Jornada Para Erebor
62 Um pequeno desentendimento
Notas iniciais
O movimento foi suave, mas o sono de Anna era tão leve que ela abriu os olhos e viu Thorin a encará-la.
— Desculpe, ghivashel — disse ele. — Não tinha intenção de acordá-la.
Ela sorriu:
— Tenho dormido demais. Mas acordar e ver você a meu lado vale a pena.
Thorin beijou sua testa e Anna indagou:
— Como estão as coisas na montanha?
— Aos poucos, tudo se ajeita. Acredito que já tenha melhorado bastante desde a última vez que viu.
— Os rapazes me disseram. Também mencionaram que os homens de Dáin têm ajudado, depois de um desentendimento sobre o tesouro. — Thorin virou-se para ela. — Está tudo bem entre vocês dois?
Ele pegou a mão dela entre as suas, dizendo:
— Tudo foi esclarecido e Dáin agora viu a luz da razão.
Anna quis saber:
— Então vocês fizeram as pazes? Afinal, ele nos ajudou quando precisamos e além disso, vocês são parentes. Não podem ficar brigados por causa de ouro. Família é tudo, Thorin.
Thorin a encarou, como se medisse as próximas palavras. Finalmente, ele disse, solene:
— O que vou lhe contar é um dos segredos do meu povo, e você não deve repetir para outros. Você sabe que os khazâd foram criados por Mahal. Viemos da terra, da rocha e do metal. Acreditamos que Mahal usou sua forja para dar a cada um de seus filhos um complemento, uma combinação perfeita. Chamamos a eles de khebabhûn e khebabinh: "forjado". Nenhum outro é mais precioso do que aquele que Mahal forjou especialmente para nós. Insultar um forjado por Mahal é insultar Mahal em pessoa. Você é minha khebabinh.
Anna estava emocionada. — Thorin, isso é lindo...
— É apenas a verdade — disse ele, decidido. — Você é minha forjada. Mahal fez você só para mim. Mahal me forjou só para você.
— Sim, você tem razão. Só algo assim grande poderia permitir que eu atravessasse as fronteiras do tempo e do espaço para encontrar você, feito só para mim. — Anna levou as mãos dele a seu rosto e fechou os olhos, sentindo os dedos grossos e ásperos em sua face. — Eu amo você, Thorin Oakenshield. Provavelmente sou louca por amá-lo tanto, mas sou impotente para me rebelar contra isso.
Thorin beijou a cabeça dela com carinho, observando:
— Seu amor salvou a minha vida e me curou. Não tenho como não acreditar que Mahal mandou você para mim, ghivashel. Agora teremos um lar, um pequeno e uma vida como nunca vislumbrei antes. Faremos uma festa grandiosa, comemorando nossa coroação e nosso casamento. Reis e rainhas virão de longe para prestar homenagem a Erebor retomada!
Uma ideia ocorreu a Anna:
— Thorin, sobre o casamento, posso dar uma sugestão?
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Bilbo voltava de uma agradável reunião com elfos, decidido a visitar Anna. No meio do caminho, ouviu o chamado:
— Bilbo!
— Sr. Boggins!
Só uma pessoa em toda Terra Média o chamava assim. O hobbit esticou o pescoço e, sem falha, logo localizou Kíli e Fíli vindo em sua direção.
— Oh, olá, rapazes! Que fazem deste lado do acampamento?
— Viemos visitar nossa futura tia — respondeu Fíli.
— Óin disse que em breve ela estará mais forte — explicou Kíli.
Bilbo convidou:
— Vamos todos, então. Eu também estou indo para lá.
Os três foram juntos e logo viram o elfo de guarda perto da tenda. Bilbo saudou:
— Olá, Sr. Eldrin. Tudo em ordem?
Eldrin saudou:
— Salve, mestre hobbit e amigos. Tudo corre em paz. No momento Lady Anna recebe o Rei Thorin.
Os três se entreolharam, e Bilbo fez a pergunta:
— Será que... devemos esperar...? Hum... E talvez...
Os dois irmãos tentaram prender o riso, sem sucesso. Mas logo as risadas caíram, porque Thorin irrompeu para fora da tenda, bufando de ira:
— Então pode cancelar tudo! O casamento está cancelado!
De dentro, a voz de Anna soou a plenos pulmões, igualmente irritada:
— Pois por mim, está ótimo, seu anão teimoso, insensível e cabeça-dura!
Quatro pares de olhos arregalados viram Thorin se afastar, pisando duro. Ágil e rápido, Eldrin pôs a lança em riste e correu para dentro da tenda, os demais logo atrás.
— Lady Anna! A senhora está ferida?
