Jornada Para Erebor

39 No sopé da montanha


Notas iniciais
A Companhia chega à desolação perto de Erebor

Conforme o previsto, pouco depois do raiar do dia, os barcos aportaram no ancoradouro indicado. Anna deixou o barco e olhou para cima, maravilhada: no pequeno píer, havia uma estátua imensa de um anão, com capacete e vestes de combate. Ao ver que Anna tinha a cabeça olhando para cima, Bilbo fez a mesma coisa, e ficou boquiaberto. Balin notou a reação dos dois e explicou:

— Aqui era um posto avançado dos vigias de Erebor. Também era o porto de onde saíam as mercadorias para Valle e de onde vinham os artigos que Erebor trocava com a cidade. — Apontou para um ponto adiante. — Ali está a estátua dedicada aos homens da cidade.

Anna e Bilbo olharam a estátua, mas a maior parte dos anões também estava encarando o local: poucos deles tinham conhecido Erebor, exilados nas Montanhas Azuis pelo dragão Smaug. Aquele lugar era tão novo para eles quanto para Anna e Bilbo.

Não demorou muito e chegaram os cavalos, pôneis e provisões. Bard despediu-se deles, desejando-lhes sorte, mas com um olhar de despedida mais solene. Anna ficou com uma boa impressão dele.

Carregaram os pôneis com tudo que puderam e o resto foi guardado em uma tenda. Sem surpresa, os homens todos deram meia-volta e ninguém quis acompanhá-los até Erebor. Anna deu de ombros quando Thorin a encarou, tenso.

Novamente montada em pôneis, a companhia começou a marchar cada vez mais para perto da montanha. Não era só o dia nublado e frio de fim de outono que fazia Anna tremer: havia a expectativa, pois todos estavam chegando ao fim da jornada, e no fim dela havia um dragão.

Anna também não conseguira encontrar nenhuma saída para seu próprio dilema: o desfecho da Batalha dos Cinco Exércitos. Ela continuava sem saber o que fazer, mas já tomara uma decisão — tentaria interferir para poupar Thorin, Fíli e Kíli. E não se importava com sua própria vida.

Uma voz a tirou de seus pensamentos:

— Está muito calada.

Anna quase levou um susto, sorrindo para Dwalin.

— Há muito em que pensar, Mestre Dwalin.

— Talvez não valha a pena pensar tanto, moça. As coisas vão se resolver, de um jeito ou de outro. Mas quero que saiba que, apesar de ser amigo e Guardião de Thorin, não vou deixar nada lhe acontecer.

— Obrigada, Dwalin.

— Toda a companhia sentiu sua falta durante o tempo que você ficou fora — comentou o anão. — Thorin mais que todos, claro.

Anna sorriu:

— Agradeço por me contar, Dwalin. Nem sempre eu tive certeza disso.

O guerreiro garantiu:

— Foi aí que eu vi, dona Anna. Enquanto você esteve fora, Thorin... — ele hesitou. — Bom, ele estava muito irritado, claro, mas eu não tinha reparado o quanto a sua presença mexe com ele.

— Dwalin, é muito lisonjeiro, mas…

— Moça, você não viu como ele ficou — interrompeu Dwalin, com uma insistência suave. — O que quero dizer é que, quando você está por perto, Thorin é um líder melhor. Fica mais focado, conhece suas prioridades. Havia horas em que ele parecia estar perdido. Eu não tinha visto isso antes, mas ele precisa de você.

— Eu…

— Você fará dele um rei melhor — disse Dwalin, numa suavidade que surpreendeu Anna. Ela o encarou, de olhos arregalados. Ele continuou: — O melhor rei que Erebor já viu. Só mesmo a melhor rainha para fazer isso. Fico feliz que tenha aceitado ficar ao lado dele. Pode contar comigo. Sempre.

Anna estava mais do que vermelha e emocionada. Olhando discretamente, ela viu que estavam mais afastados dos outros. Constrangida, ela disse, apenas:

— Dwalin, nem posso dizer o quanto isso me comove. Vou fazer o que puder para corresponder a essa confiança. Tudo que tenho é meu amor por ele. Eu faria qualquer coisa por Thorin. Mesmo que às vezes ele não goste e grite comigo.

— Como se jogar na frente de wargs? — Dwalin deu um risinho.

Anna encolheu os ombros:

— Bom, eu também enganei o rei dos elfos de Mirkwood e ajudei Bilbo a soltar todos vocês.

