Jornada Para Erebor
38 Pelo rio
Notas iniciais
No dia seguinte, um dia cinzento de final de outono, com um vento fraco mas não menos gelado, a expedição partiu em três barcos com 13 anões e dois hobbits, enquanto pôneis eram despachados por terra com suprimentos e provisões. Anna estava no primeiro barco com Thorin, Bilbo, Kíli e Fíli, pilotado por Bard. Os demais anões estavam divididos nos outros dois barcos.
Bilbo estava praticamente jogado no fundo da embarcação. Anna estava junto dele.
— Tio, você está bem?
O pobre hobbit estava decididamente esverdeado, e lamentou-se:
— Eu disse antes: hobbits e água não se misturam bem. Deveríamos ter ido com os pôneis!
Secretamente, Anna também achava a mesma coisa, pois estava começando a enjoar. Bard notou o desconforto dos hobbits, rindo. Comentou com Thorin.
— Nossos hobbits não estão apreciando a viagem, parece.
Thorin deu de ombros:
— São apenas hobbits.
Kíli chegou perto de Anna e cochichou:
— Está bem, Anna?
— Só um enjoo chato, Kíli. Mas estou bem, obrigada. Bilbo parece bem pior.
Foram três dias bem miseráveis, rio acima. Anna tentava apreciar a paisagem, mas a floresta de Mirkwood estava bem atrás, e as árvores que margeavam o rio Corrente não eram muitas.
Anna notava Bard e Thorin de olho nas margens. Bard também tinha que ficar de olho nas águas, já que estava pilotando o barco, mas ela notou que ele não se desgrudava de seu arco e flecha.
No segundo dia, Anna cochichou com Thorin:
— Acha que Thranduil vai mandar algumas patrulhas atrás de nós? Ele já sabe que deixamos a cidade, pois tinha espiões a nos vigiar.
Thorin fechou a cara:
— Bem, deixe que mande patrulhas. Chegaremos a Erebor antes que ele tire a primeira flecha da aljava!
— Não subestime o rei dos elfos — aconselhou Anna. — Ele pode se dar ao luxo de esperar o melhor momento.
Thorin assentiu:
— Talvez tenha razão. Direi a Dwalin para ficar de olho.
— Ficarei cuidando de Bilbo. O pobrezinho parece disposto a colocar tudo para fora.
Do timão, Bard acompanhou o diálogo com interesse. Anna não notou o olhar do humano para ela quando foi se sentar ao lado de Bilbo.
— Ai — lamentava-se Bilbo. — Por que fui deixar minha toca? Bem que temos um ditado: “Nunca se aventure para o leste”! Eu pensava que o leste ficava em Bree, ou Rivendell. Minha mãe já esteve em Rivendell, com Gandalf. Contou-me coisas tão espetaculares que desde pequeno tive muita curiosidade de conhecer aquele lugar.
Anna indagou:
— E quando você viu Rivendell, achou que era realmente tão espetacular como sua mãe lhe dissera?
— Não — ele sorriu. — Achei ainda mais espetacular.
Anna sorriu de volta e procurou confirmar:
— Foi de sua mãe que você herdou esse espírito aventureiro?
Bilbo disse:
— Sim, ele era uma legítima Tûk. Sabe, a família Tûk não tem grande conceito em Hobbiton. Felizmente, ela se casou com o meu pai, um Baggins legítimo. Não há família mais conceituada em todo o Shire.
Anna comentou:
— Soa como um casal que se completava. Tenho certeza que eles se amavam muito.
Bilbo sorriu, e Anna percebeu um misto de melancolia e alegria sincera nele. O hobbit indagou:
— Seus pais também eram assim?
— Não sei — respondeu Anna. — Meu pai morreu quando eu tinha três anos, então posso dizer que nunca o conheci. Minha mãe nunca se casou novamente e me criou sozinha. Não tive uma vida fácil, mas também não me queixo.
Nesse ponto, Bilbo se ergueu rapidamente:
— Desculpe, mas...
Não conseguiu completar a frase, debruçando-se sobre a beirada do barco e prontamente despejando o conteúdo de seu estômago no rio. Anna tentou acudi-lo, enquanto Fíli e Kíli se divertiam às custas do pobre hobbit. Anna ralhou com eles, sem notar que Bard parecia cada vez mais atento a seus movimentos.
Quando a noite caiu, Thorin ordenou:
— Kíli, Fíli, vocês ficam de guarda. Anni, Bilbo, procurem descansar. Amanhã chegaremos ao ancoradouro.
Bilbo suspirou:
— Já não era sem tempo...!
Anna sorriu e colocou seu cobertor junto dele. Thorin aproximou-se, dizendo:
— Estão bem? Têm fome, sede ou frio?
Bilbo disse:
— Oh, não me fale em comida!...
Anna riu e respondeu a Thorin:
— Estamos bem, Thorin.
Ele indicou:
— Se precisarem de alguma coisa, podem me chamar. Estarei com Mestre Bard.
— Obrigada e boa-noite.
Anna tentou descansar, mas viu Bilbo enregelado e arrumou um casaco para cobri-lo. Depois, desperta, ficou na beirada do barco, a observar as estrelas.
Quanto mais chegavam perto de Erebor, mais Anna ficava inquieta. Ela notava os anões nervosos, mas acima de tudo ela temia a batalha que se avizinhava.
— Noite fria, não?
