Jornada Para Erebor
13 O gato ataca o rinoceronte
Notas iniciais
Mais tarde, as versões foram diferentes, quase impossíveis de verificar. Mas a coisa se passou mais ou menos assim.
Anna partiu para cima do warg, gritando:
— Thorin, cuidado!!
Bilbo tentou segurá-la:
— Anni, não! Não!!
Kíli gritou:
— A pequena!
— Por Mahal! — foi o que Balin gritou.
O grito de Anna efetivamente deteve o ataque do animal e chamou a atenção de Thorin. Anna se chocou com o warg: a cena parecia ser a de um gato doméstico atacando um rinoceronte, pelas proporções de tamanho. Os dois se embolaram no chão, o animal tentando atacar Anna mesmo enquanto caía. Contudo, cada um caiu para um lado diferente, e a fera recebeu ataques de Balin, Thorin e Kíli, enquanto Bilbo puxava Anna para longe do perigo:
— Vamos! Rápido!
Com a ajuda dele, Anna conseguiu entrar na caverna, pulando e escorregando para dentro. Na verdade, era mais um buraco do que qualquer outra coisa.
Quando eles caíram no buraco, seguidos dos outros três, viram que estavam a salvo com os outros. Anna ouviu ao fundo um toque de trompas e um tropel de cavalos, além de som de luta. Eles estavam todos juntos, mas mal conseguiram ver o que se passava fora do buraco.
E de repente um orc rolou para dentro da caverna, bem no meio deles.
Anna abafou um grito de susto e pulou para trás, enquanto os demais o cercaram com suas espadas, machados e lanças. Mas o orc não se mexia: estava morto, seu corpo cravado de flechas.
Flechas que não tinham vindo do arco de Kíli. Thorin tirou uma do corpo do orc e examinou sua ponta.
— Elfos — reconheceu, com desgosto.
Lá fora, o som dos cavalos se afastando deu certeza de que os orcs tinham sido derrotados e enxotados por cavaleiros que eles não conseguiam ver. Anna suspirou.
Dwalin, que já estava no fundo da caverna, soou distante:
— Não dá para ver onde a passagem vai dar. Seguimos ou não?
Bofur respondeu:
— Seguimos, é claro!
Mas Thorin discordou:
— Não tão depressa! — Ele se virou para Anna, os olhos muito azuis brilhando ainda mais de irritação. — Você! O que acha que está fazendo?
Anna se encolheu:
— O q-que...?
— O que deu em você para fazer aquilo? — Antes que Anna pudesse sequer protestar, ele apontou um dedo ameaçadoramente para Bilbo. — E você! Eu falei para você protegê-la com sua vida!
O pobre hobbit estava mortificado, e Anna protestou:
— Não foi culpa dele! Não fale assim com ele!
Thorin apontou o dedo para ela, rosnando:
— Fique fora disso!
Anna estava começando a se esquentar e ia responder à altura, quando viu Thorin receber a mão apaziguadora de Balin no seu ombro, e as palavras compreensivas do amigo:
— A pequena salvou sua vida, rapaz. Não havia nada que nosso ladrão pudesse fazer para impedi-la.
Os outros, que não tinham visto nada porque estavam dentro da caverna, começaram a murmurar entre si. Anna enrubesceu, Bilbo sorriu e Thorin abaixou voz, sustentando o olhar.
— Bom, deixe Óin olhar esses cortes. E vamos em frente, Dwalin!
Thorin saiu para liderar o caminho, deixando Anna confusa e magoada. Os demais a cercaram de perguntas, enquanto eles seguiam a passagem.
Gandalf observava a cena, satisfeito, sem esconder um sorrisinho.
A passagem não era uma caverna, mas sim uma garganta estreita no meio de duas montanhas altas, pela qual eles seguiram por uma boa meia hora. Óin viu os arranhões nos braços de Anna e disse que passaria um unguento assim que chegassem perto do rio.
Dava para ouvir que não estavam longe: o ruído de cachoeiras estava cada vez mais forte. Finalmente, a garganta entre as montanhas se abriu e descortinou uma visão magnífica no por do sol: uma cidade construída na escarpa da montanha, rodeada de cachoeiras e suaves quedas d'água em construções abertas em arcos e gazebos.