Dwalin riu-se, e Anna sentiu a atmosfera ficar um pouco mais leve. Continuaram a jornada, e Anna notou que a vegetação era escassa, o terreno preto e esturricado. A fúria do dragão deixara tudo arrasado.

Continuaram se afastando do rio Corrente e não demorou a chegarem ao sopé da Montanha Solitária, sem encontrar qualquer perigo ou sinal do dragão, a não ser a desolação que ele trouxera. Anna notava que a montanha se aproximava cada vez, parecendo escura e ameaçadora.

— Vamos acampar aqui — anunciou Thorin, pouco antes da claridade começar a diminuir e a noite se anunciar. — Bombur, prepare algo.

Anna saltou do pônei, notando que estavam no lado ocidental do grande contraforte sul, que terminava no chamado Morro do Corvo.

— Amanhã começaremos a procurar a entrada — decidiu Thorin. — Balin, você tem o primeiro turno de guarda no acampamento. Dwalin, você tem o segundo.

Anna indagou:

— Thorin, posso lhe falar um minuto?

Eles se afastaram dos demais, mas Ori ficou por perto. Thorin indagou:

— Sim, minha pequena, o que queria me dizer?

— Preciso de sua ajuda — disse Anna. — Lembra quando cheguei até vocês e prometi ajudar a reconquistar a montanha?

Thorin sorriu:

— E desde então você vem cumprindo sua promessa. Sou grato por isso.

— Então não vai se opor que eu ajude Bilbo, não é?

— O hobbit? Por quê?

— Ele vai precisar de ajuda para enfrentar Smaug.

— O dragão?! — Thorin fechou a cara. — Não quero você perto daquela criatura!

— Mas eu posso distraí-lo! Bilbo terá mais chance se eu distrair o monstro!

— Você ouviu o que está dizendo?

— Thorin, eu prometi ajudar!

— Você já ajudou o bastante! Isso é pedir demais!

— Gandalf deve ter dito que o dragão não conhece o cheiro de hobbit! Imagine o meu cheiro! Eu posso enganá-lo!

— Anna, é perigoso demais. Já está decidido.

Anna perdeu a paciência:

— Seja razoável, seu anão teimoso.

Thorin se irritou:

— Já disse que não e e está decidido. Esta é minha palavra final!

Foi a vez de Anna fechar a cara:

— Se pensa que manda em mim, Thorin Oakenshield, está enganado! É bom ir desabusando desta noção!

Ele gritou:

— Eu sou rei sob a montanha, mulher!

— Pois a mim parece que você é o rei de fora da maldita montanha! E até derrotarmos o maldito dragão, você continuará do lado de fora da sua preciosa montanha!

Ela saiu pisando duro, sob olhar de toda a companhia, que ouvira os gritos. Thorin nada respondera, mas seu olhar sombrio acompanhou Anna até ela se sentar, irritada, ao lado de Bilbo. O hobbit indagou, preocupado:

— Está tudo bem?

— Não! — Anna respondeu, agressiva, e arrependeu-se imediatamente. — Desculpe, Bilbo. Estou irritada pela teimosia dos anões.

O hobbit tentou elevar os ânimos dela:

— O jantar está quase pronto. Quem sabe isso anima a companhia?

Não animou. Anna deitou-se naquela noite ao lado de Bilbo. Mas ela mal dormiu à noite, sabendo que as coisas ainda iam piorar muito antes de melhorar.

Se é que melhorariam.

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Na manhã seguinte, Thorin dividiu o grupo em busca da porta oculta, aquela na qual estava a única chance de retomar seu antigo lar. Com Bilbo e Anna, foram Balin, Kíli e Fíli. Eles deveriam inspecionar o terreno ao sul do Portão Principal. Pelo tom de Thorin, Anna notou que ele ainda estava irritado pela conversa da noite anterior. Era mesmo um homem que sabia guardar rancor, pensou Anna, entre chateada e indignada.

O pequeno grupo avançou em silêncio no terreno rochoso e difícil de andar, ao sopé de penhascos tão cinzentos quanto o dia, até o pé do Morro do Corvo. De onde estava, Anna viu o rio fazer uma curva, desenhando o desfiladeiro de Valle, para depois seguir para longe da montanha rumo ao lago.

Era uma elevação e todos pararam ali para ver a paisagem desolada do vale amplo que ficava no ponto onde a Montanha Solitária começava a se erguer. No vale amplo, Anna viu as ruínas do que antes haviam sido casas, torres e muralhas. Agora eram apenas ruínas esturricadas do que obviamente tinha sido uma cidade.

