Jornada Para Erebor
59 O problema com Kíli
Notas iniciais
Bilbo Baggins tinha vontade de se encolher e se enfiar no cômodo mais profundo de Bag End. Três elfos, um mago e um Thorin o encaravam, abismados.
Gandalf quebrou o silêncio constrangedor, dizendo de maneira gentil:
— Meu querido Bilbo, onde você ouviu essa palavra?
O hobbit gaguejou:
— E-eu falei errado? Não tenho certeza...
— Você falou corretamente, mas são poucas pessoas que a conhecem — disse Elrond. — Quem disse isso?
— Foi Beorn — respondeu Bilbo, cada vez mais assustado. — E-eu me esqueci, desculpem, ele falou antes, mas eu... Desculpem, por favor, me desc-
Gandalf o interrompeu:
— Está tudo bem, Bilbo. Mas fale o que exatamente Beorn lhe disse.
O hobbit tremia:
— Ele disse que Anna podia ter tomado staselas. E que não deveríamos perder as esperanças.
— E ele tem toda razão — disse Gandalf. — Porque isso muda tudo.
Thranduil comentou com os demais:
— Staselas explicaria muito da condição dela. E também por que os tratamentos não surgiram efeito.
Thorin quis saber:
— O que é staselas?
Elrond indagou:
— Trata-se de uma erva, mortal quando ingerida, mas inofensiva se apenas mascada. É capaz de simular a morte.
— Normalmente seu efeito dura algumas horas — completou Thranduil. — Mas ela já está assim há dias.
Elrond comentou:
— Isso não é bom. Staselas pode levar à morte, sim.
— Não há nenhum antídoto? — quis saber Thorin, angustiado.
— Não que se saiba — disse Thranduil. — Os efeitos nunca demoram muito. É preocupante que Anna ainda esteja inconsciente.
— Ela é muito pequena — lembrou Gandalf. — Talvez por isso a erva tenha efeito mais duradouro.
Thorin parecia cada vez mais aflito:
— Deve haver alguma coisa que possam fazer.
Bilbo comentou:
— Será que é por causa do bebê?
Elrond voltou-se para ele, genuinamente surpreso.
— Bebê? Anna... está com criança?
Gandalf completou:
— Está grávida, sim. Isso é relevante?
— Mais do que imagina — disse Elrond, sombrio. — Mas teremos que lidar com isso de qualquer modo.
De trás do grupo, Legolas sugeriu:
— Quem sabe uma infusão de athelas possa reverter os efeitos da staselas?
Elrond comentou:
— É uma boa ideia. Vou começar a preparar. Enquanto isso, Thranduil, explique-me quais foram seus procedimentos até o momento.
Os dois passaram a conversar em élfico, ao redor da cama de Anna, buscando uma forma de devolver a saúde à pequena. Thorin tentava acompanhar tudo, mas estava claramente fora de seu elemento. Ele se afastou da cama de Anna para dar espaço aos outros.
Eldrin aproximou-se do Rei Sob a Montanha, dizendo:
— Procure se animar, Majestade. Lady Anna está nas mãos das mentes mais competentes de toda a Terra Média. Eles vão curá-la.
Thorin encarou-o, dizendo:
— Posso ver por que Anna o considera tanto. É um bom amigo.
— É uma honra servi-la, Majestade — Eldrin fez uma reverência. — Ela me salvou e sempre terá minha amizade eterna. O Sr. Lindir também mandou a Lady Anna seus respeitos e votos de pronta recuperação.
Thorin observou:
— Tive a impressão de que Lindir não aprovava meu povo.
— Com todo respeito, milord — disse Eldrin —, ele só expressou desejos pela saúde de Lady Anna.
Thorin o encarou, por um minuto sem saber como encarar aquelas palavras. Mas o brilho divertido nos olhos de Eldrin fez o rei anão dar um suspiro e dizer, em um arremedo de irritação:
— É claro. Nada mais se pode esperar de um elfo.
Eldrin o encarou, agora sem esconder o riso:
— Entendido.
O diálogo amistoso entre elfo e anão foi interrompido pela entrada de Dwalin na tenda. O feroz anão lançou um olhar desconfiado para Eldrin, e o elfo curvou-se para Thorin antes de se juntar a Bilbo, Elrond e os demais.
Dwalin ainda rosnava para o elfo de cabelos pretos quando Thorin indagou:
— Como estão as coisas? Dáin está mais calmo?
— Não sei se está mais calmo, mas certamente está mais impressionado com as alianças políticas que a pequena obteve para Erebor.
— Serve-lhe bem — comentou Thorin, ainda contrariado com o primo. — Depois do que ele disse...
