Jornada Para Erebor
40 Em busca de uma porta
Notas iniciais
Mais uma vez, Anna teve a vantagem de lembrar-se de fatos do livro. Vários deles vieram à tona ao mesmo tempo, durante a busca pela porta secreta da montanha. O primeiro deles era sobre pássaros. Corvos, tordos e talvez outras espécies (como as águias gigantes) eram capazes de falar línguas diferentes. Segundo a história, apenas um corvo, Roäc, ainda retinha o conhecimento e o poder de se comunicar com homens e anões.
Contudo, Anna não dividiu aquele conhecimento com os outros. Haveria uma hora em que a comunicação seria necessária, mas até lá, aquela era uma vantagem.
No meio tempo, era grande a busca pela porta secreta. Anna notou que um dos mais animados era Bilbo. Várias vezes ele pediu a Thorin o mapa e ficava analisando. Anna se sentou ao lado dele.
— Algum progresso, Bilbo?
Ele suspirou:
— Não está fácil ter algum progresso. Já é o segundo dia que procuramos, e nada.
— Acho que deveríamos acampar mais perto do local indicado no mapa — sugeriu Anna, apontando. — Veja: no mapa há um X marcando o local.
Bilbo raciocinou:
— A mensagem escondida do mapa diz que a porta vai poder ser aberta no Dia de Durin, mas nenhum dos anões sabe dizer exatamente quando isso vai ser.
Anna deu de ombros:
— Então, talvez valha mais a pena “ficar ao lado da pedra cinzenta quando o torno bater”.
Bilbo se manteve imóvel, cenho franzido, pensando furiosamente. Ele pediu:
— Anna, pode repetir o que disse?
Foi a vez de Anna não entender:
— Eu só repeti a mensagem. Disse que devíamos ficar ao lado da pedra cinzenta quando o tordo bater.
Bilbo citou, baixinho, mais para si mesmo:
— “... e o Sol poente, com a última luz do Dia de Durin, brilhará sobre a fechadura...” — Ele sorriu, dizendo: — É isso! Venha, temos que falar com Thorin para mudar o acampamento!
Entusiasmado, Bilbo pegou Anna pela mão e a levou até o centro do acampamento, onde estavam a maioria dos anões, incluindo o líder da companhia. O hobbit explicou a Thorin:
— Precisamos ficar do lado oeste, não aqui do lado sul. É lá que a porta está!
Thorin o encarou, desconfiado:
— E por que diz isso, Mestre Baggins?
Bilbo abriu o mapa e mostrou:
— Ora, a mensagem das runas é clara. “Fique ao lado da pedra cinzenta quando o tordo bater, e o Sol poente, com a última luz do Dia de Durin, brilhará sobre a fechadura”. Não percebe? A porta está do lado que o Sol se põe: no oeste! É para lá que temos que ir!
Bofur comentou:
— Por Mahal, ele está certo. Temos que acompanhar a luz do Sol poente!
Anna concordou, sorrindo:
— Bilbo tem razão. O Sol vai brilhar sobre a fechadura no dia correto.
Glóin olhou para a face da montanha, onde corvos sobrevoavam, dizendo:
— E os pássaros começaram a retornar a Erebor, como Óin leu nos presságios. Tudo faz sentido.
Thorin sorriu, satisfeito.
— Balin, Dwalin, ajudem na mudança. Vamos mudar o acampamento para o lado oriental da montanha!
Dwalin negaceou, preocupado:
— Aquele lado não tem muitas superfícies para montarmos o acampamento. Só se for bem mais alto, e aí vai ser difícil levar os suprimentos.
Ori notou:
— Mas tem um pouco de capim para os pôneis! Podemos deixar os animais mais embaixo e ir para o alto.
Balin também pareceu preocupado.
— O mapa indica que a porta está perto de um penhasco, e ela abre uma passagem que desce para os níveis mais baixos e salões profundos de Erebor.
Thorin garantiu:
— Isso é um problema para mais tarde. Agora vamos nos mudar para a face oeste da montanha. — Ele agitou os braços, chamando Kíli e Fíli, que estavam mais afastados. — Vamos todos recolher os nossos pertences. Balin, você e Ori levam os pôneis até o local com pasto. Os demais devem também localizar as cordas. A subida será íngreme.
Anna não demorou a descobrir que o próprio Thorin tinha subestimado a montanha.
Como estavam pelo lado sul, tiveram que passar pelas duas gigantescas estátuas de anões que guardavam o portão principal e a boca do rio Corrente. Anna admirou mais uma vez o lugar, de olho no local por onde havia vapor e fumaça subindo. Ela não tinha dificuldade em visualizar Erebor em seus dias de glória, pelo menos a parte externa da montanha e o portão principal. Anna procurou afastar os pensamentos melancólicos da cabeça e começou a escalada.
