Jornada Para Erebor

19 Noite de gala e lágrimas


Notas iniciais
Anna quer respostas, mas só encontra angústia

A expectativa de Anna era poder passar parte da tarde com seus amigos, mas aparentemente Lady Galadriel tinha planos diferentes para ela. Os anões foram informados que Anna estaria indisponível até o jantar, que ela estava bem de saúde, mas que eles não poderiam vê-la, pois ela estava engajada em "atividades femininas".

Mais tarde, Gandalf descreveu a reação de Thorin de maneira diplomática: "Um warg raivoso com um ataque de fúria teria rosnado mais baixo."

Para surpresa de Anna, a ideia de Lady Galadriel de "atividades femininas" se traduziam em um tratamento de beleza tão completo que incluía vestidos (feitos na hora e sob medida), sapatos (idem), maquiagem e acessórios. Tudo ficou a cargo das damas que cuidavam de Lady Arwen, quando estava em Rivendell com o pai.

Se antes Anna se sentiu voltando a ser mulher, aquela tarde no spa élfico a deixou se sentindo como nunca antes.

Bonita.

As elfas explicaram que receberam a missão de apresentar Anna em trajes de gala no jantar de Estado de Mestre Elrond, a pedido de Lady Galadriel. Anna também notou que elas fizeram comentários desrespeitosos em élfico sobre os anões — e ela entendeu. Mesmo quando falavam élfico, ela entendeu o que diziam.

Era algo a indagar Gandalf ou Lady Galadriel.

Por ser verão, o jantar deu-se ainda com dia claro. Anna estava tímida quando as elfas a levaram até o salão.

No meio do caminho, ela encontrou Lady Galadriel, que a saudou.

— Vejo que as damas fizeram bem seu trabalho. Sua beleza brilha como nunca, querida Anna.

Ela ficou constrangida:

— Não chego aos pés de sua beleza, milady, mas agora ao menos me sinto digna de me sentar à mesa com sua graça. Fico muito agradecida pelo que fez por mim.

As duas caminharam lado a lado, o séquito indo atrás. Lady Galadriel acrescentou:

— Após o jantar, gostaria de continuar nossa conversa da manhã.

— Seria perfeito, minha senhora.

As duas sorriram e, segurando as pontas dos longos vestidos, começaram a descer as escadas que davam para um daïs onde os convidados as esperavam. O elfo Lindir anunciou:

— Lady Galadriel e Lady Anna.

Os homens se viraram. Lord Elrond, com seu jeito centrado, ergueu uma sobrancelha, impressionado. Gandalf (de cabelo penteado) abriu um sorriso para as duas. Thorin, contudo, parecia boquiaberto. Bilbo, de algum modo, trazia um olhar de orgulho. Os outros anões também a admiravam, alguns murmurando baixinho, espantados com a transformação.

Na cabeça de Anna não tinha sido lá grande transformação: o vestido fora feito na hora, um tom verde muito pálido e claro. Nos cabelos curtos, ela tinha flores pequenas presas a uma tiara prateada adaptada. Os sapatos eram de um couro delicado, obviamente para ocasiões especiais. Uma pasta carmim era o que substituía o batom perdido há tantas semanas.

Lord Elrond saudou:

— Duas beldades chegam para alegrar nosso banquete. Bem-vindas.

Anna se curvou graciosamente, e Gandalf comentou:

— A nossa Anna parece definitivamente muito longe de ser o hobbit adolescente que fingia ser. Bilbo, meu rapaz, diga adeus a seu sobrinho!

Os demais riram, e Bilbo confessou:

— Parece uma troca mais que justa, Gandalf. A família não vai se importar, posso garantir.

Todos, incluindo Anna, riram do comentário do hobbit, exceto Thorin. Anna sentiu os intensos olhos azuis a acompanhando.

Enquanto Gandalf foi explicar a Lord Elrond e Lady Galadriel a piada do hobbit adolescente, Bilbo acrescentou:

— Você está linda, Anna.

— Obrigada, Bilbo. Foi uma gentileza de Lady Galadriel.

Bofur concordou:

— Sim, Dona Anna, a senhora está uma boniteza só!

Glóin comentou:

— Podia parecer menos com uma elfa, mas pelo menos você tem um tamanho decente.

Fíli concordou:

— Se tivesse uma barba e umas tranças, não ia ficar devendo nada às anãs mais bonitas de todas as Montanhas Azuis!

Outros concordaram, Óin lamentando:

— Pena que as mulheres de sua raça não tenham barbas. Ia ficar mais linda que um rubi num colar!

— Não importa — interrompeu Thorin, aproximando-se de Anna e beijando sua mão com reverência. — Sua beleza rivaliza com todo o ouro de Erebor.

Enquanto os demais anões concordavam, Anna o encarou. Desta vez os olhos de Thorin pareciam trazer uma fome que deixou Anna de pernas bambas e esfogueada. Ela tinha o ímpeto de se atirar em seus braços e beijá-lo até ficar sem fôlego. Se estivessem sós, ela teria feito isso.

Nesse momento, Lindir chamou:

— Podem se sentar.

