Jornada Para Erebor
16 Recuperação e amizade
Notas iniciais
O dia de Anna foi bem tranquilo. O corte da garra do warg estava quase fechado, mas ela ainda se sentia fraca pela perda de sangue e ficou de cama a maior parte do tempo.
A companhia inteira veio vê-la, e todos se mostraram animados com seu progresso. Óin examinou os cortes e ficou otimista com sua recuperação. Ori pediu permissão para desenhar o retrato dela. Como escriba da companhia, era dever dele registrar as pessoas e acontecimentos. Anna ficou a imaginar que isso seria útil para futuras gerações.
A visita de Kíli, Fíli e Bofur fez muito bem a Anna, que tinha a companhia constante de Bilbo. Ela riu com as brincadeiras dos jovens herdeiros e do fabricante de brinquedos.
— Que susto você nos deu! — disse Bofur. — Pensávamos que íamos perder nossa pequena.
— Não foi dessa vez, Mestre Bofur — disse Anna, com um sorriso. — Mas confesso que chegou bem perto.
Kíli estava entusiasmado.
— Foi lindo de ver! Ela correu para cima daquele warg sem nem piscar!
— Caramba — fez Fíli, admirado. — Por que fez isso, Dona Anna?
Ela confessou:
— Nem pensei muito, Fíli. Só vi o warg se aproximando, e achei que ninguém tinha visto. Corri para chamar a atenção do bicho, para distraí-lo de Thorin, mas terminei indo justamente para cima dele, acho. Não sei direito.
— Gostaria de ter visto — comentou Bofur. — Parece difícil acreditar.
— Eu vi e até agora não acredito — confessou Kíli. — Para onde Thorin estava olhando?
— Para você, Kíli — respondeu Anna. — Ele estava de olho nos orcs do outro lado, e esse warg veio por trás dele. Não ia dar tempo até ele ver e se defender. Quando eu vi que ele não tinha visto, não pensei nada, só em distrair o bicho.
Bofur comentou:
— Foi muita coragem sua.
— Coragem? Eu estou tremendo até agora, Mestre Bofur! Não sou corajosa como vocês. Eu só não ia deixar aquele bicho machucar Thorin. Ou Kíli. Ou qualquer um de vocês, para ser sincera.
Fíli indagou:
— Gosta tanto deles dois? E dos outros?
Anna o encarou, surpresa. — Claro! Faria o mesmo por qualquer um da companhia. Mestre Fíli, vocês salvaram a minha vida. Depois me abrigaram e me protegeram. Fui recebida como alguém querido, quase um parente. Para mim, vocês todos são minha família.
Os três ficaram admirados. Bilbo, que nada tinha dito até então, também parecia emocionado. Anna deu de ombros.
— A gente faz tudo pela família, não é verdade? — disse ela. — É capaz até de morrer por eles.
Eles pareceram ainda mais solenes, então ela tentou dispersar o clima, dizendo alegremente.
— Mas não foi preciso, que bom. Digam-me, o que andam fazendo?
Bofur indicou:
— Oh, estamos afiando as armas, lavando roupas, essas coisas. Os pôneis estão descansando, e o Sr. Mago está em reuniões e reuniões.
— Espero não estar atrasando nossa viagem — disse Anna. — Já estou quase boa.
Foi quando Mestre Óin entrou e lembrou:
— Não, ainda não está totalmente boa, pequena. Deixe-me ver se a febre continua. — Ele pôs a mão na testa dela e franziu o cenho. — Deveria estar mais baixa. Aqui.
Óin pegou um saquinho de seu bolso, e de lá de dentro tirou um pedaço de algo marrom, pondo na mão de Anna.
— Deve mascar isso até acabar tudo. Aos poucos.
— O que é isso?
— Casca de salgueiro. Bom para febre. Mas precisa descansar. É bom que eles deixem você em paz algum tempo.
Anna estava penalizada que os rapazes tivessem que ir.
— Mestre Óin, eles podem ficar mais um pouco? Só um pouco.
— Está bem então. Mas precisam deixar que ela descanse.
