Jornada Para Erebor

4 Pulando da frigideira


Notas iniciais
Em que as coisas não parecem ter melhorado

Anna não sabia o que estava acontecendo além da dor. Ela a sentia como se fossem facas cravadas na palma da mão, como se o monstro ainda estivesse com a ponta da seta fincada na pele dela. O sangue se espalhava, e ela sabia que não tinha como aquela ferida escapar de uma infecção grave naquele ambiente fétido. Que espécie de caverna era aquela, afinal?

Outro assunto mais urgente passou-se pela cabeça de Anna. Ela estava sozinha. Se ela conseguisse sair daquela caverna, poderia tentar escapar do monstro branco e das demais criaturas.

Ela se ergueu, e então notou algumas coisas: estava nua, estava sangrando, com uma mão inutilizada, cheia de dor. Pior: ela tinha uma corrente presa a uma coisa muito pesada que não a deixaria ir muito longe. Isso se a perda de sangue não a enfraquecesse antes de conseguir fugir.

Mas ela tinha que tentar se não quisesse enfrentar de novo o monstro branco. E desta vez, ele não perderia tempo em pegar o que queria. Sarcasticamente, ela ainda conseguiu pensar que estupro interespécies era uma opção que ela faria de tudo para evitar.

Com isso em mente, Anna começou a puxar a corrente do objeto que a prendia. Depois de pouco tempo, desistiu, cansada. No escuro, tateou o objeto. Parecia ser uma espécie de arca pequena ou baú, e era pesada.

Os barulhos de luta continuavam lá fora, e Anna tentava pensar rapidamente, trêmula, o que poderia fazer com uma mão a menos. Talvez ela pudesse esvaziar o pequeno baú. Tentou abri-lo: fechado. Tentou puxá-lo: pesado demais até para ela levantar.

Desesperada, ela usou toda a força de que dispunha para puxar a corrente sem machucar o pulso com o único grilhão. Ela pensava em se libertar, depois pensaria no que faria para arrumar roupas, talvez parte do casaco pudesse ser salvo e aí...

Um barulho na boca da caverna interrompeu seus pensamentos. Alguém estava chegando.

Ela se encolheu no escuro, mas não tinha muito para onde fugir. Talvez, se ficasse quieta...

— Mas que fedor!

Ela entendia a língua, dessa vez! Não era o monstro branco. Seriam, finalmente, humanos?

Por precaução, resolveu ficar quieta.

Uma voz mais próxima alertou:

— É uma caverna de trolls. Cuidado para não encostar em nada.

Os barulhos ficavam cada vez mais próximos. Anna tentava nem respirar para não fazer barulho, agachada ao máximo que podia. Arriscou-se a olhar, pois viu que havia luz.

Era um grupo de cinco ou seis homens, pelo que ela viu de relance. Dois se afastaram e carregavam a tocha, então Anna os viu com mais detalhes.

O mais alto era mais velho: definitivamente humano, tinha longo cabelo grisalho e barba também cinza. Vestia uma túnica acinzentada e usava um chapéu pontudo. O outro era bem mais baixo, como um anão, mas era mais novo, cabelo e barbas escuros compridos, casaco rústico de peles. Anna não estava perto o suficiente para ver seus semblantes, mas era óbvio que eles eram muito diferentes das criaturas que a capturaram.

A luz da tocha que portavam permitiu a Anna finalmente ver onde estava. A caverna escondia um tesouro: havia moedas e pedras preciosas por todo lado. Anna ouvia barulho de moedas, então concluiu que os demais (longe da luz) estavam saqueando o tesouro.

Saqueadores.

Anna se agachou ainda mais. Parecia que os salvadores não eram melhores que os seus captores.

Os dois mais próximos faziam comentários sobre as espadas que tinham encontrado (ela entendeu pouco, pois eles falavam baixinho). Anna sentiu o coração se acelerar quando ouviu o mais novo chamar:

— Vamos embora deste lugar fétido. Vamos! — E chamou os nomes dos companheiros.

Anna ficou escondida até ouvir os passos se afastando. Quando se ergueu, seu pé resvalou numa pedra preciosa ou moeda, desequilibrando-a. Ela escorregou e caiu, deixando escapar um grito alto. O barulho ecoou na caverna, e Anna sentiu o sangue gelando em suas veias, de medo que os saqueadores a tivessem ouvido. Ela se encolheu, tremendo dos pés a cabeça. Com sorte, eles não tinham ouvido.

Por favor não deixe eles ouvirem por favor

Seus esforços, contudo, foram totalmente em vão. Os passos voltaram.

— Tem alguém ali dentro!

A tocha a cegou, e ela gritou de medo, encolhida. Fechou os olhos e abaixou a cabeça, sem parar de tremer e chorar de terror.

Vão me matar ai jesus agora morri

Vozes soaram, muito perto dela.

— Não é um orc. Nem é um dos metadílios que soltamos.

— Não está armado.

— O que é isso?

— Parece ser humano. Mas é pequeno demais. Talvez seja criança.

Anna finalmente arriscou olhar para cima. Havia quatro homens a encarando: o velho (que era grande), o mais novo de cabelos pretos, um careca tatuado de aparência feroz e o último tinha barba e um chapéu engraçado de abas. Ela tentou se arrastar ainda mais para trás, mas a corrente a impediu.

— Vejam! — exclamou o do chapéu engraçado. — Está ferido!

Apavorada, Anna encarou os quatro, paralisada de medo, tremendo e chorando. O mais velho pediu:

— Para trás. Vocês estão assustando essa pobre criança. E virem-se: ela não está decente.

Os outros três obedeceram, embora a contragosto. Anna viu o velho se aproximar, dizendo com uma voz suave:

— Pode me entender? Não precisa ter medo. Não vamos machucar você.

Anna sentiu o coração acelerar e tentou se afastar dele, mas a corrente estava esticada ao máximo. O velho esticou o braço na direção dela, suave e gentil.

— Está ferida. Deixe-me ajudar. Não precisa ter medo.

Ele foi tão gentil que Anna, mesmo apavorada, aceitou o toque dele. Os outros, mais afastados, cochichavam entre si e ela entendeu apenas palavras soltas, "arisco" e "escravo".

O velho pegou a mão dela e rasgou uma parte da própria túnica para enrolar o ferimento. Depois sorriu para ela. Anna o encarava, ainda assustada, quando viu o velho erguer uma espada reluzente. Ela se apavorou e gritou, tentando se afastar:

— Nããooo!

Num movimento ágil, ele golpeou a corrente com força e a libertou. Anna ainda se recuperava do choque quando o velho sorriu, mostrando que ela estava livre.

— Assim é bem melhor, não? Agora — ele tirou um frasco da cintura e ofereceu —, beba um gole disso. Vai fazer bem.

Anna tremia tanto que precisou da ajuda do velho para beber. Era água, sentiu. Água pura, tão doce como jamais tinha provado antes.

Assim que tomou o primeiro gole, desmaiou.