Jornada Para Erebor

43 Embaixo e no escuro


Notas iniciais
Anna resolve dar mais do que apoio moral a Bilbo

Ainda demorou alguns minutos até que a companhia de Thorin Oakenshield reagisse aos sons de Erebor. Mas todos sabiam o que significavam aqueles ruídos de destruição e fúria vindos de dentro da montanha. Ainda não tinham certeza exatamente do que acontecia, até que Kíli apontou para o alto:

— Olhem!

Anna ergueu o olhar e viu, com horror crescente, a monstruosa silhueta de Smaug cortar o céu noturno num jato flamejante, pois ele vinha literalmente cuspindo fogo. Anna puxou Bilbo e, como todos os demais, buscou abrigo nas rochas, pois a reentrância os escondia. Smaug estava pousado no topo da montanha, à procura do ladrão de seu tesouro.

Foram momentos de horror, em que todos estavam à mercê da fera. A qualquer momento Smaug podia localizá-los: era só descer do topo da montanha ou dar um sobrevoo sobre aquela face. Ficaram todos encolhidos, em silêncio.

Até que Thorin gritou:

— Aqui não estamos protegidos! Rápido! Todos para dentro! Tragam provisões!

Todos se mexeram ao mesmo tempo, afobados. Foi aí que Bofur lembrou:

— Meu primo! Bombur está perto dos pôneis!

Thorin ordenou:

— Vamos resgatá-lo. Balin, leve Anna, Bilbo, Fíli e Kíli para dentro. Os demais comigo!

Anna ia protestar, mas Balin a puxou com força para dentro da abertura, e Bilbo a empurrou, sendo por sua vez, empurrado por Kíli e Fíli. Os demais se dividiam entre a operação de resgate de Bombur e das provisões.

Nem um ataque de orcs deixou Anna tão aterrorizada quanto os poucos minutos até que todos (Bombur incluído) estivessem dentro do estreito túnel. E foi por um triz.

Uma lufada de vento, o mais quente que Anna sentira em sua vida, varreu aquele lado inteiro da montanha. Com o coração petrificado de horror, Anna segurou o grito ao ver uma língua de fogo lamber a pequena fresta que tinham deixado na porta calçada. Anna achou que fosse desmaiar à visão das chamas dentro da entrada onde se refugiavam. As rochas se esquentaram, a ponto de algumas ficarem vermelhas. Labaredas altas enegreciam as paredes do túnel. Se alguém estivesse perto da porta, teria sido queimado.

Anna sentiu cheiro de mato queimado e calculou que a parca grama perto da porta tinha virado cinzas. Ela se encolheu mais ainda, trêmula, e sentiu os braços de Bilbo a confortá-la.

Lá fora os pôneis relinchavam em desespero, e não era difícil adivinhar que tinham se soltado das amarras e disparado. Um zunido se ouviu, e de repente o túnel ficou escuro.

Thorin quebrou o silêncio, e Anna estremeceu de susto com a voz grossa dele:

— Lá se vão nossos pôneis. Smaug não vai deixar uma refeição assim passar em branco!

Bilbo sugeriu:

— Teremos que ficar aqui.

Dwalin apontou:

— Podemos ir para longe da porta, onde as chamas dificilmente nos atingirão.

Foi uma boa sugestão, e todos avançaram, com os pacotes e provisões para mais adiante, onde era quente e abafado. Lá se deitaram, em silêncio, atentos aos ruídos de fora. De vez em quando ouviam os zunidos do dragão caçando nas encostas da montanha, e seu terror se renovava.

Assim passaram a madrugada. Quando a luz da aurora começou a se insinuar pela fresta da porta, todo o grupo sentiu o terror diminuir. Não demorou muito, e ouviram ruídos dentro da montanha.

Smaug tinha voltado para seu covil.

Foi uma espécie de senha para a companhia emergir do túnel para o dia pálido e encarar os efeitos da passagem do dragão.

Não havia sinal dos pôneis, e todos os locais onde tinham acampado estavam chamuscados. Como Anna previra, a relva perto da porta estava esturricada. A fúria de Smaug não poupava nada.

— Parece seguro — observou Dwalin. — Ao menos durante o dia.

— Mas e agora? — indagou Bofur. — O que faremos?

Bombur sugeriu:

— Será hora de pensarmos em desistir da busca?

— Bobagem — disse Thorin. — Não chegamos até aqui para dar meia-volta. Além do mais, não é recomendável tentar sair até Smaug baixar a guarda.