O velho anão se foi, e Anna pediu:
— Será que poderiam me fazer um favor?
— Claro, dona Anna — ofereceu-se Bofur. — O que precisar.
— Poderiam levar Bilbo para ele também se distrair? Ele praticamente não saiu do meu lado, e acho que ele gostaria de conhecer Rivendell.
Bilbo começou a protestar:
— Não, está tudo bem-
Anna continuou:
— Além do mais, você ouviu Mestre Óin. Devo descansar. Aproveite, Bilbo. Por favor. Isso me deixaria menos culpada de estar fazendo você de babá.
— Se é o que quer, então eu vou — concordou ele. — Mas se precisar, é só chamar.
— Deve descansar, Bilbo. Se conheço você, ficou a noite toda aqui, sem dormir, só por minha causa.
Kíli se adiantou:
— Não, Bilbo não ficou sem dormir. Thorin cuidou de você a noite toda.
Anna não esperava por aquilo. Um leve rubor cobriu suas faces. Surpresa, ela confessou:
— Eu não sabia disso. Que vergonha. De novo, eu estou dando trabalho...
Fíli interrompeu:
— Não é verdade. Dessa vez, ele não deixou nem Bilbo cuidar de você. Disse que era dever dele.
O coração de Anna acelerou-se. Ela apenas disse, envergonhada e tentando disfarçar o quanto estava embaraçada.
— Ele é muito gentil. Viu o que eu disse? Somos uma família.
Eles sorriram, e Bofur comentou:
— Entre anões, isso é muito importante. Não há nada mais importante, Dona Anna.
— Tem toda razão, Mestre Bofur. — Anna sorriu para ele. — Não há nada mais importante do que nossa família.
Fíli convidou:
— Vamos, gente, vamos deixar Anna descansar. Bilbo, venha conosco.
Bilbo se virou para ela.
— Não estaremos longe. Se precisar…
— Eu chamo. Obrigada, Bilbo. E a vocês também, obrigada pela visita.
Os anões levaram o hobbit, e Anna deitou-se, suspirando, o pedaço amargo de salgueiro na boca. Mas o amargo do salgueiro era um contraste com o doce de seu coração. Saber que Thorin cuidara dela tinha sido uma surpresa.
E ela tinha outra surpresa reservada. Mais uma visita da companhia: era Dwalin, o anão feroz e calvo, cujo corpo era cheio de tatuagens. Ele trouxera um presente, um grampo de metal. Anna achou aquilo um mimo muito tocante.
— Oh, muito obrigada, Mestre Dwalin. Não precisava.
— É para seu cabelo — disse o feroz anão tatuado, constrangido. — Sei que mulheres usam esses adornos.
— Onde conseguiu esse grampo?
— Fiz agora há pouco.
— O senhor fez? — Anna se espantou. — Com suas próprias mãos?
O anão tatuado explicou:
— Os elfos têm uma forja e fui ali afiar os machados e outras lâminas. Pena que eles não tenham pedras. Ficaria mais bonito.
Anna garantiu:
— Já está muito bonito, obrigada. É muito gentil. E fica ainda mais especial sabendo que o senhor fez com suas próprias mãos.
— Por que está espantada?
Ela explicou:
— É que na minha terra é difícil encontrar alguém que faça as próprias coisas que usa. Lá as pessoas perderam esses talentos. Então, para mim, é um presente muito especial, Mestre Dwalin. Estou honrada com ele.
Sem jeito, Dwalin confessou, de cabeça baixa:
— Não gostei de ter que cortar seu cabelo, Dona Anna. Fico me sentindo culpado. Era um cabelo tão lindo.
Anna ficou tocada.
— Oh, Mestre Dwalin. Por favor, não se sinta assim. Meu cabelo cresce rápido. Mas agradeço sua gentileza e o trabalho em fazer um adereço tão formoso. Por favor, venha aqui.
Ele se aproximou. Anna se inclinou para dar um beijo carinhoso na careca.
— Mais uma vez, obrigada. Isso significa muito para mim.
