Jornada Para Erebor

46 Quem brinca com fogo


Notas iniciais
O que é pior que um dragão? Dois dragões!

Parecia que outra pessoa tomara seu lugar e estava falando tudo aquilo para Smaug. Ao se transformar em dragão, Anna procurou se abstrair de todas as suas emoções (especialmente o medo) para se concentrar na tarefa à sua frente. Não que ela tivesse conseguido totalmente, mas era preciso tentar.

A tarefa não era pequena. Se possível, ela deveria matar Smaug. Caso isso fosse impossível, o plano alternativo era atraí-lo para a Montanha Solitária, afastando-o da cidade e dando a chance para Kíli acertá-lo no local vulnerável.

Naquele exato momento, porém, Anna questionava seu plano – especialmente a parte de provocar um dragão rancoroso e feroz como Smaug. Mas ela já estava no ar, perseguida pelo dragão, e nada restava fazer a não ser seguir com o plano.

— Vai se arrepender de me desafiar, gravidazinha! — rugia a fera. — Eu sou invencível!

Anna investiu contra o dorso do adversário, lembrando:

— Não é invencível para um outro dragão, seu fanfarrão!

Smaug se virou no ar e respondeu com um violento jato de fogo, que Anna atravessou sem dificuldades, as garras afiadas a postos. Smaug urrou de ódio, mas já era tarde demais: ele viu Anna cruzar a parede de fogo e cravar as garras em gancho no colete de pedras preciosas, arrancando algumas delas e aumentando a área vulnerável na barriga. A fera despejou mais fogo e tentou golpeá-la com as garras. Com agilidade, Anna se afastou das suas garras e da cauda, rindo dele:

— Smaug, seu tolo! Acha mesmo que fogo pode matar um dragão?

O bicho estava todo em chamas por causa de sua raiva. Quando devidamente enfurecidos ou agitados, dragões pegavam fogo espontaneamente. Gritou:

— Vou esmagar você! Ninguém me venceu até hoje! Destruí todos os que se atreveram, e você não será diferente!

— É mesmo? Pois vamos ver como você se sai contra alguém do seu tamanho, valentão!

Certamente ela estava fazendo um bom trabalho para irritá-lo, e isso ficou claro na velocidade com que Smaug partiu para cima dela. Anna podia ser mais ágil, mas Smaug conseguia ser veloz no ar. Só por uma série de manobras ela evitou o golpe da longa cauda, e ainda conseguiu dar uma mordida na ponta da asa, enfurecendo-o. Não resistiu à provocação:

— Você está velho mesmo, hein, meu chapa? Não consegue me acompanhar!

Anna sabia que era um grave erro subestimar um dragão como Smaug, por isso ela precisava lembrar a si mesma que aquele discurso era só da boca para fora. Na verdade, agora que Smaug estava no auge de sua fúria, Anna precisava ser duas vezes mais cuidadosa.

O dragão veio como um foguete na direção de Anna. Ela se deslocou o mais rápido que pôde, cortando o ar em ziguezague. Mas Smaug estava nos seus calcanhares, e Anna voou em círculos, procurando se afastar dele. Smaug não era tolo nem ingênuo, por isso não dava chance a ela para ganhar nenhuma vantagem.

— Grande erro, gravidazinha! — provocou o monstro enraivecido. — Vou me divertir despedaçando você com minhas garras!

Anna tentava se concentrar em Smaug, mas era difícil, com a cidade lá embaixo e os urros e lamentos dos homens, uma nova saraivada de flechas contra as feras aladas, o fogo iluminando a noite de um tom rubro macabro com ajuda da lua cheia. Ela via os barcos com refugiados tentando alcançar as margens e renovou em seu coração o desejo e a determinação de livrar a Terra Média daquele flagelo.

Smaug manobrou no ar, a barriga branca exposta iluminada pela lua. Naquele instante, Anna lembrou-se de alguém que poderia ajudar.

— Vamos, Bard — murmurou para si mesma. — Apareça!

Smaug continuou provocando:

— Seus amigos da cidade não têm chance. Depois que terminar com você, vou me divertir caçando-os como ratos! Mas antes vou atrás de seu precioso Montador de Barril e os seus amigos anões. Hum, faz tempo que não tenho uma boa refeição à base de anão!

Era grande a trabalheira dela para se desviar de Smaug e das flechas dos homens de Bard, mas Anna subitamente parecia ter aguçado sua visão. Por isso ela testemunhou direitinho o momento em que uma flecha negra atingiu o ponto vazio do peito do dragão avermelhado. Bard acertara!

