Jornada Para Erebor

29 Pela rota de fuga


Notas iniciais
Anna realmente gostaria de ter ido parar em Hogwarts

Na entrada das masmorras, os guardas de vigia se colocaram em posição de sentido ao ver o príncipe. E ele não estava sozinho.

— [Alteza, pensamos que tinha se juntado às patrulhas.]

Legolas respondeu:

— [Não pude esperar para levar esses dois à masmorra. Pela traição a meu pai, quis fazer isso eu mesmo.]

— [Precisa de assistência, Alteza? Vejo que tem as armas deles.]

— [Não, eles já estão acorrentados. Depois deixarei essas armas no arsenal. Peça a Galion para deixar meu cavalo pronto.]

— [Sim, Alteza.]

Aos prisioneiros acorrentados, Legolas disse, áspero:

— Vamos!

Os guardas voltaram a seu posto, satisfeitos. A fuga dos prisioneiros fora um golpe no orgulho de todo o corpo da guarda de Mirkwood, e eles mal podiam esperar que esses prisioneiros pagassem as consequências de sua traição.

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De tão tensa, Anna mal respirava ao marchar, acorrentada, ao lado de Eldrin, para dentro das masmorras e na direção das celas. Legolas os guiava, de olho nos guardas nos corredores. Não havia muitos: o rei Thranduil tinha levado um grande número deles para a busca aos anões.

Legolas os levou a uma reentrância na pedra, que se abria para um alçapão no chão. Tirou as correntes e instruiu:

— Essa porta vai dar no riacho, que leva o rio Corrente. Há um bote bem na margem. A melhor chance de vocês é seguirem o rio até a Cidade do Lago e lá esperarem Gandalf.

Eldrin indagou:

— Seu pai não virá atrás de nós na Cidade?

O príncipe alegou:

— Acho difícil que queira se indispor com humanos. Já estamos cercados de perigos, e não creio que ele queira acrescentar humanos aos inimigos.

Anna quis saber:

— Mas e você?

Legolas respondeu:

— Precisam me deixar inconsciente e me prender numa cela.

— O quê? — Anna se apavorou. — Não! Prometi a Eldrin que não o obrigaria a machucar seus irmãos elfos e eu mesma não posso bater em você. Eu jamais seria teria força capaz de deixar você inconsciente!

Legolas argumentou:

— Se me deixassem consciente, eu jamais os deixaria fugir.

— Verdade, mas podemos cuidar disso depois — concordou Eldrin, olhando em redor. — Primeiro vamos tratar das coisas mais urgentes. Onde ficam mesmo as celas?

O príncipe de Mirkwood virou-se e apontou para o lado, respondendo:

— No corredor à esquerda, depois de— ugh!

Não terminou a frase, pois num movimento rápido, Eldrin o golpeou com a corrente, um golpe certeiro e eficiente que derrubou o nobre elfo de uma só vez. Legolas caiu, desacordado. Assustada, Anna deu um pulo para trás, de olhos arregalados, exclamando:

— Eldrin!... Você disse que-

O elfo deu de ombros, interrompendo:

— Eu disse que não gostaria de ser obrigado a machucar ninguém. Mas você não me obrigou a nada, Anna. Agora não temos tempo: pegue as armas, saia pelo alçapão e localize o bote. Eu encontro você lá.

Enquanto Eldrin punha o príncipe inconsciente nos ombros e saía, Anna pegou o arco e as flechas de Legolas, o arco de Eldrin, a espada que Thorin fizera, amarrou todos com as correntes, pôs nos braços e abriu o alçapão. No escuro, ela não viu nada, só ouviu o barulho de água corrente abaixo e rezou para não ser muito alto.

Inspirou forte e pulou, abraçada às armas.

"Será que Harry Potter teve o mesmo problema em uma de suas aventuras?"

