Notas iniciais
A condição de Anna muda de repente

Assim que Thorin entrou com Kíli na tenda onde os elfos cuidavam de Anna, ele sabia que havia algo no ar. Primeiro, todos pararam de falar e o encararam, ansiosos e tensos em silêncio. A única exceção era Bilbo, de costas, curvado sobre Anna.

Sem saber se o coração queria parar ou acelerar, Thorin quis saber:

— O que houve?

Os olhos caídos de Gandalf pareciam ainda mais tristes quando a voz dele soou, cansada e velha:

— Íamos mandar chamá-lo, Thorin Oakenshield. A condição de Anna piorou.

Kíli se alarmou:

— O quê?

Thranduil também parecia desgastado ao responder:

— Ela não reagiu bem ao tratamento. Sinto muito.

Thorin estava sem voz, e não sabe dizer como conseguiu pronunciar:

— Ela... está...?

Elrond respondeu, sombrio:

— Ainda não, mas é melhor fazer suas despedidas logo.

Bilbo se ergueu para dar lugar a Thorin. O Rei Sob a Montanha quase não reconheceu o hobbit quando ele se virou: o rosto inchado, nariz e olhos vermelhos de tanto chorar. Bilbo teve que ser amparado por Gandalf para se afastar.

Thorin se aproximou da cama, levado por um movimento meramente mecânico de suas pernas. Sem perceber, ele se debruçou exatamente como Bilbo sobre o corpo imóvel e gelado de Anna, deitado na cama feita para alguém muito maior do que a pequena. Ela não parecia sequer estar respirando, de tão totalmente imóvel.

O Rei Sob a Montanha não deteve as lágrimas que caíam sobre o rosto de sua amada. As mãos dele acariciaram os curtos cabelos claros, as bochechas frias. Num gesto de derrota, ele descansou sua cabeça sobre o peito de Anna e soluçou em silêncio.

Todo o ambiente estava quieto. Thorin não tinha visto, mas todos tinham saído para dar ao rei anão privacidade no adeus a sua amada. Só que Thorin não estava pronto para se despedir da pequena que tinha entrado em sua vida de maneira tão intensa. Ele queria ter anos ao lado de Anna, envelhecer ao seu lado, vê-la envelhecer, acompanhar o filho deles crescendo em Erebor. Onde estavam esses anos? Por que Thorin não podia tê-los? Que maldição ele carregava que o impedia de ser feliz?

As lágrimas de Thorin não paravam de rolar. Na verdade, não pareciam secar. Ele continuava a acariciar a pele de Anna, cabeça no peito dela, sem notar nada, nem mesmo o movimento gentil do peito dela, para cima e para baixo. Então Thorin parou e franziu o cenho.

Havia movimento. No peito dela.

O rei anão sentou-se na cama, afastando as lágrimas para observar com atenção. Ele levou muitos minutos para ter certeza que o movimento era mesmo a respiração de Anna, pois eram intervalos muito irregulares. Mas era verdade. Ela respirava, mas agora com mais vigor.

Ela respirava. Ela reagia.

Sem poder reprimir a explosão de alegria, Thorin beijou os lábios gelados e secos com um sorriso murmurando "âzyungâl" antes de correr para fora da tenda, aos gritos.

Anna estava viva.

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A notícia se espalhou como fogo sobre palha por todo o acampamento e também pela montanha. A consorte do Rei Sob a Montanha tinha voltado dos mortos, era a voz corrente. Bilbo não escondia o quanto estava se divertindo com as diversas versões para a recuperação de Anna.

Os homens do Lago eram os mais confusos. Muitos achavam que o hobbit doente era o próprio Bilbo. A diversão do dito Bilbo Baggins era falar que o seu sobrinho doente era na verdade uma sobrinha que em breve se casaria com o rei de Erebor.

Se estavam confusos, os elfos de Mirkwood, claro, recusavam-se a demonstrar. Mas a atitude de reverência do rei élfico para com a criatura encorajava-os a estender esse tratamento a todos. Para todos os de fora, portanto, os únicos que sabiam o que estava acontecendo eram os elfos.

Quando os elfos confirmaram a melhora de Anna, Bilbo ficou tão aliviado que finalmente pôde descansar. Dormiu uma noite inteira e acordou tão bem que incentivou Thorin a fazer o mesmo. Como esperava, porém, o hobbit foi ignorado.

Porque Thorin, irredutível, recusava-se a deixar o leito de Anna enquanto ela não acordasse. A melhora era visível: o rosto dela voltara a ter cor, e, com a ajuda de Bilbo, os elfos até conseguiram fazê-la ingerir mais um pouco da infusão que salvara a sua vida, mesmo inconsciente. Eles tentavam mantê-la isolada, mas a companhia protestava, exigindo ver a pequena a quem todos tinham adotado.

