Jornada Para Erebor
24 Os perigos de Mirkwood
Notas iniciais
Alerta para cenas de violência
Como Lindir previra, no dia seguinte, eles entraram em Mirkwood, já pelo cair da tarde. Anna notou instantaneamente a mudança de cenário, de ambiente e de clima. Havia uma tensão constante no ar, e a floresta era totalmente fechada, apenas nesgas de luz conseguiam entrar, aumentando a sensação de claustrofobia.
Eles puxaram o passo, mas eventualmente tiveram que parar para o descanso. Anna sentia-se cansada, mas o pior mesmo era a sensação de desânimo que a floresta dava.
A noite se passou em um sono leve e alerta. Lindir recomendou aos guerreiros que mantivessem a guarda próximo ao grupo. Apesar da tensão, o dia amanheceu sem registro de incidentes, e eles voltaram a marchar em passo acelerado.
Se antes Anna achava a caminhada silenciosa, no percurso por Mirkwood o silêncio era total. Os únicos barulhos que faziam eram os cascos dos cavalos e o roçar das folhas. O problema era que a floresta em si tinha ruídos muito estranhos. Não havia piados de pássaros, nem mesmo um único pássaro. Mas ela ouvia arrastar de coisas, rangidos, galhos se batendo.
Não pararam nem para comer. Lembas podia não ser a coisa mais deliciosa do mundo, mas era muito melhor do que o cram que ela provara antes de chegarem à Curva do Rio. Ela se lembrou de economizar água, e agradeceu pelo creme que era o recheio de lembas — não deixava o pão tão seco.
Na segunda noite, Anna manteve o sono leve, no acampamento que montaram em círculo, e entre um cochilo ou outro ouvia as passadas do guarda que os protegia. Talvez por isso ela tenha ouvido o barulho suave e seco de algo indo ao chão. Depois estranhou não ouvir mais o guarda.
Os barulhos ficaram ainda mais estranhos. Intrigada, Anna ergueu a cabeça e viu uma sombra suave: algo grande arrastava para longe do acampamento algo comprido e menor embrulhado em um saco branco. Anna não tinha certeza do que era, mas não devia ser boa coisa, então chamou, baixinho:
— Lindir?
O elfo abriu os olhos e ela indicou, em silêncio, o lugar onde ela vira o estranho movimento. Lindir arregalou os olhos e gritou:
— [De pé! Defendam-se! Aranhas! Aranhas gigantes!]
Foi tudo muito rápido. Lindir se ergueu, já de espada numa mão, pegando o braço de Anna para que ela se erguesse:
— Fique atrás de mim! Não se afaste!
Anna tremia, mas já estava com sua espada na mão, olhando em redor. Então elas vieram.
Aranhas não faziam parte da lista de fobias de Anna — ao menos até aquele momento. Isso foi antes de ver aranhas enormes, maiores que pôneis, avançando agressivamente contra o grupo.
Os elfos formaram um círculo ao redor de Anna e Lindir, com flechas voando para os aracnídeos gigantescos, espadas cortando as patas com presas. Os animais eram ferozes, atacando sem se intimidar com os guerreiros, ainda que sofressem perdas e ferimentos.
Trêmula, Anna empunhava a espada com as duas mãos, pronta a cortar ou furar alguma aranha que chegasse mais perto. Ela olhava para todos os lados, tentando evitar um ataque surpresa. A briga estava feroz, embora, devido à altura dos elfos, ela não pudesse acompanhar muito, baixinha como era.
As aranhas projetavam uma gosma transparente que se tornava opaca em contato com algo sólido. De costas para Lindir, Anna viu uma dessas gosmas atingir a perna de um elfo na frente dela. A gosma endureceu, e o elfo recebeu um puxão tão violento que o derrubou. Anna correu a usar a espada para cortar o fio de gosma que o prendia. Usou toda sua força e não o libertou. Então, no segundo golpe ela conseguiu soltá-lo. Sorriu, comemorando. O elfo a encarou, surpreso, depois alarmado. Anna se virou, espada pronta, e a aranha estava em cima dela, derrubando-a no chão.
— Argh!
O elfo já estava de pé, gritando:
— [A senhora!]
Rápido, o bicho emitiu a gosma no braço da espada antes mesmo que Anna conseguisse se erguer. Os demais elfos começaram a atingir o bicho, cujas presas cortaram o vestido e a calça que Anna usava por baixo. Ela tentava resistir, lutando contra o monstro, e ouviu o grito de Lindir:
— Anna, abaixe-se! Eldrin, atire!
