Jornada Para Erebor

30 Ajuda inesperada


Notas iniciais
Um amigo chega com uma notícia inquietante

Anna abaixou a espada, atônita. Ela encarou Beorn, ainda assustada:

— Você estava atirando flechas contra nós? Eu quase ataquei você!

O homenzarrão respondeu:

— Não fui eu, as flechas foram de orcs.

Anna franziu o cenho:

Orcs? Por que há orcs aqui? Pensei que eram elfos.

— Elfos? — O homenzarrão indagou. — Por que estariam atirando em você? Pensei que os elfos fossem seus amigos.

— O rei Thranduil queria nos prender. Longa história. Beorn, por favor, pode ajudar meu amigo?

O troca-peles olhou Eldrin, cada vez mais pálido, e examinou o ferimento. — Eu não posso ajudá-lo, mas sei quem pode. — Jogou a cabeça para trás e soltou um urro animal, tão alto que pareceu ecoar pela floresta inteira. — Meus amigos estão perto. Mas o seu amigo está muito mal.

Anna tremia, desolada.

— Pode salvá-lo?

— Eles vão levá-lo para a terra dele — disse Beorn. — Elrond poderá curá-lo.

Anna se desesperou:

— Rivendell é longe demais! Eldrin não vai resistir!

O homenzarrão riu. — Não duvide de meus amigos.

A angústia de Anna deu lugar ao assombro quando ela notou uma presença acima de sua cabeça e virou-se para ver um pássaro imenso bem acima dela, crocitando. Num reflexo, ela se abaixou.

O espanto de Anna só aumentou quando ela entendeu o que o pássaro dizia.

— Chamou, Beorn?

O homenzão disse:

— Esse elfo vai morrer se não voltar com urgência a Rivendell. Pode levá-lo?

A imensa águia o encarou com severidade e lembrou, mal-humorada, falando em Westron:

— Não somos transporte, Beorn.

O troca-peles argumentou:

— É um pedido razoável para um dos protegidos de Lord Elrond. É urgente.

Anna estava chorando abertamente quando pediu:

— Por favor, nobre senhor. Eu imploro que salve meu amigo. Ele é puro de coração, um bom homem. É a única chance que ele tem.

A águia gigante encarou Anna.

— E o que você ganha nisso, pequena?

— Ele é meu amigo, protegeu-me e confiou em mim. Eu o trairei se deixá-lo morrer. Além do mais, ele serve ao Senhor de Imladris: deve ir para lá.

A águia inclinou a cabeça, antes de perguntar:

— Não quer ir com ele?

Anna respondeu:

— Não posso. O mago Gandalf deve estar me esperando em Esgaroth. Mas confio que meu amigo Eldrin estará seguro com os filhos de Manwë.

A águia a encarou longamente, antes de dizer:

— Afaste-se.

Anna obedeceu e a ave cuidadosamente pegou Eldrin com suas garras, antes de levantar voo com o elfo e sumir no céu. Anna o acompanhou, o coração apertado.

Sem nem poder se despedir, Anna sentiu um vazio terrível dentro do peito. Seu amigo, seu companheiro, tinha ido embora, talvez para sempre, e ela se sentia incrivelmente sozinha. Ela se virou para Beorn.

— Será que poderei saber se isso deu certo?

Beorn deu de ombros. — Um dia saberemos, esquilinho.

Anna tentou enxugar as lágrimas e agradeceu, sinceramente.

— Muito obrigada, Beorn. Isso significa muito para mim.

Ele indagou:

— E agora? Que você vai fazer?

— Seguir o rio e chegar à Cidade do Lago. Espero que Gandalf apareça por lá. — Ela indagou. — O que você fez com os orcs?

— Não sobrou nenhum. — Beorn deu de ombros. — Não se pode dar chance a orcs.

— Será que tem mais? Não posso deixar que orcs me prendam!

Beorn indagou:

— E por que você não troca de pele, esquilinho? Já deve estar pronta a fazer isso.

Anna resistiu:

— Não, não estou. Não sei absolutamente nada sobre isso de trocar de peles, como diz.

Beorn nem se abalou:

— A primeira coisa que precisa saber é em que animal quer trocar. Pelo que vejo, você pode se transformar em qualquer animal que queira, e isso é muito vantajoso.