Anna deu um pulo quando viu que Bard se aproximara dela sem barulho. O humano disse:
— Desculpe, não quis assustar você.
Anna se encolheu:
— Eu é que peço desculpas por minha distração, Mestre Bard. Deveria ter mais atenção.
Bard observou:
— Verdade. Alguém que está tentando esconder sua identidade não deveria se deixar levar por distrações.
Anna empalideceu, mas tentou disfarçar:
— Como assim? Não entendo, Mestre Bard.
O homem sorriu:
— Faz bem em se esconder. Na verdade, até que se escondeu bem. Só agora, olhando bem, é que pude perceber o que você realmente é.
Anna continuou a tentar disfarçar:
— M-Mestre Bard, eu não s-sei do que est-
Ele a interrompeu:
— Sempre achei estranho que você nunca fosse chamado a fazer qualquer trabalho pesado. Um menino na sua pretensa idade tem que desenvolver os músculos. Um menino da sua idade quer se provar ser um homem, quer beber com os adultos, praticar luta, correr atrás de donzelas! Entretanto, ninguém encoraja você a nenhuma dessas atividades.
Anna tentou dizer, cada vez mais nervosa:
— A companhia, os anões, eles são muito protetores, e-eu...
Bard a interrompeu de novo:
— Na verdade, o modo como esses anões e seu suposto tio tratam você só faria sentido se você, rapazinho, fosse na verdade uma mocinha.
A moça insistiu:
— M-Mestre B-bard, por favor…
Uma voz diferente indagou, por trás de Anna:
— E com quem andou falando sobre isso, Mestre Bard?
Bard pareceu empalidecer, e Anna se virou para ver Thorin com um arco em punho, a flecha apontada diretamente para o humano, olhos faiscando querendo sangue. Anna soltou um grito:
— Thorin, não! Abaixe isso. Mestre Bard não vai nos fazer mal. — Ela se virou, indagando. — Vai nos fazer mal, Mestre Bard?
Thorin pareceu interessado na resposta, e Bard respondeu:
— Não, claro que não. Mas eu fico imaginando por que levam uma menina nessa jornada tão perigosa. Só uma coisa me vem à mente, e se for isso que eu estou pensando, eu lamento, mas não vou deixar que vocês levem essa criança.
— Do que está falando? — quis saber Anna.
— Uma mocinha como você seria um petisco apetitoso para um dragão. Donzelas são irresistíveis para esses monstros.
— O quê? Acha que vão me usar como isca de dragão?
Thorin abaixou o arco, dizendo:
— Paz, Bard. Garanto que não temos intenção de ferir nosso hobbit.
O humano franziu o cenho:
— Ela não é um hobbit… Ou é?
— Não, não sou — confirmou Anna. — E também não sou criança. Só sou pequena. O que acha que eles pretendem fazer comigo?
Bard deu de ombros:
— Não querem usar você como isca de dragão? Digo, sendo jovem, donzela...
Anna soltou um ruído curto de espanto e indignação.
— Master Bard!... O senhor realmente achou que meus amigos fariam isso comigo?
Bard dirigiu-se a Anna:
— Então me dê uma razão plausível para uma moça como você se envolver nessa busca que obviamente não é sua.
Thorin se adiantou, postando-se ao lado de Anna:
— Ela é minha prometida.
O humano encarou Thorin, depois Anna, como se esperasse por algum tipo de explicação. Como ninguém ofereceu nenhuma, ele resmungou:
— Deve haver uma história e tanto. Espero que algum dia vocês me digam.
Anna sorriu:
— Por guardar este segredo, Mestre Bard, prometo lhe contar a história. Mas advirto que pode ser menos excitante do que imagina.
Bard deu de ombros:
— Vou querer saber mesmo assim. Talvez eu possa saber mais sobre minhas raízes.
Thorin indagou:
— Tem raízes nesta região, Mestre Bard?
O homem disse, sério:
— Sou descendente dos governantes da antiga cidade de Valle, o rei Girion. Se vocês realmente pretendem ir à Montanha Solitária, vão passar pela antiga cidade. Calculo que verão as ruínas de Valle. Lembrem-se que se despertarem o dragão, a Cidade do Lago deverá ficar ainda pior do que Valle. Se Smaug atacar, vai destruir todos nós, porque a cidade é inteiramente feita de madeira.
— Soa como se criticasse nosso propósito, Mestre Bard — observou Thorin.
— É opinião de muita gente na cidade que o dragão deve ser deixado em paz, se é que está vivo. Há 60 anos ele não dá sinais de vida. O que pretendem fazer é muito arriscado.
Anna interferiu:
— A verdade é que o povo da Cidade do Lago acredita que nós não sobreviveremos em nossa jornada, Thorin.
Ele encarou Anna, depois encarou Bard:
— Isso é verdade, Mestre Bard?
O humano estava constrangido, então ele desviou o olhar, encarando as margens e hesitou, antes de responder:
— Sim, é verdade.
Thorin indagou:
— Então por que nos ajudar?
Desta vez Bard o encarou:
— Porque se houver a mínima chance de vocês terem sucesso, vocês merecem ajuda.
Thorin o encarou, avaliando a sinceridade dele. Depois assentiu e pediu a Anna:
— Por favor, vá dormir. Ao amanhecer, atravessaremos o sopé da montanha.
Anna assentiu, e foi para perto de Bilbo, deixando os dois sozinhos. Ela se deitou, mas não conseguiu dormir.
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