Ela obedeceu, bem a tempo de não ser atingida por uma literal saraivada de flechas, que se cravaram na aranha. O animal soltou um guincho horrível e caiu sobre as pernas de Anna, que se assustou:
— Ui!
Aparentemente, porém, o resto do grupo também estava em vantagem na batalha, pois as aranhas começaram a dar meia-volta e a sumir rapidamente dentro da floresta. Dois elfos ajudaram Lindir a tirar a aranha morta de cima de Anna. Quando conseguiram, ela suspirou, sentando-se no chão:
— Ufa! Obrigada.
Lindir indagou:
— Está ferida?
Anna olhou para si mesma, avaliando seu estado geral:
— Acho que não. Só uns arranhões. — Ela dobrou as pernas. — Droga, ela cortou minha melhor calça.
Lindir observou:
— Está sangrando. Fez um corte.
— Estou? — Anna examinou a canela e viu um filete de sangue. — Foi só um arranhão.
— Aranhas de Mirkwood tendem a ser venenosas. Vou colocar unguento também no braço.
Anna confessou:
— É, está começando a arder.
Lindir ajudou-a a ficar de pé, dizendo:
— Fique aqui. Vou ver se temos feridos em estado grave.
Não tinham. Depois de ser tratada, Anna ajudou Lindir com os elfos feridos. As presas das aranhas carregavam um veneno paralisante, e muitos elfos feridos não podiam mexer as pernas direito. Portanto, eles ficaram por ali mesmo, numa grande enfermaria improvisada ao ar livre.
Anna enrolava uma faixa na perna de um dos elfos quando Lindir chegou até ela. Anna perguntou a ele:
— Como estamos?
Lindir desabafou:
— Perdemos alguns cavalos, e os feridos agora têm prioridade de transporte. Isso pode nos atrasar.
Anna encerrou o que fazia, e o elfo se inclinou. Ela sorriu para o paciente.
— Você logo vai melhorar.
Lindir observou:
— Está ajudando a tratar dos homens. Não precisa fazer isso.
— Ora, nem mencione.
— E enfrentou uma aranha gigante — disse ele. — Provavelmente salvou a vida de Eldrin.
— Por favor, não me lembre. Que medo! — Anna estendeu as mãos trêmulas. — Está vendo? Ainda não parei de tremer!
Lindir a encarava, admirado:
— Confesso ter tido dificuldade em acreditar quando disseram que você enfrentara um warg. Agora posso ver isso.
Anna riu.
— Mestre Yoda disse certa vez que não se deve julgar os outros pelo tamanho.
— Sábias palavras.
— Yoda era muito esperto.
Lindir fez uma reverência para ela, dizendo:
— Estamos em dívida com a senhora.
— Sr. Lindir, vocês têm me protegido desde que saímos de Rivendell. Vêm arriscando suas vidas desde então. É o mínimo que posso fazer.
O elfo assentiu.
— De qualquer modo, Eldrin — indicou o elfo que Anna tinha ajudado antes de ser atacada — manifestou desejo de cuidar de sua segurança.
Anna disse, inclinando a cabeça:
— Eldrin é gentil, mas deve se cuidar. Ele recebeu uma picada na perna.
— E a senhora? Algum sintoma do veneno?
— Nada. Foi só um arranhão mesmo. Vamos partir?
— Ainda é noite. Partiremos ao amanhecer.
Assim que o dia raiou, mesmo na luz fraca da floresta densa, o grupo retomou a marcha. Pelo número de elfos a pé, Anna calculou que as aranhas tinham capturado uns seis cavalos. Myrtle, a pônei, estava cheia da gosma, mas não tinha sido levada.
Marcharam o dia todo, mais lentamente, e um pouco da noite também. Pararam numa clareira.
Desmontaram, cuidaram dos cavalos e Anna foi ver alguns dos feridos. Eles melhoravam rapidamente. Anna estava agachada, verificando as faixas num dos elfos. Ela sorriu:
— Está bem melhor.
Ele esboçou um sorriso, mas olhando para um ponto para trás de Anna, a expressão dele caiu, e ele deu o alerta:
— Orchs!
Anna entendeu a palavra.
Orcs.