O grupo ficou a admirar o local, que era realmente de tirar o fôlego. Anna pôde ver que Bilbo também estava tão embevecido quanto ela.
Gandalf apresentou:
— O Vale de Imladris. A última casa amiga a leste do mar. Na língua comum, Westron, é chamada de um outro nome.
Bilbo completou, boquiaberto:
— Rivendell...
Os olhos de Anna se arregalaram, reconhecendo o nome. Rivendell era a terra de Mestre Elrond, de onde saíra a Sociedade do Anel. Era o Elrond, aquele que tentara destruir o Um Anel, mas testemunhara a queda do humano Isildur. Ela estava tão encantada que até se esqueceu das dores e dos ferimentos causados pelo encontro com o warg.
Todo o encantamento se quebrou com as palavras ácidas de Thorin, dirigidas a Gandalf:
— Este foi o seu plano o tempo todo: buscar refúgio entre nossos inimigos!
— Você não tem inimigos neste lugar, Thorin Oakenshield! — disse Gandalf, severamente. — A única inimizade que você vai encontrar neste vale é aquela que você traz consigo!
Thorin insistiu:
— Você acha que os elfos vão nos ajudar em nossa missão? Eles vão tentar nos impedir!
— Claro que vão tentar — concordou Gandalf, com ar natural. — Mas temos perguntas que precisam de respostas. Se quisermos ter sucesso no nosso objetivo, precisaremos usar muito tato, discrição e até um certo charme. Portanto, vocês deixarão todas as tratativas comigo.
Anna cochichou para Bofur, a seu lado:
— Qual é o problema com elfos?
— Não gostamos de elfos — repondeu, dando de ombros. — Eles também não gostam da gente.
— Mas por quê?
Glóin respondeu:
— Rixa antiga, menina. Melhor não perturbar essas águas.
Anna entendeu o recado e calou-se.
Em breve, o grupo estava caminhando num caminho descendente de pedra, que obviamente ia levar até a entrada do vale. A entrada, propriamente dita, ficava depois de uma ponte estreita, um lugar ainda mais bonito com todas as tochas acesas. Duas imensas estátuas de pedra retratando elfos com capacetes saudavam os visitantes.
Um pequeno pátio aberto no pé de uma escada parecia ser o local da recepção dos visitantes. Os desconfiados anões olhavam em volta, como se estivessem cercados e esperassem ser atingidos por flechas inimigas a qualquer minuto. Anna notou que eles naturalmente tinham feito um cerco.
Não demorou, e então alguém apareceu: um elfo surgiu na escada, elegante em seus trajes compridos, de longos cabelos pretos, uma tiara simples de prata. Outros dois vinham com ele, um de cada lado, descendo as escadas. Ele saudou:
— Mithrandir!
Anna arregalou os olhos. Mithrandir era o nome pelo qual os elfos chamavam Gandalf. Ele tinha vários nomes, até um em Khuzdul, a língua dos anões.
— Ah! — fez Gandalf, indo encontrá-lo. — Lindir.
Eles trocaram breves palavras em élfico. Anna notou Thorin se espichando para cochichar algo no ouvido de Dwalin. Mas a atenção dela foi desviada quando Gandalf anunciou:
— Preciso falar com Lord Elrond.
— Meu Mestre Elrond não está aqui.
— Não está aqui? — repetiu Gandalf. — Onde ele está?
O tal Lindir parecia relutante em responder, disfarçadamente olhando os anões, como se hesitasse em decidir se contava ou não. Felizmente, Lindir não precisou tomar uma decisão.
Foi interrompido pelo soar longo de uma trompa, que fez todos se virarem para o caminho de onde vieram. E o tropel dos cavalos veio a seguir. Cavaleiros elfos, armados com capacetes, arcos e lanças, vinham em formação de ataque, dois a dois.
Sentindo o perigo, Thorin deu as ordens na língua dos anões — Khuzdul:
— Ifrid bekâr! Cerrar fileiras!