Naquele momento, Anna podia jurar que Beorn estava louco, e tentou interrompê-lo:

— Mas… mas…

Beorn sequer lhe deu atenção, ensinando:

— Deixe-me dizer quais são essas vantagens: você pode se transformar num animal inofensivo e simplesmente se infiltrar em algum lugar, ou pode virar um predador, e atacar um agressor, se precisar. Mas se virar algum animal inofensivo, deve tomar cuidado com predadores, para não virar presa.

— Isso é loucura — disse Anna. — Eu não...

Mais uma vez Beorn interrompeu:

— Você vai poder correr, pular, voar, rastejar, nadar: qualquer coisa que precise. Se você soubesse trocar de pele, já poderia ter protegido seu amigo elfo.

Anna finalmente parou para ouvi-lo. Beorn a encarou, gravemente:

— Você precisa fazer isso agora, esquilinho. Não dá mais para adiar. É sua melhor chance de salvar a si mesma e aos outros.

— Mas eu não sei nada — respondeu ela, angustiada. — Por favor, você pode me ensinar?

Beorn coçou a cabeça. — Não sei direito o que posso ensinar. Nem sei se posso ensinar alguma coisa. Eu só penso em ser urso e aí eu viro urso.

— E... isso dói?

— Bem, acho que no começo sim, mas certamente deve dar para se acostumar. É melhor começar com algo pequeno. Que tal um esquilinho?

Anna indagou:

— Então eu posso trocar minha pele com outros animais? Não só um, como você?

— Posso ver que sim. Mas não sei quais ou quantos. Isso você vai ter que descobrir.

— Certo.

— Agora tente ser um esquilo.

Anna respirou fundo e se concentrou em um esquilo. A princípio, nada aconteceu. Então uma dor intensa se apossou de todo o seu corpo, e ela teve a sensação de estar caindo, mas seus pés ainda estavam no chão do barco.

Só que agora o barco parecia monstruoso, e Anna conseguiu mais estabilidade em quatro patas. Mas era estranho ver o mundo do ponto de vista de um esquilo. Ela era um esquilo.

E como voltar a ser Anna?

Precisou de concentração e então sentiu a dor intensa novamente. Em segundos, Anna estava deitada no chão, arfando.

— Foi muito bem, esquilinho — elogiou Beorn, entusiasmado. — Você até conseguiu ficar com suas roupas!

Anna não entendeu:

— O quê...?

— No início, eu só conseguia trocar as peles, mesmo. Era muito estranho de repente aparecer sem roupas na floresta. — Beorn a encarou. — Você está bem, esquilinho?

Anna sentou-se no barco, assentindo. — Sim, só preciso... recuperar o fôlego...

Beorn tirou algo da túnica e entregou a Anna, dizendo:

— Coma isso. Vai se sentir melhor.

Faminta, Anna comeu as três nozes e o punhado de frutas vermelhas. — Agradeço muito. Desde ontem não como nada.

— Trocar de pele exige muito. Lembre-se de comer bem e descansar, ou poderá adoecer. Tome — Entregou outro frasquinho. — É geleia real das minhas abelhas. Vai lhe fazer muito bem.

— Obrigada. Não pude procurar comida porque não saí do barco.

Beorn negaceou:

— Nem se dê ao trabalho de fazer isso aqui. As árvores estão doentes, como na floresta de Mirkwood. Não lhe faria bem. Pronta para ver se você pode trocar pele com outro animal além de um esquilo?

— Agora? Não devo me recuperar primeiro?

— Achei que fosse gostar de ter alguém com você, ao invés de experimentar seus animais sozinha. Quero ver se consegue se transformar em algo maior do que você. Talvez um veado.

Anna teve uma ideia.

— Acho que prefiro tentar outra coisa.

— Está bem, então.

Anna concentrou-se em seu animal intensamente. Em segundos, sentiu uma dor intensa e o corpo pareceu expandir-se, uma sensação inédita. Ela olhou em volta e viu Beorn ficando menor.

O homem-urso estava impressionado ao ver a águia gigante em que Anna se transformara. — Muito bem, esquilinho. Agora veja se você pode voar como uma.

Anna experimentou bater as asas, desequilibrando o barco, e, para tentar evitar que a embarcação virasse, ela levantou voo desajeitamente.

— Pode falar?