Constrangido, Dwalin sorriu e rapidamente saiu. Anna estava maravilhada e perplexa, surpresa com a sensibilidade do guerreiro feroz.
Bilbo fez a refeição do meio do dia com ela, e a companhia resolveu acompanhá-los, à exceção de Thorin. Havia reclamação generalizada pela falta de carne e excesso de comida verde (folhas e vegetais). Anna e Bilbo riam-se muito.
Anna sentiu-se cansada e deitou-se após o almoço. Bilbo detectou um resquício de febre, e Óin veio confirmar que, realmente, a febre persistia, mas não preocupava.
Durante a tarde, o elfo Lindir veio vê-la para depois fazer um relatório a Lord Elrond. Ele pareceu surpreso ao perceber que era uma mulher.
— Nunca vi uma hobbit fêmea antes.
— Oh, eu não sou hobbit. Só uso essas roupas porque Bilbo me emprestou. Não tinha roupas quando me encontraram.
O elfo pareceu mais espantado ainda. Anna preferiu não entrar em detalhes.
— Sr. Lindir, sem querer abusar de sua hospitalidade, pode me indicar se há um lugar onde uma dama poderia ter privacidade para se banhar longe de olhares alheios ou curiosos? Gostaria de estar mais apresentável para o jantar, caso eu esteja boa o bastante me juntar aos demais.
— Sim, claro — disse ele, solícito. — Mas seria bom ter um acompanhante. As cachoeiras com piscinas naturais ficam no lado oposto a essa ala.
Bilbo se ofereceu:
— Posso escoltá-la. Normalmente é minha função, mesmo.
Lindir meneou a cabeça diplomaticamente.
— Mandarei toalhas e o que mais precisar, senhora.
— Muito agradecida, senhor.
Bilbo cumpriu a promessa e levou-a pelo caminho indicado por Lindir. Era a primeira visão apropriada que Anna tinha de Rivendell.
O vale era magnífico, com uma mistura de encosta, vegetação, quedas d'água e construções num estilo todo próprio. Anna se maravilhou com degraus de pedra que a levaram até um dos recantos mais lindos de todo o vale. A cachoeira ao fundo serpenteava por um banco vertical de rochas, formando uma escada de água com margens pontilhadas de arbustos floridos das mais variadas cores. A bela cachoeira encerrava num lago cristalino tão cheio de flores que a água parecia perfumada.
Bilbo disse:
— Vou ficar ali. Se precisar, grite.
— Obrigada, Bilbo.
Anna deixou as trouxas de roupas limpas nas pedras, tirou os tênis e entrou na água refrescante de roupa e tudo. Desde que começara a aventura, Anna aprendera a não mais reclamar pela falta de água quente.
Lindir enviara também um sabão artesanal feito de cera de abelha e óleo de flores, e o objeto prosaico quase fizera Anna chorar de emoção. Desde que chegara à Terra Média, Anna não pudera desfrutar de um ritual de beleza como aquele. Naquele momento, ela se sentia uma mulher de novo.
Com cuidado por causa dos machucados e curativos, Anna começou a se lavar. Logo sentiu uma forte fisgada na mão, a mesma que tinha sido ferida quando foi capturada por orcs. O ferimento parecia prestes a querer abrir de novo. Mas Gandalf retirara o curativo e Óin passara o unguento de novo, então deveria estar melhor. Ela esqueceu a mão e dedicou-se ao banho com gosto.
Cabelos lavados, pele limpa, Anna secou-se e vestiu-se com o vestido que fora presente de Dona Edna, a simpática estalajadeira da Curva do Rio. Penteou o cabelo e usou o grampo de Dwalin para prender uma flor vermelha no cabelo.
Naquele momento, Anna novamente se sentiu mulher. E pensava no que Thorin tinha lhe dito.
Ele queria cortejá-la. E o que isso queria dizer?
Com seu coração machucado tantas vezes em seu mundo, Anna temia que Thorin fosse mais um homem a brincar com seus sentimentos. Afinal, ele era um nobre (um rei, na verdade) e deveria ter filas de amantes e concubinas, acostumado a ter a mulher que quisesse a seus pés.
