Jornada Para Erebor
33 E mais um momento constrangedor
Notas iniciais
A casa cedida à Companhia de Thorin Oakenshield pelos habitantes da Cidade do Lago ficava acima de uma plataforma de madeira, sobre palafitas na água. Na entrada, havia um alpendre espaçoso. Anna achou que aquele era um bom lugar para a conversa que precisava ter com Thorin.
Quando estavam afastados o suficiente de portas e janelas, Thorin observou:
— Isso não vai impedi-los de tentar ouvir.
Anna concordou:
— É, provavelmente não. Mas há coisas que preciso dizer, se quiser me escutar.
Thorin comentou:
— Pensei que tivesse me perdoado.
Anna sorriu com sarcasmo:
— Acredite, Thorin, se eu não tivesse perdoado você, não estaríamos tendo essa conversa. Não estaríamos tendo nenhuma conversa.
O anão abaixou a cabeça, envergonhado. Anna garantiu, em tom dócil:
— Mas fique tranquilo, não vim brigar com você pelo que fez. Grande parte da raiva que eu sentia já passou, e Gandalf foi quem sofreu mais. Espero que ele tenha lhe dito.
— Sim, ele disse — respondeu, abatido e envergonhado. — Eu lamento muito.
Anna assentiu:
— A pior parte é que eu acredito em você. Acredito que você sinceramente sinta muito e que tenha sofrido com o que fez. É só por acreditar que você tenha sofrido que consigo perdoar você. Mas demorou até eu entender que não tinha feito aquilo por prazer em me magoar ou por desprezar meus sentimentos depois que eu pedi especificamente para não brincar com meu coração.
Thorin continuou olhando o chão, desconfortável. Anna sentou-se ao lado dele no banco. Ela olhou para o lago, dando de ombros, continuando a falar:
— Eu sou apenas uma garota simples, então custei a entender que você estava cumprindo os deveres de um líder de seu povo. Esqueci que um rei não é livre para seguir suas emoções, que ele tem deveres para seu povo. Um bom rei considera mais o seu povo do que sua vida ou seu próprio coração. Um bom rei deixa de lado seus sentimentos para atender às necessidades de seu povo. E você é um bom rei, Thorin. Não tenho dúvidas disso. Seus homens o admiram, eles o respeitam e eles seguirão seu rei cegamente, porque você é um bom rei e eles sabem disso.
Anna encarou Thorin, que a olhava com admiração, os olhos azuis brilhando com um sentimento que ela não conseguia definir. A visão foi tão intensa que a fez apaixonar-se de novo, naquele momento. Anna teve que se levantar e se recompor para conseguir manter o raciocínio:
— Foi quando entendi isso que percebi que deve ter sido difícil para você, tanto quanto foi para mim. Quando entendi isso, tive também uma certeza: Erebor sempre vai ter precedência. Você sempre vai escolher a montanha.
Anna percebeu que Thorin instintivamente voltou o olhar para o leste. Ela indagou:
— É lá que está?
Ele franziu o cenho:
— Lá está o quê?
— Erebor. É para aquela direção? Eu quero ver.
Thorin ergueu-se e foi até a balaustrada, apontando:
— Lá está.
Anna acompanhou o olhar dele e virou-se. Realmente, lá estava a montanha majestosa: um pico solitário, alta como uma montanha podia ser.
Sua rival.
Anna ouviu a voz emocionada de Thorin descrever Erebor em duas palavras:
— Nosso lar...
Anna se virou tão rápido para encará-lo que Thorin se assustou. Mas ela notou a luz nos olhos dele, o rosto todo aberto em admiração, uma expressão inequívoca de adoração. Anna comentou:
— Gostaria que você pudesse ver seu rosto... A emoção quando você fala de Erebor. Eu não tenho como competir com isso.
— Não entendo — confessou ele. — Eu amo você! Está com ciúmes da montanha?
— Não tenho ciúmes — garantiu Anna, tristemente. — Eu teria ciúmes se a montanha tivesse tirado você de mim, se eu tivesse uma chance de ser escolhida. Mas eu nunca tive uma chance, Thorin. Não quando envolve Erebor, seu reino, seu povo.
Thorin tentou interrompê-la, mas Anna não deixou:
— Mas é isso que faz de você um bom rei. Seu reino merece você. Eu entendo isso, eu aceito isso porque é isso que faz de você o que você é. Muitas vezes desejei que você fosse pobre, apenas aquele ferreiro simples que o destino obrigou a ser. Mas esse não seria Thorin Oakenshield, não seria o homem que eu amo. E eu amo você como você é, sem tirar nem pôr.