Bilbo notou o alívio entre os elfos de Rivendell, mas Lord Elrond parecia três vezes mais enigmático. Ele chamava Gandalf para longas reuniões, e os dois ficavam cochichando em élfico, sem deixar sequer Thranduil participar.

Havia alguma coisa acontecendo. E nem Thorin percebia.

— Quando ela vai acordar? — perguntou o rei, impaciente.

— Não deve demorar — tranquilizou Elrond. — Quando isso acontecer, faremos um exame mais detalhado. Mas tudo indica que ela poderá se recuperar sem complicações.

— Óin também se mostrou interessado em verificar a saúde de nosso filho.

Elrond assentiu:

— Não há sinais de complicações para o bebê. Isso é espantoso, tendo em vista o que Anna passou. — Elrond ficou em silêncio um minuto antes de indagar: — Thorin, perdoe-me a curiosidade, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre Anna.

— Se eu puder responder, ficarei feliz.

— Disseram-me que ela se entregou ao orc Azog, o Profanador, para barganhar a vida de um anão. Era você?

Thorin respondeu:

— Não, era Kíli, filho de minha irmã Dís. Mas acho que Anna teria feito o mesmo por qualquer um da companhia. Ela disse isso a eles, certa ocasião. Não creio que eles tenham se dado conta do quão sinceras eram suas palavras.

Elrond assentiu, gravemente:

— Pode ter razão. E, corrija-me se eu estiver errado, mas esse Azog não era o mesmo orc que a tinha marcado com uma maldição das trevas?

— Gandalf disse que sim — respondeu Thorin. — Isso é relevante para a saúde dela?

— Não estou muito certo — confessou Elrond. — Mas acredito que ela tenha tomado staselas pensando que seus captores desistiriam dela se pensassem que tinha morrido.

Thorin arregalou os olhos.

— Então ela não tentava abreviar sua vida? Kíli disse que ela desistira de viver, pensei que...

Não completou. Elrond pôs a mão em seu ombro, sorrindo:

— Paz, Thorin Oakenshield. Não é da natureza de sua eleita cometer tais atos.

Thorin respirou fundo, mais aliviado. E de todas as pessoas da Terra Média para consolá-lo e trazer-lhe conforto, o rei anão jamais imaginara que seria um elfo.

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Thorin passava as noites na tenda, Eldrin de guarda do lado de fora. A guarda na verdade era só formalidade, já que não havia novos relatos de orcs e goblins na região e nem em Mirkwood.

Numa madrugada, Thorin ergueu a cabeça da cama de Anna para ver os olhos cor de mel fixos nele. Estavam abertos. Anna acordara, finalmente!...

Lentamente Thorin se ergueu, olhos azuis arregalados, respiração errática, como se ele temesse que aquilo fosse um sonho e Anna estivesse prestes a desaparecer diante de seus olhos. Ela o encarava, serena.

— Thorin... — A voz de Anna era estranha pela falta de uso. — Eu estou sonhando... ou estou morta...?

— Você está viva, voltou para mim... — Thorin sussurrou, estendendo a mão para tocar a bochecha dela com reverência. — Pequena...

Anna ergueu um braço para tocar a mão dele e certificar-se que ele era mesmo de verdade.

— Thorin... Acho que isso é mesmo real, porque você parece estar sem dormir há dias...

Com cuidado, Thorin a puxou para seus braços, afundando a cabeça em seus cabelos, murmurando:

— Perdoe-me, ghivasha... Sei que não mereço, mas ainda assim peço que me perdoe, minha joia mais preciosa... Eu lamento tanto... — Uma vez que ele começou a falar, parecia que as palavras não paravam de jorrar. — Agora posso ver que você tinha razão... Deixei-me levar pela doença de meus antepassados... Você foi fiel a mim, a nosso amor e eu lhe paguei tudo com traição e injustiça. Como sempre, eu provei ser indigno de você. Mas peço seu perdão porque sou egoísta e não sei viver sem você, ghivashel. Quando pensei que a tinha perdido, eu... eu...

Anna o interrompeu:

— Shh... — Ela o abraçava, consolando-o como se fosse uma criança acordando de um pesadelo assustador. — Está tudo bem... Eu estou aqui, meu amor.

Thorin tremia de emoção:

— Sinto que vou passar o resto da minha vida pedindo perdão e não será suficiente.

— Por favor Thorin... Eu preciso... preciso...

Anna não conseguiu terminar a frase, fechando os olhos. Ele se alarmou:

— O que foi? Está com dor? Você está bem?

Anna abriu os olhos, e eles estavam cheios de lágrimas.

— Por favor, me diga. O bebê... Está bem? Não me esconda nada.