— Acho que sim — disse Anna, numa voz muito diferente da sua voz original. — É tudo muito esquisito.

Beorn garantiu:

— Você logo se acostuma. Agora tente voltar.

Anna pousou desajeitadamente dentro do barco e concentrou-se em si mesma. A dor ao encolher o corpo foi ainda pior, e ela logo se viu novamente estirada no fundo do bote, ofegando.

— Muito bem — disse Beorn. — Você foi tão bem que eu não sei se posso lhe ensinar mais alguma coisa.

Trêmula, Anna pegou o vidrinho da geleia real e lambeu um pouco, como o ursinho Pooh fazia com mel. Logo se sentiu melhor.

— Você tem razão: isso exige muito.

Beorn sorriu.

— Tenho certeza que você logo se acostumará. — Voltou a pegar algo no bolso da túnica. — Vou lhe dar uma coisa que poderá lhe ser muito útil. É uma erva.

— Remédio?

— Não, mas pode salvar sua vida melhor que um remédio. Você pega um pequeno punhado, masca essa folha e joga fora. Preste atenção: não engula de jeito nenhum, porque ela pode matar. Mas se você só mascar, vai parecer que você morreu. Isso pode fazer seus inimigos desistirem de você, se acharem que está morta e não será mais útil.

Anna olhou o frasquinho de vidro e indagou:

— Tem certeza que isso não faz mal?

— Só se você engolir. Não se esqueça disso.

— Puxa, isso é ótimo. Muito obrigada, Beorn.

— De nada, esquilinho. Agora acho que não mais nos veremos.

— Vai embora? Por quê?

— Estamos muito perto da cidade dos homens. Eles não gostam muito de mim, porque eu tento proteger os animais da floresta e eles caçam os animais. Lembre-se disso se tentar virar uma lebre ou veado.

Anna sorriu:

— Vou tentar me lembrar. Salvou minha vida mais uma vez. Espero poder retribuir um dia.

Beorn deu de ombros:

— Pensando bem, acho que pode retribuir. O mago disse que você tem histórias fantásticas. Pode me retribuir indo à minha casa e contando algumas delas para mim.

Ela indagou, ansiosa:

— Gandalf? Você viu Gandalf?

— Sim, foi ele que me disse sobre sua passagem em Mirkwood e pediu que eu desse uma olhada em você. Isso desde quando nos encontramos em Mirkwood, lembra? Na verdade, eu vim mais por curiosidade. Não acreditei que pudesse existir alguém menor do que o Coelhinho, o seu amigo Bilbo. Imagine minha surpresa quando vi que o mago não exagerara!

— E então virei Esquilinho... — Anna sorriu.

Beorn sorriu e disse, sério:

— Cuide-se, esquilinho. Pode-se ver que você está destinada a grandes atos. Grandes demais para alguém tão pequeno.

— Obrigada por tudo, Beorn. E tome cuidado, você também.

Após assentir, Beorn afastou-se do barco pelo rio e seguiu pelo pântano, lentamente andando pela floresta. Anna o observou ir embora, e viu-se totalmente sozinha no meio do rio. Ela suspirou, pensando no que faria em seguida.

O dia logo iria nascer. Se tudo desse certo de acordo com o livro, a companhia de Thorin Oakenshield já tinha chegado à Cidade do Lago, que mais tarde seria chamada de Esgaroth quando fosse reconstruída. Ela tinha que chegar lá rapidamente também. Agora ela tinha meios para isso.

Anna olhou em volta e viu um punhal no chão. Pegou-o nas mãos: élfico. Seu coração se apertou. O punhal era de Eldrin, com certeza. Ela o guardou no cano de sua bota, fazendo a promessa silenciosa de um dia entregá-lo a seu dono.

Rapidamente, Anna recolheu seus pertences e tudo que queria levar consigo. Ela só tinha que fazer mais uma experiência e saber se, quando virasse animal, ela também poderia incorporar os objetos ou se teria que carregá-los.

Podia parecer estranho, mas ela precisa ter a informação; porque ia ser bizarro ver um esquilo tentando carregar uma sacola de roupas, um punhal élfico e uma espada na Cidade do Lago. Mas Anna rapidamente decidiu que um esquilo não seria o animal ideal.

Ela experimentou até o sol raiar, rezando para aquela geleia real ser suficiente.