Jornada Para Erebor
17 De novo? E na frente dos elfos?
Notas iniciais
Mais uma vez Anna desmaiava na frente dos elfos malditos, pensou Thorin, cada vez mais nervoso. Agora Lindir trouxera uma senhora, obviamente uma dama importante, que Thorin não conhecia. A mulher ignorou todos, indo diretamente a Anna.
— Espero não ter chegado tarde demais — disse a recém-chegada.
Não eram as palavras que Thorin queria ouvir. A mulher se aproximou de Anna, agachando-se e sorriu para ela:
— Não tenha medo...
Essas, sim, eram palavras que Thorin gostou de ouvir.
Mas Anna desmaiou de novo, e Thorin se desesperou, chamando-a:
— Anna! Anna! Não!
Elrond gritava em élfico com Lindir, que de novo saiu correndo. A mulher garantiu a Thorin, em voz suave:
— Ela só perdeu os sentidos.
Ele engoliu seu orgulho e implorou:
— Pode ajudá-la?
— Se eu não puder — disse a mulher —, ninguém mais pode. Ao menos ninguém deste mundo.
Mais palavras que Thorin não gostou de ouvir. Pela escada, a chegada de Gandalf e Bilbo fez Thorin se distrair. Gandalf fez uma reverência à mulher.
— Lady Galadriel...!
— Mithrandir — ela saudou, sem se erguer nem desviar a atenção de Anna —, temos muito o que conversar. Mas vamos primeiro à tarefa que se apresenta.
Os dois se aproximaram de Anna, ainda nos braços de Thorin. Gandalf pediu, pondo-a em seus próprios braços:
— Deixe que tomemos conta dela, meu amigo.
Thorin o encarou, relutante, os olhos azuis transbordando de emoção, mais do que ele mesmo conseguia articular:
— Gandalf, por favor. — Ele não conseguiu pedir em voz alta, mas pensou, “Salve-a”.
O mago assegurou:
— Faremos por ela tudo que estiver a nosso alcance.
Thorin queria gritar de frustração, mas finalmente afastou-se. Anna foi posta na mesa, e os dois elfos se juntaram a Gandalf em examiná-la, todos trocando palavras em élfico, rápidas e curtas. Thorin não parava de encará-los, o peito contrito. Então ele notou Bilbo a seu lado, calado, igualmente transtornado.
— Bilbo — saudou gravemente. Foi o que ele conseguiu dizer.
O pobre hobbit, angustiado, não entendia nada do que se passava:
— Thorin, o que houve com ela?
O rei sob a montanha suspirou, transtornado:
— Não sei responder. Ela parecia bem. Ela disse a você não se sentir bem? Reclamou estar com saúde fraca?
Bilbo parecia tão perdido quanto ele:
— Depois do banho, ela só reclamou de cansaço, febre talvez. Não parecia tão fraca. Na verdade, animou-se com o banho, com o vestido, e essas coisas de mulher. Mas agora... E todo esse sangue...!
Thorin explicou:
— A mão começou a sangrar de repente. O ferimento estava fechado há poucos minutos. Eu vi!
Bilbo estranhou:
— Anna reclamou de dor nesse ferimento há alguns dias. E saiu um pouco de sangue, também. Mas não foi toda essa quantidade, foi só um pouco.
Thorin franziu o cenho, imaginando se ela era realmente tão frágil como parecia. Ou talvez fosse a raça dela, que ninguém sabia qual era — talvez nem mesmo a própria Anna soubesse.
Sua atenção novamente se voltou para Anna. Elrond fazia mais pastas de ervas, Gandalf usava seu cajado mágico, de cujo cristal emanava uma luz esverdeada, e a elfa, Galadriel, banhava a mão ensanguentada de Anna em uma água muito transparente, uma que até brilhava na luz da lua crescente do solstício de verão.
Um odor fétido emanava da bacia que amparava a água suja, e Thorin imaginou de onde vinha esse fedor, pois Anna cheirava a flores quando eles conversaram. Os elfos pareciam tão espantados quanto ele, fazendo perguntas nervosas a Gandalf. Bilbo não escondia a agonia, em pé sem ficar quieto um minuto, torcendo as mãos.
Galadriel entoava algum tipo de cântico, e Thorin ficou ainda mais angustiado porque eles todos pareciam nervosos, mas não davam uma explicação a ele. Então ele viu a elfa chorando, debruçada a Anna.
Um alarme soou na cabeça dele.
— O que está acontecendo? — Thorin se aproximou. — O que há com ela?
Antes que ele chegasse muito perto, Gandalf o deteve, parecendo mais sombrio do que nunca.
— Lady Galadriel está tentando salvar a vida dela.