— Oh, âzyungâl — disse ele, com olhos suaves, acariciando-lhe os cabelos. — Sossegue. Nosso filho está bem, até onde se pode dizer. Mas querem fazer mais exames, agora que acordou.

— Estão todos bem? Kíli? Fíli? Bilbo? Os demais?

— Alguns feridos, mas todos levemente.

Ela sorriu:

— Que bom. E você já pediu perdão a Bilbo? Ele deve ter ficado magoado.

Thorin garantiu:

— Seu tio me perdoou e juntos matamos Azog, que Mahal o faça sofrer eternamente. Pensamos que ele tivesse matado você. Bilbo desferiu o primeiro golpe para vingar sua morte.

Anna arregalou os olhos, repetindo:

— Bilbo... matou Azog?

— Precisava vê-lo — Thorin soava orgulhoso do hobbit. — Ele usou a espada para vingar você.

— Oh, Bilbo... — Anna suspirou, fechando os olhos. — Eu queria muito vê-lo, mas estou ficando cansada.

— Então durma, mizimel. — Thorin inclinou-se para beijar-lhe a testa. — Conto o resto das novidades quando estiver melhor.

Anna mal mantinha os olhos abertos:

— Por favor, Thorin... Fique comigo.

Ele pegou a pequena mão que agarrava seu braço e a apertou:

— Ficarei com você até o fim de meus dias, ukraduh.

O rei anão ajeitou-se na cama, apertando Anna contra seu corpo. Ela se aninhou em seu peito, murmurando:

— Amo você, Thorin...

Ele respondeu, beijando a cabeça dela:

— E eu amo você, uzayang.

Assim, abraçados, os dois caíram no sono: Thorin, de puro cansaço; e Anna, ainda torcendo para que aquilo não fosse apenas um sonho.

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Primeiro, Anna passou por exames. Ela ficou muito espantada com a presença de Elrond e também a de Thranduil. Depois quase teve um ataque ao ver Eldrin, seu grande amigo, que julgava ter morrido. A descoberta, claro, só trouxe a Anna ainda mais dúvidas sobre seu estado mental.

Na verdade, Anna só começou a sossegar após relatos detalhados da batalha e um exame minucioso de Óin, atestando sua saúde e a de seu bebê.

— Muito bem, menina — disse o velho anão. — Para quem quase morreu, vocês dois estão muito bem.

Anna quis saber:

— Óin, tem certeza de que está tudo bem? E não consegue mesmo saber quando o bebê vai chegar?

— Bom, isso vai depender se ele favorecer o pai ou a mãe. Posso ler os presságios quando as estrelas forem favoráveis. Mas ajudaria se você pudesse lembrar quando começaram os sintomas. Os enjoos, por exemplo.

Anna deu de ombros.

— Acho que tive enjoos por toda a viagem. Lembro-me de ter problemas com comida em Rivendell, depois em Mirkwood, na Cidade do Lago e até aqui na Montanha Solitária.

Óin se espantou:

— Mas quando foi que vocês... er, consumaram o casamento? Não pode ter sido na cidade dos elfos!...

Anna enrubesceu:

— Oh, bem, na verdade... Foram algumas vezes, então não sabemos dizer quando foi exatamente.

O velho anão balançou a cabeça:

— Jovens impetuosos!... — E ele sorriu. — Mas suponho que um amor grande assim seja impaciente.

— Por favor, mantenha isso só entre nós, sim? Não quero que isso reflita mal para Thorin. Você sabe: decoro e tudo mais.

— Está bem, pequena.

— Óin, eu quero lhe agradecer por deixar os elfos cuidarem de mim. Sei que você tem restrições a eles.

Ele fechou a cara.

— Normalmente não confio nesses comedores de mato. Mas eu sabia que não lhe fariam mal. Além disso, eu nem sabia como começar a tratá-la, e eles têm tratamentos que não conheço. Mas não conte a eles que eu disse isso.

— Será nosso segredo. Obrigada, Óin.

— Por mim, você pode sair já desta cama. Mas os outros curadores precisam vê-la.

Essa parte foi um pouco mais difícil. Thranduil e seu curador queriam manter Anna na cama mais tempo, para dar oportunidade ao ferimento do braço sarar. Anna reclamou que nem o sentia mais, mas isso não comoveu os elfos de Mirkwood, é claro.

Elrond, contudo, foi surpreendente de várias maneiras. Em primeiro lugar, ele receitou caldos supernutritivos e leves caminhadas enquanto Anna se sentisse fraca. Mas num dia desses, o Senhor de Rivendell guiou Anna pessoalmente para fora da tenda, onde uma águia gigante a esperava. Elrond os apresentou:

— Anna, este é Gwaihir, senhor de todas as nobres Águias de Manwë. Ele me trouxe até aqui.