Só que Anna não sentira nenhuma intenção libertina nas palavras de Thorin. Pelo contrário: ela detectara nobreza, respeito e cavalheirismo.
Ela não podia mais se enganar: estava se apaixonando rapidamente pelo anão. Desde que Thorin e a companhia a resgataram dos orcs, ela tentava bravamente não confundir as coisas, transferindo um sentimento de pura gratidão por paixão adolescente.
Não que Anna fosse dessas mulheres que se apaixonava à toa e por qualquer um. Ela tivera poucos namorados, pretensos príncipes que revelaram ser sapos legítimos.
E agora um rei genuíno demostrava interesse por ela. Como ela queria poder contar a sua amiga Angela!...
Thorin era diferente de qualquer homem que conhecera. Não dava para negar que era um homem atraente. Ele também tinha senso de autoridade, uma postura literalmente régia e noção de dever. Mais que um comandante, era um guerreiro, nobre e valente. Ele a fazia se sentir não só segura, mas também celebrada e respeitada.
Não, não havia nenhum traço de sapo neste príncipe, que era pura majestade.
Thorin tinha defeitos, claro. Era teimoso e orgulhoso. Dificilmente mudava de ideia e, na opinião de Anna, podia ser injusto e duro demais.
O problema, pensou Anna, era conhecer o destino dele. Ela sabia que Thorin Oakenshield retomaria Erebor e seria rei sob a montanha por um breve período, e sucumbiria na Batalha dos Cinco Exércitos. Desde pequena, quando lera O Hobbit pela primeira vez, Anna ficara muito triste com o destino dos que pereceram na batalha. Mais tarde, lendo as demais obras, ficara ainda mais inconformada com a quebra da linhagem de Durin. Dáin Ironfoot não era descendente direto do maior ancestral da raça de anões. O último tinha sido Thorin II, chamado Oakenshield. Em homenagem a ele, Dáin dera a seu filho o nome de Thorin III.
Saber que Thorin iria morrer não facilitava a decisão. Pois Anna estava apaixonada por ele. Como seria ela capaz de deixar seu amado morrer? Seu coração se revoltava só de imaginar Thorin caído no campo de batalha, Kíli e Fíli a tentar protegê-lo...
Por outro lado, como ela mexeria na história daquele jeito? E se Thorin vivesse às custas de outra vida? Se quem morresse fosse Bilbo, por exemplo? Com quem o Um Anel iria parar? E se Sauron o recuperasse antes da Guerra do Anel? E se...?
A cabeça de Anna dava voltas, e ela estava tão absorta nessas questões hipotéticas que nem se deu conta que estava voltando ao ponto de encontro até ouvir:
— Nossa, Anna...!
Ela estava tão distraída que se assustou com a exclamação de Bilbo.
— Bilbo, o que foi?
Ele sorria:
— Você parece fantástica!
Então Anna se deu conta que ele lhe fizera um elogio, e enrubesceu.
— Oh, obrigada.
— É a primeira vez que eu a vejo de vestido! Aposto como todos ficarão espantados. Não estão acostumados a vê-la assim tão... feminina.
— Não posso negar que sentir-me como uma mulher de novo é um alívio. — Anna deu um suspiro. — Mas confesso que tudo isso me cansou um pouco. Gostaria de descansar uns minutos, até o jantar.
Bilbo logo quis saber:
— Não se sente bem?
Anna procurou não preocupá-lo:
— Sim, como disse, só me cansei um pouco. Se me deitar um tempinho antes do jantar, ficarei bem.
Os dois voltaram para a outra ala, onde Anna prontamente voltou ao local onde dormira, mas preferia se sentar num banco e olhar a linda paisagem de Rivendell, observando o céu mudar de cor, quase chegando ao crepúsculo. Ela realmente se sentia cansada, mas não entendia o motivo.
Bilbo e ela tentavam encontrar razões para seu cansaço, quando Thorin foi vê-la. Ela estava sentada no banco, as pernas balançando no vestido comprido.
— Você parece bem melhor — comentou Thorin, com um sorriso leve.