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Uma flecha atingiu o elfo em cheio na garganta, matando-o instantaneamente. Anna gritou e se virou, a tempo de ver um orc investir contra ela. Gritos de guerra tomavam conta do local, e os embates começaram.
Anna se esticou para pegar sua espada, mas o orc montado pôs um saco na sua cabeça e a carregou para cima do warg.
— LINDIR!
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Tudo foi extremamente rápido. Os braços de Anna foram atados e ela foi carregada praticamente de cabeça para baixo em cima de um warg. Com um saco de pano mal-cheiroso na cabeça, ela não via nada. O warg corria, sacudindo-a impiedosamente. Na verdade, estava tão apavorada que gritava muito, o mais alto que podia, debatendo-se apesar das amarras.
Se Anna pudesse pensar, talvez tivesse lhe ocorrido tentar usar o movimento do animal para procurar se libertar. Se Anna pudesse se controlar, ela poderia tentar se defender. Mas ela estava aterrorizada, só conseguia gritar. Ela não tivera tempo de pegar a espada, não tivera tempo para nada.
Quando ela tomou fôlego, ouviu um diálogo — em orcish. E entendeu.
— [Elfos nojentos nos perseguem] — Anna ouviu uma voz de orc a seu lado. — [Não tem como despistá-los?]
Uma segunda voz soou do orc que a carregava.
— [Use o saco de disfarce. Eles têm poucos soldados, não conseguirão perseguir nós dois.]
Anna começou a gritar ainda mais alto, tentando chamar a atenção caso Lindir pudesse ouvi-la. Era sua melhor chance.
O orc que a levava também devia pensar a mesma coisa, pois desferiu um golpe tão forte em sua cabeça que deixou Anna sem sentidos.
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Voltar à consciência foi a repetição de um pesadelo. A primeira coisa que a atingiu foi o fedor característico de orc: podridão, sujeira e putrefação. Pelo menos ela estava fora do warg e sem o saco. Mas estava deitada de bruços no chão da floresta, pulsos atados às costas, numa posição desconfortável. Ainda era noite, então talvez ela só tivesse ficado desacordada alguns minutos.
O erro de Anna foi se mexer, num impulso, assim que viu um warg bem perto. O movimento chamou a atenção dos orcs.
Ela então foi rudemente desvirada, o peso do corpo nos pulsos atados, e ela gritou — de dor, de susto, de pavor. Um orc ergueu uma clava acima dela, e um outro gritou:
— [Não!] — A clava foi baixada. — [Ela não deve ser machucada. Já está ruim explicar os ferimentos que a escrava-mor teve.]
— [Ela não para de gritar! Elfos nojentos vão ouvir!]
— [A essa altura estão todos mortos! Deixe que ela grite!]
— [Vai gritar muito mais quando o chefe puser as mãos nela.]
Os outros riram alto, e Anna estava se arrastando para se afastar deles.
— [Não podemos nos divertir com ela?]
— [Só depois do chefe terminar. Mas não sei se vai sobrar muita coisa. Ele está irritado com a fuga dela.]
— [Talvez o humor dele melhore depois que ele decapitar o rei anão. Ele já deve ter feito prisioneiros daquela escória anã.]
Ao ouvir aquilo, Anna teve um choque tão grande que começou a gritar e chorar copiosamente. Azog tinha Thorin!... E ia decapitá-lo...
Thorin morrera.
Cega pela dor, Anna nem percebeu a irritação crescente dos seus captores. Só no que ela pensava era na perda de seu amor, vítima daqueles monstros seguidores de Sauron, Lord das Trevas.
Um dos orcs a agarrou pela cintura, erguendo-a no ar com as duas manoplas, quase esmagando suas costelas. Anna teve medo que sua vida se encerrasse naquele exato momento e chegou a perder a voz. Por um minuto, ela até imaginou que fosse a melhor solução: irritar o orc e morrer ali, talvez até de forma rápida.
— [Pare de gritar, verme insolente!]
No pequeno intervalo, um ruído de galhos caindo e rosnado alto se ouviu vindo do meio da floresta. Os orcs comemoraram ruidosamente.
— [Azog, o Profanador, está vindo!]
— [Ele vai trazer destruição aos elfos nojentos!]
O orc que segurava Anna, com um olho fechado e um nariz distorcido, decididamente se babava todo:
— [Quero ver a espada de carne de Azog partir a escrava ao meio!]