O choque inesperado com a água gelada durou pouco, pelo menos até Anna acostumar os olhos ao escuro e localizar o bote. Com dificuldade, devido ao pacote que levava, ela nadou até o barco e saiu da água para entrar dentro dele. Lá, ela teve apenas o tempo de recuperar o fôlego até Eldrin se juntar a ela.

O elfo localizou os remos e Anna ofereceu-se:

— Deixe-me ajudar a remar. — Eldrin ia recusar, mas ela apontou: — Quanto mais rápido sairmos daqui, melhor será.

Sem argumentos, Eldrin passou o remo, ressaltando:

— Mas só até encontrarmos o Rio Corrente. Até lá, teremos ganhado uma boa dianteira.

Durante um bom tempo, os dois remaram pelo riacho, em silêncio total, no escuro. A água era gentil, e eles conseguiam ouvir os barulhos no mato, atentos a qualquer barulho das margens.

Então eles chegaram ao rio Corrente. Anna descobriu que o nome tinha uma razão de ser. O rio era formado de corredeiras.

Eldrin tirou o remo dela e instruiu:

— Fique no meio do bote e segure-se!

As primeiras sensações foram tão rápidas e confusas que Anna não conseguiu catalogá-las corretamente a princípio. A primeira delas foi a de ficar encharcada de novo, pela força da água que entrava no barco.

Anna rolou na velocidade das corredeiras, e o movimento logo a deixou violentamente marejada. Teria posto o jantar para fora, se não estivesse tão concentrada em manter o equilíbrio sem gritar.

Após alguns minutos, porém, o balanço suavizou e o mal-estar de Anna se intensificou de tal maneira que ela teve calafrios. Ela se inclinou para fora do bote e prontamente despejou o conteúdo do seu estômago no rio. Só então ela percebeu que Eldrin passara pela mesma situação.

Os dois permaneceram em silêncio, deslizando pelas águas, que, felizmente, pareciam ter se acalmado. Anna não conseguiu evitar o pensamento na companhia, que passara por situação ainda pior horas antes.

Pior mesmo, porque eles estavam em barris. Todos os anões eram corpulentos. A mente de Anna não parava de imaginar como seria a viagem para mestre Óin ou Dori, ou pior ainda, o pobre Bombur?

No silêncio, eles ficavam atentos aos barulhos que vinham das margens. Nada de cavalos ou cavaleiros, notou Anna, com alívio. Eram grandes as chances de que Thranduil e seus homens estivessem procurando por eles no lugar errado.

Em poucas horas, o dia amanheceu. Anna viu o céu cinzento e ameaçador. Logo a chuva fina se fez presente. Choveu durante muito tempo, mas Anna não fazia ideia de quanto tempo, sem ter sol como referência. E lá estava ela toda molhada de novo.

Ela só sentia fome.

— Quanto tempo até sairmos daqui?

Era a primeira vez que Eldrin pronunciava palavra, e o som quase assustou Anna. Ela o encarou, e o elfo explicou:

— Acho que estamos seguros. Deixamos Mirkwood para trás há algum tempo.

Anna arriscou-se a esticar um pouco as pernas. Apesar do desconforto de ficar horas no barquinho e da tensão de estar sendo perseguida pelos elfos de Mirkwood, Anna sentia uma incrível sensação de alívio.

Não demorou para ela entender o motivo. Anna finalmente podia olhar o céu, sem a atmosfera sufocante da floresta doente. Era como se ela finalmente pudesse respirar livremente depois de sentir os pulmões incapazes de puxar ar adequadamente.

Anna sugeriu:

— Melhor ficarmos no rio por enquanto. A correnteza vai na direção certa, e não precisaremos andar.

Eldrin olhou em volta, comentando:

— Pode ser prático, mas aqui estamos vulneráveis se Thranduil resolver expandir sua busca para além da floresta.

— Acha que eles viriam para cá? Será que descobriram o plano?

Eldrin respondeu:

— Pouco provável. Muito engenhoso, esse plano do príncipe Legolas. Suponho que o alçapão seja uma espécie de despejo de refugos e resíduos.