Bilbo estranhou:
— Mas ela estava bem! Quase boa.
Gandalf explicou:
— Há uma maldição agindo em Anna. É uma magia muito negra. Se Lady Galadriel e Elrond não conseguirem retirá-la, pode não haver esperança.
— Não...! — fez Thorin, inclinando-se na direção de Anna. — Não pode ser.
— Tenha fé, meu amigo. — Gandalf pôs a mão no ombro dele. — Vamos fazer de tudo para salvá-la. Ela está nas mãos das pessoas mais competentes de toda a Terra Média.
Thorin observou a elfa altiva se dirigir a eles, mas Lindir e um serviçal retiraram Anna, ainda desacordada, numa maca improvisada. Thorin acompanhou-os com os olhos até sumirem de vista, o coração apertado ao ver o rosto pálido de Anna. Sem desviar os olhos deles, indagou:
— Para onde a levam?
A dama respondeu:
— A pequena precisa se recuperar. Está indo para um quarto na ala de hóspedes. Fique em paz, Thorin Oakenshield. Sua protegida ficará bem.
Enquanto Bilbo soltava um imenso suspiro de alívio e Gandalf sorria, Thorin quis saber:
— Quando poderemos vê-la?
A elfa o encarou com intensidade, como se pudesse ler seu coração, deixando Thorin desconfortável. Depois sorriu suavemente:
— Deixe que ela descanse esta noite. Deverá acordar recuperada. Sei que esperava esta noite para uma conferência com Elrond. Pode ir sossegado.
Bilbo quis saber:
— E a maldição? O que era?
Gandalf respondeu:
— Era algo que esperamos ter eliminado completamente. Não precisam mais se preocupar com isso.
Elrond sorriu.
— Conseguimos evitar o mal e devemos comemorar. Vamos, pois, jantar.
Thorin não sabia dizer se era influência de Anna, mas conseguiu assentir ao elfo, embora quisesse efetivamente rosnar e pular no pescoço dele, de pura frustração. Incapaz de agir como queria, deixou-se levar pelo hobbit, que parecia abertamente animado ante à menção de comida.
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A reunião com Elrond e Gandalf trouxera notícias boas e más. A despeito dos conselhos de Balin, Thorin mostrara o mapa de seu pai a Elrond, que sabia ler a antiga língua dos anões. E a mensagem do mapa se iluminara na lua, mostrando runas escondidas.
A boa notícia era que agora eles sabiam como entrar na montanha. A má notícia era que teriam que estar lá no Dia de Durin para ver o sol iluminar a fechadura. O tempo urgia, o verão se passava.
Eles tinham que acelerar o passo.
Thorin quase não dormiu aquela noite. Ele se sentia dividido. Nunca antes ele hesitara diante de seus deveres com seu povo, por quem tinha feito todo tipo de sacrifício pessoal. Mas naquele momento ele não só hesitava como não tinha vontade de fazer sacrifícios.
Balin, seu conselheiro mais fiel, e em quem Thorin mais confiava, uniu-se a ele na madrugada, longe da companhia adormecida. Parecia que Balin sabia ou sentia o que se passava em seu coração.
Os dois fumavam seus cachimbos, a olhar ao longe, no vale abaixo. Ambos pensavam a mesma coisa.
Erebor.
Foi Balin que comentou, sem preâmbulo:
— Ainda há tempo. Podemos estar lá no dia certo.
— Podemos encontrar dificuldades inesperadas no caminho — lembrou Thorin. — Isso pode nos atrasar.
— É verdade — concordou Balin, com uma baforada. — Atrasos podem ser causados por muitos fatores.
Thorin notou a insinuação implícita e concordou gravemente:
— Verdade. Agora vai me dizer o que tem em sua mente?
Balin deu de ombros.
— Sabe o que tenho em mente. Deveríamos estar saindo agora para Erebor. É a miúda que nos atrasa.
— Não posso deixá-la para trás. Você sabe disso.
— É, eu sei — suspirou o anão de barbas brancas. — E não me entenda mal: nada tenho contra a pequena. Mas eu conheço você, Thorin. Já temos a resposta que esperávamos. Sei que, se não fosse por ela, já estaríamos na estrada.
Thorin calou-se, pois sabia que isso era verdade. Se não fosse Anna, eles teriam partido daquele lugar horas atrás, aproveitando a luz da lua para se embrenhar na estrada das Montanhas Sombrias.
— Balin, me ajude — pediu, e espantou-se pelo tom de súplica em sua voz. — Você é meu conselheiro mais sábio. Diga-me o que fazer.
O velho anão sorriu, irônico e triste. Ele meneou a cabeça, bafejou longamente e depois expôs o caso.