Dwalin quase o interrompeu:
— Não foi disso que vim falar. Entrei com o pretexto de saber sobre a pequena, mas acho que deve vir à montanha. Temos um problema.
— Um problema.
— É Kíli.
— O que tem ele?
Dwalin se lançou numa explicação completa em Khuzdul, e Thorin ficou agitado. Mesmo longe, Bilbo notou a agitação e foi até eles.
— Está tudo bem?
Thorin respondeu:
— Mestre Baggins, preciso de um favor. Parece que Kíli tem um problema que só eu posso resolver.
Bilbo se alertou:
— Kíli? Ele está bem?
— Vai ficar. Bilbo, fique com Anna, por favor. Volto assim que puder.
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Thorin foi encontrar o jovem príncipe dentro da montanha, juntando sua mochila. Kíli estava de costas e não se virou, embora tenha ouvido Thorin chegar.
— Fíli me diz que está partindo — disse Thorin. — E diz que vai partir sozinho.
— Vou avisar nosso povo em Ered Luin que Erebor foi retomada. Demorarei menos se for sozinho. — Ele fez uma breve pausa e indagou, ainda de costas: — Como está Anna?
— Mais elfos chegaram. Têm esperança de curá-la.
— Isso é bom.
Thorin pediu:
— Kíli, fale comigo. O que há com você? Olhe para mim.
— Não posso, Thorin — disse o rapaz, angustiado, de cabeça baixa. — Como posso olhar para você? E como você pode olhar para mim...?
— Em nome de Mahal, Kíli, do que você está falando?
Kíli se virou, e Thorin viu que ele tinha os olhos cheios d'água e a voz embargada.
— Não posso ficar aqui. É minha culpa Anna estar nesse estado. Se eu tivesse sido mais rápido, Azog não teria me capturado e Anna estaria bem!...
— Não diga isso — falou Thorin. — Isso não é verdade.
— Claro que é! É minha culpa!
— Então quer dizer que a culpa foi minha quando Anna enfrentou um warg sozinha e quase morreu?
O rapaz negou com veemência:
— Thorin, claro que não! Eu vi tudo. Você não teve culpa nenhuma.
— Nem você tem culpa neste caso. — Thorin suspirou. — Mas eu me senti culpado na época, tanto como você se sente agora. Ela se arriscou por mim. Quase morreu. Agora ela se arriscou por você. Porque é assim que Anna é. Entenda que sou tão culpado quanto você, Kíli. Essa é Anna: generosa com os que ela ama.
Kíli encarou-o para ter certeza de que ele realmente era sincero.
— Mas... Parece ser minha culpa, Thorin. Eu me sinto tão culpado.
— Ainda bem que Anna não está aqui — disse Thorin. — Já imaginou o que ela diria se ouvisse o que está dizendo?
Com um suspiro, Kíli tentou sorrir, mas ainda estava angustiado. Cortava o coração de Thorin ouvir a voz sempre alegre e animada de Kíli soando tão miúda e aflita:
— E... se ela morrer por minha causa?
— Vou repetir: você não tem culpa pelo que aconteceu a Anna. Se há algum culpado, é Azog, maldito seja. Se ela morrer... — Thorin respirou fundo, tentando se controlar, antes de tentar de novo. — Se ela morrer, então teremos que conviver com a morte de mais um inocente em batalha, e nos lembrarmos que essa é a razão pela qual devemos sempre abominar guerras. A morte, a destruição e o horror são as únicas certezas que trazem. Anna tentou me dizer isso, mas eu estava doente demais, obcecado por ouro, para me lembrar dos verdadeiros tesouros à minha volta.
O rapaz abaixou a cabeça, desolado. Thorin indagou:
— Kíli, posso lhe pedir um favor?
— Sim, Thorin — disse o jovem. — O que quiser.
— Não me faça perder você. Vou precisar de você e de seu irmão para reconstruir Erebor e viver em paz com nossos vizinhos. Espero poder contar com sua ajuda.
— Tio...
Kíli o abraçou, e Thorin teve certeza de que o rapaz estava emocionado. Desde que deixara de ser criança, Kíli jamais o chamava de tio, a menos que estivesse muito comovido. Abraços e demonstrações físicas de afeto não eram gestos costumeiros na linhagem de Durin, mas aquele momento também não era comum. Thorin abraçou o rapaz, como se tivesse voltado no tempo e Kíli fosse de novo o menino travesso que se metia em encrencas e deixava Thorin de cabelos brancos.
— Venha, criança de Durin — chamou Thorin. — Prometi a Bilbo que não demoraria a voltar para junto de sua futura tia.
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