Jornada Para Erebor

41 Momentos de desolação


Notas iniciais
Anna e companheiros às vezes desanimam

Os dias que se seguiram foram muito animados. A companhia procurou logo abrir a porta secreta. Muitos dos anões eram mineiros e tinham trazido ferramentas da Cidade do Lago. Subiram com elas pela trilha perigosa até a porta e tentaram abri-la de qualquer maneira: com pás, picaretas, marretas e machados. Nada aconteceu.

— Parece claro — disse Anna — que essa porta não vai se abrir até o Dia de Durin, seja lá quando isso for.

Balin explicou:

— O Dia de Durin marca o início do Ano-novo dos anões. É quando a última lua nova do outono e o primeiro sol de inverno aparecem juntos no céu.

Anna indagou:

— E vocês não têm uma tabela com as lunações? Ou um calendário?

Alguns dos anões a encararam com curiosidade, e Anna teve que explicar:

— De onde venho, há pessoas que estudam os céus e calculam os movimentos dos astros, de tal maneira que eles sabem quando serão as luas novas e cheias de cada mês com antecedência. Desta maneira, as pessoas podem se programar.

Anna sentiu os olhares curiosos e deu de ombros:

— Bom, se ele estivesse aqui, Gandalf saberia do que estou falando.

Naquele momento, Anna teve um choque ao perceber há quanto tempo não pensava no mago. Dori também pensava algo semelhante, porque comentou:

— Aquele mago realmente nos abandonou.

— Não creio nisso, Mestre Dori — disse Anna. — Acredito que Gandalf vá voltar, quando puder.

Thorin indagou:

— Sabe para onde ele foi?

Anna respondeu:

— Da última vez que o vi, ele ia se encontrar com vocês e fazer algo que não me disse o que era. O combinado era que eu deveria esperar por ele em Mirkwood e então ele mandaria aviso para que eu o encontrasse na Cidade do Lago. E todos sabemos como esse plano funcionou.

Eles resmungaram, concordando. Anna notou Bilbo calado, sentado ao lado da pedra, quase na saliência da rocha. Ao seu lado se formava um nicho na sombra, onde um mato raso crescia e caracóis rastejavam, atraindo pássaros famintos por um jantar robusto. Anna foi até ele.

— Tudo bem, tio? — disse ela, bem-humorada, tentando arrancar um sorriso do hobbit.

Ela conseguiu, pois Bilbo a encarou:

— Olá, sobrinho.

— Parece desanimado, tio Bilbo.

— Bem, aproxima-se a hora da minha contribuição nesta jornada, e eu não faço ideia do que fazer para enganar um dragão.

— Entendo — disse Anna, com um suspiro. — Já tem um plano?

— Claro que não!

Anna sugeriu:

— Bom, você tem esse anel que vai ser muito útil, aposto. A partir daí, você pode pensar em alguma coisa.

— Mas só o anel não vai bastar — disse ele, angustiado. — O dragão pode sentir meu cheiro.

Anna lembrou:

— E é um cheiro que ele não conhece, lembra? Isso lhe dá uma boa vantagem.

Bilbo abaixou a voz para confessar:

— Ainda assim, tenho medo.

— Eu também — admitiu Anna. — Mas eu vou ajudá-lo no que precisar, não importa o que Thorin diga.

Bilbo a encarou, percebendo:

— Então foi por isso que vocês discutiram no outro dia. Você disse a ele que ia me ajudar?

— Isso mesmo. Mas ele não gostou muito da ideia.

— Imagino que não tenha gostado — disse Bilbo, torcendo o nariz. — Eu não gosto da ideia e eu sou o maior interessado.

Anna indagou:

— Você não quer minha ajuda?

— Não é isso, claro que não. Olhe, quem sabe discutimos isso melhor quando soubermos o que fazer?

— Está bem — disse Anna, sorrindo. — Acho que vou ajudar Dori.

