Jornada Para Erebor
34 Uma noite na cidade
Notas iniciais
Uma noite na cidade
A Companhia é convidada para um baile
Por menos que Anna gostasse da ideia, Óin prolongou seu repouso nos dias seguintes. O curador custava a crer que ela demorasse tanto a melhorar, mas é claro que ele não sabia que ela secretamente treinava sua capacidade de trocar de pele. O objetivo de Anna era conseguir trocar peles sem enfraquecer tanto.
Pelo que ela pudera perceber, ajudava ter desfrutado uma refeição antes da transformação. Anna também notou que o tamanho do animal era um fator determinante. Outra coisa que chamou a atenção era que ela ficava fraca quando voltava à forma humana, mas jamais enquanto fosse um animal. Por outro lado, quanto mais tempo passasse sendo um animal, mais fraca ficava quando voltasse a ser humana.
Secretamente, Anna passou a recarregar, sempre que podia, o pote de geleia real. Fraca, ela estava vulnerável.
Por outro lado, Anna continuava a ser um desastre em termos de habilidade guerreira. Ela era fraca demais para aplicar algum golpe de espada que prestasse. Mas o pior é que ela jamais conseguira superar o pavor ao ver um orc ou um warg. Nem mesmo as aranhas conseguiam diminuir o terror de Anna. Que ajuda ela poderia ser? Anna se sentia imprestável neste quesito.
Nesse ponto, Bilbo tinha evoluído muito. Assim que ele melhorou do resfriado, passou a visitar Anna com os demais, para alegria da moça. Thorin demorava-se mais nas visitas, e os demais davam privacidade aos dois.
E então um desdobramento que Anna não previra se desenrolou.
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Para alguns dos anões mais tradicionais, a situação de Anna e Thorin precisava ser corrigida com urgência. Coube a Balin abordar o líder da companhia.
— Thorin, é melhor endireitar a situação o quanto antes. Glóin e Óin já reclamam abertamente, e Bifur gesticula com impaciência.
— Situação?
— Você e a pequena estão em bons termos novamente. Isso não é aceitável. Se você pretende cortejá-la, então deve dar início ao ritual correto para o seu status. Caso contrário, encerre a relação e retire o pedido de corte.
— Eles falam sobre isso?
— Sabe como são tradicionais, ainda mais em se tratando da linhagem de Durin. Nunca gostaram muito do jeito como você a trata, mas é nosso costume que mulheres viajem vestidas como homens, então não reclamam muito. Mas se você e ela já decidiram que querem cortejar, então a situação exige os procedimentos, você sabe.
Thorin o encarou:
— Estive pensando sobre isso. Inclusive sobre o que conversamos antes. Você diz que ela não pode ser minha rainha.
— Não creio que seja aconselhável. Sabe como nosso povo se sente em relação a estrangeiros.
— Balin, ela está na nossa busca. Fez tanto quanto qualquer um de nós na conquista de Erebor — talvez mais! Acha que não admirarão uma rainha assim?
— Estará arriscando seu trono. Não posso prever a reação do povo.
— Eu a amo. Não há outra para mim.
— Posso ver que sim. Lamento se não tenho palavras de melhor alento.
— Acho que encontrei a solução. Gostaria de sua ajuda para os aspectos legais, Balin.
O anão de barbas longas sorriu amplamente.
— Sabe que pode contar comigo, rapaz.
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Enquanto Anna estava confinada à casa, os anões desfrutavam da hospitalidade da Cidade do Lago. Havia festas praticamente todas as noites no salão da cidade, e Anna se interessou em ir até lá. Óin liberou por uma noite, mas recomendou que ela não cometesse excessos.
Com um disfarce cuidadoso, Anni Bolger fez sua aparição no salão onde o Senhor da Cidade oferecia celebrações pela volta do rei sob a montanha. O novo hobbit estava acompanhado pelo seu tio Bilbo Baggins. Por ser praticamente desconhecido do povo da cidade, o hobbit adolescente foi alvo de atenções, muito saudado pelos humanos. Anna imaginou que, para eles, ela era um menino ou rapazote. Normalmente, passar-se por um adolescente era aceitável e até desejável, para não despertar atenções indesejáveis, mas desta vez nem tudo seria como planejado.
No grande salão, Anna se sentou entre Thorin e Bilbo, com ordens de apenas observar a festa, por questões médicas. Era pena, pensou Anna, porque a música era animada, e a julgar pelas risadas de Kíli e Fíli, o baile estava divertido. Ela gostaria de dançar com Thorin, mas isso era impossível mesmo que estivesse saudável.
Thorin deixou a mesa para se ocupar do Senhor da Cidade, e Bilbo, animado com música, danças e bebidas, juntou-se ao local das danças. Então, Anna viu-se sozinha na mesa, olhando o ambiente alegre, com homens, mulheres, anões e um hobbit, este último dançando animadamente.