— Não, Eldrin, claro que não. — Anna parecia chateada, mas se surpreendeu ao ver os três que o seguiam. — Bilbo? Kíli, Fíli? O que houve, está tudo bem?
— Foi o que viemos saber! — respondeu Bilbo. — O que foi aquilo?
Kíli parecia assustado:
— Vocês romperam mesmo o noivado? Por quê?
Fíli comentou, temeroso:
— Isso não vai ser bom.
Anna olhou para eles, que pareciam muito assustados, e comentou:
— Calma, gente. Não é preciso entrar em pânico.
Bilbo lembrou:
— Mas Thorin disse que não haverá casamento!...
Kíli parecia a ponto de chorar, como se tivesse seis anos:
— Por favor, façam as pazes. Vocês não devem ficar separados.
Fíli se ofereceu:
— Eu falo com Thorin, se quiser.
Anna ia rir, mas todos ali (exceto Eldrin, é claro) pareciam tão angustiados que ela não teve coragem. Com esforço, ela se controlou e disse:
— Podem ficar todos calmos. Não há motivo para alarme.
— Tem certeza?
— Claro. Thorin está só... sendo Thorin.
— E o que isso quer dizer?
— Quer dizer que ele deve ficar irritado e resmungão durante algum tempo, depois vai pensar melhor e falaremos sobre o casamento.
Bilbo quis saber:
— Mas afinal, o que causou isso?
Anna explicou:
— Thorin tinha planos de juntar nosso casamento e sua coroação em uma festa só, grandiosa. Eu sugeri que fizéssemos o casamento agora, enquanto minha família ainda está aqui.
Fíli repetiu:
— Sua família?
— Eu quis dizer meu tio Bilbo, Lord Elrond, meu amigo Eldrin, Gandalf... E toda a companhia, é claro. Daqui a pouco, muitos deles viajarão de volta para seus lares, e talvez alguns da companhia queiram voltar a Ered Luin para trazer suas famílias. Eu gostaria muito que todos vocês estivessem em meu casamento, e talvez a coroação demore ainda alguns meses. Agora já estão todos aqui. O único motivo para não nos casarmos agora seria a ausência de Dís, sua mãe. Será uma lástima ela perder o casamento do irmão. Eu entendo isso. Mas eu sei que Bilbo logo vai querer voltar para a sua toca em Bag End, Lord Elrond tem que voltar a Rivendell...
Bilbo ficou curioso:
— Foi só isso?
— Bom, para Thorin, parece que é muita coisa — disse Anna. — Acho que ele não gostou que eu tenha dito que preferia uma cerimônia simples, para nossos amigos apenas. É algum costume entre anões terem que fazer grandes festas quando se casam?
Kíli e Fíli se olharam, dando de ombros.
— Não — respondeu Fíli. — Acho que não.
Anna sorriu para todos.
— Viram? Então é só teimosia dele. Certamente logo Thorin vai pensar melhor no assunto.
Bilbo chegou bem perto de Anna e garantiu, de maneira séria:
— Olhe, seja lá o que for que aconteça, eu estarei a seu lado, Anna. Pode contar comigo.
— Eu sei que sim, Bilbo. — Anna sorriu e pegou a mão dele. — E agradeço muito. E vocês também, rapazes. Todos vocês. Mas não se preocupem, tenho certeza de que está tudo bem.
Mesmo que a certeza de Anna não fosse tão firme quanto ela transparecia, preferia sorrir. Eldrin curvou-se, de maneira cerimoniosa:
— Estarei aqui se precisar, milady.
— Eldrin? Você costumava ser meu amigo, sem tantas formalidades. Espero não tê-lo desagradado.
— De maneira alguma, senhora — respondeu o elfo. — Mas devo prestar respeitos à prometida do Rei de Erebor.
Bilbo pareceu impressionado, Fíli e Kíli estavam satisfeitos. Só Anna lembrou:
— Bom, espero ainda contar com sua amizade. Ela significa muito para mim.
— Não se preocupe quanto a isso. Será sua enquanto a quiser.
O elfo fez nova reverência e Anna sorriu, respondendo ao gesto. Depois ele saiu, e Fíli comentou:
— Ele até que não é mau — para um elfo.
Anna comentou:
— Eldrin é um grande amigo. Eu ficaria muito triste se ele não estivesse no meu casamento.
Bilbo disse:
— Como você disse, vai dar tudo certo. Eu não perderia esse casamento por nada nesse mundo.
Kíli tomou a iniciativa:
— Então é melhor garantir que esse casamento vá mesmo se realizar. Vou cuidar disso agora mesmo, minha tia!