“Ele definitivamente precisa sorrir mais”, foi o primeiro pensamento de Anna ao pôr os olhos nele. Depois ela retribuiu e sorriu de volta:
— Sim, estou melhor, obrigada. Consegui até tomar um banho de cachoeira.
Repentinamente Bilbo se ergueu, indagando:
— Vocês se incomodam se eu sair um pouco? Mestre Óin me pediu ajuda, acabei de me lembrar.
Anna riu da tentativa desajeitada de Bilbo de dar privacidade a eles e disse:
— Claro, Bilbo. Obrigada por tudo.
O hobbit saiu e Anna sentiu-se como uma adolescente em seu primeiro encontro. Bom, aquele era o primeiro encontro, mas Anna achava que podia estar mais calma.
Thorin sentou-se a seu lado.
— É a primeira vez que a vejo de vestido — comentou. — Fica bem em você.
— Obrigada. Fazia tempo que eu não usava um.
— É bom vê-la assim. Parece feliz.
— Você quer dizer que pareço menos um hobbit adolescente. — Anna deu de ombros. — É bom poder ser eu mesma. Não gosto de mentir.
Thorin ainda não parara de encará-la. Anna quis saber:
— Alguma coisa errada?
Ele deu um sorriso suave:
— Não, nada errado. Você arrumou o cabelo.
Anna enrubesceu:
— Mestre Dwalin fez um grampo de cabelo para mim. Foi muito gentil.
Ele continuou encarando, mas então se deu conta.
— Oh, antes que eu me esqueça. — Tirou uma espada e passou a ela. — Isso deve ser do seu tamanho. Veja o peso.
Anna estranhou.
— Isso é uma espada?
Ele assentiu, instruindo:
— Tire da bainha.
Desajeitadamente, Anna obedeceu, notando a lâmina afiada e reluzente. O cabo tinha inscrições com runas.
Thorin explicou:
— Ela tem que ser uma extensão do seu braço. Por isso não pode ser pesada.
Só então Anna se deu conta:
— Isso é para mim? Thorin, eu não posso usar isso. Nunca usei uma espada na vida!
Thorin argumentou:
— Se vai começar a enfrentar wargs e trolls, é melhor ter algo com que se defender.
Anna relutou:
— Mas eu não sei nem segurar isso! É melhor devolver ao dono ou dar para quem sabe usar isso. Pena, é muito bonita e elegante.
— Não tem dono. Foi especialmente feita para você... por mim.
Os olhos dela se arregalaram, e ela não escondeu o espanto:
— Você a fez... para mim?
Ele deu de ombros.
— Não sabia se ficaria boa: só tinha aço élfico para trabalhar e a forja deles é estranha. Mas admito que a lâmina é excelente. Posso ensinar você a manejá-la, como fiz com Kíli e Fíli.
Agora era Anna quem o encarava, incrédula. Thorin notou e franziu o cenho, confuso. Anna olhou dentro dos intensos olhos azuis.
— Você me surpreende, Thorin. Mesmo que eu jamais consiga aprender a usar essa espada, eu fico honrada que a tenha feito para mim. Estou ficando sem palavras para agradecer tudo que tem feito por mim.
— Você não tem o que agradecer. Por tudo que você tem feito por mim e pela companhia, os agradecimentos são para você. — Thorin fez uma reverência respeitosa. — E ainda há a questão da corte, se é que não desistiu.
Aquilo foi o suficiente para fazer Anna abrir seu coração:
— Desistir? Thorin, eu nem sei por que você se interessaria por alguém como eu. É um homem nobre em muitos sentidos, e eu não sou mais do que uma estranha deslocada em seu mundo.
— Isso não é verdade.
Anna o interrompeu, com um ar de advertência:
— Mas devo deixar claro, Thorin Oakenshield, antes mesmo que comecemos a examinar esse assunto: não pretendo deixar que ninguém, nem mesmo o herdeiro de Erebor, brinque com meus sentimentos. Você é um rei, e talvez reis prometam essas coisas para moças pobres como eu, mas se está querendo apenas diversão fácil às minhas custas, então talvez devamos encerrar esse assunto agora mesmo. Não pensarei mal de você, porque talvez esse seja o costume entre reis, mas eu não sei entregar meu coração por apenas alguns momentos de diversão.
