Jornada Para Erebor

45 Smaug libera sua fúria


Notas iniciais
Poucas coisas são mais perigosas do que um dragão irritado

Usando a monstruosa cauda como chicote implacável, Smaug despedaçava as rochas da encosta da montanha, enfurecido e frustrado. A fera tinha deixado sua toca de maneira furtiva e silenciosa, na esperança de pegar alguém de surpresa ou de espiar pela abertura por onde o ladrão invadira a montanha. Seu corpanzil planara sem um ruído contra o céu escuro da noite, ameaçador e mortal.

Se Smaug tivesse decidido deixar seu covil dez minutos mais cedo, seus planos teriam dado certo. Ele teria encontrado não só os anões, mas também o ladrão atrevido e a estranha criatura prenhe que o afrontara. Contudo, por mais que tivesse sido estratégico e furtivo, Smaug perdera suas presas por poucos minutos. Não achara nada nem ninguém, e sua fúria era terrível, descarregada em golpes com a cauda.

Nada sobrou do pequeno trecho onde a companhia tinha acampado, ou do paredão onde os tordos abriam os grandes caracóis, do trecho de relva que tinha sido torrado durante o ataque do dragão, e muito menos das rochas que protegeram Anna, Bilbo e os anões. Tudo virara um amontoado de escombros e fragmentos, sem mencionar a avalanche de rochas que despencou até o vale. A face oeste da Montanha Solitária estava destruída, e a passagem mágica, obliterada.

Embora frustrado por não ter alcançado seu objetivo, Smaug se dedicou a um pensamento que para ele era tão prazeroso quanto destruição: vingança.

— Montador de Barril — bufou ele, entre rosnados ameaçadores. — Não conheço o seu cheiro, mas, se você não é um daqueles homens do Lago, teve a ajuda deles. Eles vão me ver e lembrar quem é o verdadeiro Rei sob a Montanha!

Ele se ergueu em chamas e foi para o sul, na direção do Rio Corrente.

0o0 o0o 0o0 o0o

A despeito de acontecimentos recentes, nunca antes em sua vida Anna se lembrava de ter voado tão depressa. Isso mesmo: ela voava.

Ainda no túnel, Anna trocara peles para o animal mais ligeiro que podia se lembrar, o falcão-peregrino, o mesmo de sua chegada na Cidade do Lago. A visão das aves de rapina era privilegiada, e apesar de não ser uma ave que caçasse à noite, o falcãozinho podia enxergar muito bem no escuro.

Foi assim que ela se enveredou rapidamente pelos salões de Erebor, deslizando célere pelo ar, ignorando os sinais de morte, destruição e decomposição da montanha, cortando caminho, passando pela nascente do Rio Corrente (que era dentro da Montanha Solitária) e seguindo o trajeto até chegar ao Portão Dianteiro. Na verdade, agora o portão era apenas um grande arco, onde se via que naquele buraco um dia houve um portal entalhado, enegrecido e destruído.

O falcão atravessou a abertura, ganhando a noite estrelada numa voo ascendente. Não havia tempo a perder. Anna precisava seguir o Rio Corrente e chegar à Cidade do Lago o quanto antes.

0o0 o0o 0o0 o0o

O ataque de fúria de Smaug mal terminara, e a companhia corria pelo túnel, quando Bilbo urgiu:

— Devemos ir ao Portão Dianteiro o quanto antes! Rápido, antes que Smaug volte!

Dwalin indagou, irônico:

— E o que vamos fazer, senhor ladrão? Fechar o portão e achar que isso vai mantê-lo do lado de fora?

Bilbo respondeu, com calma:

— Não, vamos matar o dragão antes que ele entre na montanha de novo.

Um vozerio indignado se ergueu, e Bilbo gritou:

— Vamos! Não há tempo a perder!

Quando finalmente chegaram ao covil de Smaug, Bilbo enfrentou um novo problema: os anões pararam para admirar o tesouro. O hobbit se desesperou:

— Não! Podemos fazer isso mais tarde! Vamos!

Thorin olhava em volta, verificando o tesouro, olhos brilhando. De repente, ele começou a procurar algo e disse:

— Esperem! Onde está Anna?

A companhia começou a olhar em volta, Thorin já querendo encontrar culpados. Bilbo gritou:

— Não! Escutem! — Como ninguém prestou atenção, ele gritou: — Ouçam! Anna vai nos encontrar no Portão Dianteiro!

Sem paciência, Thorin agarrou Bilbo pelas vestes, quase o erguendo do chão, e rosnou:

— Explique isso direito, ladrão! Onde ela está?

Fíli também quis saber:

— Onde está minha tia?