Aquele sorriso que Anna tanto amava estava no rosto de Thorin quando ele repetiu:
— Você me ama?
— É claro que amo, seu anão tolo — disse ela, enrubescendo. — Eu lhe disse antes que não tenho um coração frívolo. Não amo alguém hoje e esqueço na manhã seguinte.
Thorin abriu ainda mais o sorriso, avançando para ela, disposto a tomá-la em seus braços. Anna deu um passo para trás e bateu na mão dele como se fosse uma criança levada, pegando um brinquedo que não era seu.
— Não!
Thorin estacou de súbito, confuso com a rejeição dela. Anna explicou sua atitude:
— Precisa saber uma coisa antes de encostar em mim. Embora eu o ame mais do que julguei ser possível e apesar de valorizar cada momento que temos juntos, saiba disso: você me magoou profundamente. Não foi a primeira vez e provavelmente não será a última.
Ele tentou dizer:
— Prometo solenement-
Anna o interrompeu:
— Melhor não fazer as mesmas promessas de novo. O que eu realmente quero dizer é que, apesar de todo o amor que sinto por você, um dia eu posso chegar à conclusão que ficar com você pode ser sofrido demais e saudável de menos. Então, se algum dia eu chegar a essa conclusão e eu for embora, não será porque não o amo ou porque deixei de amá-lo. É só para preservar meu coração. — Anna não conseguiu evitar lágrimas. — Droga, eu não queria chorar.
Thorin aproximou-se lentamente, como se pedisse permissão. Anna não se afastou e ele chegou junto dela. Com um dedo, aparou uma lágrima fresca do rosto da moça.
— Lamento ter feito você chorar, pequena — de novo. — A voz dele era baixa, profunda. — Só Mahal sabe como termino sempre fazendo você chorar, e é a última coisa que quero. Eu juro que não quero. Quando você chora, isso me quebra o coração.
Anna comentou:
— Você me tratou mal.
— E eu me senti péssimo. Os outros devem ter dito que quase se amotinaram por sua causa.
— Disseram, sim. Mas o fato é que eles não se amotinaram. Eles o respeitam, Thorin. São leais.
Anna viu Thorin afastar-se, antes de dizer, com a voz profunda soando ainda mais triste:
— Não sei como pode sequer me encarar, quanto mais me perdoar. Não mereço você, Anna.
Ela disse:
— Está sendo muito duro consigo mesmo. Mas provavelmente está certo.
Ele a encarou, intrigado:
— Como pode me defender depois de tudo que eu lhe fiz?
Anna foi sincera:
— Thorin, eu amo você. Tenho duas escolhas: ficar brava com você ou perdoá-lo. Em qualquer uma das duas hipóteses, não vou deixar de amar você. Mas, como eu disse, pode chegar o dia em que eu não possa mais ficar com você.
— Não! — Thorin ficou lívido. — Não pode dizer isso. Anna, como vou viver sem você? É inaceitável!
Anna lembrou:
— Thorin, e se eu puder voltar para o lugar de onde vim? Aqui não é meu lugar. Você sabe disso.
Decepção era palpável no rosto dele.
— Você quer voltar?
Anna confessou:
— Desde que vocês deixaram Rivendell, esse pensamento me ocorreu várias vezes.
— Seu lugar é do meu lado! Será minha rainha sob a montanha.
Anna sorriu:
— Ficaria honrada, mas é muito provável que estejamos nos precipitando. Precisamos primeiro retomar a montanha.
Thorin sorriu, e Anna sentiu um estremecimento percorrer seu corpo todo com aquele sorriso. Ele chegou perto dela, os olhos brilhando, o desejo praticamente irradiando em ondas. Anna ia se derretendo, mas conseguiu se controlar e afastar-se dele.
— Thorin, não!
O anão se impacientou, rejeitado mais uma vez, revirando os olhos:
— O que é agora, por Mahal?! Já não fizemos as pazes?
Anna abaixou a voz.
— Tem gente na rua.
— E daí?
— Daí que eles estão vendo o futuro rei de Erebor fazendo avanços sobre um menino adolescente, esqueceu? Isso é aceito em sua cultura?
Ele arregalou os olhos, alarmado, olhando em volta de repente.
— Eu... Eu me esqueci...