Anna viu Smaug guinchar de dor, mas não ser detido. O monstro se voltou para a cidade, e Anna aproveitou a chance para virar de direção se precipitar contra ele, as garras abertas para evitar o ataque contra a cidade.

Sem hesitar, Anna alcançou o adversário por trás e cravou as garras afiadas como ganchos na nuca de Smaug, por entre as escamas, fazendo-o sangrar e rugir de ira antes de conseguir lançar mais fogo contra a cidade. Ao mesmo tempo, ela tentava arrastá-lo para o meio do lago, para longe dos homens. Ela podia sentir que rasgava a carne e fazia jorrar mais sangue de dragão na água do Lago.

Smaug corcoveava como um cavalo xucro, as asas compridas batendo sem coordenação, tentando manter-se no ar e girar sobre o corpo para atingir o adversário. Anna desistiu de arrastá-lo: aquilo a estava cansando. Afinal, Smaug era bem mais pesado do que ela, mesmo que ela estivesse na forma de dragão.

Anna recolheu as asas e montou-o como um peão de rodeio. Ao mesmo tempo, voltou a provocá-lo, tentando distraí-lo:

— E agora, Smaug? Está gordo demais! Todos aqueles anos dormindo sobre um tesouro que não lhe pertence fizeram de você um indolente preguiçoso. Agora estou montada em você como um pangaré velho e inútil!

O dragão vociferava:

— Maldita! Maldita seja você e o filhote que carrega! Ainda vai me implorar por sua vida!

Anna tentava se agarrar à nuca da fera, e arriscou abaixar o focinho para cravar no pescoço dele as presas afiadas como navalhas. Ela conseguiu mordê-lo, mas ele se contorceu de tal maneira que desferiu um poderoso golpe com sua cauda na mandíbula de Anna. O golpe foi tão violento que a arrancou das costas do monstro como fruta madura, e ela levou consigo pedaços de carne de dragão nas garras e dentes, enquanto caía, aturdida, vendo estrelas.

Imobilizada de dor, Anna viu-se em queda livre direto para o lago. Aqueles segundos foram atordoantes. Mesmo também cheio de dor, Smaug mergulhou no ar, indo atrás de Anna, rosnando com satisfação indisfarçada:

— Hora de morrer, gravidazinha!

Anna pôs as asas para funcionar, contorcendo-se e voltando ao ar para se desviar do projétil que era Smaug. Ela só conseguiu retomar o voo tão perto da superfície do lago que Smaug quase mergulhou dentro da água, desviando-se no último minuto.

A manobra de Smaug fora mais lenta do que as anteriores, notou Anna. O dragão rubro, antes uma bola de fogo perfeita, agora soltava fumaça de seu dorso.

Era um sinal que ele podia estar sentindo seus ferimentos.

Era um sinal que Anna tinha uma vantagem.

Com ânimo redobrado, ela voou em círculos antes de provocar:

— Cansado demais, meu velho? Onde está sua valentia, ó Smaug invencível? Onde você vai se esconder quando eu me apossar de seu tesouro e virar rainha sob a montanha?

Quanto mais enfurecido Smaug ficava, mais ele vociferava:

— Sua atrevida! Agora chega de brincar! Não pode falar assim comigo! Eu sou Smaug, maior de todas as calamidades!

Anna atiçou:

— É mesmo? Então venha me pegar se puder, sua lagartixa superaquecida!

E Anna correu para longe, sentindo o bafo quente do dragão na sua cola.

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Jamais Bilbo ficou tão feliz por ver o céu aberto. Parecia que os anões pensavam a mesma coisa. Ofegantes, eles conseguiram chegar ao Portão Dianteiro. Dwalin indagou a Bilbo:

— E agora, mestre hobbit? Qual é o plano?

Bilbo respondeu:

— Precisamos nos preparar para a chegada de Smaug. Não deve demorar.

— E Anna? — quis saber Thorin. — Onde ela está?

— Ela vai chegar — garantiu Bilbo. — Não se preocupe.

Bofur apontou para o céu:

— O que é aquilo?

— Uma bola de fogo!

— Dragão! — gritou Ori, de olhos arregalados.

— Kíli! — chamou Bilbo. — Procure um ponto alto!

Bofur ainda estava de olho no céu:

— Ele está atacando a cidade!

