Jornada Para Erebor
12 O grupo é caçado
Notas iniciais
Novamente, a chuva incessante atrasou a jornada. A lama tornava os pôneis mais lentos, e todos estavam encharcados. A chuva parou ao anoitecer, e então começaram os desafios de achar lenha seca para acender o fogo e passar a noite.
Uma encosta, quase uma caverna, ofereceu abrigo reduzido, cada um virando-se como podia. Após ajudar Bombur com a sopa, Anna ajeitou-se junto a um rochedo. A melhor estratégia era tentar dormir sentada. Mas ela tinha poucas expectativas de descanso. Sono já era difícil mesmo sem estar molhada até os ossos.
Estavam todos em volta da fogueira, tentando obter calor. Muitos puxaram seus cachimbos e fumavam uma erva de odor mais agradável do que os cachimbos que Anna conhecia. Ela declinou do convite de Bifur para fumar.
Uma conversa começou de modo prosaico. Dori quis saber:
— Sr. Gandalf, não pode fazer nada sobre esse dilúvio?
Ele respondeu simplesmente:
— Está chovendo, Mestre Dori. E vai continuar chovendo até a chuva acabar. Se quer controlar a chuva, terá que arranjar outro feiticeiro.
Bilbo quis saber:
— Então tem mais de um?
Gandalf não entendeu.
— Mais de um o quê?
— Feiticeiro.
A conversa começou a interessar Anna. Gandalf respondeu:
— Na nossa ordem, somos cinco. O maior deles é Saruman, o Branco. Depois há os dois azuis... Não me lembro o nome deles. Não importa. E, por último, há Radagast, o Castanho.
— E ele é um grande mago? — quis saber Bilbo. — Ou ele é mais como você?
Anna prendeu o riso, coisa que Fíli não conseguiu. Mesmo incomodado, Gandalf respondeu:
— Acho que ele é um grande mago, em seu jeito. Ele prefere cuidar das florestas, das criaturas mais simples da natureza.
Anna comentou:
— Parece um sujeito simpático.
— Ele fica na Floresta Verdejante. É o nosso caminho. Talvez encontremos com ele. — Gandalf apagou o cachimbo na pedra. — Bom, é melhor dormir agora. Boa noite a todos.
Anna achou a ideia excelente e recostou-se no rochedo, tentando descansar um pouco depois de um dia molhado e miserável.
Na fronteira entre sono e vigília, Anna parecia ser incapaz de se livrar de pesadelos. Antes eram orcs povoando seus sonhos, agora eram trolls e orcs, mais o frio e a umidade. Anna estava quase dormindo quando sentiu o calor de uma pessoa a abraçando, mantendo o frio distante. Devia ser Bilbo. Ela suspirou, satisfeita, aninhando-se contra ele e sentindo o cheiro de pinho. “Bilbo deve ter escolhido vigiar do alto de um pinheiro e agora o turno dele acabou”, pensou ela, antes de cair no sono.
Um ronco leve acordou Anna antes mesmo que o sol saísse. Ela também sentiu o cheiro forte de pinho e abriu os olhos, imaginando que veria Bilbo ainda abraçado a ela.
Para sua surpresa, o rosto bem próximo do seu não era o do hobbit, mas do próprio líder da expedição, Thorin Oakenshield. Ele dormia, uma expressão tranquila que o rejuvenescia, muito diferente do semblante preocupado que Anna se acostumava a ver nele.
E, de repente, um par de olhos azuis, profundos e intensos, abriu-se para encará-la.
Anna levou um susto tão grande que se endireitou de um pulo só.
— Oh! Sr. Thorin, desculpe. Eu o acordei, não foi? Desculpe, às vezes tenho pesadelos, ai que vergonha. Desculpe se perturbei toda a companhia.
Ele parecia intrigado, até divertindo-se com a reação dela. Respondeu, sereno:
— Você parecia ter frio, e Mestre Baggins estava de guarda. Achei que apreciaria o calor extra.
Anna devia estar muito corada ao responder:
— Hum, er, sim, obrigada por sua preocupação, e, hum, desculpe de novo. Com sua licença, vou até o rio. Bom dia.
Ainda tentando recuperar a capacidade de fôlego, Anna saiu para se lavar no rio Bruinen, com o coração acelerado depois do encontro com Thorin.
Ela estava mortificada de vergonha. O homem já achava que ela era uma inútil, agora a tratava como uma criancinha que precisava ser ninada para dormir!... Não que não tivesse sido bom. E certamente também a ajudara a dormir. Mas ainda assim era constrangedor. Ela tentou não pensar nisso — ou nos olhos azuis a encarando com intensidade, despertando outro tipo de sentimento nela.
Definitivamente, era melhor não pensar nessas coisas.
