Jornada Para Erebor

31 Inexperiência desastrosa


Notas iniciais
Na Cidade do Lago, há 13 anões e um hobbit

Na cidade, ninguém sequer deu bola para um pequeno falcão-peregrino que pousou desajeitadamente no topo de uma das casas de madeira das ruas centrais. A localização, embora central, era discreta: poucas pessoas estavam por ali. Após se certificar que não havia observadores próximos, o falcão fez algo inusitado para aves de rapina: pousou no chão.

O falcãozinho fez uma escolha cuidadosa em pousar num beco perto da parte central. Afinal, o que o povo da cidade diria ao ver um falcão carregando no pescoço o colar com uma conta anã e uma pequena mochila de roupas?

E então o falcãozinho sumiu.

Anna comeu mais um pouco da geleia real de Beorn, observando com alarme que o potinho estava quase no fim. Rapidamente, ela recolheu seus objetos, mantendo escondida a espada debaixo das roupas e o punhal élfico dentro da bota. Ela descobrira que tudo que estava em contato com sua pele era incorporado à sua forma animal.

Se, pela semelhança com Harry Potter, ela pensara no termo Animago para definir bruxos que se transformavam em animais, agora ela entendia melhor o termo troca-peles. Se o objeto (como a espada e o punhal) estivesse em contato com sua pele, também era transformado.

Arrumando a capa de viagem, Anna respirou fundo e lançou-se à cidade, disposta a procurar seus amigos.

A primeira coisa que Anna notou era que a Cidade do Lago era um local totalmente feito de madeira, construído sobre palafitas. Então não dava para comparar com Veneza, pois não havia ilha. Para andar de uma casa a outra, havia barcos ou pontes.

A segunda coisa que Anna notou era que estava enfraquecendo muito rapidamente. Andando o mais rápido que podia, ela chegou ao mercado, que fervilhava de gente. Ela tentou indagar aos comerciantes sobre um grupo de anões da Montanha Solitária. Para infelicidade da moça, ela era muito pequena e parecia que todos tendiam a ignorá-la ou dispensá-la rispidamente. Além disso, o mercado estava cheio de gente ocupada em vender, comprar, escolher artigos. Ninguém prestava atenção nela. Depois de mais de uma hora, Anna começou a desanimar, cada vez mais fraca.

Ela não tinha muita ideia de onde ir. O livro não era muito específico sobre as atividades da companhia na cidade, além do fato de terem ficado duas semanas ali, arriscando a ira do rei élfico. Então Anna sentia-se muito perdida, tentando localizar os anões sem entrar em pânico. De repente, foi abordada por dois guardas armados e muito maiores do que ela.

— Era você o rapazinho que queria saber sobre os anões de Erebor?

Anna olhou para cima.

— Sim, senhor. Pode me ajudar?

O homem pouco simpático anunciou:

— O Senhor da Cidade do Lago quer ver você.

Anna hesitou, desconfiada.

— Mas... Eu... Por favor, eu não…

Foi agarrada e empurrada pelo guarda.

— Vamos logo, menino! Não discuta!

— Não! — Ela tentou reagir, mas estava fraca demais. — Por favor, senhor, não faça isso!...

Os dois guardas ignoraram os apelos de Anna e praticamente arrastaram a moça pelos braços em pleno mercado. Tão fraca estava Anna que mal via o que se passava a sua volta, enquanto era arrastada para uma das casas de madeira do local, a casa mais rica e enfeitada.

Se pudesse ter visto seu ambiente, Anna certamente teria notado ao longe Nori, que tinha ido ao mercado ver as perspectivas de exercer seu ofício de ladrão. O anão percebeu a comoção com os guardas adiante e aproximou-se, no intuito de ver se eles estavam de olho em batedores de carteiras. Ao reconhecer Anna, Nori chegou ainda mais perto e obteve informações. Depois largou o que fazia e correu a contar tudo aos demais.