Balin quebrou o silêncio.

— Ali está o que resta de Valle — disse Balin. — As encostas da montanha eram cobertas de verdes bosques e todo o vale que ali se abrigava era rico e agradável, nos dias em que os sinos soavam na cidade.

A voz do velho anão tinha um tom tão melancólico que cortou o coração de Anna. Ela indagou:

— Você viu o ataque do dragão, Balin?

Anna podia jurar que a voz de Balin falhara quando respondeu, baixinho:

— Sim, dona.

— Sinto muito.

Era o mínimo que Anna podia dizer, e a paisagem devastada à sua frente era a prova da inadequação de suas palavras: o solo enegrecido e esturricado, as torres pretas de fuligem, as ruínas eloquentes da devastação que Smaug trouxera. Anna tentou imaginar o vale verde e a cidade próspera, com uma dor no coração. Que calamidade!

Anna não notou Kíli se aproximando:

— Está tudo bem, dona Anna?

— Estava tentando imaginar esse local antes da destruição.

— Está muito calada — disse ele.

Fíli completou:

— Vimos a discussão de ontem. Está tudo bem entre vocês dois?

Anna viu os olhares de preocupação dos dois e argumentou:

— Seu tio discordou de uma decisão que tomei, só isso.

Kíli justificou:

— Provavelmente ele só queria protegê-la. Não foi por mal.

— Entendo isso — disse Anna. — Mas ele deve saber que sou capaz de tomar minhas próprias decisões, se é que vamos ter uma vida juntos.

Kíli ficou pálido e Fíli arregalou os olhos, indagando:

— Não está pensando em desistir dele, está? Vai deixar Thorin?

Anna esclareceu:

— Claro que não. Só quis dizer que podemos ter uma repetição disso se ele continuar me dizendo o que fazer. — Os dois pareceram tão assustados que Anna se viu obrigada a garantir. — Olhem, eu amo muito o tio de vocês, mesmo que às vezes possamos ter discussões. Sei que sou meio cabeça quente e ele também pode ser difícil.

Fíli pareceu mais aliviado:

— Ele está feliz com você. Mais calmo.

Kíli acrescentou:

— Nunca o vi tão feliz, na verdade. Nossa mãe disse que ele não foi carrancudo a vida toda, mas eu nunca tinha acreditado, até agora.

Anna garantiu:

— Kíli, Fíli, saibam de uma coisa: sou capaz de fazer qualquer coisa pelo tio de vocês. Mesmo que ele me odeie por isso.

Os dois jovens irmãos sorriram. Kíli disse:

— Você vai ser uma ótima tia!

Adiante, Bilbo os interrompeu, chamando:

— Ei! Vocês vêm ou não?

Anna viu que o hobbit e Balin tinham seguido para além da extremidade do contraforte sul da montanha. Ela e os dois irmãos aceleraram o passo o quanto podiam até chegar aos dois. Lá, os cinco se agacharam atrás de um grande rochedo, de onde viram uma caverna escura aberta num grande paredão rochoso entre os braços da montanha. Dela saía vapor e fumaça escura, além das águas do rio Corrente.

O grupo não se atrevia a fazer qualquer movimento naquele local de paisagem árida e inóspita, onde só os corvos voavam, dando o nome ao Morro do Corvo. O silêncio só era quebrado pela água nas pedras e o crocitar das aves negras.

Bilbo quebrou o silêncio.

— Pela fumaça, parece que o dragão está vivo e dentro da montanha.

— Acho que tem razão, Bilbo — disse Anna.

Balin disse:

— A fumaça em si não prova nada, mas pode estar certo, Mestre Baggins. Agora é melhor irmos embora. Não gosto destas aves. Elas parecem nos seguir!

Anna ergueu o olhar e notou que os corvos realmente pareciam estar sempre próximos de onde eles estavam. Havia alguma coisa no livro sobre eles, mas ela não se lembrava exatamente do que se tratava. Deu de ombros:

— Bem, este lugar é chamado de Morro do Corvo por algum motivo, não?

Bilbo apressou:

— Vamos, vamos embora. Mestre Balin tem razão sobre esses corvos agourentos!

Começaram a fazer o caminho para o acampamento, desanimados, com os corvos a segui-los. Anna tentava lembrar o que o livro dizia sobre corvos, tordos e outras aves.

Isso era algo importante, ela sentia que era.