Anna foi empurrada para o centro do círculo, de tal maneira que havia dois anões a protegê-la na frente e outros dois nas costas, sem contar com Bilbo (ele próprio também protegido), formando um escudo humano enquanto os cavalos os circundavam. Ela olhou para cima: os cavalos pareciam muito altos, montados por elfos em indumentária de batalha, como capacetes, escudos e lanças. Era desorientador, porque os cavalos andavam em dois círculos em volta dos anões, um no sentido horário e outro no sentido anti-horário.
Então um dos cavaleiros saudou:
— Mithrandir!
Gandalf respondeu:
— Lord Elrond! Mellonen!
Anna então viu-se diante do famoso Lord Elrond, senhor de Rivendell, descendo do cavalo. Os cavaleiros finalmente se detiveram. O Senhor de Rivendell conversava em élfico com Gandalf. Ele vestia uma armadura avermelhada tão requintada que nem parecia metal, e sua altura parecia ainda mais imponente para Anna, que batia praticamente na cintura de Gandalf.
Anna estava mesmo admirada: era como estar perto de uma celebridade, ou mais do que isso. Ela até suava, de tanta emoção, apesar de não estar tão quente.
Naquele momento, ela estava com uma sensação estranha. Se aquilo tudo era ficção, talvez um sonho, como ela podia sentir o corpo tão cansado, moído, ferido? Aqueles eram personagens fictícios, mas ela estava ali, interagindo com eles. Era tudo muito estranho.
Então algo que Lord Elrond comentou com Gandalf a trouxe de volta àquela realidade.
— Já havíamos lidado com um bando de orcs que caçava escravos e prendiam em gaiolas. Agora eles estavam perto do Vale Oculto. Estranho que orcs estivessem tão próximos de nosso território. E não é a primeira vez que os expulsamos de nossas fronteiras. Alguma coisa ou alguém — olhou para os anões severamente — deve tê-los atraído.
Gandalf admitiu:
— Ah, pode ser que tenhamos sido nós.
Os cavaleiros finalmente abriram espaço para que Elrond olhasse a companhia. O senhor dos elfos de Rivendell olhou longamente para os anões e reconheceu um dentre eles, a quem saudou de maneira solene:
— Bem-vindo, Thorin, filho de Thráin.
Com uma reverência, Thorin respondeu:
— Acredito que não fomos apresentados.
Elrond disse:
— Você se parece com seu avô. Conheci Thrór quando ele governava sob a montanha.
A resposta de Thorin foi seca:
— Engraçado, ele nunca mencionou você.
Anna internamente se contorceu com tamanha grosseria. O suor frio em seu corpo pareceu até aumentar de tanta indignação. Elrond respondia alguma coisa em élfico.
Glóin quis saber, indignado:
— O que ele diz? Ele está nos insultando?
Os demais começaram a murmurar raivosamente em Khuzdul, até que Gandalf esclareceu:
— Não, Mestre Glóin, ele está oferecendo comida.
Eles se consultaram brevemente, e Glóin respondeu:
— Bem. Neste caso, vá em frente.
Liderado por Elrond e Gandalf, vigiado por toda a tropa de elfos e Lindir, o grupo começou a se mover. Anna e Bilbo continuavam protegidos, os demais anões formando uma barreira humana ao redor dos dois pequenos.
Ela não se sentia bem, e teve que se segurar no anão mais próximo para não se desequilibrar. Era Kíli, o arqueiro. Ele se virou, cenho franzido.
— Dona Anna? — chamou. — Está bem?
— Sim. — Mas tudo girava. — Acho... que sim.
— Sente alguma coisa?
— Só uma tontura — disse Anna, trêmula e ainda suando frio. — Acho que vai passar. Não deve ser nada...
Bilbo quis saber:
— Está bem?
Anna sentia os olhos pesados ao responder:
— Acho que não... Bilbo... Ajude…
A última palavra foi pouco mais que um suspiro que ela ainda conseguiu dar quando as pernas se dobraram e seu corpo foi ao chão, não sem antes bater em Bofur, que se virou ao sentir o impacto e o grito de Bilbo.
— Anni!
Palavras em Sindarin:
Mellonen = meu amigo
Palavras em Khuzdul:
Ifrid bekâr = armas a postos
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