Bilbo acompanhou os movimentos de Smaug, as imensas asas batendo, fogo saindo de suas narinas. Então Smaug pareceu simplesmente esquecer o ataque à cidade, e sair a todo vapor na direção contrária, rugidos terríveis. Bilbo achou aquilo estranho.

Kíli indagou:

— O que ele está fazendo?

De olho no céu, Bofur respondeu:

— Não tenho muita certeza, mas acho que Smaug trouxe companhia!

Dori ficou intrigado:

— Como assim, companhia?

Foi então que Balin exclamou:

— Pela minha barba, rapaz! São dois dragões...!

Então Bilbo entendeu tudo. Claro como se fosse o dia. Animado, o hobbit ergueu a voz sem se dar conta:

— O outro dragão está trazendo Smaug para cá!

Óin parecia confuso:

— Eu ouvi bem? Dois dragões? E um deles está trazendo o outro para cá?

— Isso mesmo!

Óin ainda não teve certeza de ter entendido:

— Eu entendi bem?

Dwalin sussurrou:

— Que Mahal nos ajude... Estamos condenados! Dois dragões...!

Bilbo tirou todos de seu estupor e urgiu:

— Vamos! Para o alto! Precisamos achar um lugar alto para Kíli!

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Anna aproveitou para se afastar da cidade e seguir o rio, indo para áreas escuras rumo à Montanha Solitária. Ela desejou ardentemente que Bilbo tivesse seguido suas instruções.

Tais desejos ficavam ainda mais presentes quando o imenso dragão estava nos calcanhares de Anna, parecendo se deslocar em velocidade de dobra. Smaug estava tão enfurecido que insistia em lançar jatos de fogo contra Anna, esquecendo-se que aquilo em nada a atingia.

— Vem me pegar! — dizia ela, em tom de deboche. — Seu molenga!

Com ânimo renovado, Smaug imprimiu ainda mais velocidade. Anna respondeu fazendo uma subida vertical em ziguezague, buscando o lado sul da montanha. Ela ficou de frente para a lua, a luz pálida caindo sobre todo o vale, deixando para trás as chamas da cidade.

Em seguida, ela desceu sobre a montanha, espiralando como um pião desgovernado quase como se estivesse em queda livre rumo ao Rio Corrente. Apesar de todo o seu esforço, Smaug não parecia estar mais lento ou cansado.

Teria Anna cometido um erro de cálculo?

Pouco importava. Era tarde demais para desistir. Bufando, Smaug continuava em seu encalço. Anna não via saída, a não ser continuar tentando ser mais rápida que ele.

Se Bilbo tivesse seguido o plano, ela estaria no ponto em poucos minutos.

O hobbit era sua única esperança.

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— Smaug é o dragão vermelho e dourado — explicou Bilbo a Kíli. — Acha que pode atingi-lo?

Kíli indagou:

— E o outro dragão?

— Pelo amor de Eru, concentre-se em Smaug e esqueça o outro dragão — implorou Bilbo. — E então? Acha que consegue colocar a flecha no peito dele?

O rosto normalmente sorridente de Kíli foi tomado por uma expressão sombria, e ele respondeu:

— Se eu conseguir ter um bom ângulo de visão, posso tentar. Onde fica exatamente o ponto vulnerável?

Bilbo explicou mais uma vez, com o máximo de detalhes, Kíli ouvindo atentamente. A companhia inteira (menos Anna) tinha subido pela base da montanha, perto do Portão Dianteiro e da saída do Rio Corrente, até os contrafortes, o ponto mais alto que podiam ficar em segurança.

— Vou tentar — respondeu Kíli, ao final das explicações de Bilbo. — Mas já vejo uma flecha ali. Smaug já está ferido.

— O resto de vocês deve se proteger e preparar-se o melhor que puder — ordenou Thorin.

Quando os demais se afastaram, ouviram um outro rugido, um que lhes disse que Smaug estava cada vez mais perto. Bilbo viu o monstro chegando, em perseguição a um outro dragão de escamas verde-azuladas, se o luar não enganara seus olhos.

Se Bilbo achara Smaug imenso no seu covil, isso não era nada se comparado ao seu tamanho no ar, de asas abertas, totalmente espalhado, especialmente em relação a um outro de sua raça que era menor. O calafrio que percorreu o corpo do hobbit foi esquecido quando ele viu Thorin colocar a mão no ombro de Kíli, dando ao jovem um cumprimento silencioso com a cabeça antes de se afastar. Bilbo também foi para trás.

