Jornada Para Erebor
42 Abre-te, sésamo
Notas iniciais
As poucas horas que Anna conseguiu dormir ajudaram a moça a manter o bom humor no dia seguinte. Até a náusea parecia melhor. Ela acompanhou Fíli, Kíli, Glóin e Dori e na exploração de outras trilhas acima da entrada secreta. Quando voltou ao cair da tarde, porém, viu Bilbo ainda taciturno, na soleira da porta mágica, ela franziu o cenho.
— Oi, tio Bilbo.
— Olá, Anna — ele respondeu. — Como foram suas explorações?
Ela deu de ombros:
— Não valeram muito a pena. E a porta?
— Ainda se recusa a se abrir. — O hobbit suspirou. — Estou ficando desanimado.
— Nem pense nisso — cochichou Anna, alarmada. — Nem deixe os outros perceberem!...
Bilbo também cochichou, com grande agitação:
— Mas e se essa porta não se abrir? E se o Dia de Durin já tiver passado? Será preciso esperar um ano!
Anna garantiu:
— Ainda há tempo. O Dia de Durin não passou. Vamos conseguir entrar, você vai ver.
— Vamos entrar e enfrentar um pequeno dragão, só isso.
— Mas você é esperto, Bilbo — disse Anna. — Enganou aqueles elfos todos dentro da própria casa deles! Nós, os Baggins, sempre damos um jeito, não é?
Ele sorriu.
— É — disse ele. — Às vezes eu me esqueço disso. Ainda bem que tenho um parente bem esperto para me lembrar.
Anna o animou:
— Viu? Assim é que se fala.
Eles se olharam, sentados um ao lado do outro, enquanto o sol se punha atrás das montanhas. O momento do por do sol sempre deixava Anna com um sentimento de ansiedade. Aquele era o momento descrito pelas runas no mapa de Thráin, ela precisava estar atenta. Havia três coisas que precisava ver: o sol, a lua, a pedra cinzenta e o tordo.
Anna se virou displicentemente, notando com curiosidade que, do lado oposto, havia uma nesga de lua no céu, pálida e tênue.
— Veja, Bilbo — apontou ela. — O sol se põe e há uma lua no céu.
Bilbo verificou e disse, de maneira jocosa:
— Então, de acordo com o mapa, só falta o tordo bater na pedra cinzenta.
Anna sorriu com a piada, mas nesse exato momento, atrás dele, um barulho se ouviu.
Crack!
Ali, no meio do capim, sobre uma pedra cinzenta, estava um tordo de peito salpicado de pintas cinzentas. Ele tinha capturado um dos grandes caracóis e o golpeava contra a rocha insistentemente, tentando tirá-lo de sua casca.
Crack! Crack!
Bilbo arregalou os olhos, encarando Anna. A moça também estava de coração acelerado:
— Será que...
O hobbit pulou:
— Thorin! Thorin! Rápido!
Foi grande o alvoroço no local. Os anões se perguntavam o motivo de tanta agitação, e Bilbo gritava:
— Rápido! A chave!
Anna podia sentir que aquele era o momento pelo qual tanto esperavam, o Dia de Durin. Foi isso que Bilbo teve que explicar, repetidamente, à medida que os anões chegavam pela trilha difícil até a soleira da porta.
O líder da companhia virou-se para o menor membro do grupo:
— Acha que é isso?
Anna encarou Thorin, dizendo:
— Logo veremos. Mas eu acho que é isso, sim.
A partir daí, todos ficaram em silêncio, olhando a muralha rochosa. Anna viu o sol descer por trás das árvores lá longe e mergulhar num aglomerado de nuvens vermelhas no crepúsculo. Do outro lado, a lua também afundava cada vez mais, anunciando a noite que vinha cada vez mais rapidamente.
Nesse momento, Anna sentiu seu coração pesar. A noite estava chegando, e nada do buraco da fechadura aparecer. Ela sentiu que os anões também estavam começando a desanimar à medida que a noite chegava. Bilbo, porém, estava atento, de olho fixo na porta.
Por isso é que só o hobbit enxergou com clareza quando um raio avermelhado do sol escapou por entre as nuvens e brilhou diretamente na superfície lisa da muralha. Um pequeno buraco apareceu no local exato onde o último raio de sol estava iluminando.