Anna procurou se ocupar com outras coisas, tentando manter a mente distante dos fatos relatados no livro. Ela tentava não pensar nos diversos cenários e alternativas que sua mente propunha para escapar à guerra, à destruição e morte que os capítulos finais traziam.

Mas os pensamentos lhe traíam, volta e meia, e ela imaginava como era possível evitar a destruição da Cidade do Lago ou se ela deveria enfrentar Smaug ela mesma. E se as mudanças que ela porventura trouxesse o fim de Bilbo, ou do doce Ori? Como ela poderia viver consigo mesma sabendo que suas ações tinham acarretado a morte de pessoas que ela amava?

Anna gostaria de poder dividir esse fardo com alguém, mas ninguém estava em condição de ajudá-la. Ela queria acreditar que Gandalf lhe traria uma saída, mas estava claro que o mago seria de pouca ajuda. E por que ele estava demorando tanto? Ela se perguntava isso desde o comentário de Dori, que Gandalf os tinha abandonado.

Com tantas preocupações povoando sua mente, ao contrário do padrão dos últimos dias, Anna teve imensa dificuldade de dormir. Na verdade, não conseguiu.

Depois de horas se virando, Anna desistiu do sono. Levantou-se com cuidado, afastando-se da companhia para tentar apreciar a noite fria e o silêncio cortado apenas pelos roncos de Dwalin e Glóin. Sentou-se numa pedra, tentando colocar os pensamentos em ordem. Angustiava-a que não encontrasse uma solução para seu dilema. Talvez não houvesse solução.

Era difícil para Anna admitir que ela em nada avançara em seus planos desde a malfadada noite em Rivendell. E para que raios ela ganhara habilidades como línguas e troca de peles, se aquilo pouco ajudaria a reconquistar Erebor?

O desespero de Anna se tornou cada vez maior, sufocando-lhe o peito, apertando-lhe a garganta. Lágrimas lhe brotaram nos olhos sem que ela conseguisse controlar. Ela tentava manter-se o mais quieta possível, o que não era tarefa fácil, pois os soluços eram dolorosamente arrancados do seu peito, provocando nela suspiros.

Em pouco tempo, respirar tornou-se uma tarefa penosa, pois Anna estava congestionada e não ousava assoar o nariz, com medo de acordar os outros. Ela respirava pela boca, rezando para ninguém a ouvir.

— Problemas para dormir?

A pergunta de Thorin a sobressaltou, mas ela manteve a cabeça baixa:

— É.

— Está com frio? — Ele a envolveu nos braços. — Pequena, está tremendo. Por que não disse? O que há?

Anna procurou ficar de cabeça baixa, mas logo viu que Thorin não se deixaria enganar. Abraçou-o de volta, grata pelo aconchego que seu corpo pequeno sentia ao ser envolvida nos braços fortes e protetores dele.

— Só me abrace.

Thorin se alarmou ao ouvir a voz dela.

— Está chorando? Por quê?

Anna se envergonhou:

— Estou com medo. Tenho tanto medo... Não quero que nada aconteça a você. Oh, Thorin, eu amo você.

Anna soluçava, os sons abafados pela roupa dele, que acariciava sua cabeça. A voz dele reverberava no peito, perto da cabeça dela. Provavelmente ele dizia palavras para animá-la, mas Anna não ouvia. Era bom apenas sentir o cheiro de Thorin, e Anna se sentia tão confortada que chegou a ficar envergonhada de sua fraqueza.

— Desculpe... — disse ela, sem conseguir parar de chorar. — Desculpe...

Thorin afastou-se para vê-la, e Anna encarou os olhos dele a observá-la. Ele perguntou, curioso:

— Por que se desculpa, se não fez nada errado?

Entre soluços, ela disse:

— Não queria... que os outros vissem... Tentei esconder meu medo... Mas estou apavorada!...

— Ninguém aqui vai pensar mal de você por ter medo.