Assustado, Bilbo se atrapalhou todo:

— E-ela disse que nos encontraria no portão da frente!... Ela tem um plano!...

— Que plano? — exigiu Dwalin, parecendo ainda mais ameaçador. — Diga, hobbit!

— O plano dela é que Kíli acerte com uma flecha o ponto vulnerável no peito de Smaug antes que ele entre na montanha! Ela diz que é a única chance de derrotar o dragão, e eu acho que ela está certa!

Bilbo disse aquilo tudo tão rapidamente que chegou a ficar sem ar. Embora fizesse sentido e fosse bem razoável, sua explicação infelizmente não satisfazia Thorin, que indagou, nervoso:

— E onde está ela?

— Ela disse que estaria ocupada, por isso nos encontraria lá.

— Ocupada? Fazendo o quê?

— E-eu não sei! — guinchou Bilbo.

— Fale, hobbit! — Thorin o sacudiu, de dentes cerrados.

— Não sei, eu juro! Eu implorei que ela me dissesse, mas ela disse que não havia tempo! Você sabe como Anna pode ser teimosa! Thorin, não estou mentindo!

Frustrado, o rei anão o largou com tanta raiva que o hobbit quase caiu. Thorin se sentia mesmo muito frustrado.

Olhou em volta. A companhia o encarava, esperando suas ordens. Fíli e Kíli pareciam dispostos a lutar. Óin, que perdera metade do diálogo, prestava atenção a Bifur, que pacientemente explicava tudo por meio de sinais. Os demais olhavam seu rei com expectativa. Aonde Thorin fosse, eles o seguiriam, com lealdade, coragem e vontade no coração.

O filho de Thráin se angustiava pela falta de notícias de sua amada. Por outro lado, ele precisava agir como um comandante e como o rei de seu povo.

— Pois não percamos mais tempo! — decidiu Thorin, com determinação. — Anões de Erebor! Vamos enfrentar o dragão e expulsá-lo de nossa casa! Todos ao portão!

Balin sugeriu:

— Há um caminho mais curto, Thorin!

— Sim! Pelo grande salão de meu avô, Thrór! Vamos todos! Filhos de Durin! Peguem o martelo dos anões! Du bekâr!

Com um grito de guerra, eles se lançaram pelos corredores da cidade-fortaleza, guerreiros, liderados por seu rei. A Companhia de Thorin Oakenshield corria rumo a seu destino.

Para alívio de Bilbo, eles iam na direção certa.

0o0 o0o 0o0 o0o

Tempo era vital, pensou Anna, assim que se viu no meio da Cidade do Lago. Com sorte e insistência, ela correu até o batalhão de arqueiros e localizou seu alvo.

— Mestre Bard! Mestre Bard!

O chefe da guarda a reconheceu:

— Você? O que está fazendo aqui?

Afobada, ela disse:

— Não há tempo! Precisa avisar o povo! Smaug está vindo! Ele sabe que vocês nos ajudaram e vem destruir a cidade!

Bard fechou a cara.

— Eu sabia que isso ia acontecer!

— Precisa soar o alarme agora e começar a proteger a cidade! Mas eu vim lhe avisar que há uma chance de atingir o dragão. Smaug tem um ponto vulnerável do lado esquerdo do peito. É a única chance!

— Como sabe?

Um tordo pousou no ombro de Bard e disse:

— [Essa humana estava na montanha. Ela sabe o lugar onde o dragão é mole! Ela tem grande poder. Ajude-a.]

Num impulso, Anna disse:

— [Suas palavras são gentis, amigo tordo.]

Bard indagou, surpreso:

— Sabe falar a língua dos tordos?

Anna respondeu:

— Ele pode nos ajudar. — Virou-se para o pássaro, observando: — [No momento, a Cidade precisa de ajuda, mais do que eu. Pode levar um recado na Floresta de Mirkwood?]

— [Mirkwood? A quem eu levaria um recado naquela floresta fétida?]

— [O recado é para Sua Majestade, o grande rei élfico Thranduil. Diga a ele que Thorin, filho de Thráin, rei sob a montanha, respeitosamente requer a ajuda do Reino de Mirkwood para ajuda aos nossos vizinhos da Cidade do Lago. O rei Thorin faria isso pessoalmente, se pudesse, mas no momento, ele se encontra sem recursos. Isso é importante, amigo tordo.]

O tordo virou a cabeça para o lado, como só os pássaros sabem fazer, e ponderou:

— [Tem razão. Farei isso.]

E saiu pelos ares. Bard encarou Anna:

— Acha que os elfos vão ajudar?

Anna lembrou:

— O rei Thranduil sempre foi justo e compreensivo. Não vejo por que negaria ajuda a um povo desamparado.

— E por que Thorin se preocuparia com a cidade?