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O que está me dizendo?! — Thorin sentiu sua voz ecoar pela casa, e seu corpo inteiro tremer de fúria. — Tem certeza?

Estavam todos na casa onde o Senhor da Cidade alojara a companhia depois que Thorin se apresentou como rei sob a montanha, numa expedição para reconquistar Erebor. Thorin não podia negar a satisfação por terem sido recebido com festa e alegria. O povo da Cidade do Lago voltara a cantar as músicas de antigamente, falando da riqueza que circulava na antiga cidade de Valle, vinda do reino de Erebor, antes do ataque de Smaug.

Tinham passado uma noite de reis, com muita comida e bebida, e Thorin sorria, pois sua companhia estava contente. Após o ordálio no palácio do rei elfo Thranduil, o hobbit tinha conseguido soltá-los das prisões e feito todos chegar em segurança e relativa saúde até a Cidade do Lago. Agora todos descansavam, e o povo da cidade os enchia de presente.

Por ter passado a noite ao relento, meio nadando, meio afundado no rio, Bilbo estava doente e de cama, num outro quarto, sob o tratamento de Óin. Thorin confiava no hobbit, por isso esperava a pequena aparecer na cidade, como Bilbo dissera que ficara combinado entre eles. Ele ansiava e temia pelo reencontro, pois ia ter que se explicar muito. Talvez Thorin tivesse perdido o amor dela, após seus atos em Rivendell.

Ele tinha que tentar consertar isso. No momento, para Thorin, isso era o que havia de mais importante, naquele momento. Ao menos, era o que ele pensava, até Nori ter dito que vira Anna ser presa em pleno mercado da cidade.

Kíli e Fíli também pularam das cadeiras ao ouvir aquilo. O arqueiro gritou:

— Precisa falar tudo, Nori!

Fíli quis saber:

— Está seguro que era nossa pequena? Responda logo!

Nori se angustiou, dizendo:

— Era a pequena, sim, eu tenho certeza. Dois guardas a arrastavam para a casa do Senhor da Cidade. Mas eles estavam achando que era um rapazinho. E ela não parecia nada bem.

— Não parecia bem? — repetiu Thorin, cada vez mais alterado. — Explique isso.

— Isso não pude ver bem, Thorin — disse Nori. — Mas ela parecia estar sendo arrastada, como se não conseguisse andar direito.

— E o que você fez? Por que não os deteve?

— Eram dois guardas armados, e eu estava sozinho e sem armas — argumentou Nori. — Achei melhor não perder tempo e vir logo.

Thorin se ergueu, decidido:

— Vamos lá agora. Kíli, Fíli, peguem as armas que puderem. Dwalin, você também.

Balin praticamente o segurou com as duas mãos.

— Thorin, espere! Pense um pouco.

Kíli indagou:

— O que há para pensar? Temos que resgatar a pequena!

— É! — concordou Fíli. — Deveríamos ir todos!

Ori gritou:

— Não podemos abandoná-la!

Bofur estava temeroso:

— Não podemos perder tempo! Se a prenderem, não há como saber o que farão com ela!

— Podem até querer torturá-la! — ofereceu Glóin. — Humanos fazem isso!

O mero pensamento fez o estômago de Thorin se revolver. Ele atravessou o aposento. — Eu estou indo.

Agora ele viu Balin se jogar na frente de seu rei.

— Espere só um pouco, escute, Thorin! — Os demais o olharam, incrédulos, e Balin teve que ser rápido ao expor seu raciocínio: — Se vocês chegarem assim, o Senhor da Cidade vai saber como Anna é importante para todos – e para o rei. Ela pode virar uma refém valiosa. O Senhor da Cidade está com medo da reação do rei élfico quando souber que escapamos, pode até querer oferecê-la a Thranduil para aplacar sua ira.

Toda a cor se esvaiu do rosto de Thorin.

— Não...!

