Jornada Para Erebor
32 Reencontro, finalmente
Notas iniciais
Ainda demorou um dia inteiro até Anna parar de oscilar entre consciência e inconsciência. Muitas vezes ela não tinha certeza do que era sonho e o que era realidade.
Uma dessas vezes foi quando sentiu uma mão acariciando seus cabelos e abriu os olhos. Thorin sorriu para ela.
— Thorin... — Anna sussurrou, com um sorriso. — Estou sonhando de novo?
Ele acariciou o rosto dela com as costas da mão.
— Não, não é sonho.
Anna mal mantinha os olhos abertos.
— Todos bem...? E Gandalf?
— Tudo bem, mas o mago não apareceu. Procure descansar agora, pequena.
Anna obedeceu, simplesmente porque seu corpo não aguentou mais ficar acordado.
No pouco tempo que conseguia ficar desperta, Anna tentava reassegurar os anões que só precisava se recuperar dos dias sem comer ou dormir. Conseguiu saber, por exemplo, que Bilbo começava a se recuperar do forte resfriado. Anna morria de saudades dele.
Ainda de cama, ela ouviu a narrativa atabalhoada de Kíli e Fíli sobre a aventura na montanha com os goblins. Também soube que, por questão de segurança, ela voltara a se disfarçar de hobbit a serviço da companhia. Anna também recebeu muitos relatos de como eles tinham ficado tristes quando partiram sem ela.
A Companhia também pediu seu relato de suas aventuras, mas Anna achava que não tinha tantas para narrar. Ela escolheu não revelar sua recém-adquirida habilidade de trocar peles.
— Teria gostado da casa de Beorn — comentou Bombur. — Certamente sentimos falta daquela casa, na floresta.
Anna disse:
— Conheci Beorn na floresta. Os orcs iam me levar, mas aí...
Dwalin interrompeu:
— Espere! Orcs? Como assim, orcs?
— Eles mesmos. Eles nos atacaram logo depois das aranhas gigantes...
Balin indagou:
— Não é melhor contar isso de novo? Desde o início?
— Bom, as aranhas gigantes atacaram o nosso grupo, de um jeito muito parecido com o que atacaram vocês. Alguns dos elfos se feriram, e tivemos que ficar no mesmo lugar. Os orcs atacaram de repente. Puseram um saco na minha cabeça e me jogaram em cima de um warg.
Bofur indagou:
— E o que você fez?
— Não pude fazer nada, a não ser gritar o mais alto que podia, para os elfos me localizarem. Mas aí os orcs me bateram tanto que eu desmaiei.
— E depois? — perguntou Ori, com os olhos arregalados. — O que você fez?
Anna deu de ombros.
— Acordei amarrada e rodeada de orcs. Claro que comecei a gritar e eles queriam me bater mais, e foi aí que apareceu um urso gigante. Fiquei apavorada. O urso então me pegou e me colocou no alto de uma árvore. Depois ele se pôs a destruir orcs, e aí mesmo é que eu achava que iria morrer.
A narrativa de Anna deixou os anões de respiração suspensa e olhos fixos nela. Dwalin foi o único que não fez uma careta quando ela descreveu como o urso rasgava wargs como se fossem folhas de papel. Depois ela se deu conta que era um homem: Beorn.
— E então ele se apresentou? — indagou Fíli.
— Acho que sim. Ele disse que Gandalf pedira a ele para dar uma olhada na floresta. Depois os elfos me acharam e nos levaram para o palácio do rei Thranduil.
— Como você fugiu de lá? — indagou Balin.
— Foi pura sorte. Meu plano terminou falhando, ao menos para mim. Thranduil descobriu a fuga de vocês antes do que eu previa e reagiu muito mal. Eu não podia fugir com vocês ou ele ia saber que eu tinha ajudado. Só que assim que descobriu que tinham fugido, ele me acusou e me trancou no meu quarto.
— E como você fugiu?
— Príncipe Legolas nos ajudou a escapar.