— Thorin é seu vizinho. Erebor em nada prosperaria com a derrocada da Cidade do Lago. — Anna começou a se angustiar. — Por favor, Mestre Bard, não perca mais tempo! Eu vou tentar atrair o dragão para longe da cidade!

Ele a encarou, ainda mais desdenhoso:

— Você vai atrair o dragão? Como pretende fazer isso?

Anna respondeu:

— Deixe isso comigo! Só se lembre que Smaug é um dragão vermelho, gigantesco e cruel. Por favor, corra! Vou tentar atrasá-lo o máximo que puder.

Bard não entendia coisa alguma, e ia fazer outra pergunta, mas Anna já tinha sumido na escuridão.

— Ei, espere! Espere!

Um clarão no céu desviou a atenção de Bard. Intrigado, ele acompanhou o clarão, que se movimentava. Na verdade, o clarão se aproximava cada vez mais, e o sombrio guerreiro teve certeza de que era o dragão chegando.

Bard imediatamente entrou em ação:

— Soem os alarmes! Destruam as pontes! Encham os reservatórios de água! Todos em alerta! Dragão!

A confusão começara. Olhando para o céu, olhos fixos no clarão que se aproximava, Anna murmurou, tentando angariar uma confiança que estava longe de obter:

— Muito bem, bichão. Hora de jogar água nessa sua fervura.

Ela fechou os olhos e se concentrou para uma troca de peles inédita.

Anna já experimentara uma vez trocar de peles por um animal grande e voador. Ela lembrou que Beorn ficara muito satisfeito quando ela se transformara numa águia gigante.

Agora, Beorn definitivamente ficaria impressionado, pensou ela, antes de levantar voo.

0o0 o0o 0o0 o0o

Se na Montanha Solitária Smaug optara por voar fazendo não mais que um zunido na noite, ao aproximar-se da Cidade do Lago o dragão fez questão de se aproximar com um rugido ensurdecedor, transmitindo toda sua fúria. Qual não foi sua surpresa ao ver uma grande agitação na cidade, e os homens já preparados para sua chegada.

Pouco importava. Nada nem ninguém podia derrotá-lo. Smaug bateu as asas e foi em direção às pontes, disposto a arrasá-las. Mas elas já estavam destruídas! Frustrado, ele rugiu e lançou um jato de fogo contra a primeira estrutura que encontrou: uma torre alta, que ardeu gloriosamente. Smaug ouviu os gritos e o choro dos homens, e sentiu um leve sabor de vingança.

Ele mal começara.

Certamente foi por isso, por estar tão intento em seu desejo de destruição, e por se julgar invencível, que Smaug num primeiro momento sequer viu o que o atingiu. Verdade seja dita, tudo aconteceu de maneira extremamente rápida.

Com um rugido ensurdecedor, o imenso dragão vermelho avançou contra a cidade, sendo recebido por uma salva de flechas que sequer o atingiu, detida pelas escamas do réptil. Mas um bólido volumoso atingiu Smaug, um projétil grande o suficiente para desequilibrar o dragão em pleno voo.

Surpresa, a fera agitou as grandes asas compridas para evitar a queda, procurando localizar a criatura infeliz que despertara o núcleo mais negro de sua fúria. Zuniu pelos ares, ignorando nova saraivada de flechas dos homens, e quando arremeteu em direção à cidade, Smaug localizou seu agressor vindo novamente para tirá-lo de sua trajetória.

Era um segundo dragão, de escamas verde-azuladas, um pouco menor que Smaug, mas aparentemente mais rápido, ágil e silencioso. Um adversário!...

A visão de Smaug enegreceu-se, cegando-o com um ódio inédito. A fera se sentia extremamente desrespeitada. Primeiro, um ladrãozinho se atrevera a invadir seu covil e roubar seu tesouro, e agora havia um intruso a desafiá-lo em batalha! Ninguém ousara fazer-lhe um desafio em muitas eras, e não seria agora que ele toleraria tamanho desrespeito!

— Quem é você, invasor? — indagou ele, irado. — Vou destruí-lo até sua última escama!

E o dragãozinho respondeu, jocoso:

— Está ficando senil, seu velho? Não reconhece os amigos?

Os olhos reptilianos de Smaug se estreitaram, mas ele já estava cego e louco de ira sem limites. Pois seu olfato excepcional captara o cheiro de seu adversário, e ele reconhecera, com efeito, seu desafiante.

Com um urro que estremeceu o coração dos homens lá embaixo e um jato de chamas capaz de cobrir metade do lago, Smaug extravasou sua fúria, bramindo:

— GRAVIDAZINHA!!!

Palavras em Khuzdul

Du bekâr! = às armas!