— Mas o que faremos? — indagou Fíli. — Não podemos ficar escondidos o tempo todo. Uma hora Smaug nos achará.

Kíli disse:

— Precisamos nos livrar dele de maneira permanente. Mestre Baggins, o que sugere?

Bilbo deu de ombros:

— Livrar-se do dragão sempre foi o ponto fraco do plano de Gandalf. Ele achava que poderíamos reconquistar a montanha com discrição e com astúcia, mas não vejo em que isso mate o verme. Eu fui contratado como ladrão, não como matador de dragões, e com certeza levarei mais de cem anos para esvaziar aquela sala de tesouros!

Nesse momento, irrompeu uma discussão sobre os riscos de se lidar com um dragão, como matar um, e como recuperar a montanha. Todos começaram a falar ao mesmo tempo e em voz alta, obrigando Thorin a intervir em Khuzdul:

Atkât! Querem atrair o dragão?

Fez-se silêncio e o líder da companhia disse:

— Noto que nossa pequena está por demais calada. Gostaria de contribuir com alguma ideia?

Anna notou os olhares todos voltados para si, e respondeu, com sinceridade:

— Desculpem se pareço desinteressada, mas ainda estou tentando me recuperar do choque de quase ter sido torrada por um dragão. Só o que posso dizer é que concordo com meu tio: esse plano tem uma falha, mas nós podemos corrigi-la se pusermos as cabeças para funcionar. Vai depender de encontrarmos uma brecha. Se soubéssemos mais sobre Smaug, poderíamos tentar achar um ponto fraco.

Bilbo adiantou-se:

— Tenho uma proposta. Com meu anel, penso em voltar ao covil por volta do meio-dia, que é quando ele deve estar cochilando. Vou procurar alguma informação capaz de nos ajudar. Ainda temos provisões suficientes para nos mantermos antes que alguém precise descer até o rio.

— Parece bom — disse Anna. — Tenha cuidado.

Thorin olhou em volta e disse:

— Aqui fora parece seguro para tomarmos ar durante dia, mas é melhor ficarmos dentro do túnel durante a noite.

— Apoiado! — disse Bilbo, que se virou para Anna. — Tenha calma, sobrinha. As coisas vão se resolver.

Anna apenas sorriu, tentando tranquilizar o hobbit e os anões. Por dentro, porém, ela estava sombria, pois já tinha chegado a um plano, um que precisaria ser quase cronometrado, se é que ela pretendia ter alguma chance de sucesso.

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Bilbo preparou mais uma ida para o covil de Smaug, e teve a companhia de Anna até parte do caminho, como sempre. Embora lá fora o sol estivesse brilhando alto, dentro do túnel estava escuro como a noite. Por isso Bilbo não viu Anna quando largou sua mão e cochichou:

— Aqui está bom. Obrigado.

Anna o abraçou:

— Boa sorte, querido Bilbo.

Eles se separaram. Anna ficou naquele ponto. Bilbo pôs o seu anel maravilhoso enquanto continuou descendo pelo túnel.

O hobbit não notou que a seu lado, pelo túnel, corria um pequeno camundongo, escondido na escuridão.

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Na pele de um camundongo, Anna esperava proteger Bilbo e surpreender Smaug naquele momento, sem que a fera percebesse. Ela tinha que correr bastante para acompanhar o passo de Bilbo, ainda mais depois que o hobbit pôs o anel e ficou invisível. Logo ela sentiu a temperatura aumentar e viu adiante um clarão vermelho iluminar o túnel: Smaug estava perto.

Anna chegou ao fim do túnel, que dava para um imenso salão forrado de tesouros onde um gigantesco dragão vermelho-dourado estava enrodilhado, aparentemente adormecido por cima de moedas de ouro, pedras preciosas, joias, escudos, espadas, lanças, pratos e todo tipo de objeto em ouro e prata. Anna admirou toda a riqueza, o esplendor e a ostentação do tesouro de Thrór, rei sob a montanha, por uns segundos abstraindo a presença do dragão do tamanho de uma baleia-azul, e talvez ainda mais pesado do que as 50 toneladas do mamífero marinho.

Desnecessário dizer que logo Anna foi lembrada da presença do dito réptil, quando o próprio disse, sua voz ecoando pelo salão:

— Bem, ladrão! Sinto seu cheiro e seu ar. Posso ouvir sua respiração. Venha! Sirva-se de novo!