Kíli tirou uma flecha da aljava e a encaixou no arco, de olho no céu. Bilbo só via a silhueta dos dois répteis.

Os movimentos eram mal iluminados, mas mesmo assim Bilbo pôde ver perfeitamente o dragão menor desviar-se e atacar Smaug no ar, usando as garras nas asas do adversário, na cauda dele, até no dorso. A cada passada, os animais estavam mais próximos da montanha.

A Companhia tinha recuado para as partes protegidas dos contrafortes, de tal maneira que só os quatro estavam mais expostos — além de Thorin e Bilbo, Fíli também estava ao lado do irmão. Bilbo estava dividido, com o coração na mão imaginando se o dragão azulado era mesmo Anna, como ele calculara. Se fosse, ela estava dando muito trabalho a Smaug.

Agora a batalha aérea estava tão próxima e encarniçada que Bilbo se encolhia de tão nervoso. Eles podiam ver perfeitamente o brilho das pedras preciosas na barriga do monstro, que tentava encurralar o outro dragão. Bilbo notou manchas no corpo vermelho, e deduziu que fosse sangue.

"Anna tinha ferido Smaug?", indagou ele a si mesmo, admirado.

Então o dragão menor chegou perto demais das garras afiadas e dos imensos dentes de Smaug. A respiração de Bilbo falhou, dando-se conta que a morte dançava entre os dois. Um único golpe de Smaug poderia ser o fim de Anna.

— Kíli, por favor!...

Mas Kíli pareceu não dar bola para o apelo aflito de Bilbo. Calmamente, ele levou o braço para trás, esticando o cordão do arco ao máximo, a mão firme na altura da orelha, a expressão serena e concentrada. Os olhos do rapaz não se desviavam do céu ou da batalha, agora exatamente acima deles.

Smaug voava cada vez mais perto. O ar já começava a se aquecer perto da companhia, e Bilbo se lembrou de como era abafado o covil.

Ainda assim, Kíli não se mexia.

Agora Bilbo estava paralisado de terror e seu corpo começou a tremer. Afinal, se isso demorasse muito mais, quanto tempo demoraria até o dragão se cansar da batalha aérea e se voltar para eles?

Numa manobra do réptil menor, Smaug se esticou para dar um golpe com as garras feito navalhas. O movimento expôs a barriga branca da fera, tingida de prata pela lua, agora espetacularmente próxima. Bilbo ouviu um suspiro suave a seu lado.

Era Kíli, que simplesmente soltara a corda de seu arco, libertando a flecha com suavidade. Bilbo e Thorin acompanharam a trajetória da flecha. Ambos estavam de respiração suspensa e olhos fixos na flecha, que desapareceu totalmente no peito de Smaug. Afundaram seta, vara e pena dentro do monstro.

Smaug bramiu, um som desesperado e maligno na noite, repentinamente jogado para trás, lutando para permanecer no ar, mas o ferimento era inequívoco. Sangue escuro saía do seu peito em grande quantidade, e a besta batia suas asas de forma descoordenada, como se cambaleasse.

Bilbo parecia ter perdido a voz. Kíli conseguira! Tinha sido um tiro lindo! Ele matara o dragão!

Mas o pensamento feliz morreu, porque a atenção de Bilbo se prendeu numa sucessão de fatos tão rápidos que pareceram simultâneos. Ferido, debilitado, Smaug começou a perder altura, e até enquanto caía ele abriu a bocarra, disposto a mandar um último jato de fogo diretamente na direção da companhia. Porém, antes que uma única faísca saísse de suas narinas, o segundo dragão mergulhou sobre a Maior de Todas As Calamidades, garras abertas como uma grande ave de rapina, e atacou diretamente a nuca de Smaug com precisão invejável, desviando-o para o lago.

Bilbo acompanhou, de respiração suspensa, o rugido inacreditável de Smaug. O imenso dragão rosnou de ódio e, num último ato de vingança, golpeou o outro dragão com suas presas afiadas como lâminas. Praticamente petrificado de horror, Bilbo assistiu como se fosse uma cena em velocidade lenta o momento em que Smaug caiu do céu numa cascata colorida de sangue, fogo e faíscas.

E, com um guincho agudo, Anna caiu com ele.

PS — Tenho carinho especial por esse capítulo, é quase como um filho. Adorei escrevê-lo e espero que tenham gostado dele