— Então é bom que um de nós esteja com a cabeça limpa.
— Mas isso poderia ser útil — disse Thorin de repente.
— Qual utilidade haveria em fazer o povo duvidar da masculinidade do rei de Erebor?
O anão respondeu, de forma marota:
— Para início de conversa, isso poderia fazer o Senhor da Cidade parar de mandar mocinhas para agradar o rei.
Anna soltou um grito:
— O quê?!
Thorin parecia se divertir, repetindo calmamente:
— Oh, sim, mocinhas...
Anna foi sentindo uma raiva subindo-lhe pelas entranhas. Rosnou:
— Ah, é mesmo?
O risinho não saiu do rosto de Thorin, cada vez mais maroto.
— Sim, e são moças muito bem apessoadas e amigáveis também. Na noite passada, por exemplo, elas vieram em dupla. Foi muita generosidade do Senhor da Cidade.
Aquilo teve o efeito que Thorin esperava. Anna ficou escarlate de raiva e começou a rosnar, enfurecida:
— Bom, então talvez você deva manter essas mocinhas por perto, porque eu é que não mhnn-
Os lábios de Thorin avançaram contra os de Anna, pegando-a de surpresa, antes que ela pudesse reagir. Ela sentiu a barba familiar, o cheiro de pinho e maçãs... O coração dela se acelerou e outras partes de seu corpo também responderam quando ele a envolveu em seus braços, apertando-a contra seu corpo. Se Anna pudesse ouvir algo além de seu coração acelerado, teria notado sons de júbilo entre os anões — e moedas de ouro e prata trocando de mãos.
Quando o cérebro de Anna finalmente começou a reagir e ela ia responder ao beijo, uma voz soou da rua:
— Majestade, saudações!
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo: o beijo foi interrompido, Thorin instintivamente puxou Anna para suas costas e Anna, num reflexo, pensou em desaparecer numa bolinha de pelos.
Era o Senhor da Cidade do Lago, que estava na rua, saudando com um sorriso insincero:
— Bom-dia, Majestade! Espero que estejam todos bem. Precisam de algo?
— Tudo está a contento. A Cidade do Lago vem tratando bem os anões de Erebor.
— Excelente! Seus hobbits já melhoraram? Aquele rapazinho, como está?
Thorin respondeu:
— Bem melhor, está bem aqui -
Interrompeu-se, ao ver-se sozinho no alpendre. Franziu o cenho, respondendo:
— Estava aqui agora mesmo. Acho que não vi quando voltou para a casa.
O Senhor da Cidade disse:
— De qualquer modo, fico feliz que estejam todos bem. Se precisarem de qualquer coisa, não hesitem em pedir!
Thorin fez as despedidas, preocupado. Onde tinha ido Anna? E como sumira tão depressa?
Claro, tanto Thorin quanto o Mestre da Cidade não tinham reparado num pequeno esquilo que pulara de maneira apressada para dentro da casa, de maneira insuspeita.
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Kíli passava por acaso pelo salão da casa quando notou a pessoa curvada no chão, de quatro. O rapaz ficou alarmado e correu a ajudar.
— Oh, não...! Anna?
Anna tentou sorrir:
— Kíli... Pode me ajudar?
Ele a ergueu no colo:
— Fíli! Thorin! Ajudem!
Houve uma grande comoção, o jovem anão tentando manter Anna acordada. Ela foi posta na cama.
Todos falavam ao mesmo tempo.
— O que houve?
— Ela parece pálida.
— Mas ela estava tão bem!
— Calma, pequena — disse Bofur. — Vai dar tudo certo.
— Deem espaço para Óin trabalhar!
Anna ofegava, mas tentou avisar:
— Gente, está tudo bem... Vou melhorar logo...
— Quer alguma coisa? Água, travesseiro?
— Talvez um bolinho de nozes... — Eles a encararam e ela enrubesceu. — Eu me senti fraca de repente... E sem ar... Já vai passar.
Óin sugeriu:
— Talvez devesse ficar de cama mais um dia. Ou dois!
— Por favor, Mestre Óin, eu já vou melhorar — pediu Anna. — Quem sabe negociamos isso. Podemos fazer assim: eu ficarei de cama toda a manhã, e de tarde posso sair. Que tal? Se eu ficar de cama de manhã, posso sair à tarde?
— Vai precisar melhorar para sair à tarde, dona. E muito. — Anna sorriu, mas Óin completou: — E você pode sair da cama mas não não pode sair da casa!