— [Aí ela vai gritar!]
Mais risos, e Anna se debatia nas mãos do orc, que parecia disposto a esmagar suas costelas. Então um deles gritou:
— [Parem! Seus boçais, parem!]
Eles pararam e o outro perguntou:
— [Que cheiro estranho é esse?]
Os demais passaram a farejar o ar, em alerta, os wargs rosnando ameaçadoramente. Anna foi largada no chão violentamente para que o orc pegasse sua lança.
— [Não é Azog!]
— [Matem os inimigos!]
Mesmo amarrada, Anna tentou se arrastar para longe dos orcs, que davam gritos de guerra. Os barulhos da floresta soaram cada vez mais próximos, até que o mistério se desfez.
Por entre as árvores, apareceu o maior urso que Anna já vira na vida. O animal tinha um ar extremamente feroz ao olhar para o chão e ver o acampamento de orcs. Então o bicho se ergueu em duas patas, jogou a cabeça para trás e soltou um urro que deve ter reverberado na floresta inteira. Quando ele se ergueu, Anna viu que o bicho devia ter uns seis metros, alto como um troll da montanha.
Anna deu um grito inacreditavelmente agudo, entre chocada, aterrorizada e incrédula. Ela estava admirada de não ter desmaiado de puro pavor.
Sem perder tempo, os orcs partiram para cima do monstro, de clavas, machetes, lanças e machados. Anna viu, de olhos arregalados, o urso varrer uns três deles só num movimento de braço. Ele localizou Anna, e ela viu a expressão dele mudar. Ato contínuo, enquanto afastava orcs como quem espanta moscas, o urso a pegou delicadamente do chão e a colocou em segurança — no último galho de uma árvore, bem a uns quatro ou cinco metros de altura.
Em seguida, o urso voltou a cuidar de orcs: dessa vez, porém, ele usava as poderosas patas para esmagar os inimigos, deixando massas disformes pretas no chão. Os wargs foram rasgados como folhas de papel, seus pedaços atirados longe, sangue para todo lado. Alguns orcs fugiram de tanto pavor. Anna viu aquilo, horrorizada, e gostaria de ter podido fugir também.
Foi questão de minutos até todos os orcs terem morrido ou corrido. Anna tinha pensado em fugir do gigante, mas estava amarrada e sem chance de descer daquele galho sem se machucar. E tudo isso virou inócuo porque naquele momento o ursão a encarou, curioso.
Morri
Anna pensou que fosse desmaiar, só para não ver o momento que viraria geleia, como os orcs. Morrer não era a pior coisa que podia acontecer. Pelo menos seria rápido: os orcs não lhe dariam esse luxo. O maior consolo era que assim talvez ela se juntasse a Thorin na eternidade.
Chorando, Anna encarou o monstro de volta. E ele só a olhava.
A espera começou a deixá-la ansiosa. Depois de uns segundos, ela não se conteve e gritou, com medo e raiva:
— Bom, se vai me matar, que seja logo! Tá esperando o quê? Termine logo com isso!
A reação dele foi inesperada. Anna previa que seus gritos o irritassem, e ele a matasse num acesso de fúria, com um único golpe. Mas não foi isso que aconteceu.
O gigantesco animal esticou o braço e com apenas uma mão pegou Anna delicadamente e a depositou no chão. Foi tão rápido e suave que Anna nem teve tempo de reagir. Ficou tão surpresa, porém, que tropeçou nas próprias pernas e caiu no chão ruidosamente:
— Ui!
Tentou se erguer e levou um susto: havia um homem olhando para ela. Ele era muito alto, barbudo, e do chão parecia ainda maior.
— A-ai! — disse ela, encolhendo-se.
— Não tenha medo, esquilinho. Deixe-me soltar você.
Ele a desamarrou e Anna perguntou:
— Você viu? Tinha um urso gigante aqui!
O homem disse:
— Não precisa se preocupar com o urso. O que aqueles orcs queriam?
— Não sei — mentiu ela. — Quem é você e onde está aquele urso? Como um bicho tão grande...
Anna se interrompeu, boquiaberta, ao se dar conta que o homem era o urso. Então isso queria dizer que ele era Beorn, o metamorfo que se transformava num urso. Ela perguntou, olhos arregaladíssimos:
— Vo-você é o urso?
Ele assentiu. — Meu nome é Beorn, esquilinho. E o seu?