— Nós?
— Um dos elfos de Rivendell ficou comigo em Mirkwood, por proteção. — Anna abaixou a cabeça, a lembrança de Eldrin causando uma dor em seu coração. — Terminou sendo uma ótima companhia, e tudo indica que ele morreu para me proteger.
Dori fez cara de desprezo. — Muito me admira. Confiar em elfos nunca é boa ideia.
— Desculpe discordar, Mestre Glóin. Esse elfo traiu sua própria gente para me proteger, agrediu o príncipe e pode ter morrido no meu lugar. Devo a ele minha vida.
— O hobbit falou desse aí — lembrou Dwalin. — Disse que ele não saía de perto de você.
— Por isso Bilbo não conseguiu se aproximar muito — explicou Anna. — Eu não queria que meu amigo soubesse a respeito de Bilbo. Ainda tinha dúvidas sobre ele, mas acho que fui injusta.
Bofur animou Anna:
— Não, você foi prudente. Com elfos, é uma boa precaução.
Os outros concordaram, e talvez tenha sido a desconfiança dos anões em relação aos elfos que fez Balin comentar:
— Ainda não entendi por que o príncipe ajudou na fuga.
Anna explicou:
— Eu também não entendi a princípio, então fiz com que o príncipe se explicasse. Segundo ele, quando vocês escaparam, pouparam o rei Thranduil de grandes constrangimentos. O próprio rei não sabia mais o que fazer com vocês. Quando vocês fugiram, resolveram muitos problemas para Thranduil. E quando ele tentou me prender, ficou encrencado com Mestre Elrond. — Balin a encarou, interrogativamente, e Anna deu de ombros. — Parece que elfos de Mirkwood são muito diferentes dos elfos de Rivendell. Coisas de elfos. Eu não entendo disso.
— Bom, agora esses adoradores de árvores estão para trás! — comemorou Glóin. — E que fiquem assim!
Os demais concordaram ruidosamente, rindo. Anna sorriu também, o coração feliz em seu peito. Aqueles anões certamente eram mais do que amigos: ela os escolhera como sua família substituta e seu apoio emocional na Terra Média.
Mas Anna ainda precisava resolver a situação com Thorin.
Antes que ela pudesse pensar nisso, porém, o curandeiro Óin dispersou a bagunça no quarto.
— Agora preciso que deixem Anna comer e descansar em paz.
— Óin, quando vou poder visitar a casa? — indagou Anna, quando todos saíram. — Parece que toda vez que chegamos a um lugar interessante, estou de cama e perco o melhor da diversão.
O curandeiro encarou a moça e respondeu:
— Se continuar descansando direitinho e comendo bem, acho que amanhã estará boa.
Ela quis saber:
— E Bilbo? Como ele está?
— Oh, o Mestre Baggins. — Óin pareceu preocupado. — Nosso ladrão pode demorar um pouco mais a se recuperar.
Anna se alarmou:
— Pobre Bilbo! Ele ficou tão ruim assim?
O curandeiro suspirou, dizendo:
— Seria bom se ele ao menos ficasse animado em melhorar, dona.
As palavras de Óin deixaram Anna preocupada. Ela se deitou, pensando no que ele dissera, e terminou adormecendo.
Desta vez, Anna não acordou quando Thorin esteve em seu quarto, observando-a dormir durante horas a fio.
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No dia seguinte, Anna pediu uma tina de água para tomar banho no próprio quarto. Refrescada, de roupas limpas, ela deixou o quarto pela primeira vez e andou pela casa. Como era de madeira, havia eco, e Anna foi atraída pelas vozes dos anões, num outro aposento. Não demorou a encontrar um grande salão com uma mesa comprida, quase como a do salão de Mestre Elrond. Ali estavam quase todos da companhia, animados como sempre, e, com muito barulho, saudaram Anna.
A primeira reação dela foi de espanto diante da mesa farta. Bofur, sempre sincero, assentiu:
— Aqui temos sido tratados como reis! E nem fazemos a comida.