Bilbo e Glóin eram os mais próximos a Anna, mas Bofur e Bifur também estavam por perto. Fíli e Kíli iam junto de Thorin, que abria caminho com Dwalin. Os demais iam atrás, Bombur por último. O grupo subia em silêncio, porque o esforço físico não era desprezível, e eles precisavam de todo fôlego que tinham.
Finalmente chegaram a um local que sustentaria um acampamento. Os víveres e pôneis, porém, ficaram num nível abaixo, porque a trilha era muito estreita. Bofur e Bombur ficaram encarregados de tomar conta deles. Bombur gostou da ideia, cansado da subida.
— Mas quem vai fazer o jantar? — indagou Kíli.
— Eu faço — ofereceu-se Nori. — Melhor do que deixar nas mãos de Dori.
Todos riram, e Anna notou que estava cansada, dolorida e faminta. Ela tinha a função de recolher gravetos para o fogo, o que não era nada fácil naquele paredão escarpado de rocha, com vegetação escassa.
Quando ela retornou com os gravetos, Thorin indagou:
— Está bem, pequena?
— Sim, só tenho fome — respondeu ela, sorrindo.
Ele apontou:
— Você e Bilbo devem dormir junto da fogueira. Deve fazer frio esta noite.
— Obrigada, Thorin.
O chefe da companhia se afastou, e Bilbo indagou:
— Tudo bem?
Mais animada, Anna sorriu e respondeu:
— Acho que agora está tudo bem, Bilbo.
— Você parece cansada — disse ele.
— Estou com muita fome — disse ela. — E sono.
O hbbt sorriu:
— Isso é bom. Você quase não comeu de manhã.
— Não acordei muito bem do estômago. — Anna olhou em volta. — Veja: agora temos uma vista.
Era verdade. Como estavam numa das fraldas da montanha, tinham uma visão ampla das redondezas: do platô onde estavam Bofur e Bombur até o curso do rio Corrente, que serpenteava pela planície até formar o lago. À direita, ela localizou parte das ruínas de Valle.
Mesmo sob a luz do sol poente, tudo era cinza, sem vida, devido à passagem de Smaug. Adiante, bem longe, entre as árvores, pensou Anna, deveria estar a Cidade do Lago. Bilbo comentou, baixinho:
— Parece um deserto.
Anna observou — mais para si mesma do que para ele:
— Devemos acreditar que estamos aqui para mudar esta paisagem, Mestre Baggins.
Ele a encarou, olhando para baixo, pois que Anna era ainda menor que ele, e indagou:
— Você acredita mesmo nisso?
— Meu caro Bilbo — disse Anna, sorrindo —, se eu não acreditasse nisso, acha que eu estaria aqui?
Ele sorriu e abraçou-a. Anna respondeu ao abraço, comovida.
Então ambos ouviram um pigarro. Viraram-se e deram de cara com Ori e seu machado. O anão estava com cara de poucos amigos e chamou:
— Nori diz que o jantar está quase pronto. E vocês dois não deveriam estar sozinhos.
Anna sorriu para ele:
— Tio Bilbo estava admirando a paisagem. Está um por do sol magnífico, não acha?
Ori disse:
— Isso não é motivo para abraçar um homem que não é parente. Não é próprio.
Anna lembrou:
— Ori, você se esqueceu? Bilbo é meu parente: ele é meu tio. Minha virtude está bem segura com ele, pode acreditar.
O jovem anão ficou rubro de tanto embaraço, mas Bilbo salvou a situação, dizendo:
— Ah, mas isso quer dizer que Mestre Ori é o melhor guardião que você poderia ter, Anna. Obrigado, rapaz!
Anna indagou:
— Ótimo, agora que está tudo esclarecido, podemos ir comer?
Blbo riu-se:
— Por Eru, ela está mesmo com fome! Vá na frente, pequena!
Naquela noite, Anna comeu bem e dormiu melhor ainda, sem se importar com o frio.
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O quadro, porém, era bem diferente na manhã seguinte. Anna estava se sentindo tão mal que não conseguiu comer coisa alguma além de cram e água. Também estava pesada e sonolenta, mas Óin garantiu que ela não estava com febre.
Por isso, Anna não participou do primeiro dia de buscas pela porta secreta. Por precaução, Thorin a designou como ajudante de Bombur para tomar conta dos pôneis e fazer estoque das provisões. A maior prova que ela não estava bem era que ela não reclamou de ficar para trás. E dormiu durante o dia.
À tardinha, porém, Anna estava bem melhor, e adiantou o jantar para Nori, pois ela estava com fome. Comeu bem e dormiu cedo.
No dia seguinte, porém, Anna foi acordada com uma náusea violenta, uma que a fez correr para longe do acampamento e colocar o jantar para fora. Felizmente nenhum dos outros viu, pensou.