Balin deu a ideia:

— Sugiro irmos Dwalin e eu agora mesmo, com o intuito de desfazer o mal-entendido e dizer que é um hobbit da companhia, que se perdeu na viagem. Não levantará suspeitas e poderemos resgatá-la em pouco tempo.

Thorin resistiu, seus instintos de guerreiro gritando para ele ir até lá e resgatar sua amada a machado e espada, ainda que tivesse de atravessar um mar de soldados humanos. Mas Balin, o sempre prudente Balin, tinha razão. Por isso, com extrema relutância, Thorin concordou:

— Muito bem. Faremos do seu jeito. — Kíli gemeu, decepcionado. Thorin continuou: — Mas Dwalin está instruído a atacar, se precisar.

O anão tatuado deu um sorriso tão ameaçador que fez Ori arregalar os olhos. Thorin chegou perto dos dois e rosnou, entre dentes:

— Tragam-na de volta. Massacrem todos eles, ataquem com ferro e fogo, ou peçam reforços, mas arranquem Anna de lá a qualquer custo. Ou por Aulë, Balin, farei você pagar.

Balin assentiu e fez uma reverência. — Dou-lhe minha palavra, Thorin, meu rei.

Thorin viu os dois saírem rapidamente e deixou-se cair numa poltrona próxima, de punhos cerrados. Suspirou, frustrado, uma raiva púrpura subindo-lhe o peito.

Ele não iria falhar Anna de novo. Não desta vez.

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Os filhos de Fundin não tiveram dificuldades para chegar à mansão do Senhor da Cidade. Contudo, a exigência de ver o líder imediatamente já foi mais complicada. Balin explicou:

— Ouvimos dizer que um membro de nossa Companhia foi levado pelos guardas.

O auxiliar do Senhor da Cidade indagou:

— Conhecem a criatura?

— É parte da Companhia de Sua Majestade, o rei Thorin — respondeu Balin, com um sorriso cortês. — Tenho certeza que Sua Majestade ficará agradecido se devolverem nosso companheiro.

Ele ergueu uma sobrancelha, dizendo:

— Meu senhor pode se interessar por isso. Esperem aqui.

Balin e Dwalin esperaram menos de cinco minutos, tempo esse que ficaram observando a rica casa do Senhor da Cidade, que também funcionava como uma espécie de centro administrativo. Uma vez que o cargo era eletivo, Balin ficou a imaginar se o lugar pertencia ao Senhor ou à Cidade. Então se o Senhor atual não fosse reeleito, ele tinha que sair de sua casa?

O velho anão jamais iria entender esse conceito de eleição. Esses humanos da Cidade do Lago eram muito esquisitos. Outros humanos tinham reis, normalmente, como os elfos e anões. Quanto despropósito, essa ideia de ter que eleger um novo governante de tantos em tantos tempos, pensou ele, indo além: “Imagine se um rei anão tivesse que ir procurar outra montanha para reinar de quatro em quatro anos!”

Dwalin o tirou do devaneio quando o ajudante do Senhor da Cidade voltou. O homem anunciou:

— O Senhor da Cidade ficará encantado em receber os representantes do rei Thorin agora. Podem me acompanhar.

Balin quis saber:

— E nosso companheiro?

— Está lá em cima. Venham por aqui.

Balin e Dwalin obedeceram, subindo por escadas de madeira. Foram levados a uma espécie de escritório. A primeira pessoa que viram foi o Senhor da Cidade. Anna estava no chão, inconsciente. Dwalin exclamou:

— Anni...!

O Senhor da Cidade indagou:

— Então conhecem a criatura?

Balin cumpriu o protocolo, fazendo uma reverência profunda.

— Balin, a seu dispor, Excelência. Viemos confirmar os rumores que um membro de nossa companhia tinha sido encontrado.

— Então ele veio com vocês?

— Perdeu-se no caminho — explicou Balin. — É muito jovem, um pouco inexperiente.