— Toda a companhia vê o que se passa entre vocês dois. E isso não tem afetado a confiança deles em você – ainda. Ajuda o fato de Anna ser fiel a você e ao nosso objetivo. Então, no momento, sua autoridade não está ameaçada. Além do mais, são anões de Erebor. Juraram fidelidade ao seu rei e será preciso mais do que uma pequena estrangeira para se amotinarem.
Thorin assentiu. Antes de partirem, ele se reunira com emissários os sete reinos de anões da Terra Média. Ninguém, além desses 12, quis acompanhá-los — nem mesmo seu primo, Dáin, senhor das Colinas de Ferro. Todos alegaram que essa era uma busca exclusiva dos anões de Erebor. Aquilo doeu em Thorin. Mais do que isso, fez crescer a confiança e o orgulho de sua companhia. Pois cada um deles estava dedicado até a alma na reconquista de sua terra natal.
Na visão de Thorin, Anna tinha a mesma disposição. Ela agora lutava pela vida após proteger o governante de Erebor, mas já tinha dito várias vezes que compartilhava a mesma causa. Ela era quase uma deles. Mas se seus homens não a vissem desta maneira...
Balin continuou:
— Conheço você desde criança, Thorin, e nunca o vi assim. Você era pouco mais que um menino quando enfrentou o dragão que nos expulsou da montanha. Episódio após episódio em sua vida, jamais o vi fraquejar diante de uma chance de reconquistar Erebor, e essa é nossa melhor chance. Vejo que essa pequena significa muito para você, se está tão dividido quanto penso, meu jovem.
Levou alguns minutos até Thorin admitir.
— Sim. Nunca antes me senti assim em toda minha vida. Sempre pensei que um rei não tem escolhas, a não ser servir seu reino e seu povo. Um rei entrega a seu povo toda sua vida e também seu coração. Ele se casa pelo bem do reino, não por seguir seu coração. Mas com essa pequena eu me sinto impotente.
— Você desistiria de Erebor por ela?
Thorin fechou os olhos, uma dor infinita no peito.
— Não. Eu me condenaria à infelicidade pelo resto da vida, mas não poderia fazer isso com meu povo. Ou com meu pai. Ou com meu avô. Mas eu sei que, sem ela, jamais conhecerei felicidade e paz. Esse parece ser o meu destino.
— Está sendo muito duro com você mesmo, rapaz — observou Balin. — Você conhece o ditado: o sábio molda a rocha do seu próprio destino.
— Mas não sei o que fazer se eu a perder. Balin, eu não quero perdê-la. Nem quero perder o meu reino. Entregarei meu trono de bom grado, mas eu não o tenho ainda. Só que Anna precisa de mim. E eu preciso dela.
Balin lembrou:
— Você já tem a sucessão assegurada. Fíli e Kíli são os herdeiros legítimos da linhagem de Durin. Então não precisa dela para assegurar herdeiros.
— Não é para isso que preciso dela.
Balin fechou a cara.
— Não seria prudente tomá-la como rainha. Nem mesmo como consorte.
Thorin fechou os olhos de novo. Ele também pensara nisso.
— Não quero me separar dela.
— Pode mantê-la como concubina — sugeriu Balin. — Ela continuaria ao seu lado e não haveria qualquer ameaça ao reino. O povo entenderia que seu rei tivesse uma preferida.
Thorin argumentou:
— Não faz parte dos nossos costumes. Nunca tivemos isso em Erebor.
Balin lembrou:
— Mas há precedentes entre anões do passado, de outros reinos. Pode nos ser útil.
Thorin ficou em silêncio uns minutos. Depois não pôde evitar sorrir.
— Já imaginou a reação dela se propusermos um arranjo desse tipo? Ela vai ficar pior do que quando enfrentou aquele warg.
Balin quase engasgou com o cachimbo, rindo.
— Entendo o que quer dizer. Mas torná-la rainha é impensável. Ela não é de nossa raça. Dar a ela status real vai minar a autoridade do rei.
Thorin sabia muito bem disso, então não respondeu. Os dois ficaram em silêncio, até o herdeiro da linhagem de Durin observou:
— Estamos falando como se já estivéssemos em Erebor, com o dragão conquistado.
O sábio Balin lembrou:
— É bom antecipar circunstâncias. De qualquer forma, rapaz, o que você me pediu foi para lhe dizer o que deve fazer, e essa é a única coisa que eu não posso fazer. Mas posso lembrá-lo de uma coisa: deve seguir seu coração. Porque só em seu coração está a força de vontade para seguir com seus atos e enfrentar suas consequências.
Thorin pesou as palavras de Balin e viu a sabedoria delas. Apagou o cachimbo e disse:
— Vou meditar sobre isso. Agora tente dormir um pouco.
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