Sua atenção se voltou para uma atendente do local, uma jovem de vestido apertado com uma bandeja cheia que chegou até a mesa, sorridente:
— Mais uma rodada, rapaz? Ale ou vinho?
Anna respondeu, sorrindo:
— Agradeço, senhora, mas não posso, pois estou doente. Também meu tio não me deu permissão para beber.
A moça piscou para Anna, colocando canecos de madeira na mesa e cochichou:
— Ora, seu tio nunca vai saber. É capaz até de fazer bem à sua saúde! E além disso, ali está Célia — apontou para uma moça ruiva que lançava um sorriso tímido para elas —, que vai gostar se você der atenção a ela. Por que não a tira para dançar?
Anna ficou pálida. Ela não previra aquilo.
— Eu?! ... er... M-mas... Eu... Eu nem a conheço!...
A moça não se deu por vencida:
— Nem vai conhecê-la, se ficar sentado aí! Vamos lá, rapaz! Um rapagão como você pode ganhar a moça mais bonita da cidade. E ela é Célia!
— M-mas, m-mo-moça...
Anna nem tinha terminado de falar quando uma outra moça, de cabelos pretos, repentinamente se sentou ao lado de Anna, dizendo, com um sorriso:
— Oi. Seu nome é Anni, não é? Você também é um hobbit?
— Er...
Anna nem teve chance de responder, e a garçonete fechou a cara para a recém-chegada.
— Cai fora, Bella. Ninguém chamou você aqui.
A morena não parava de olhar para Anna, que agora estava encurralada pelas duas. E, pelo canto do olho, Anna notou, com alarme, que a ruiva estava vindo marcar seu território.
A morena respondeu, com um sorriso predador:
— Ora, só estava sendo simpática com nosso Anni aqui. Se ele quiser dançar, eu estou disponível.
— Nem vem! — disse a outra. — Ele vai dançar com a Célia!
A morena predadora, Bella, insistiu:
— Célia não sabe dançar. Dance comigo, Anni. Não é sempre que temos um hobbit aqui.
Anna queria sair da mesa, mas via todos seus caminhos bloqueados pelas mulheres. Para piorar tudo, Célia também foi até a mesa. Ela não parecia feliz:
— Anni já tinha me prometido essa dança, não é, Anni?
— Claro que não! — interveio Bella. — Eu estou aqui e ele não disse nada disso.
Anna tentou dizer:
— Por favor, senhoras... Na verdade... Se puderem... er...
Mas nenhum efeito surgiu de seu protesto. As mulheres continuaram a brigar entre si, discutindo sobre o rapaz. Encurralada, Anna tentava pensar numa alternativa ou rota de fuga. Mas ela estava assustada demais.
Pior é que o barulho no salão era tamanho que ninguém ouvia a discussão entre as três mulheres. O medo de Anna só aumentava. Quando elas descobrissem que Anni era Anna, haveria barulho. Muito barulho.
Afinal, dizia o ditado, "nem o inferno guardava tanta fúria quanto uma mulher desprezada".
Mas outro ditado também garantia que "nunca nada era tão ruim que não pudesse piorar".
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— Majestade?
Thorin olhou para o Senhor da Cidade do Lago, suas vestes decoradas, o sorriso parasita, e sentiu o ar interesseiro a permear todo o cidadão. Apesar do asco que o homem lhe provocava, o rei de Erebor inclinou a cabeça, cumprimentando:
— Excelência.
— Que está achando de nossa festa?
— Excelente! Muito animada, com música, dança, comida, bebida! Agradeço a gentileza de sua cidade conosco.
O Senhor da Cidade olhou em volta, erguendo o caneco.
— Queremos que se divirtam muito! Bebam, dancem!
O salão estava cheio, anões e humanos misturados, um clima de alegria e animação. Thorin observou:
— É um bom descanso antes de chegarmos até a montanha.
— Mas não estão pensando em ir embora agora, estão?
— Precisamos chegar a nosso verdadeiro lar.
— Seus homens parecem estar se divertindo muito! — Thorin viu Kíli e Fíli passarem correndo e gargalhando nesse momento, como que para enfatizar o que o homem dizia. — Até mesmo seu rapazinho hobbit parece estar fazendo sucesso com as moças!
— Bilbo?
— Não, o filho dele! Como é mesmo o nome? Olhe! — Apontou para a mesa. — As moças parecem loucas por ele! Esse menino vai longe...!
Quando Thorin localizou a mesa, viu a expressão desconfortável de Anna cercada por três moças brejeiras — e um ciúme incandescente subiu por suas entranhas. Ainda conseguiu dizer ao Senhor da Cidade:
— Com sua licença.
Thorin partiu para lá a passos duros, afastando quem passasse por seu caminho, ignorando música, dança e risadas.
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