Jornada Para Erebor
61 Mais surpresas
Notas iniciais
Anna também recebia visitas da companhia (suas favoritas). Na maior parte das vezes eles vinham em pequenos grupos, seguindo recomendação de Óin.
— Estamos tentando limpar tudo o mais rápido que podemos — informou Dori. — Agora, com calma, é que pudemos ver como as coisas estavam sujas.
Bofur esclareceu:
— Depois que descobrimos como o velho Smaug tinha emporcalhado a montanha, chamamos até o exército de Dáin para ajudar.
— Eles não gostaram muito — contribuiu Ori —, mas como Dáin estava em débito com Thorin...
— Débito? — repetiu Anna. — Como assim?
Antes que alguém pudesse impedi-lo, Bofur respondeu, animado:
— Eles se desentenderam feio, e tudo por causa de-
Dori gritou apressadamente:
— De ouro! Foi o tesouro! — Os outros o olharam, até Bofur, e Anna teve a impressão de que havia algo mais ali. Mas Dori apressou-se a continuar: — É, foi por causa do tesouro. Thorin tinha prometido dar uma parte aos elfos, lembra? Dáin não viu isso, então ele e Thorin brigaram. É, por causa dos elfos.
Anna indagou:
— Mas Dáin é primo de Thorin, não é? Eles não deviam brigar, ainda mais depois da ajuda que ele prestou a Erebor.
Bifur começou a gesticular, e Bofur respondeu:
— [Eu sei, mas não podemos dizer isso a ela. Thorin proibiu.]
Anna franziu o cenho, mas decidiu não perguntar nada. Ela se dirigiu a Bifur, e não escondeu a emoção:
— Foi uma pena seu presente ter se perdido em toda essa confusão, Bifur. Eu o adorei. Muito obrigada.
O anão sorriu para Anna, e Bofur disse:
— Ainda bem que mencionou, eu já tinha esquecido. — Ele pôs a mão no bolso e de lá tirou a pequena escultura de um lírio, feita em madeira. Entregou a Anna. — Nós achamos quando fomos limpar o local.
Ela mal se continha de tanta alegria, segurando a peça com cuidado. Tão maravilhada estava que parecia uma criança.
— Muito obrigada! Agradeçam a todos, por favor. É um dos meus bens mais preciosos. Essa florzinha significa muito para mim.
Bifur fez novos gestos, e Bofur traduziu:
— Bifur diz que está feliz por estar bem. E pelo bebê também.
Anna pôs a mão na de Bifur, sorrindo, e depois mudou de assunto, indagando:
— E como estão as apostas?
— Apostas? — repetiu Dori.
— Não precisam disfarçar — disse Anna. — Não acredito que ninguém tenha apostado sobre o bebê. Estou curiosa, só isso.
Eles se entreolharam, e Bofur deu de ombros:
— Você ia saber das apostas de qualquer jeito. E são muitas! — Ele continuou. — Quase todos apostam que será menino, parecido com o pai.
— Aye — sorriu Dori. — Um lindo principezinho da linhagem de Durin.
— Só isso? — quis saber Anna.
Bofur revelou:
— Nori está tentando recolher apostas sobre a data de nascimento. Já que Óin se recusa a dizer qualquer coisa...
Anna disse:
— Na minha terra, o nascimento de príncipes atraía todo tipo de apostas. Além da data, apostava-se no sexo, nome, peso, cor dos olhos, cor dos cabelos...
Os três encararam Anna como se ela estivesse revelando um grande mistério. Ao ver os rostos abismados, ela indagou:
— Vocês nunca pensaram nisso?
Dori comentou:
— Acho que Nori vai querer saber mais sobre isso, minha rainha.
Anna riu-se, olhando-os com carinho. Definitivamente, aquela era a sua família.
Mais tarde, foi a vez de Lord Elrond vir até ela. Anna o recebeu com um sorriso e boas notícias:
— Sinto-me muito bem hoje, milord. O cansaço diminuiu, e tudo indica que meu apetite está voltando.