— Eu sou Anna. Obrigada por me salvar.
Beorn a encarava com curiosidade.
— O que faz nesta parte da floresta?
— Viajava com amigos elfos quando os orcs nos atacaram. E antes deles foram as aranhas que nos atacaram!
O homem grandão observou:
— Você não parece elfa, criança.
Anna sorriu com tristeza.
— Não sou nem um nem outro: nem elfa, muito menos criança. No momento, sou uma pessoa em luto.
— Quem morreu?
A dor no coração de Anna se apertou, as lágrimas voltaram e ela teve dificuldade em responder:
— Meu... — procurou uma palavra adequada — ... amor. Os orcs disseram que o mataram. O homem a quem amo mais que minha vida.
Beorn a encarou, observando.
— Por isso pediu para morrer, esquilinho?
— Sim — Anna abaixou a cabeça, sentindo as lágrimas encharcando seu rosto. — Sem Thorin, nada mais faz sentido. Vou sentir falta de Bilbo... E Fíli e Kíli, e Bofur... E...
O homem a interrompeu:
— Bilbo? Pequenino feito um coelhinho, com olhos grandes e assustados? Anda com um bando de anões?
Anna se espantou.
— Conhece Bilbo? E os anões?
— Eles estavam na minha casa! — O grandalhão sorria. — Seu amado está nesse grupo?
Anna se encheu de alegria. Ela tinha se esquecido totalmente do livro! É claro que Beorn os conhecia: ele abrigara a companhia. Animada, ela respondeu:
— Sim, sim! Ele está bem, então?
— Não tema, esquilinho. Os orcs mentiram para você. Ele está vivo, e acho que sei quem é. Vivia triste porque teve que deixar sua garota para trás.
Anna mal podia se conter de alegria. Thorin não a esquecera!
— Que boa notícia me deu agora, Sr. Beorn! Fico muito agradecida!
— Então não fique por aí pedindo que outros a matem sem antes verificar a verdade.
Anna se sentiu devidamente constrangida.
— Tem toda razão. Deixei-me levar pela dor e o medo. Esses orcs malditos!...
Beorn indagou:
— Há uma coisa que não entendo, pequena Anna. Por que você não se transformou?
Anna franziu o cenho:
— Como assim?
— Você pode trocar peles. Por que não virou bicho para escapar dos orcs?
Anna franziu o cenho:
— Está enganado, Sr. Beorn. Não tenho poderes como os seus.
O homem insistiu:
— Você tem, sim. Acredite: o toque de Yavanna está em você. Pode trocar peles, talvez mais de uma, mas não sabia disso — não é?
Anna tinha dificuldade de acreditar.
— Não, nem desconfiava. Mas posso mesmo fazer isso? Como? E será que posso escolher o bicho?
Beorn deu de ombros.
— Você vai descobrir quando estiver pronta. Não sei lhe ensinar, esquilinho. Apenas confie e vai se transformar. Não sei se pode escolher seu animal.
— Fica me chamando de esquilinho. Esse é meu animal?
Beorn soltou uma gargalhada antes de responder:
— Não, chamo você assim porque você é mais assustada que um esquilinho. — Anna enrubesceu, com um sorriso. Beorn informou: — Lamento não poder ficar mais, esquilinho. Devo dizer adeus agora.
— Adeus? Ei! Não vá! Aonde está indo? — Anna estava confusa. — Vai me deixar aqui sozinha? E os orcs?
Beorn disse:
— Os orcs estão longe e você não está mais sozinha. Seus amigos elfos estão chegando. Mas por favor não diga nada sobre mim.
Afastou-se rumo a uma moita. Anna gritou:
— Espere! E meu animal?
— Você saberá quando trocar de pele. Adeus, esquilinho. Espero que nos encontremos de novo.
E sumiu no meio da mata, antes que Anna pudesse dizer mesmo adeus. Ela pensou nas implicações do que Beorn lhe dissera. Contudo, o som de cavalos logo a trouxe para o presente.
Os elfos estavam vindo.
Anna olhou em volta: havia orcs mortos, wargs despedaçados e sangue para todo o lado. O pior de tudo era que, sem Beorn, ela não tinha explicação para aquela cena.
O que ela podia dizer?
Os cavalos estavam mais próximos. Anna precisava pensar em alguma explicação rapidamente.
Não teve dúvidas: deixou-se cair no chão e fingiu estar desmaiada.
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