sorriso triste, pensando na gentileza de estranhos enquanto mais lágrimas voltavam a se formar em seus olhos.

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Era noite ainda quando Anna e sua trouxinha (agora maior e cheia de roupas élficas, graças à generosidade de Lady Galadriel), incluindo uma espada novinha em folha, estavam diante de uma ponte iluminada por tochas, cercada por um grupo de cavaleiros em armadura e outros dois cavalos de carga. Para alegria da moça, ela usaria como montaria o pônei Myrtle, o mesmo que usara depois da Curva do Rio.

— Mas essa é Myrtle! — Anna sorriu, acariciando a montaria. — Pensei que ela estava perdida!...

Lindir explicou:

— Nossas patrulhas encontraram algumas de suas montarias perto do vale escondido, antes que virassem comida de warg. Seu amigo hobbit insistiu em deixar especificamente esse animal para você.

— Oh, Bilbo sempre foi tão atencioso.

— Prontos? — Os cavaleiros montaram, Anna também. — Vamos indo. Temos que atravessar as Montanhas Sombrias ainda de dia.

A partida podia ter sido meio anticlimática, mas logo a jornada entrou no seu ritmo. Anna notou a diferença do clima entre o grupo liderado por Lindir e a companhia de Thorin Oakenshield. A camaradagem e o clima descontraído dos anões davam lugar à ordem, ao silêncio, à disciplina impessoal e à eficiência impecável. Poucas palavras eram trocadas, apenas o essencial e o necessário.

Nossa, como Anna se sentia sozinha.

Subiram a montanha ainda de manhã, e era noitinha quando começaram a descer. O elfo batedor voltou e informou a Lindir, falando em élfico:

— [Não há sinal de orcs ou goblins, senhor.]

— [Acamparemos aqui, mas redobrem as patrulhas. É uma zona perigosa.]

Mesmo entendendo cada palavra, Anna fez cara de surpresa quando o grupo começou a desmontar e Lindir explicou:

— Vamos acampar aqui. Procure descansar. Faremos uma refeição de soldados, lamento pelo desconforto.

— Está tudo bem, Sr. Lindir. Sei como é isso.

— Procure racionar a água que trouxemos. Uma vez que entrarmos na floresta, não haverá mais fonte de água limpa.

— Obrigada pela dica.

— E procure ficar sempre junto ao grupo, por favor. Para sua própria proteção. Lord Elrond insistiu muito em reforçarmos sua segurança.

— Eu entendo. Sr. Lindir, tem algo que eu possa ajudar?

— Por favor, Sra. Anna, não se preocupe com isso. Eu a chamarei para a refeição.

Anna sorriu, grata. Após a refeição, Lindir indicou o melhor lugar para ela dormir, praticamente cercada pelos cavaleiros. Eles estavam quase no sopé da montanha, e Anna teve dificuldades para dormir.

Os pesadelos tinham voltado. Eventualmente Anna via em seus sonhos figuras de seu passado, como ex-namorados que a tinham abandonado, e todos eles se transformavam Thorin, que a deixava sem sequer dizer adeus. Nos pesadelos, Anna sempre era brutalmente abandonada, revivendo as terríveis sensações de Rivendell. Ela acordava sobressaltada.

Uma coisa boa sobre esse fato era que, pelo menos dessa vez Anna não gritava em seu sono. Uma coisa ruim é que ela não tinha nem Bilbo nem Thorin para confortá-la e abraçá-la até que ela pegasse no sono de novo.

E assim a viagem prosseguiu por vários dias. Numa das noites em que eles montavam acampamento, Lindir veio até Anna explicar:

— Descanse bem, pois amanhã deveremos entrar em Mirkwood. A floresta é sombria e traiçoeira, deve ficar atenta o tempo todo. Acostume-se a dormir com sua espada, para qualquer emergência. Nós a protegeremos, mas deve se lembrar do que aprendeu nas lições de espada para não se tornar um alvo.

— Certo — respondeu Anna.

Lindir passou-lhe uns embrulhos quadradinhos, envoltos em folhas muito verdes.

— Estes são lembas, um pão nutritivo. Você verá que um bocado apenas é suficiente para sustentar um homem adulto durante um dia inteiro. Deixe-os sempre embrulhados em folhas para conservarem mais.

Anna olhou os pacotinhos, maravilhada. Os famosos lembas! Os mesmos pães tinham sido praticamente a única comida de Frodo Baggins e Samwise Gamgee no caminho até Mordor.

Lindir continuou:

— Não pararemos na floresta a não ser para dormir. Queremos chegar ao reino de Thranduil em três dias.

— Sr. Lindir — disse Anna —, não diminua o passo só por minha causa, por favor. Não quero ser motivo para o atraso de ninguém. Não precisa se atrasar por mim.

O elfo deu um sorriso pequeno, garantindo:

— Não se preocupe, senhora. Estamos fazendo um bom ritmo, e a viagem está correndo bem. Esperamos não ter qualquer incidente até o fim.

— Certo. — Anna sorriu.

— Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar, ou a qualquer um dos cavaleiros, e nós a atenderemos.

— Vocês todos têm sido mais que atenciosos, Sr. Lindir. Eu sou muito grata.

— Sei que não tem sido fácil para a senhora. Quero apenas minimizar seu sofrimento.

Anna ficou tocada com as palavras dele, e teve dificuldade para manter a voz firme ao responder:

— Fico honrada com sua preocupação.