Ainda na pele de um camundongo, Anna acompanhou o diálogo de Bilbo e a fera, enquanto procurava se aproximar. Notou que Bilbo entrava num jogo de adivinhas com o dragão.

De qualquer forma, Anna ainda achava que sua melhor chance era mudar de posição constantemente. Se Smaug notasse sua presença, ela tentaria dificultar sua localização ao se transformar num alvo móvel. Claro, ela também tinha grandes esperanças que um camundongo fosse pequeno demais para despertar o apetite de um dragão.

Infelizmente, os morcegos que tinham se alojado na montanha não tinham qualquer preconceito contra o tamanho de um apetitoso camundongo. Assim, bem quando Smaug exibia o reforço de pedras preciosas em seu ventre (menos um pedaço no lado esquerdo do peito), um desses morcegos deu um voo rasante e colheu Anna do chão com as patas, erguendo-a no ar. Num reflexo, ela se transformou e voltou à forma humana ainda no ar, presa pelo morcego. O peso fez o bicho soltá-la em pleno voo, e ela caiu no meio de uma pilha de moedas, sem conseguir evitar um grito:

— Ui!

Quando Anna se deu conta, ela estava sentada no chão, e a cabeçorra de um dragão estava bem à sua frente, encarando-a com uma expressão que era um misto de cobiça, curiosidade e deleite. Num reflexo, Anna soltou um grito agudo e tentou se arrastar para longe.

— Ora, ora, ora — fez Smaug, olhos intentos em Anna. — O que temos aqui? Uma criatura pequena que surge em pleno ar e cai na minha frente. Que dia cheio de surpresas!

Anna estava petrificada de pavor, olhos arregalados e fixos no monstro, olhando para cima, encarando os dentes afiados da fera, tentando devolver ar a seus pulmões e voz a sua garganta. Smaug inclinou a cabeça para o lado:

— Você também carrega cheiros que nunca encontrei. Tem cheiro da montanha, cheiro de morcegos, de anões, de ladrão e de... outra coisa. Quem é você?

Anna disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça, trêmula:

— P-por favor, não me devore...

Smaug jogou a cabeçorra para trás, esticando o pescoço e rindo-se tanto que chegou a soltar vapor de suas narinas. Os dentes brilhavam, aterrorizando a moça ainda mais. Anna tentou se erguer e afastar-se dele, mas era difícil com as pilhas de pedras preciosas e moedas de ouro. Smaug rapidamente voltou a encará-la:

— Agora posso ver que eu me enganei. Achei que fosse um humano, mas agora acho que é uma humana. — Ele deu uma fungada forte antes de dizer. — Posso sentir, pelo aroma, que já foi tocada, que pena. Acho que não há outra serventia para você, a não ser servir de lanchinho para mim. Isso ensinará uma lição a seu amigo Montador de Barril!

A moça tentou dizer:

— Mas eu não...

— Nem tente negar que são amigos e vieram juntos — interrompeu Smaug rispidamente. — Posso sentir o cheiro dele em você. Você será um bom lanche, pois estando com cria, fica com um gosto mais doce.

Anna empalideceu. Estaria Smaug certo? Ela estava... grávida? Medo se tornava um líquido frio em suas veias, e ela já não sabia se suava de calor ou de frio. Ainda assim, tentou disfarçar:

— Não, está enganado. Ou tenta me enganar.

— Oh, você não sabia! — divertiu-se a fera, mostrando os dentes num sorriso irônico e malévolo, que prometia crueldade. — Isso é muito divertido! A pequena humana carrega um bebê e não sabe. Uma gravidazinha!... Agora não sei se eu a devoro com seu filhote no ventre, gravidazinha, quando está doce, ou se espero sua cria nascer, para sentir suas carnes gordinhas e tenras. Hum, que petisco! E será que seu filhote é um pequeno montador de barril, gravidazinha?

Anna garantiu:

— Está errado em tudo que diz. E está mais errado ainda se pensa que vai pegar qualquer um de nós. Se agora estou, daqui a pouco não estarei.

Smaug não tirava os olhos dela, e parecia ver sua alma, pois adivinhou:

— Uma troca-peles!... Foi assim que entrou aqui, trocando de pele. Esperta, gravidazinha, esperta. — O brilho nos olhos vermelhos do dragão tornou-se sanguinário e cruel, fazendo Anna estremecer. — Pois bem, gravidazinha, seja lá quem você for, saiba que nem trocando de peles você poderá escapar de mim.