A mente de Anna naquele momento fixou-se no seguinte trecho da mensagem do mapa: “... e a última luz do Dia de Durin vai iluminar a fechadura”. Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Bilbo já gritava, animado:
— Thorin, a chave! A chave, rápido!
Thorin correu adiante, tirou a chave do meio das roupas e também retirou-a do seu pescoço. Anna viu que ele tinha as mãos trêmulas quando a introduziu no buraco e girou.
Click.
Nessa exato minuto, o sol sumiu, a lua também, e a noite se fez em Erebor. Ficaram todos em silêncio, imóveis.
Bilbo despertou todos do transe, gritando:
— A porta está aberta! Vamos empurrar! Vamos, rápido!
Todos se precipitaram até a porta e Dwalin organizou:
— Na contagem de três: um... dois... três!
Com esforço, Anna pôs toda a força que tinha contra a rocha, os demais fazendo o mesmo, grunhindo com o esforço. Lentamente, uma parte da muralha se separou, a silhueta de uma abertura se desenhando aos poucos. Tudo acontecia muito devagar: paulatinamente uma porta de pouco mais de um metro e meio por um metro se abriu silenciosamente.
Assim como estava escuro lá fora, a porta também se abria para um local escuro. Todos ficaram ali de pé, parados, em silêncio, no escuro.
Foi Bofur quem perguntou:
— E agora?
Todos se entreolharam, indecisos. Thorin veio com a resposta:
— Agora, obviamente, cabe a nosso estimado Mestre Baggins cumprir sua parte no contrato.
Os olhares se fixaram em Bilbo, cujos olhos se arregalaram por uns segundos antes de suspirar.
— Está certo. É melhor dar logo uma olhada para avaliar a situação. Alguém quer vir comigo?
Anna se prontificou imediatamente:
— Eu vou.
Thorin resistiu:
— Não, não vai.
Anna lembrou, em tom de alerta:
— Thorin, já conversamos sobre isso.
— Exato — concordou. — E ficou decidido que você não iria.
— Não mesmo! — Anna fechou o rosto numa carranca. — Você decidiu, mas eu nunca concordei com isso.
Bilbo tentou dizer:
— Gente... Er... Por favor...
Sem ouvi-lo, Thorin se virou para Anna.
— Ele é o ladrão: essa é a função dele!
Anna lembrou:
— Eu disse que eu o ajudaria!
Bilbo ergueu a voz:
— Escutem!
Os dois se viraram para ele:
— O quê?
O hobbit ficou vermelho ao dizer:
— Parem de discutir, por favor. Quem sabe vocês negociam isso?
Thorin indagou:
— Alguma sugestão, ladrão?
Ele deu de ombros:
— Eu agradeceria se Anna pudesse ir comigo até uma parte do caminho. Depois eu posso ir sozinho, e ela ficará em segurança.
Anna resistiu:
— Mas Bilbo...
Ele a interrompeu:
— Concordo com Thorin que você não deva se arriscar contra um dragão. Mas agradeço a companhia, se Thorin não se opuser.
O rei anão assentiu:
— Não vejo impedimento. Até me ofereço para me juntar a vocês até parte do caminho.
Bilbo indagou:
— E então, Anna? O que diz?
A contragosto, a moça admitiu:
— Posso ver que isso é o máximo que vou conseguir. Mas antes de ir, uma palavra de aviso sobre dragões: sob nenhuma circunstância deixe que ele descubra o seu nome.
— Por quê?
— Dizem as lendas que eles podem enfeitiçar uma pessoa pelo nome.
Thorin confirmou:
— Por isso temos nomes secretos. Nossos antepassados foram atacados por dragões em tanta frequência que preferiram esconder seus verdadeiros nomes.
Anna o encarou, espantada:
— Eu não sabia disso. Mas sei que um dragão conhece cada peça de seu tesouro, por isso odeia ladrões com todas as suas forças. Se você tirar uma moedinha que seja, ele saberá — e buscará vingança.
O pobre hobbit lamentou-se:
— E é assim que pretende me animar?
Anna deu de ombros:
— Na verdade, só estou dando um conselho. Ou dois.
Thorin buscou acelerar as coisas:
— Melhor entrarmos o mais silenciosamente que pudermos. Não sabemos onde a fera pode estar. — Anna ouviu, mais do que viu, Bilbo engolindo em seco. Thorin não se incomodou com isso. — Muito bem, vamos lá.