Anna fez uma reverência.

— Sinto-me honrada por conhecê-lo. Agradeço tudo que seu povo fez por meu amigo Eldrin e pela ajuda contra os orcs e goblins.

A águia soou, uma voz nobre e profunda:

— A honra é nossa, pequena irmã. Estarei esperando o dia de levá-la ao local onde se revelará sua herança.

Anna franziu o cenho.

— Minha herança?

— Tudo será explicado em tempo — garantiu. — Até lá, descanse.

Anna ficou intrigada com as palavras de Gwaihir. Elrond notou a dúvida dela e disse:

— Poderemos falar disso mais tarde. Por agora, porém, não se inquiete com isso.

Com um suspiro, Anna não insistiu. Afinal, quando não queriam ser diretos, elfos eram mais que irritantes. Pensou em perguntar a Gandalf, mas se deu conta que magos não eram muito melhores que elfos nesse quesito.

Durante o tempo que ficou de cama na tenda, Anna praticamente não fazia nada além de receber visitas. Uma delas, a de Mestre Bard, foi especialmente agradável: conforme prometera, ela lhe contou a história de como conhecera Thorin e sua companhia e envolvera-se na jornada para Erebor.

Outras dessas visitas, porém, eram bem inusitadas. Por exemplo, se alguém dissesse há poucos dias que ela estaria recebendo Thranduil para um chá, Anna teria rido sonoramente.

Mas lá estavam os dois. Alojados como podiam na tenda onde Anna se recuperava, no encontro mais inusitado que ela podia imaginar.

— Confesso estar um tanto constrangida, Majestade — admitiu Anna. — Afinal, nosso histórico...

O elfo altivo a interrompeu:

— Por favor, chame-me de Thranduil. Os rumores são que em breve teremos status reais semelhantes, então não há necessidade de cerimônia.

— Da mesma forma — disse ela —, meus amigos me chamam de Anna.

Thranduil inclinou a cabeça para o lado, como fazia quando estava intrigado:

— Somos amigos?

Anna lembrou:

— Ajudou a salvar minha vida e a de meu filho. Lutou lado a lado com nossos aliados e ajudou a derrotar os inimigos. Se isso não o qualifica para ser meu amigo, não sei mais o que poderia ser – independentemente do que tenha se passado anteriormente entre nós.

— É bem generosa com suas amizades. Imagino o que seu futuro marido dirá sobre aqueles a quem chama de amigo...

Anna suspirou:

— Não tenho qualquer pretensão de apagar todas as mágoas e desconfianças entre elfos e anões, muito menos de mudar a opinião de um cabeça-dura como Thorin Oakenshield. Mas espero contribuir, de alguma forma, para diminuir o abismo entre vocês.

A isso Thranduil nada respondeu. Limitou-se a comentar:

— Confesso minha surpresa ao ver a deferência de Elrond com relação a você. Até então eu pensava que Lindir tinha exagerado demais em seus relatos.

Anna deu de ombros:

— Lord Elrond sempre me tratou de forma excessivamente gentil, bem como Lady Galadriel. Digo e repito: de elfos e anões só recebi um tratamento cortês e honroso. Por isso nada me daria mais alegria do que ver as duas raças em clima de concórdia e harmonia.

Thranduil sorriu:

— Posso ver a mudança em você, Anna. Já fala como uma diplomata.

— Talvez tenha uma ponta de razão, Thranduil, mas não se engane: falo como uma mãe, uma que não quer ver seu filho crescendo num reino às turras com os vizinhos. E também estou contente que tenhamos decidido enterrar os incidentes ocorridos durante minha estada em Mirkwood.

— Fala de ter atacado meu filho e libertado meus prisioneiros?

Anna fingiu estar escandalizada:

— Estou sendo injustiçada em ambas as acusações. Jamais encostei um dedo em Legolas, a quem considero quase um irmão. Muito menos pude libertar um anão sequer de suas celas.

Thranduil não se conteve e indagou:

— Mas ao menos me responda com sinceridade: aquele tapa no anão... Foi apenas um teatro, não?

— Oh, não — garantiu Anna. — O tapa foi genuíno e Thorin mereceu. Na verdade, se ele aprontar mais alguma como aquela, rei ou não, certamente vai levar outro tapa.

Agora Thranduil arregalou os olhos.

— Milady, a senhora é admirável. Assustadora, mas admirável.

Anna ficou genuinamente surpresa com a revelação do poderoso rei élfico.

Mas também não pôde esconder uma pontinha de orgulho.

Palavras em Khuzdul:

ghivasha = tesouro

ghivashel = tesouro de todos os tesouros

mizimel = joia de todas as joias

âzyungâl = amada

uzayang = grande amor

ukraduh = meu coração

Notas finais
Agora estamos perto do fim da história