E por que, pensou ela, toda vez que ela pensava em beijar Thorin, era Lindir quem a interrompia? Parecia de propósito!

O grupo se deslocou para a área do jantar. As mesas eram circulares, dois grandes círculos numa espécie de grande deck com vista para o Vale de Imladris. No momento o sol se punha, e Anna pensou em como aquele lugar era lindo e romântico. Pena que Thorin fosse tão avesso aos elfos...

Anna sentiu o olhar dele nela, mas havia outro também a encarando. Ela se surpreendeu ao ver Lady Galadriel a olhando intensamente, como se pudesse olhar diretamente dentro de sua alma. Com alarme, Anna lembrou que provavelmente ela podia mesmo ver sua alma.

Elrond, Galadriel, Gandalf, Thorin, Bilbo, Balin e Anna foram acomodados numa mesa e os demais na outra. Assim que a comida foi servida, Anna ouviu o lamento de Ori: "Mais comida verde!".

Havia música suave e vinho. A conversa era agradável, e de repente voltou-se para espadas — mais especificamente para as espadas élficas encontradas quando resgataram Anna. Elrond reconheceu-as de imediato. Pegou a espada de Thorin.

— Essa é Orcrist, a Fende-Orc, Cortadora de Orcs, uma lâmina famosa. Foi forjada pelos Elfos Superiores da Primeira Era, meu povo. — Devolveu-a a Thorin. — Que lhe sirva bem.

Thorin meneou a cabeça polidamente, e Anna achou um progresso a reação do anão teimoso e desconfiado.

— E esta é Glamdring. — Anna teve a impressão que Elrond soltou um pequeno suspiro de admiração ao retirar a bainha da espada de Gandalf. — O Martelo dos Inimigos. Era a espada do rei de Gondolin.

O senhor de Rivendell estava aturdido ao devolver a espada ao mago.

— E como vocês as encontraram?

— Numa caverna de trolls, após o que suspeito tenha sido um embate entre orcs e sua gente.

— Onde isso aconteceu? — quis saber Elrond.

— Na Grande Estrada do Leste.

— E o que faziam na estrada do leste?

Gandalf claramente não esperava a pergunta. Thorin entrou em alerta. Num impulso, Anna respondeu:

— Temo que eles estavam lá por minha culpa. Lord Elrond, a companhia me salvou da morte certa. Os orcs me capturaram, e eles me resgataram. Serei eternamente grata.

Elrond estava curioso.

— Sim, mas o que isso tem a ver com o hobbit adolescente de que ouvi falar?

Anna respondeu, animada:

— Para despistar os orcs, resolvemos me disfarçar de um hobbit adolescente acompanhando seu tio Bilbo numa viagem!

O elfo se espantou:

— E deu certo?

Anna deu de ombros.

— Humanos acreditaram sem pensar duas vezes. Um orc me reconheceu, ou farejou talvez, mas não me pegaram. Acho que o disfarce não será mais necessário.

— Confesso que me enganou — disse o elfo. — Mas admito que sua transformação para trazer de volta sua identidade feminina foi impressionante.

Anna ressaltou:

— Foi uma gentileza de Lady Galadriel. Uma das muitas alegrias que encontrei em Rivendell. Fico imensamente grata pelo tratamento recebido por mim e meus companheiros.

A refeição se passou de maneira agradável, mas o tempo inteiro Anna sentiu os olhos de Thorin nela. A princípio, ela imaginou que ele estivesse preocupado com a possibilidade de Anna deixar escapar o verdadeiro motivo da viagem. Anna sabia que Thorin pretendia manter segredo a esse respeito. Claro, ela não tinha como saber que Lord Elrond já conhecia o segredo.

Logo, porém, Anna se deu conta que os olhares dele tinham um outro motivo. Geralmente ela não percebia esses sinais de desejo, mas Thorin parecia encará-la com aquele tipo peculiar de fome. Era pura paixão, que parecia surgir do corpo dele e atingi-la em ondas densas, deixando-a esfogueada.

Quando Anna se deu conta do que era (e reagiu favoravelmente), enrubesceu tanto que Lord Elrond reforçou a taça com água, imaginando-a acalorada. Bilbo sorria de um jeito que deixava clara sua percepção das mensagens silenciosas.

Ao fim da refeição, Gandalf e anões se reuniram para fumar seus cachimbos (desaprovados pelos elfos), e Lady Galadriel convidou Anna para apreciar a noite de lua clara numa das mais altas torres de Rivendell. As duas se afastaram do grupo.

— Isso tudo é tão lindo... — comentou Anna, de olho no horizonte. — Parece o paraíso. Nunca vi nada parecido.

A dama observou:

— Preciso visitar Rivendell com mais frequência e trazer Arwen para ver o pai. Ele tem saudades, posso sentir. Ela me faz longas visitas, e seus irmãos também. Gostaria que pudesse conhecê-los. — Virou-se para Anna. — Gandalf me informou que você veio de um outro tempo.

Anna concordou:

— Tudo que eu sei do mundo de vocês vem dos livros, minha senhora. Arda é um outro planeta para mim.

A elfa constatou:

— Sua gente conhece esses outros mundos. Viajam em máquinas voadoras e grandes carruagens.