Thorin ainda deu instruções a Balin antes que os três se embrenhassem pelo túnel escuro. Anna ia entre os dois, de mãos dadas a Bilbo e Thorin.
Para espanto de Anna, o túnel, escuro feito breu, tinha o chão liso e plano, como um piso muito bem colocado. Ela ouviu os ecos dos murmúrios dos demais, vindos da porta que deixaram para trás.
Em poucos minutos, Anna notou que o túnel tinha uma inclinação suave, indo cada vez mais para o fundo da montanha. Com os olhos acostumados ao escuro, Anna viu a abertura da porta atrás de si cada vez menor. Thorin deteve-se de repente, e Anna congelou no túnel. Ela sentiu Bilbo também se deter. Thorin cochichou:
— Melhor ficarmos aqui.
Anna não gostou da ideia, mas não quis discutir. Ao invés disso, abraçou seu tio com força e cochichou:
— Boa sorte, Bilbo Baggins.
Anna sentiu os lábios dele na sua bochecha, depois ele se foi, silenciosamente, pelo túnel. Ela permaneceu ali, coração na boca, ouvindo os fracos ecos dos demais na porta. Cada minuto parecia se arrastar, Thorin queria sair dali, mas não ousava fazer outro barulho que não tentar puxar Anna, e a moça se negava a sair.
Durante horas eles esperaram, até que finalmente Bilbo voltou, frenético. Mas não tanto quanto Thorin, ao ver o que ele tinha nas mãos:
— Uma taça...!
— Sim, sim, mas vamos voltar — disse o hobbit, agitado. — Ou então a fera vai acordar!
Os três percorreram o suave aclive do túnel rapidamente, e quando saíram, em plena noite, Bilbo foi ruidosamente recepcionado. Exausto, o pobre se deitou no chão, e parecia ofegante.
Enquanto o pequeno hobbit revelava sua aventura e a fortuita ocasião de ter encontrado Smaug adormecido, a taça de ouro (uma espécie de cálice com duas alças) era passada de mão em mão como uma espécie de troféu. A companhia estava muito animada, mas Anna estava preocupada e indagou a Bilbo:
— Você está bem? Está machucado?
Só então ela reparou que Bilbo estava molhado de suor, ainda deitado no chão. Ele ficou sentado, ofegando, ao responder:
— Não, é só muito quente... E muito grande... Por Eru, Anna, como ele é grande!...
Um odre com água foi passado a Bilbo, que bebeu avidamente. Afastado, em meio aos anões animados, Glóin gritou:
— Mestre Baggins, minha família tem um débito para com o senhor de muitas e muitas gerações!
Dori chegou até Anna:
— É, menina, esse seu tio não nos decepcionou!
Ori saudou:
— Gandalf tinha razão! Ele é mesmo um ladrão!
Thorin chegou perto de Bilbo. Ele estava emocionado, e sua voz era solene ao pronunciar:
— Eles têm razão, Mestre Baggins. Os serviços que prestou a essa companhia serão lembrados por muitas gerações. E você terá o título de Khazad-bâhel, o maior amigo dos anões!
Todos saudaram a declaração com entusiasmo, menos Bilbo e Anna. Thorin notou que ela não compartilhava da alegria.
— O que há, pequena? Nem parece que está contente.
Anna confessou, sombria:
— Estou esperando, Thorin.
— Esperando? — repetiu ele. — Esperando o quê?
Ela respondeu, pálida:
— A reação de Smaug.
Thorin arregalou os olhos e ia responder algo quando nesse exato momento o chão estremeceu, e todos cambalearam, como se estivessem num terremoto. Um grande estrondo irrompeu do meio da montanha, como se um grande vulcão adormecido de repente voltasse à vida.
Ori indagou, de olhos arregalados:
— O que foi isso?
— Isso, meu rapaz — respondeu Balin pesadamente —, foi um dragão.
Da abertura, vinham os ecos de incríveis urros, rugidos e passos de um dragão furioso. Todos se entreolharam, como se somente naquele momento tivessem se lembrado que seu rico tesouro era propriedade de um dragão. O mencionado dragão acabara de dar pela falta da taça e ficara possesso de raiva.
Palavras em Khuzdul:
Khazâd-bahel = o maior amigo dos anões
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