O dia amanheceu sem chuva, e eles seguiram o caminho se embrenhando cada vez mais na floresta. Thorin imprimiu um ritmo mais forte de marcha, talvez para compensar o dia de chuva, e a tarde começava a cair quando de repente Dwalin (que ia à frente, como batedor) voltou a galope, com um grito de alerta:
— Alguém se aproxima rapidamente!
Thorin ordenou, pulando do pônei:
— Desmontar! Às armas! Fechem as fileiras!
Todos rapidamente se galvanizaram em ação. Anna desmontou o mais rápido que pôde, passando a mão em sua trouxa de roupas, e foi levada pela mão para se esconder atrás de uma pedra, com Bilbo a protegê-la.
E foi de lá que ela teve ampla visão de uma das imagens mais bizarras até o momento. Uma espécie de estranha carruagem (mais parecida a uma biga romana muito rústica), feita de galhos de árvores e puxada por seis duplas de grandes lebres, quase do tamanho dos pôneis, irrompeu no meio deles, guiada por um homem barbudo, de chapéu pontudo e longas vestes marrons.
Gandalf saudou-o:
— Radagast!
Anna arregalou os olhos. Ragadast era um dos cinco Istari, os magos que protegiam a Terra Média. Os anões guardaram as armas, e Thorin indagou a Gandalf:
— Amigo seu?
— É um amigo — garantiu Gandalf. — Pessoal, esse é Radagast, o Castanho. Radagast, o que faz aqui?
Anna saiu de trás da pedra e observou o mago, mais baixo que Gandalf, de nariz bem redondo e uma mancha no cabelo comprido que parecia um fungo ou líquen. Ele parecia agitado.
— Eu procurava por você, Gandalf. Tem algo errado na floresta, algo muito errado!...
Gandalf convidou:
— Calma, meu amigo. Tome. — Tirou o cachimbo e acendeu-o. — Vamos nos acalmar e conversar ali.
Os dois magos se afastaram, e Anna torceu o nariz, apreensiva. A presença de Radagast indicava que alguma coisa estava errada ali. O mago castanho era mencionado meramente de passagem nos livros (ela estava admirada de conseguir se lembrar do nome), sem participação relevante na aventura. Um arrepio percorreu sua espinha.
Será que sua presença ali já começava a afetar significativamente a linha do tempo?
Bilbo reparou nela:
— Tudo bem? Pode ficar tranquila. Ele é aquele mago amigo de Gandalf.
— Sim, eu sei. — Anna procurou dispersar estes pensamentos. — Sou uma boba, mesmo. Não se preocupe, Bilbo.
Ele sorriu e brincou:
— Vi que essa noite você teve outro vigia além de mim.
Ela enrubesceu:
— Oh, que vergonha...! Eu devo ter feito um papelão, e bem na frente de Thorin.
Bilbo comentou:
— Pelo menos você conseguiu descansar um pouco. Sei que tem dificuldade de dormir.
— Levei um susto! — Ela confessou. — Não imagina como fiquei nervosa. Cada vez mais ele pensa que eu sou uma inútil incapaz de me defender.
O hobbit lembrou:
— Você salvou a companhia dos trolls, lembra?
— Pura sorte.
— Sangue-frio. E você subiu naquela árvore facilmente.
Anna ia responder quando sentiu uma grande pontada na mesma mão ferida. A dor foi tão grande que ela segurou a mão, gemendo:
— Oh!
— O que foi?
— Não sei. — Ela abriu a mão e uma mancha vermelha se espalhava pelo pano. — Oh não, voltou a sangrar.
— Dói?
— Muito. Que estranho. Estava quase boa!
Bilbo ia chamar Óin para dar uma olhada, quando um uivo soou na mata, mas tão perto que toda a companhia ficou em silêncio. Anna não gostou do som.
— Foi um lobo? — Ela perguntou. — Tem lobos aqui?
Bofur parecia apreensivo ao responder, olhando para os lados.
— Lobo? Não, isso não foi um lobo.
O ruído de um galho quebrado fez todos se voltarem para a colina logo acima. Sob os gritos de ataque, uma fera imensa, um daqueles wargs cinzas que Anna vira antes, pulou direto sobre a companhia, mas foi detido em pleno pulo pela lâmina de Thorin, que enterrou sua imensa espada na cabeça do bicho.
Anna mal recuperara a voz e o fôlego e outro animal apareceu rosnando, nas costas de Thorin, e ela gritou, e Kíli mandou uma flecha bem no meio dos olhos, mas Dwalin também o golpeou com seu machado.
O coração de Anna não tinha desacelerado nem com a visão das duas feras mortas no chão, a dor na mão esquecida. Thorin retirou a espada cravada no monstro e disse, amargamente:
— Batedores wargs! Isso significa que um bando de orcs não está longe!