Anna ficou maravilhada com a qualidade de pães e bolos, geleias e biscoitos. Depois ela se lembrou.
— Ninguém levou um pouco para Bilbo?
— Depois levamos para ele — disse Bombur, concentrado em destroçar um queijo inteiro. — Se sobrar.
Anna sorriu, e montou um pratinho com pães, bolo, biscoitos e queijo, e foi até o quarto que os demais indicaram como sendo o do hobbit.
Ela entrou de mansinho para não acordá-lo, caso ele estivesse dormindo. Lá estava o pobre Bilbo: acordado, na cama, afundado em cobertas, com uma cara de absoluto desânimo.
— Bilbo? — Anna chamou. — Eu trouxe comida.
Bilbo arregalou os olhos ao vê-la.
— Anna? É você mesmo?
Ela sorriu e levou o pratinho até ele, sentando na cama. — Sou eu mesma. E trago seu café. Eu também estava de cama, como você, mas já estou melhor. Como se sente?
Bilbo se sentou na cama, dando de ombros:
— Ainda não sei. Isso é o que eu ganho por me aventurar a ir além de Bree.
— Oh, Bilbo — Anna pegou a mão dele. — Eu estou tão feliz de finalmente ter conseguido me juntar a vocês depois de tanto tempo. Não quero que fique assim, desanimado.
Ele retrucou:
— Você olhou lá fora? Viu a montanha? Ela é enorme! E lá dentro tem um dragão! Sou eu que terei que enganar essa fera.
Anna não entendeu.
— A montanha? Erebor? Dá para ver daqui?
— Você não viu quando chegou?
— Bilbo, eu cheguei muito fraca. Não estava em condições de ver nada. Não lhe disseram isso?
Bilbo pegou o prato das mãos de Anna e respondeu, antes de morder um bolinho:
— Eu nem sabia que você tinha chegado à cidade!
Anna disse:
— Não importa. O fato é que eu cheguei muito mal, quase não me aguentava em pé. Perguntei na rua pela companhia, e aí dois guardas me arrastaram até o Senhor da Cidade. Eles achavam que eu podia ser uma ameaça ao rei sob a montanha. Felizmente Nori me viu e então Balin e Dwalin me trouxeram para essa casa. Mas agora voltei a ser seu sobrinho, Bilbo. Thorin acha mais seguro.
Bilbo se animou:
— Então... você e Thorin já se entenderam?
Anna abaixou a cabeça. — Ainda não tivemos uma chance de conversar. Na verdade, não o tenho visto.
— Oh, não — Bilbo gemeu, mostrando grande contrariedade. — Não, Anna, por favor, tente resolver isso logo. Não faça isso conosco, por favor, não de novo!
Ela o encarou, atônita:
— De novo? O que eu fiz? Mas do que está falando?
Bilbo tentou explicar, abaixando a voz:
— Você não faz ideia do quanto sofremos quando vocês estavam separados. O mau humor de Thorin chegou a níveis que ninguém achava possível!... Ele veio de Rivendell a Mirkwood, subindo as Montanhas Sombrias, arrastando a asa por você. Isso não foi nada bom para o moral da companhia, sabe? Por favor, por favor, por favor, não deixe passarmos por tudo aquilo de novo.
Anna também cochichou:
— Devo lembrar que não foi minha culpa? E posso apontar que há uma chance de eu simplesmente nunca mais querer olhar para a cara dele de novo?
Aquilo fez Bilbo se apavorar:
— Não, não, não, por favor! Não pode!...
Anna lembrou, de maneira gentil, mas determinada:
— Bilbo, isso é entre mim e ele. Não me incomodo com as apostas, mas é uma coisa que só nós dois podemos resolver. Agradeceria se não interferisse.
O hobbit a encarou, com uma expressão atônita. As palavras de Anna pareciam ter mostrado a Bilbo algum tipo de mensagem que ele deveria saber.
— É claro. Desculpe.