Num reflexo, Anna gritou:

— Corre, tio!

Tudo foi muito rápido. Um jato de fogo atingiu o lugar onde Anna estava, mas ela escapou por segundos, pois ela se jogou para o lado e caiu nas quatro patas, já na forma de um camundongo, correndo como nunca antes na vida rumo ao túnel. Ela esperava que Bilbo tivesse entendido a mensagem e que já estivesse a salvo.

Com um urro terrível, Smaug pisoteou o local de onde Anna havia escapado. Ela entrou no túnel escuro a toda velocidade e não parou. Com uma agilidade invejável para alguém daquele tamanho, o dragão abaixou-se, enfiou o imenso focinho na abertura diminuta e bramiu intensamente, fazendo Anna estremecer e transformar-se de volta, tamanho o susto.

O timing foi mesmo infeliz, porque desta maneira ela não conseguiu escapar do jato de vapor e calor que Smaug lançou pelas narinas. Anna foi ao chão com um grito, sentindo o ardor nos braços. Por um minuto, ela não teve certeza de nada, nem do mundo.

— Anna! — Ela ouviu a voz de Bilbo e abriu os olhos. — Você está bem?

Ela riu sem humor:

— Claro, tão bem quanto se espera depois de enfrentar um dragão. Acho que me queimei. Como você está?

Bilbo disse:

— Eu estava na sua frente. Você é que recebeu a pior parte da fúria de Smaug.

— Engraçado, é exatamente como me sinto.

Ele a ajudou:

— Venha, vamos deixar Óin dar um jeito nisso.

Anna o encarou, sem deixá-lo ir adiante:

— Bilbo, antes de irmos, tenho dois favores para lhe pedir.

O hobbit suspirou:

— Acho até que sei o que vai me pedir. Mas precisa me explicar o que aconteceu, Anna. Como você entrou ali sem eu ver? E como fugiu? Smaug estava certo? Você é uma troca-peles?

— Smaug disse a verdade — admitiu Anna. — Não controlo muito bem isso, mas é verdade.

— E está mesmo grávida?

— Isso eu ainda não sei. Mas Bilbo, precisa me ouvir, por favor. — Anna insistiu, séria. — Eu tenho um plano, mas não posso revelar nada agora. Há muito em jogo. E... eu não sabia das complicações. Por favor, não diga nada do que aconteceu. Diga apenas que eu esperei por você pelo túnel. Por favor.

Ele ficou relutante:

— Anna...

— Mas o mais importante — ela o interrompeu —, e isso é muito importante mesmo, Bilbo, é o segundo favor que vou lhe pedir. Smaug agora sabe de onde viemos. Ele vai calcular a saída do túnel e vai destruir a porta do lado externo da montanha. Quando ele fizer isso, preciso que vá o mais rápido possível para o Portão Dianteiro com Kíli.

— O quê?

— Você me ouviu. Vocês todos poderão andar dentro da montanha, pois Smaug estará fora dela. Então todos devem ir o mais rápido possível para o Portão Dianteiro. Kíli poderá tentar atingir o único ponto fraco de Smaug com uma flecha quando o dragão tentar voltar para a montanha. Lembre-se de dizer a Kíli para se concentrar no dragão vermelho! Não o deixe se confundir!

— E como ele poderá se confundir com um dragão, por Eru?!

Anna não se deteve naquilo:

— Bilbo, precisa convencê-los a fazerem exatamente o que diz. Não pode discutir isso com a companhia, não pode deixar que o questionem. Tem que fazer isso, Bilbo, ou tudo estará perdido.

Ele percebeu a urgência das palavras dela e suspirou:

— Não gosto disso, Anna. Você deve explicar a eles. Eles vão ouvir você.

— Não poderei explicar a eles. Estarei fazendo outra coisa, mas eu os encontrarei no Portão Dianteiro depois que derrotarem Smaug. Precisa me prometer, Bilbo. Isso é muito importante. É a única chance que temos de nos livrar do dragão.

— Está bem, está bem, prometo. Mas depois disso tudo eu vou querer umas boas explicações, mocinha.

Anna disse, com sinceridade:

— Odeio ter que esconder coisas de vocês todos, Bilbo. Mas eles vão me fazer muitas perguntas, e neste momento não há tempo.

O hobbit não respondeu, ajudando-a a se mexer, dizendo:

— Vamos logo, antes que essas queimaduras piorem.

Palavras em Khuzdul

Atkât = (fiquem em) silêncio