E saiu, decidido. O irmão deu de ombros.
— Melhor eu ir atrás dele.
E foi exatamente isso que fez. Bilbo sorriu:
— Vai dar tudo certo... Não vai?
— Claro que vai, Bilbo. Não se preocupe.
O hobbit a quem considerava tio a encarou alguns segundos. Depois abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas fechou em seguida. Anna o encorajou:
— Bilbo, diga o que está pensando.
Ele enrubesceu um pouco.
— Bem, é que... Olhe, Anna, não quero me meter em sua vida. Mas você e eu somos família, como se fôssemos sangue, certo?
— Claro — disse Anna. — Por isso é que deve me dizer o que se passa em sua cabeça.
Bilbo disse:
— É só que me ocorreu... Bem, é que com Thorin sendo Thorin, como você diz, esse tipo de coisa se torna bem comum de acontecer.
Anna concordou, suspirando:
— Ele é um anão teimoso, não há dúvida.
— E você tem certeza que serão felizes, Anna? Digo, não precisa se casar com ele só pelo pequenino.
Anna garantiu:
— Não, Bilbo. Pensei que não tivesse dúvidas. Amo Thorin mais do que consigo dizer. Por isso vou me casar com ele. Nosso filho foi só uma consequência desse amor.
— Eu sei disso — Bilbo se apressou a dizer. — Mas você sabe como ele pode ser, e, bem, eu quero que saiba que realmente pode contar comigo. Se Thorin se mostrar teimoso demais, sabe, então, bem... você e o bebê podem vir morar comigo em Bag End. A qualquer hora.
Por essa Anna não esperava.
— Bilbo...?
O hobbit não a deixou terminar.
— Bom, vocês são família, e eu sempre terei minha porta aberta para vocês, pelo tempo que quiserem. — Ela abriu a boca, mas Bilbo se apressou a emendat. — Pode acontecer, Anna, não tente negar.
— Não vou negar. É claro que Thorin e eu vamos discutir às vezes, talvez até brigar. Toda relação passa por problemas. Mas eu sempre vou tentar resolver as coisas. Viver sem Thorin seria penoso demais para mim. Se isso acontecesse e eu aceitasse seu convite de ir até Bag End, provavelmente você receberia uma pessoa muito triste e sem vontade de viver: e com uma criança mestiça, ainda por cima.
— Não se preocupe com a criança. Adoro crianças! Daria alegria a Bag End. Poderíamos criá-la juntos. Eu gostaria disso. Sou um solteirão solitário, Anna. Acho que uma criança me faria bem.
Ela sorriu.
— Então quem sabe haja uma criança em seu futuro? Nunca se sabe. Confie no destino.
Ele indagou:
— Está dizendo algo que... está no futuro?
Anna garantiu:
— Prometi jamais revelar o futuro. Mas talvez deva confiar nele, Bilbo. Como eu confio no meu. Agradeço sua oferta generosa, de coração. Em outras circunstâncias, saiba que eu a aceitaria alegremente.
Bilbo pediu:
— Só não a descarte, está bem? Ela continua de pé.
Anna sorriu e pediu:
— Venha aqui, seu hobbit adorável. — Ele obedeceu, e ela beijou sua testa. — Não é à toa que você é o melhor tio que eu já tive em toda a minha vida, Bilbo Baggins.
O hobbit até enrubesceu, antes de comentar:
— Bem, se vocês brigaram só por causa da data do casamento, então Thorin aceitou bem suas... habilidades, eu deduzo.
— Habilidades? — repetiu Anna.
— Sim, você sabe... — Bilbo se inclinou de maneira conspiratória e sussurrou: — Aquela coisa com Safira.
A moça arregalou os olhos e perdeu toda a cor que tinha em seu rosto. Bilbo também arregalou os olhos e deduziu:
— Você não contou a Thorin?
— Eu me esqueci completamente! — choramingou Anna. — Bilbo, você não faz ideia das coisas que me aconteceram. Eu tinha planos de contar a ele assim que ficasse claro que ele não estava mais doente.
— Anna, acho que deve fazer isso o quanto antes.
— Claro, claro. Será a primeira coisa a fazer. Er… quero dizer, assim que Thorin parar de ser... Thorin.
Bilbo sorriu, mas sabia que tudo daria certo.
Isso se Thorin fosse compreensivo, claro.
Naquele momento, Bilbo se deu conta que depender da compreensão de Thorin podia não ser a atitude mais segura da Terra Média.
É claro que Anna pensava a mesma coisa.
Palavras em Khuzdul:
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
khazâd = anões
khebabhûn = (o) forjado
khebabinh = (a) forjada
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