Anna gritou, apavorada:
— Não...!
Bilbo repetiu:
— Bando de orcs?
Gandalf indagou a Thorin, gravemente:
— A quem você contou sobre sua busca, além de sua gente?
Thorin repondeu:
— Ninguém.
O mago insistiu, impaciente:
— A quem você contou?!
— Ninguém, eu juro! — respondeu o anão. — Em nome de Durin, o que está acontecendo?
Gandalf respondeu:
— Vocês estão sendo caçados.
Anna sentiu o coração quase paralisar de tanto medo. Orcs estavam atrás deles, talvez os mesmos orcs que a capturaram antes. Ela sentiu o pânico crescendo, como se fosse uma maré a ponto de engoli-la numa onda de terror.
Dwalin urgiu:
— Temos que sair daqui.
Ori deu as piores notícias possíveis:
— Não podemos! Não temos pôneis! Eles desembestaram!
Mais uivos surgiram, e não soaram nada longe. Anna se abraçou à trouxinha de roupa que tinha às mãos, tremendo dos pés à cabeça.
Foi nesse momento de tensão que Radagast se ofereceu:
— Eu vou atraí-los.
Gandalf desprezou:
— Eles têm wargs de Gundabag! Vão alcançar você.
Foi a vez de Radagast reagir com desprezo:
— Eu tenho coelhos de Rosghobel. Vou gostar de vê-los tentar!
O sorriso do mago castanho foi tão confiante que Anna sentiu uma pontinha de conforto.
Munidos das parcas bagagens de que dispunham, e armas em riste, o grupo inteiro viu o mago vestido de marrom atrair os inimigos. Anna viu pelo menos oito ou dez orcs montados em wargs, fora os animais sem cavaleiro, que farejavam o chão.
A companhia inteira se escondeu atrás de um rochedo imenso, Gandalf na liderança e Thorin logo atrás dele. E a corrida começou.
— Vamos! — disse Gandalf. — Fiquem juntos!
Anna estava no meio do grupo, protegida entre os anões, guardada por Bilbo. Ela nem sabia o que a fazia correr: o pavor ou a urgência na voz de Gandalf. Thorin acompanhava a corrida de Radagast, perseguido pelos monstros.
Para fugir, Radagast ziguezagueava furiosamente no terreno acidentado. O problema com isso é que eventualmente a companhia ficava perigosamente perto dos orcs. Anna não queria nem pensar no que aconteceria se fossem descobertos.
Thorin teve que segurar Ori, pois o jovem ia em direção a um warg retardatário.
— Ori, não! Volte!
Gandalf mudou de direção:
— Por aqui! Rápido!
Todos correram sem discutir — exceto Thorin, que perguntou a Gandalf:
— Para onde está nos levando?
Gandalf não respondeu, limitando-se a correr e acompanhar o grupo. Thorin não gostou daquilo, mas o seguiu.
Anna ouvia os rosnados das feras, tentando não se lembrar, tentando ignorar a dor da mão, concentrando-se em correr, em fugir, em ficar alerta. Eles corriam, Gandalf geralmente na frente, Thorin de olho na perseguição.
De repente, os monstros estavam muito perto, e todos estavam em perigo. O perigo aumentou ainda mais quando um orc se desgarrou da corrida atrás de Radagast, farejando algo no ar. E veio para o lado onde a companhia estava. Em silêncio, todos se esconderam atrás de um rochedo.
O orc era bom, pois resolveu subir num dos grandes rochedos para ver mais longe. E ele escolheu justamente o rochedo onde toda a companhia se escondia. Anna segurava as lágrimas, tremendo, encostada na rocha, respiração presa, tapando a boca com as próprias mãos para não fazer barulho e num esforço máximo para não entrar em pânico. A seu lado, Bilbo a encarava, dando-lhe força.
Do outro lado de Bilbo, Anna viu Thorin fazer um sinal a Kíli. O rapaz concentrou-se, tirou uma flecha da aljava às costas, armou-a no arco e respirou fundo. Em seguida, deu dois passos firmes à frente. Ato contínuo, virou-se num movimento fluido, mirou e atirou a flecha direto no warg. O animal caiu do rochedo, atacado pelo grupo, o orc rosnou mais alto, também foi atacado por espadas, machados, lanças.
Os dois foram mortos. Mas o barulho alertou o resto do bando de alguma forma. Anna estremeceu ao ouvir os uivos altos, mesmo de longe, e mais ainda ao ver que os animais deixaram de perseguir Radagast e passaram a procurar por eles. O que realmente a apavorou, contudo, foi a voz de Gandalf ao gritar:
— Mexam-se! Corram!