— Sim, senhor. — Anna sorriu. — Obrigada, Mestre Óin.
— E descanse até lá! — Ele se virou para os demais. — E vocês? O que estão fazendo aí? Deixem Dona Anna descansar! Xô!
Os anões saíram, desejando melhores. Anna cruzou os braços, entediada. E ela nem tinha conhecido a casa toda!...
Após alguns minutos, Anna parou de bufar. Ela estava quase se acalmando quando recebeu a visita de Thorin. Ele indagou:
— Podemos conversar?
Ela deu de ombros.
— Óin não me deixa fazer nada além disso. Sente-se.
O anão parecia sério. Sentou-se na cama, um volume nas mãos. Disse, apenas:
— Queria lhe falar sobre as armas que trouxe.
Anna indagou, alarmada:
— A espada!... Não se perdeu, não é?
— Não, a espada está aqui. Falo desta outra lâmina.
Thorin apresentou o punhal élfico de Eldrin, e Anna sentiu uma angústia tão grande que virou uma dor física aguda no peito. Ela pegou a arma com cuidado.
Thorin abaixou a voz para indagar:
— Foi um... presente?
— Não — respondeu Anna, tentando conter as lágrimas. — Espero poder devolver ao dono um dia... se puder.
— Seu amigo elfo? Os outros me contaram sobre ele. Você acha que ele morreu?
Anna tinha os olhos marejados quando respondeu:
— Eu espero que não. Ele sempre disse que me protegeria com a própria vida, mas eu nunca quis que ele... — Anna não conseguiu terminar, soluçando. — Eu só espero que ele esteja bem.
Thorin estava com aquele ar solene e meio macambúzio quando disse:
— Entre o meu povo, dar uma arma de presente é um gesto simbólico, trocado entre pessoas que desejam se unir. — Ele a encarou, agora revelando tristeza nos olhos azuis profundos. — Você ama esse elfo?
Anna arregalou os olhos, chocada. Não bastava a dor profunda da perda de Eldrin, agora isso? Depois de tudo que eles tinham conversado? Ela não entendia por que ele estava fazendo aquelas perguntas.
Anna quis saber:
— Thorin...? De onde tirou essa ideia?
Ele pediu, seco:
— Responda.
Anna respirou fundo, tentando secar as lágrimas e manter a cabeça fria:
— Amo Eldrin como amo Bilbo. Ou Bofur. Ou Kíli, Fíli. Como um grande amigo, só isso. Não há outro para mim além de você, Thorin. Pensei que tivesse deixado isso muito claro.
Ele ainda estava de cara fechada:
— Você carrega a lâmina de outro homem — um elfo, ainda por cima.
Anna garantiu:
— Apenas para devolver a ele, seu anão teimoso!
Desta vez, Anna viu o esforço de Thorin em se conter.
— Talvez seja bom saber que meu povo tem uma tendência a tratar as coisas que ama com... possessividade.
— Notei — respondeu Anna, seca. — Mas já disse: de onde eu venho, não é costume ter esse tipo de atitude.
Finalmente, o olhar de Thorin se suavizou e ele disse:
— Eu admito ter ciúmes. — Pegou a mão dela. — Mas é que você me deixa em brasa, pequena. Nesses meses separados, a lembrança de seu toque era tortura. Se não fosse sua saúde, eu já a teria tomado.
Anna sentiu uma onda de desejo em seu corpo ao ouvi-lo.
— Thorin... Não pense que é só você. Meu corpo também sente sua falta. Fiquei doente de tanta saudade.
Thorin abaixou a cabeça.
— Durante esse tempo, meu maior medo era que você não me aceitasse de volta. Minha pequena, você é minha dona. Sou seu escravo. Depois que retomarmos Erebor, você terá um rei a seus pés.
Anna apenas sorriu.
— Eu já lhe disse: você é meu rei agora. É o suficiente para mim.
Thorin subiu na cama para beijá-la profundamente e deitar-se ao lado de Anna. Ali ficaram deitados, apenas deitados, abraçados, Thorin relatando as aventuras da companhia, Anna aninhada no pescoço dele, o ouvido colado em seu peito. Ela se sentia contente, segura e aceita.
Tão confortável Anna estava que, sem se dar conta, ela terminou adormecendo com o som da voz profunda de Thorin.
Óin estava mesmo certo em mantê-la na cama mais um dia.
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