— Na verdade, é por onde chegam alimentos e bebidas até o palácio — disse Anna. — É a única abertura do palácio, fora o portão da frente. O palácio é literalmente uma fortaleza.

— Como sabe de tudo isso?

— Porque fui eu que bolei o plano de fuga dos anões, e eles usaram essa mesma rota. — O elfo arregalou os olhos, e Anna enrubesceu, antes de continuar. — Deve demorar algum tempo até Thranduil e seus homens se darem conta disso.

Eldrin encarou Anna, cada vez mais surpreso.

— Como sabia de tudo isso?

Anna deu de ombros, enrubescida:

— Na verdade, não sabia de tudo. Tive a ideia num livro que li há muito tempo.

— Bom livro. — Eldrin olhou em volta. — Sugiro evitarmos andar de barco depois que o sol se puser. Será melhor andarmos pela terra firme. Na água somos um alvo fácil.

— Somos um alvo fácil na água, mas estamos praticamente dentro de um pântano. Continuaremos sendo alvo fácil fora do barco. Como poderemos andar se não há terra firme? Não seria melhor permanecer no barco?

Eldrin olhou em volta, concordando.

— Pode ter razão. Bom, não nos resta muito a fazer.

Anna suspirou. — Fico imaginando que horas são agora.

— É depois do almoço — respondeu o elfo sem hesitar. Anna o encarou, intrigada, e ele deu de ombros. — Não é só você que tem fome.

Anna sorriu e eles retomaram o silêncio amistoso anterior, Eldrin remando silenciosamente. Foi assim até o sol se por.

Sem o sol, mesmo que fraco, Anna sentiu o frio triplicar, ainda mais devido à umidade de suas roupas. Seu corpo estava gelado, ela tremia e não havia jeito de acender uma fogueira.

Logo, contudo, o frio seria a última de suas preocupações.

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O barulho no ar foi um silvo, nada mais, no meio da noite. Eldrin soltou um gemido e cochichou:

— Abaixe-se!...

Anna obedeceu, assustada. Ficou ainda mais assustada quando viu, no pescoço de Eldrin, uma flecha cravada e muito sangue correndo. Anna arrastou-se para tentar estancar o sangramento com as mãos, sua mente gritando, enquanto ela sussurrava:

— Ai meu Deus, não, não...!

Mais flechas cortaram o ar e Anna cobriu Eldrin com seu corpo, protegendo-o. O elfo parecia ter dor.

— Podem ser elfos de Mirkwood... — disse ele. — Eles patrulham o rio...

— Oh, Eldrin...! — Anna tremia, a mão cheia de sangue elfo. — O que posso fazer?

— Deixe-me... Salve-se...

— Não vou deixar você morrer! — horrorizou-se ela. — Não vou abandoná-lo!

Nova saraivada de flechas a fez abaixar-se para proteger Eldrin. Ela ergueu a cabeça e disse:

— Vou tentar remar para longe deles. Eldrin? — Anna viu o elfo cerrar os olhos e ficar imóvel. — Eldrin, não! Acorde!

A situação era desesperadora, mas Anna sentiu o coração parar ao ouvir os barulhos de algo grande se mexendo n'água. Era alguém andando na água. Estavam vindo pegá-la!

Ela teve que se afastar de Eldrin para tentar pensar em algo. Nada lhe ocorria à mente. E os barulhos se aproximavam.

"Gandalf! Gandalf, me dê uma inspiração!", pensou ela, apavorada.

Bom, decidiu, se quiserem me levar, vão ter que me pegar primeiro, pensou ela.

Ainda abaixada, esticou-se para pegar a espada de Thorin e esperou o agressor chegar perto. Quando os barulhos ficaram muito próximos, Anna pulou de repente, erguendo a espada e atacando:

— AAAHH!

No escuro, ela só viu uma sombra monstruosa se levantar diante dela. Anna a atacou com sua espada, mas o monstro tinha uma voz conhecida:

— Esquilinho?

Anna quase teve um ataque do coração.

— Beorn?!