— Isso me alegra — disse ele, sentando-se à beira da cama. — É uma preocupação a menos.
Anna disse, com sinceridade:
— Lamento ter-lhe causado preocupação. Mas não vou negar estar feliz por vê-lo e também por ver Eldrin tão bem de saúde.
— Eldrin lhe é muito fiel. Mas receio ter vindo lhe falar de outras coisas. Especificamente, um recado de minha sogra sobre você.
— Lady Galadriel?
— Ela viu seu destino naquele espelho formidável. Por isso me fez vir até aqui o quanto antes para buscá-la.
— Buscar-me? Para onde? Por quê?
Elrond respondeu:
— Ela queria que eu a levasse até Lothlórien, onde você seria treinada e assim cumpriria o seu destino.
Anna não estava entendendo:
— Como assim? Lord Elrond, perdoe-me, mas não entendo.
— Perdoe-me, mas estou tão confuso quanto você. Pois quando você esteve em Rivendell, Lady Galadriel viu seu futuro.
— Ela sabia o que ia acontecer?
Elrond respondeu:
— Ela viu seu futuro, mas o que ela viu e o que eu estou vendo são coisas diferentes.
— Poderia explicar melhor?
— Talvez seja melhor explicar do começo. Galadriel foi capaz de determinar sua verdadeira ascendência. Você tem sangue nínfico, embora não seja ninfa pura. Sua raça é parente da minha. Você é considerada família.
Anna sentiu uma revoada de borboletas em seu estômago.
— Não pode ser!... Desculpe, mas tem que haver algum engano. Eu sou humana, embora mais baixa do que costumava ser.
Elrond disse:
— Entendo sua confusão, mas na verdade esse seu corpo novo é seu verdadeiro corpo, de seu verdadeiro povo.
Estava difícil para Anna acreditar:
— Lord Elrond, não tenho intenção de desrespeitá-lo, mas tem algum engano aí. Só falta agora você me dizer que sou uma princesa perdida de algum reino esquecido!...
O elfo a encarou severamente:
— Não lhe disse isso, nem nunca foi cogitado. Mas me escute até o fim. É fato que ninfas desapareceram da Terra Média antes da criação dos elfos e humanos. E isso foi antes da Primeira Era. Diz-se que eram seres puros e inocentes demais, por isso não resistiram às iniquidades das demais raças e das demais criaturas, e então desapareceram. Há poucos registros de sua passagem por esse lugar.
Anna chegou a abrir a boca para contestar, mas se deu conta que já tinha sido grosseira, e deixou o Senhor de Rivendell continuar.
— Confesso que Galadriel não compartilhou todas as suas descobertas comigo, então só o que sei é que, uma vez treinada e com sua natureza revelada, seu potencial seria usado para reforçar as forças da luz contra as trevas que hoje ameaçam nosso mundo. É uma missão nobre e honrosa. Galadriel em pessoa seria sua instrutora.
Anna estava cada vez mais confusa, e Elrond disse, em voz suave:
— Ela acredita que esse tenha sido o motivo pelo qual você veio de seu mundo.
Anna arregalou os olhos. Elrond logo emendou:
— Mas não me pergunte a esse respeito, pois nada sei. Contudo, Beorn temeu por sua vida, e Galadriel me enviou para salvar sua vida e levá-la para Lothlórien.
Anna não resistiu a argumentar:
— Ela sempre soube de minha forte ligação com Thorin. Ela devia saber que eu não o deixaria.
Pesadamente, Elrond argumentou:
— O futuro que ela viu incluía a morte de Thorin Oakenshield no campo de batalha. Seu luto era tão profundo que você não conseguiria viver aqui e abandonaria Erebor sem hesitar.
Desta vez, ela ficou tão chocada que não pôde nem articular uma palavra, o coração acelerado. Ele se aproveitou do estupor dela para continuar:
— Imagine minha surpresa ao chegar aqui, ver Thorin Oakenshield praticamente ileso e você à beira da morte. E grávida. — Suspirou. — Debati-me muito sobre a possibilidade de evitar essa conversa, já que aparentemente seu destino parece já estar traçado e seu futuro, evidente. Por outro lado, não me pareceu correto negar-lhe nem a informação nem a escolha.