Decidida a não ficar de fora das atividades desta vez, Anna voltou ao acampamento já com alguns gravetos para o fogo e pôs o melhor sorriso, antes de tentar ajudar Bofur a preparar o desjejum. Infelizmente ficou na tentativa, porque o mero aroma da comida fez a náusea voltar com força.
— Ei, dona Anna — chamou Bofur. — Tudo bem?
— Claro — mentiu ela. — Por que pergunta?
— A senhora parece meio... verde, se é que me permite dizer.
Anna disfarçou com um sorriso:
— Oh, bem, confesso que estou com sono ainda. Mas vou espantar esse sono agora mesmo. Deixe-me pegar um pouco de água limpa para lavar essas terrinas.
Anna precisou disfarçar muito para ninguém perceber seu desconforto. Ainda assim, nem todos se deixaram enganar:
— Anna, você está bem? — indagou Bilbo. — Não comeu nada.
Thorin imediatamente indagou:
— Não se sente bem?
— Não, estou ótima — mentiu. — Mas não estou com fome. Acho que exagerei ontem à noite.
Bofur brincou:
— Sim, Bombur estava com medo que não sobrasse comida.
Houve risadas de todos, a mais alta de Kíli. Dwalin também brincou:
— Não se preocupe, pequena. Vai precisar comer muito mais do que isso para você se parecer com Bombur.
As risadas aumentaram de volume, puxadas pelo próprio Dwalin. Mas Óin observou:
— Uns quilos a mais não lhe fariam mal, menina. Quem sabe resistisse mais e não ficasse tão doente?
Glóin concordou:
— Aye! É só ossos e pele!
Anna deu de ombros:
— Bom, assim não sou apetitosa para trolls ou wargs.
A companhia estava mesmo de bom humor, pois a gargalhada de Kíli soou alta. Anna riu com os companheiros, por uns minutos se esquecendo do enjoo que a acometia.
O bom humor não prevaleceu durante muito tempo entre a companhia de Thorin Oakenshield, pois que os dias se passavam e nada da entrada se revelar. Anna era a mais animada, tentando não fazer com que os companheiros se entregassem ao desânimo.
Aparentemente, o esforço valeu a pena, pois num dia cinzento, Kíli e Fíli enveredaram por uma trilha quase apagada, uma que continuava para cima de maneira disfarçada, depois parecia desaparecer por entre paredões completamente até dar em degraus quase desfeitos pela ação do tempo. A trilha dava lugar a essa escada e depois voltava a se anunciar como uma picada estreita que subia tortuosamente até terminar abruptamente num beco sem saída na forma de um paredão rochoso desigual que não dava para lugar nenhum.
Quando chegaram ao fim da trilha, estavam todos moídos, ofegantes e frustrados. Dwalin anunciou:
— Não dá para ir adiante!
Bilbo anunciou:
— Então, se estiver bom para vocês, vou me sentar aqui um minuto.
Anna se sentou numa pedra com um suspiro, enquanto Glóin vociferava:
— Ora, que perda de tempo!
Bifur falou algo em Khuzdul e Bofur respondeu:
— Aye, tem razão.
Anna indagou:
— O que Mestre Bifur disse?
— Que a vista daqui é muito bonita — respondeu Bofur.
Dwalin observou:
— É um bom lugar para postar uma sentinela.
Bilbo disse:
— Se tem uma trilha, alguém deve ter pensado a mesma coisa.
Calado até então, Thorin olhou em volta, dizendo:
— Então, a pergunta a ser feita deve ser: por que fizeram essa trilha?
Anna franziu o cenho, apontando para baixo:
— Thorin... Aquela pedra ali não parece diferente?
Fíli repetiu:
— Diferente?
Anna respondeu:
— É parecida a uma muralha, vejam. Mas ali no chão é lisa. Nenhuma outra pedra por aqui é lisa daquele jeito.
Dori olhou em volta e constatou:
— Não dá para ver essa pedra lá de baixo, por causa da inclinação do penhasco.
Era uma reentrância entre paredões, mas não uma caverna, porque ela se abria para o lado de fora. Bilbo inclinou a cabeça, observando:
— Engraçado. Parece até que foi... construída.
— É mesmo — concordou Bilbo. — Como se fosse uma porta.
Então todos se olharam. E de repente, um grito se ouviu, seguido por outro, até que uma grande algazarra tomou conta do grupo. Na referida rocha, não havia sinal de umbral, verga ou soleira, nem qualquer vestígio de barra, tranca ou fechadura, mesmo assim, não tinham dúvidas de que finalmente haviam achado a porta.
Anna soltou um grito, pois Thorin a ergueu no ar, gritando:
— Minha pequena esperta!
Todos os anões a cumprimentaram, felizes. O alvoroço continuou até a noite. Eles desceram pela trilha perigosa, cheios de planos e muito animados.
Aquela noite, Anna foi dormir cedo, embora todos quisessem comemorar a descoberta.
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