— Deve ser muito jovem mesmo. Não tem nem barba. Nunca tinha visto um anão sem barba.

— Anni não é anão. É um hobbit, sobrinho do hobbit que veio conosco — aquele que se resfriou.

— Ah, um hobbit! — O Senhor da Cidade abriu um sorriso. — Criaturinhas vulneráveis, não? O rapazinho estava bem mal quando meus homens o acharam. Agora desmaiou.

Balin deu um sorriso solidário, e o homem bateu palmas:

— Tudo esclarecido, então. Excelente! Sabe, esse negócio de gente chegando à minha cidade sem eu saber como... É um tanto embaraçoso, se compreende meu ponto de vista.

— É claro, é claro. — Foi a vez de Balin bater palmas. — Bem, se está tudo certo, podemos levar o rapaz agora? Ele precisa de atendimento.

— Oh, sim. Por favor.

Dwalin não perdeu tempo e pôs Anna no ombro, como uma carga. Alarmou-se com o pouco peso dela, mas nada disse: apenas encarou o irmão.

Balin fez nova reverência respeitosa, agradeceu polidamente e saiu dali o mais depressa que pôde.

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O cheiro bom trouxe, aos poucos, Anna de volta à consciência. "Será que mamãe fez aquele ensopado de carne com legumes?", pensou ela, ainda meio dormindo.

A voz soava distante, até um pouco distorcida:

— Vamos lá... Só um pouquinho...

"Mamãe está com voz grossa, pode estar gripada... Será que peguei esta gripe?"

Por ter pensado em sua mãe, Anna visualizou seus cabelos brancos e olhos doces. Quando conseguiu abrir os olhos, viu os cabelos brancos...

... e tranças...

... e barba e bigode?

Não era sua mãe.

Anna engoliu o líquido quente antes de reconhecer.

— D-Dori...?

O rosto amplo se abriu num sorriso.

— Oi, pequena — saudou ele. — Bem-vinda!

Anna fechou os olhos:

— Cansada... Não sei se vou ficar acordada...

— Deve comer um pouco primeiro. — Dori colocou a colher perto dela. — Vamos lá, abra a boca.

Anna tomou outra colherada, mas em seguida a inconsciência voltou a dominá-la.

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Na segunda vez que Anna voltou à consciência, foi aos poucos. Era noite, e na fraca luz de vela, ela enxergou o que parecia ser apenas um mar ruivo brilhante, cor de cenoura. Zonza, Anna apertou os olhos e finalmente reconheceu:

— Mestre Glóin?

— Sim, dona. Sente-se melhor?

— Que houve?

— Esperávamos que pudesse dizer. Você estava muito mal. Sorte sua que Nori a viu no mercado.

— Sim... O mercado... — O cérebro de Anna pareceu finalmente começar a funcionar, e ela se alarmou: — Estamos na cidade? Estão todos bem?

— Não se preocupe. Agora, que tal tomar a sopa toda?

— Estou fraca...

— Tenho ordens de não deixá-la dormir sem tomar tudo. Vamos, deixe-me ajudá-la.

Mais uma vez Anna foi alimentada na boca. Ela estava constrangida.

— Desculpe todo o trabalho...

— Bobagem. Você está melhorando depressa. Mestre Bilbo está bem pior. E ainda reclama!...

— Bilbo está doente?

— Terrível resfriado, bem pavoroso — respondeu. — Agora fique aí bem quieta, enquanto chamo Óin. Ele pediu que fosse chamá-lo se acordasse.

— Vou tentar... Obrigada, Mestre Glóin.

Na verdade, Anna mal estava acordada quando Óin a viu. Ele a pronunciou sem febre.

— Descanse — recomendou. — Deve acordar se sentindo melhor.

Anna não teve certeza de ter ouvido a orientação do curador, mas já estava cumprindo de qualquer maneira.