Aí mesmo é que a correria se acelerou. Bilbo puxava Anna com uma mão e com a outra levava a sua espada, cuja lâmina élfica tinha um brilho azul devido à proximidade dos orcs. Os demais também desembestavam, em fila indiana. Se era possível, todos corriam ainda mais rápido.
Kíli, com sua visão de arqueiro, deu o alarme:
— Lá estão eles!
O grupo de orcs avançava rapidamente na direção dos anões. Não eram uma massa compacta, pois estavam espalhados, mas Anna calculou que não podiam ser menos de 15.
— Por aqui! — urgiu Gandalf. — Rápido!
Anna imprimiu maior velocidade às pernas cansadas, mas os sons dos rosnados pareciam mais próximos. Ela olhou para os lados, mas só havia o terreno acidentado e rochedos altos. Para onde escapar?
Fíli alertou:
— Tem mais deles vindo!
Anna olhou para o lado que ele apontava e era verdade: havia mais orcs vindo. O grupo hesitou, pois estava perdendo terreno, o inimigo se aproximava. Ela não tinha como ficar mais apavorada.
— Kíli! — gritou Thorin. — Atire neles!
O jovem anão obedeceu, atingindo seu alvo. O orc caiu, os demais rosnaram e aceleraram.
Fíli deu a notícia que ninguém queria ouvir:
— Estamos cercados!
A essa altura, o grupo tinha mais ou menos percebido isso, tanto que estavam todos juntos, em círculo, armas prontas para defesa. Havia orcs por todos os lados e só um rochedo a proteger as costas do grupo.
Kíli estava mais à frente, lançando flechas para evitar que wargs se aproximassem. Fíli usava espadas nos que escapavam de Kíli, Thorin fazia o mesmo pela retaguarda. E então Bofur fez a pergunta que deixou Anna petrificada de horror.
— Onde está Gandalf?
Instintivamente, Anna olhou para todos os lados, ofegante, procurando o chapéu pontudo do mago. E nem sinal dele.
Gandalf parecia ter sumido.
Dwalin constatou, amargo:
— Ele nos abandonou!
Anna sentiu a respiração falhar. — Oh, não...!
A tensão era tão densa que se podia cortar com uma faca. Os orcs se aproximavam lentamente, vendo que suas presas estavam sem saída.
Então Anna ouviu, em alto e bom som um chamado de um orc:
—Durgbu-shu snaga!
A clava do orc estava diretamente apontada para Anna. Ela perdeu todo o sangue do rosto.
— Durbgu-shu snaga!
Anna não entendia língua de orc, mas não gostou daquilo e sentiu o sangue fugindo de suas veias.
— Não, não... Não de novo...!
Ori usou seu estilingue de couro para atingir o orc mais próximo. Ele não errou, mas o orc nem piscou. O pobre anão arregalou os olhos, apavorado. Tudo parecia perdido.
A voz de Thorin, cheia de autoridade, lembrou a todos para manterem a calma:
— Mantenham suas posições!
Aquilo pareceu animar os outros um pouco, e as lanças de Bifur atingiram um warg que tentou se esgueirar no meio deles. Bilbo postou-se à frente de Anna.
A situação piorava a cada segundo, e Anna tentava ao máximo não se entregar ao desespero, o que era essencialmente impossível diante dos sons de rosnados e da horrível língua orc, a mesma que povoava os pesadelos dela todas as noites.
Nesse momento mais terrível e sombrio, uma voz conhecida se ouviu atrás, parecendo vir de dentro do rochedo:
— Por aqui, seus tolos!
Gandalf.
Anna virou-se e viu o chapéu pontudo do mago como que entrando na terra atrás da grande rocha. Uma caverna, concluiu ela, com alegria indizível no coração.
Thorin instantaneamente foi até a boca da entrada, gritando:
— Rápido, mexam-se! Para dentro! Todos vocês!
Era a única saída, o milagre esperado.
Primeiro foi Bifur, depois Bofur, Nori, Dori e Bombur. Bilbo puxou Anna para ir na sua frente. Fíli entrou, Ori e Dwalin também. Thorin guiava todos:
— Vão! Vão!
Glóin foi em seguida. Os dois pequenos seriam quase os últimos a entrar, pois Kíli usava as flechas para manter os agressores longe. Infelizmente, porém, a retaguarda estava desprotegida.
Para horror de Anna, outro warg tentava se esgueirar por trás de Thorin – que não o vira. O líder da companhia chamava:
— Kíli, venha!
E o warg estava quase sobre Thorin. Com horror, Anna gritou a plenos pulmões:
— Thorin, cuidado!!
E, sem pensar no que fazia, ignorando os gritos de Bilbo, Kíli e Balin, Anna partiu para cima do warg.
Palavras em orcish:
Durbgu-shu snaga = a escrava de nosso mestre
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