O elfo de cabelos muito escuros a encarou por um segundo e quis saber:

— Perdoe-me a curiosidade, e por favor, sinta-se à vontade para repelir qualquer inconveniência, mas gostaria de saber. Como encontrou o grupo com o qual chegou a Imladris?

Anna respondeu, sinceramente:

— Gandalf salvou minha vida durante um ataque de orcs. Thorin Oakenshield, com sua companhia, protegeu-me durante a viagem até Rivendell. Devo minha vida a eles todos.

Lindir observou:

— No entanto, eles partiram.

A afirmação doeu em Anna.

— Não posso justificar o ato deles. Fizeram o que achava certo. Gandalf disse que voltaria para se encontrar comigo.

— Sabe para onde estão indo?

Anna achou a pergunta estranha, e deu de ombros.

— Rumo ao leste, acredito. Mas não sei direito, eles nunca me disseram. Anões não confiam muito em estranhos, como deve saber.

Lindir assentiu.

— Eles nos consideram inimigos. Mas você... — Ele se deteve, cenho franzido.

— Eu o quê?

— Você e Gandalf tentavam evitar um confronto aberto. A animosidade dos demais era clara e aberta, mas você não partilhava disso.

Ela explicou:

— Não tenho nada a ver com a briga entre seus povos. Não sou anã nem sou elfa. Vejo coisas boas nas duas raças, e só posso dizer que ambas me trataram muito bem.

— Mesmo depois que a abandonaram?

— Não me entenda mal, Lindir. Claro que estou triste e decepcionada. Mas isso não apaga o fato de que eles me protegeram e me salvaram a vida inúmeras vezes.

Lindir acusou abertamente:

Ele seduziu você e depois a abandonou.

Anna ficou chocada com o linguajar do elfo, sempre tão contido e cortês. A voz de Lindir tinha um misto de desprezo e asco. Os olhos dele refletiam indignação. Anna não gostou de ouvi-lo falar de Thorin naqueles termos, mas deu-se conta que tinha que manter a cabeça fria e reagir de maneira diplomática, até em respeito a Lord Elrond. Mas olhou para o chão, para concordar.

— Sim, sim... eu suponho que possa dizer isso. E você tem razão. Mas foi minha decisão, minha escolha. E foi consciente. Posso ter essa estatura pequena, mas sou um adulto. Não sou uma garotinha, Sr. Lindir. Não se engane achando que foi um caso de inocência roubada. Só uma mágoa amorosa.

Ele praticamente rosnava ao comentar:

— Eu sabia que isso ia acontecer. Eu tentei impedir, mas...

Anna ficou intrigada:

— Tentou impedir?

Lindir explicou:

— Eu via o jeito que ele olhava para você, sempre tentando criar algum tipo de circunstância favorável a seus intentos. Procurei evitar que os dois se encontrassem. Parece que eu tinha razão.

Anna o encarou, sem saber direito o que pensar. Ele estava mesmo tentando impedir que se beijassem.

Ela deu de ombros:

— É… É o que parece, não? De qualquer forma, agora tudo indica que eles estão bem longe, rumo a seu destino, seja ele qual for.

Lindir disse:

— Lamento que tenha passado por isso. — Ele se inclinou. — Lamento também se fui inconveniente. Mas só acho que não merecia ser tratada assim.

Anna apenas inclinou a cabeça.

— Mais uma vez, Sr. Lindir, o senhor me honra com sua preocupação. Mas acredite: eu tinha meus dois olhos bem abertos. Agora tudo é passado, suponho.

— Desejo-lhe o melhor. — Ele se ergueu. — Agora procure descansar. O dia promete ser longo amanhã. Tenha um bom descanso.

Anna sorriu e disse:

— Descanse bem, Sr. Lindir. E obrigada por toda sua preocupação.

O elfo saiu, e Anna se deitou, cobrindo-se com a capa de viagem, ainda extremamente admirada com o que tinha ouvido. Ela fechou os olhos, fingindo dormir para analisar calmamente a situação.

Anna não acreditava que Lindir tivesse qualquer interesse romântico nela. Seria muita coincidência. Mas, se ele tivesse, a conversa fazia sentido: ela estava vulnerável do ponto de vista emocional. Só que o elfo não parecia ter esse tipo de interesse. Anna só não entendia por que ele parecia tão interessado nela.

Sempre podia ser apenas o zelo de ver uma tarefa cumprida à perfeição. Anna poderia achar que, como uma espécie de mordomo ou faz-tudo de Lord Elrond, talvez Lindir só quisesse um elogio junto a seu senhor.

Aquilo era tudo tão estranho. Anna reviu mentalmente o diálogo que acabara de acontecer. Não que Lindir estivesse pescando informações, mas era o que parecia, não? Anna notou que ele perguntou especificamente para onde os anões iam. Talvez Lord Elrond não tivesse dito a ele. Talvez Lindir tivesse alguma agenda ou segunda intenção, afinal.

Droga, será que a desconfiança dos anões era contagiosa?

E onde estariam eles naquele momento? Anna se fazia essa mesma pergunta constantemente. Certamente a companhia de Thorin Oakenshield tinha ido por uma estrada diferente daquela por onde Lindir guiava seus elfos, pois segundo o livro, os anões estavam a caminho na casa de Beorn, o metamorfo. E Anna não tinha nem ouvido falar de nada parecido entre os elfos, nem visto as famosas abelhas gigantes de Beorn, um protetor da floresta.

A eterna dúvida se apossou de Anna: será que a história seria igual à do livro?

Com a angústia da incerteza, Anna deixou-se levar a um sono leve e pouco restaurador.