A moça sentiu os olhos se enchendo de lágrimas:
— Escolha...?
Elrond foi claro:
— A opção de vir comigo permanece disponível. Como eu mencionei, você é família para elfos. Uma prima, por assim dizer. Se vier, poderá fazer coisas grandiosas. Poderá fazer história.
Anna sentiu as lágrimas escorrendo.
— Eu teria que me separar de Thorin, não é?
Elrond assentiu.
— Depois que o bebê nascer, ele poderá ser criado pela família do pai, se ele fizer questão.
Ela quase perdeu a voz, e sussurrou, de tão apavorada:
— Eu... não poderia ficar com... meu bebê?
— Não seria aconselhável, pelo bem da criança — recomendou Elrond. — O treinamento envolve mágica e desenvolvimento de habilidades. O risco seria grande para o pequeno.
Ela fechou os olhos. Indagou:
— Se eu escolher não ir, não treinar... Quais serão as consequências?
O elfo respondeu sombriamente:
— A única certeza é que você jamais conhecerá seu potencial pleno. Fora isso, posso dar palpites, mas apenas isso. Um deles é que provavelmente você morrerá mais cedo. É nossa parente, e se estivesse totalmente desenvolvida, poderia resistir a doenças e à passagem do tempo. Sem isso, envelhecerá e morrerá.
— Quando?
— Impossível saber. Também posso imaginar que seus poderes atuais (e eu sei que você tem alguns) vão estagnar. Não acho que vá perdê-los, mas certamente não vão se desenvolver.
Tudo aquilo parecia tão distante da realidade de Anna. Ela confessou:
— Mas há algo que não entendo. Por que não posso ter meu bebê, fazer o treinamento e depois que terminar eu volto para Erebor?
Elrond a encarou como se estivesse olhando para uma criança de três anos. Usou um tom delicado para explicar:
— Não é assim que funciona. Se você decidir se submeter ao treinamento, esse compromisso é para vida toda.
Aí, sim, Anna sentiu um peso no estômago. Elrond acrescentou:
— Se aceitar, você será outra pessoa, mais grandiosa. E estará diretamente envolvida na definição dos destinos da Terra Média. Terá respeito e autoridade capaz de rivalizar com os mais poderosos Istari. Ademais, seu poder no momento é apenas uma ponta de seu potencial. Quando desenvolvido, ele será uma grande tentação para as forças do mal. Se voltar a Erebor, você estará desenvolvida, mas sozinha e vulnerável. Poderá se corromper. Em Lothlórien, estará mais protegida.
Cada vez mais, Anna se sentia perdida. Então ela se deu conta:
— Há quanto tempo vocês sabem a meu respeito?
A pergunta pareceu incomodar Elrond:
— Galadriel sentiu sua presença muito antes de conhecê-la em Rivendell. Mas faz muito pouco tempo que o quadro inteiro foi revelado. E tudo foi providencial: você não estava pronta para essa informação.
— Confesso estar bem pouco preparada agora...
— E isso é natural — disse ele, inspirando fortemente antes de suspirar. — Como eu disse, você tem uma escolha, e sua decisão será respeitada. Mas não há necessidade de decidir agora. Descanse, recupere-se. Tente não se preocupar. Depois conversamos.
— Está bem.
O elfo ergueu-se e Anna chamou-o, interrompendo sua saída:
— Lord Elrond! — Ele se virou e Anna disse, com sinceridade. — Agradeço por me contar. E por me oferecer uma escolha.
— Não sei se mereço agradecimentos, pela angústia que lhe trouxe. Fiz apenas o meu dever.
Anna fez uma reverência, que ele devolveu antes de sair da tenda. Ao se ver sozinha, ela se deitou, com um gemido curto ao pensar nas reviravoltas que sua vida insistia em apresentar.
Mais uma vez, Anna podia apostar que isso dificilmente aconteceria se ela tivesse ido parar em Hogwarts.
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