Thorin parecia se divertir ao dizer.
— Engraçado você dizer que quer me entregar seu coração.
O jeito maroto e casual com que ele disse aquelas palavras fez Anna se avermelhar de indignação. Ele estava fazendo pouco caso dela?
Ela se ergueu, furiosa, a linda espada na mão.
— Ah, então você acha isso engraçado?
Calmamente, Thorin respondeu, confirmando:
— Acho muito engraçado se você me entregar o seu coração. Porque o meu coração já lhe pertence, Anna. O ladrão da companhia pode ser Bilbo, mas quem roubou meu coração foi você.
Anna nunca se sentiu desarmada tão rapidamente em sua vida, um calor repentino se espalhando por todo o seu corpo, mais intenso do que a febre que ameaçava voltar. Thorin abriu um sorriso, e para Anna era uma luz intensa no vale crepuscular.
— Acalme seu coração, minha pequena. Minhas intenções são honradas, ainda que não possa prometer um futuro de rubis, esmeraldas e pedras como merece. Você me chama de rei, mas não tenho reino, coroa ou montanha. Nada tenho a oferecer, Anna, pois nada tenho. Nem mesmo meu coração posso lhe dar, pois ele já não pertence mais a mim: ele é seu.
Anna se deixou sentar novamente, e Thorin tirou a espada dela para colocar as duas pequenas mãos dela entre as dele.
— Desculpe se não soube deixar meus sentimentos mais claros antes. Como disse antes, não sou bom nisso. Mas até você aparecer, nada em minha vida me trouxe tanta emoção, fora a retomada de Erebor. Anna, não sou bom com palavras, mas sei que se me rejeitar, será menos cruel se pegar essa espada e atravessar meu coração agora mesmo, poupando o sofrimento de uma vida sem você.
"Não é bom com palavras?"
Anna acariciou as mãos grandes, de dedos grossos, com anéis de prata. E abriu um sorriso.
— Seu anão bobo. Como poderia eu rejeitá-lo, príncipe ou mendigo?
O olhar que Thorin lançou a ela foi tão intenso que Anna julgou ser capaz de enxergar até sua alma. E de repente ela sentiu a mão dele tocar o rosto dela com cuidado, como se tivesse medo de danificá-lo de algum modo. O rosto dele estava tão perto do dela e parecia que ele se aproximava lentamente, muito lentamente, os olhos fixos nos lábios dela, um dedo calejado suavemente encostando no queixo delicado, dando a Anna tempo de resistir se quisesse, mas desistir era algo que não lhe passava pela cabeça, pois ela nem respirava, de olho na aproximação dele, e o ruído de seu coração acelerado a deixava surda mesmo que ela ouvisse gritos em sua cabeça de ai jesus ele vai me beijar ele vai me beijar e o que eu faço ele vai me b-
— Aham.
O susto de Anna foi tão grande que ela deu um pulo para trás e não ouviu a praga (em Khuzdul) sussurrada de Thorin.
Lindir teve a decência de parecer constrangido e se inclinar ao anunciar:
— Desculpe a interrupção, mas meu mestre Elrond respeitosamente requer uma conversa com a pessoa a quem chamam de Anni. Fui instruído a levá-la até ele.
— Lord Elrond quer me ver? — espantou-se Anna. — Mesmo?
Lindir assentiu:
— Eu a levarei agora mesmo.
Anna estava dividida, mas Thorin mais uma vez resolveu a situação:
— Certamente seu mestre não se importará que ela tenha um acompanhante.
E ato contínuo, ofereceu a mão a Anna. Lindir inclinou-se, tentando não demonstrar a contrariedade.
Thorin embainhou a pequena espada e manteve a mão estendida para Anna. Ela saltou do banco (pois era alto para suas perninhas curtas) e pegou a mão dele, segurando a ponta do vestido com a outra. Ambos seguiram Lindir em silêncio pelas escadas acima.
