Jornada Para Erebor

28 Os melhores planos têm um furo


Notas iniciais
Aquele momento constrangedor em que nada dá certo

Impossível controlar a ansiedade durante o recital de flauta e harpa, menos ainda durante o jantar. Anna estava atenta, imaginando que a qualquer minuto alguém podia dar o alerta de que os prisioneiros tinham escapado. Ela tentou manter a conversa leve e divertida.

Por um minuto, Anna imaginou como poderia ter certeza que os anões escapariam aquela noite. E se Bilbo não encontrasse barris suficientes? E se o chefe da guarda tivesse escolhido justamente aquela noite para ficar sóbrio?

Nada disso era relevante. Anna estava em tal estado de nervos que estava difícil até olhar para Thranduil sem lembrar os momentos terríveis na cela com Thorin. Ela só queria sair daquele lugar o mais depressa possível.

O jantar passou, todos se recolheram, e Anna pôs-se a arrumar seus pertences mais preciosos: o colar de Thorin estava sempre em seu pescoço ou por baixo da roupa, mas desta vez ela optou por vestir primeiro a cota de malha, depois as roupas da prática de espada. Presa às costas, estava a espada, e na sacolinha tipo mochila, estavam as cobertas e colchão de dormir.

Ela esperou até a madrugada bem alta antes de arriscar abrir a porta do quarto. Quando ela o fez, porém, havia grande movimento de guardas no corredor.

Aquilo não parecia bom.

Num reflexo, Anna fechou a porta rapidamente, pôs as trouxas embaixo da cama, jogou-se no leito e cobriu-se, fingindo dormir. Ela estava assustada. O que estava acontecendo?

De repente, a porta de seu quarto se abriu com força. Anna fingiu acordar:

— Hum..? O q-quê...? Legolas?

O príncipe estava parado na porta e ia abrir a boca, quando o pai irrompeu pelo quarto adentro:

— [Revistem tudo! Eles devem estar escondidos!]

Guardas invadiram o local, revirando tudo. Anna se encolheu na cama, assustada, puxando as cobertas:

— O que houve? O que aconteceu?

Thranduil gritou com ela:

— Onde estão eles?! Diga! Você está escondendo seus amigos? Responda!

Anna começou a tremer:

— O que é isso? Por que tudo isso? Vocês estão me assustando!

O guarda deu o relatório:

— [Nada, Majestade. Nem sinal dos anões aqui.]

O rei estava vermelho de fúria e dirigiu-se a Anna:

— Os anões fugiram! Escaparam das masmorras! Você os ajudou? Responda!

Anna também gritou:

— Como eu poderia, se nem os vi? Fiquei aqui a noite toda, bem sabe disso!

— Quero que saiba que vou caçá-los — rosnou o rei elfo para ela. — Mas se eu descobrir que você os ajudou, vai se arrepender!

Foi a vez de Anna responder:

— Então serei a próxima a ocupar as masmorras, Majestade?

Desta vez Thranduil não respondeu: fuzilou-a com os olhos. Anna sustentou o olhar, mesmo tremendo de susto e raiva. Thranduil se virou para os guardas, gritando ordens, e saiu.

Anna ficou sozinha, ainda encolhida de medo e de raiva, ofegante, e com Legolas a encará-la com uma expressão constrangida.

— Lamento muito — disse o elfo.

— Eu sei — disse Anna. — Na verdade, eu também lamento.

Legolas assentiu antes de recomendar:

— Tente descansar. E não abra a porta para ninguém.

— Está bem.

Legolas deu um sorriso tímido e fechou a porta, deixando Anna sozinha.

Dois minutos mais tarde, ela pulou para fora da cama, pegou as coisas separadas e experimentou a porta.

Estava trancada.

Trancada?

Um frio percorreu sua espinha, e Anna perdeu toda a cor no rosto. Sentiu até uma pontada de enjoo.

O plano dela estava indo rapidamente por água abaixo.

E agora? Como ela poderia escapar? Parece que Thranduil não perdera tempo em trocar o quarto pelas masmorras.

"Oh, por que eu não fui parar em Hogwarts?"

Anna tentou se acalmar, controlar as emoções com respirações profundas. Pense, Anna, pense.

Sentou-se na cama, tentando imaginar um jeito de abrir aquela porta.

Então a dita porta se abriu.

Anna viu Legolas entrar, acompanhado de Eldrin. O elfo de Rivendell imediatamente foi para junto de Anna.

— Anna, você está bem? Alguém a machucou?

Anna tinha os olhos fixos em Legolas ao dizer, com escárnio e agressividade.

— Esta prisioneira foi bem-tratada até agora.

O príncipe elfo ignorou a provocação, dizendo:

— Sigam minhas instruções com cuidado. Vou ajudá-los a escapar.

Eldrin indagou:

— Desculpe, mas por que deveríamos confiar em você, Alteza?

Anna reforçou:

— É, dê-nos ao menos duas razões. Rápido.

Legolas cerrou os punhos, contrariado, mas aquiesceu:

— Em primeiro lugar, quero agradecer o que fizeram por meu pai, sem saber ou sem querer.

— Explique — exigiu Anna. — Como ajudamos seu pai?

— Anões são criaturas teimosas, como devem saber — disse Legolas. — Provavelmente, anos se passariam e eles jamais diriam o que meu pai quer saber. O problema é que o rei jamais os deixaria ir, pois seria admitir uma derrota. E os anões não diriam nada antes de décadas se passarem. O desenlace seria muito ruim para nosso reino e nossa raça. Com dois reis envolvidos, era grande a chance de tudo se degenerar em guerra. Enfim, nada seria bom para ninguém. Uma fuga dos prisioneiros serve muito aos dois lados. Obrigado.

Anna viu a lógica do argumento, e respondeu:

— Se eu estivesse envolvida na fuga de seus prisioneiros (e isso não quer dizer que eu esteja), tenha certeza de que minha última motivação teria sido salvar a pele de seu pai! — Anna respirou fundo e perguntou. — Eu pedi pelo menos dois motivos. Qual é o segundo?

O príncipe respondeu:

— Não é muito diferente do primeiro. Vocês prestaram um serviço a meu pai também diante de Lord Elrond.

Agora foi Eldrin que indagou:

— Meu senhor Elrond? Como assim, Alteza?

Agora Legolas pareceu bem mais sombrio.

— Por causa de sua "traição", meu pai colocará vocês dois nas masmorras. Tal atitude certamente cairia mal nos ouvidos de Lord Elrond, pelo tratamento dado a uma protegida do Senhor de Rivendell e um de seus soldados. A Senhora de Lothlórien, outra protetora de Lady Anna, também poderia tomar ofensa no gesto. Então vocês veem o cisma sério que causaria com nossos irmãos elfos de dois reinos. Nunca houve um precedente do tipo em toda nossa história na Terra Média. Seria desastroso.

Anna ergueu uma sobrancelha. "Droga, ele tem uma lógica que rivaliza com Spock." Mas ela indagou, ainda desconfiada:

— E como saberemos que não vai nos ajudar só para nos entregar a Thranduil? O rei é seu pai.

O príncipe admitiu:

— Não tenho argumentos para isso, a não ser indagar: diante de tudo que expus, em que sua prisão ou a de Thorin Oakenshield ajudaria meu pai ou o rei?

Eldrin reconheceu:

— O que ele diz faz sentido.

Anna admitiu que fazia muito sentido. Mas ela se preocupou com uma coisa:

— Está bem, mas não queremos prejudicá-lo. Como você vai esconder sua participação em nossa fuga?

Legolas deu de ombros:

— Para isso, preciso da ajuda de vocês.