— Mas não estou preocupada com o que pensem de mim. Não quero que meu medo passe para a companhia e os desanime. Não quero que pensem que tenho medo porque não confio neles. Essa é minha preocupação, não o que pensam de mim. Se eles pensarem que eu não deveria estar aqui, bom, eles estão certos. Não há ninguém menos qualificada para essa jornada do que eu.

— Você está se depreciando — observou Thorin. — E exageradamente, se posso acrescentar.

Anna argumentou:

— Não é exagero. Quer um exemplo? Você fez essa espada para mim há quase quatro meses, e até agora eu mal aprendi a segurá-la. Você tentou me ensinar, até os elfos tentaram me ensinar, e eu continuo um fracasso.

Ele lembrou:

— Não deve se sentir um fracasso. Entre meu povo, homens e mulheres treinam suas armas no mínimo 60 anos antes de serem considerados capazes de usá-la corretamente, seja espada, machado ou arco e flecha.

— Eu me sinto tão inútil — confessou Anna, baixinho. — Não queria que pensassem que, além de incapaz de me defender, eu também trouxesse desânimo à companhia.

— Pequena... Você é meu presente de Mahal. — Thorin a abraçou. — Ghivashel.

— Eu queria ser forte — choramingou Anna. — Mas acho que não sou tanto quanto pensava. Desculpe...

Anna sentiu Thorin beijando seus cabelos, antes de dizer:

— Não pense jamais que não é forte, nunca. Poucas vezes vi tanta força numa pessoa. Pense no que você era quando chegou e no que é hoje. — Anna encarou-o para ver se ele falava sério. — É parte da companhia e dona de meu coração.

Ela lembrou, ainda soluçando:

— Thorin, como pode dizer isso? Estou tremendo de tanto medo!...

— Você seria tola se não tivesse medo. É uma missão perigosa, então é natural ter medo. Você ouviu o que Mestre Bard disse: não acreditam em nós. Mas você não desistiu. Você está aqui, no alto da montanha. Mesmo com medo, você está aqui. Aí está a sua força, minha Anna. E ela me dá coragem.

De novo, pensou Anna, ele me deixa sem palavras.

Ela se recostou em Thorin, pousando a cabeça no ombro dele com um suspiro:

— Oh, Thorin...

O rei sob a montanha passou o braço nos ombros dela, aconchegando-se. Os dois ficaram em silêncio, juntinhos, apenas abraçados e sentados na pedra, observando o vale abaixo na noite ainda escura.

A mera presença de Thorin a seu lado fez Anna sentir-se aliviada de uma considerável porção do peso em sua alma. Não todo o peso, mas muito dele. Por isso, Anna sentiu dentro de seu coração um profundo sentimento de gratidão por aquele homem a quem entregara sua alma.

Mais calma, mais serena e mais relaxada, quase cochilando, Anna quase deu um pulo quando ouviu um barulho às suas costas.

— Aham.

Anna e Thorin se viraram ao mesmo tempo. O jovem Ori os encarava, com uma expressão de poucos amigos.

— Como Guardião da virtude de dona Anna, sugiro que voltem a dormir — separados.

Anna ficou vermelha, erguendo-se:

— Está tudo bem, Ori. Eu só não conseguia dormir.

O jovem anão continuava a encará-la, sério:

— Ainda há muito tempo para tentar até o sol se erguer. Sozinha, claro.

Anna o encarou, com afeição, e respondeu:

— Sim, sim, tem razão. Vou tentar. — Virou-se para Thorin. — Obrigada.

O rei inclinou a cabeça respeitosamente. Anna foi até Ori e beijou-lhe a testa.

— Obrigada, meu Guardião.

As faces de Ori adquiriram um adorável tom rosado, e Anna sorriu, enquanto voltava para seu lugar ao lado de Bilbo. Fechou os olhos e ouviu Ori resmungando algo sobre "dormir com um olho aberto". Anna teria achado aquele o comentário mais adorável da noite.

Mas aí ela ouviu a risada camuflada de Dwalin, que acompanhara todo o episódio. Isso era muito mais adorável.

Palavras em Khuzdul

ghivashel = tesouro de todos os tesouros