Anna ainda tinha a cabeça um tanto leve com tudo que acontecera. Nunca, em sua vida, Anna ouvira palavras tão lindas e apaixonadas como as que Thorin pronunciara. No seu mundo, tais declarações seriam consideradas bregas ou exageradas. Ali, porém, Anna podia ver a sinceridade e a paixão nos olhos azuis, a voz intensa embargada de emoção. Seria possível que ela despertasse esses sentimentos em um anão tão importante e imponente?
Não era à toa que ela se sentia tão estranha, como se estivesse nas nuvens! O braço de Thorin estava servindo realmente como apoio para ela, pois suas pernas bambas podiam falhar a qualquer momento.
Então eles chegaram ao platô onde o senhor de Rivendell os esperava. Lord Elrond estava em pé, agora sem os trajes de guerra com que Anna o vira antes. Ele saudou, em cumprimento:
— Bem-vindos, amigos. Lindir me chamou atenção que havia uma dama em sua companhia, Thorin Oakenshield. — Dirigiu-se a Anna com um meneio de cabeça. — Devo ter parecido um péssimo anfitrião. Elrond Meio-Elfo, a seu dispor.
Anna fez uma breve mesura, como vira em filmes:
— Pode me chamar de Anna, milord. Fico honrada em conhecê-lo.
O senhor de Rivendell observou:
— Desculpe-me por confundi-la com um hobbit ferido. Deixei-me enganar por mera aparência.
— Não há o que desculpar, meu senhor. Enganar outros era precisamente o objetivo de minha aparência.
Elrond comentou:
— Sinto que será uma conversa animada ao jantar. Gostaria de convidá-la para minha mesa.
Anna sentiu que o diálogo e as formalidades irritavam Thorin, estranhamente calado. Anna disse:
— Sua hospitalidade me deixa honrada, bem como sua gentileza em zelar por meu bem-estar. Espero que minha saúde me permita desfrutar de sua mesa.
— Confesso minha curiosidade por ouvir suas histórias — comentou Elrond —, especialmente o modo como se envolveu com uma companhia de anões por estas bandas.
Anna fez nova reverência.
— Mestre Thorin Oakenshield foi generoso para me garantir proteção durante a jornada. Sou muito grata a ele e todos de sua companhia, a quem considero família.
O senhor de Rivendell trocou reverências com o rei de Erebor, um ambiente que Anna reconheceu como tenso. Mas antes que Elrond fizesse algum comentário, seu cenho se franziu diante da chegada de Lindir — e ele parecia afobado. Os dois se puseram a conversar em élfico.
Thorin bufava discretamente, e Anna o encarou, mas ela enfraqueceu ainda mais e a visão dela começou a dançar. Tonta, ela se agarrou a Thorin, que a encarou.
— O que há?
— Não sei... — Anna percebeu a própria voz fraca e se assustou, ficando ainda mais tonta.
Os dois sequer notaram que a conversa de Elrond e Lindir terminara, o servo correndo escada abaixo.
A tontura de Anna parecia aumentar, e a mão ferida latejou com insistência. Anna a ergueu e levou um susto: o ferimento, antes quase fechado, agora sangrava profusamente, quase uma luva vermelha na mão direita.
— Anna...!
Ela só pôde sussurrar:
— Thorin...
As pernas dela estavam cada vez mais bambas, e ela sentia a consciência se esvaindo. Thorin a amparava, e agora Elrond corria também, mas o mundo girava ao redor de Anna, e ela parecia ser incapaz de respirar ou de reagir quando tudo foi ficando preto à sua volta, e os gritos de Thorin chamando seu nome eram mais distantes e até o som sumia, e Anna achou que estava morrendo.
ai jesus
Não havia jeito de Anna achar que não estava morrendo quando uma criatura linda e fulgurante, uma mulher loura belíssima, mais semelhante a um anjo de luz, inclinou-se bem perto do rosto dela e sussurrou:
— Não tenha medo...
Anna não viu mais nada, o mundo se apagando ao redor dela e ela se entregou à escuridão.
adeus mundo
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