Anna voltou a pegar a mão dele.
— Meu querido tio, não desanime. Você está doente, cansado e assustado com tudo que passou. Mas agora estamos perto novamente. E, se tudo der certo, não vamos nos separar de novo.
Pela primeira vez, Bilbo sorriu:
— É bom tê-la de volta. Espero mesmo que não nos separemos de novo.
Anna sorriu também, feliz por ter arrancado um sorriso dele. Mas o sorriso de Bilbo não ficou muito tempo em seu rosto. Anna percebeu que ele olhava um ponto além dela, com certa apreensão.
Anna se virou e viu que Thorin estava na porta. Ela se levantou, notando que, um a um, todos os anões da companhia também entravam no quarto de Bilbo, calados e com expressões solenes. O quarto estava ficando quase sem espaço com todos ali ao mesmo tempo. Anna sentiu que havia algo acontecendo. Thorin explicou:
— Anna, preciso lhe dizer uma coisa, e todos devem ouvir, incluindo Mestre Baggins.
Anna franziu o cenho, olhando para todos, intrigada.
— Não estou entendendo.
Thorin a encarou, tenso, e de repente puxou um punhal pequeno de sua cintura, levando-o imediatamente ao queixo enquanto puxava a barba. Anna viu os outros anões se contraírem, como se aquilo fosse fisicamente doloroso. Num reflexo, Anna teve uma intuição do que ia acontecer e gritou:
— Não! Não faça isso!
Foi a vez de Thorin franzir o cenho.
— Eu estou querendo pedir desculpas. Não quer aceitar minhas desculpas?
— É assim que vocês pedem desculpas? — indagou Anna. — Cortando barbas?
Os anões concordaram, espantados com a pergunta dela. Anna estava indignada.
— Que mania é essa de cortar cabelo ser uma coisa ruim? Bilbo, tem disso no Shire?
O hobbit balançou a cabeça:
— Não, não mesmo. Quando pedimos desculpas, só pedimos desculpas. Às vezes trazemos flores ou assamos um bolo.
Thorin quis saber:
— E que forma de desculpas você aceitaria?
Anna respondeu:
— Na minha terra, basta pedir desculpas – desde que sejam sinceras e venham acompanhadas de um desejo genuíno de jamais repetir o erro. Flores e bolo ajudam, mas pode ser exagerado. O pedido de desculpas pode ser rejeitado ou aceito. Quando é aceito, também é comum que as partes discutam o ocorrido e reflitam sobre sua participação no caso.
Bifur começou a gesticular furiosamente para Bofur, que respondeu:
— Ainda não sabemos, espere um pouco!
Thorin deu outro passo em direção de Anna, dizendo, com grande pompa.
— Nesse caso, Anna, eu peço desculpas pelo modo como a tratei. Você não fez nada para merecer o tratamento, e eu lhe prestei um grande desserviço. Já que o corte de barba ritualístico não é aceitável, faremos do seu modo. — Ele abaixou a cabeça. — Peço seu perdão.
Foi o suficiente para Anna enrubescer. Ela ficou genuinamente constrangida. Mas devia ter esperado um gesto assim de Thorin. Ele tinha uma certa propensão a atitudes pomposas e exageradas.
De maneira simples e sucinta, Anna garantiu:
— Está perdoado, Thorin.
Houve uma grande movimentação entre os anões, e Anna podia jurar ter ouvido tilintar de moedas. Fosse como fosse, ela completou:
— Agora que isso foi esclarecido, está na hora de termos uma conversa sobre o que aconteceu. — Ela empinou o nariz, pegou a mão dele e ressaltou, olhando os demais, para não deixar dúvidas: — Em particular.
Puxou Thorin para fora do quarto de Bilbo, deixando todos os outros (anões e hobbit) um tanto atônitos com sua atitude.
E se Anna tivesse ficado mais dois minutos, teria visto a discussão acalorada sobre as apostas que estavam sendo feitas sobre a conversa que ela iria ter com Thorin.
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