Anna concordou:

— Sim, este é o futuro. Venho de muitos anos à frente. Só alguém como um elfo compreenderia essa passagem de tempo.

Ela continuou:

— E Gandalf me diz que você teme o retorno do mal ao nosso mundo.

— É isso mesmo. O mal parece estar tentando se instalar. Há sintomas por todo lugar. Gandalf tem mencionado isso. Não vê? Até na ferida de minha mão havia o toque do mal.

— Sim, havia. Mas estava misturado à marca do orc. Ele a marcou para ser sua consorte, sua esposa. Era parte de sua maldição: ser a consorte de um orc.

O coração da Anna quase parou.

O q-quê...? Não, ele me marcou como escrava. Escrava, só isso.

Galadriel explicou:

— Escrava pessoal. É o mais próximo de um consorte que um orc pode chegar, mas imagino o motivo. — Ela ficou pensativa. — A menos que... Diga, Anna, você já conheceu um homem?

Anna franziu o cenho.

— Não estou entend... Oh! — Anna ficou vermelha. — Sim, claro que sim.

— Que estranho... Orcs geralmente só se interessam por donzelas. Diz-se que eles podem sentir o cheiro quando estão perto de uma virgem.

Foi aí que Anna a encarou, lembrando-se de uma informação relevante.

— Mas espere. A menos que eu esteja enganada, eu posso ser uma virgem.

Galadriel ergueu uma sobrancelha, espantada.

— Pode haver engano sobre essa questão?

— Desculpe se me expressei mal. Gandalf lhe disse que esta não é minha forma, originalmente, não foi? Que sou humana, e era uma humana normal até vir para cá? Que eu nunca fui tão pequena?

Ela ficou calada una segundos, antes de deduzir:

— Este corpo é novo. Sim, você pode ter razão. Há uma chance de que você seja intocada.

— Isso explicaria os orcs me perseguindo! E um deles me reconhecendo, mesmo disfarçada.

Galadriel indagou:

— Posso lhe sugerir que se livre disso o quanto antes?

Por aquilo Anna não esperava.

O quê?

Galadriel ponderou:

— Ficará mais segura sem isso. Não é só de orcs que precisa temer. Dragões podem cheirar virgens a uma grande distância. São atraídos por jovens intocadas como moscas ao mel.

Anna perdeu a fala, além da respiração, o corpo todo tremendo. Galadriel completou:

— Não se sabe o que eles fazem com elas, se defloram ou devoram. Só o que se sabe é que elas nunca mais são vistas.

Anna ainda não conseguia compreender.

— Mas dragões são imensos! Como podem...?

— Alguns dragões são metamorfos — esclareceu a elfa. — Assumem a forma humana e seduzem as moças. Fala-se também de um poder hipnótico. Mas não se tem muita informação. Infelizmente poucos têm um encontro com um dragão e vivem para contar.

— Que ironia! Quando eu era criança, adorava dragões e fadas.

— Por quê?

— No meu mundo, estes seres desapareceram há tanto tempo que não se acreditam que tenham existido. Viraram histórias para crianças. Só para meter medo. Como eu estou agora: assustada.

Galadriel olhou-a com atenção e carinho:

— Querida Anna, de que tem tanto medo?

— Sei que pode ler minha mente e talvez até já saiba a resposta. Bem, é uma lista de medos! Tenho medo de mudar a história, e também de não mudar a história. Pessoalmente, tenho medo de não fazer o que vim fazer — seja lá o que for. E de ficar presa aqui neste mundo, que para mim é tão assustador.

— São temores legítimos, Anna. Mas podem ser exagerados.

— Não vejo exagero. Se o mal se erguer, como teme Gandalf, minha interferência pode ajudar sua ascensão. Tenho sido muito cuidadosa, porque minhas ações ou palavras podem mudar o destino deste mundo. Seria irresponsabilidade minha brincar com essas coisas. Em última instância, aliás, isso pode interferir no meu futuro e no futuro do meu mundo. Lady Galadriel, esperava que pudesse me ajudar, com seus poderes. Não sei como voltar para minha casa, e embora aqui não seja ruim, este não é o meu lugar. Preciso voltar para onde pertenço. Há algum lugar onde possa ir, alguém que possa me ajudar?

Ela encarou Anna, e a moça ficou incomodada com o olhar penetrante. Era como se a elfa pudesse enxergar dentro de sua alma.

— Lamento não ter a resposta que queria, cara Anna. Posso ver sua frustração. Mas ouso dizer que a resposta aparecerá para você, no tempo certo.

— Pode ao menos me dizer se devo mudar a história ou seguir a história que conheço? Porque há aspectos dela que, sinceramente, me deixam angustiada.

Galadriel disse:

— Posso sentir sua angústia. Teme pelo destino de Thorin Oakenshield.

— Sim.

— Você o ama.

— Sim — Anna respondeu, os olhos enchendo-se de lágrimas.

Galadriel parecia distante ao falar:

— A morte cruza o caminho dele, e você quer impedir isso, mas... tem medo. Você teme as consequências.

Anna tentava conter as lágrimas.

— Thorin não sobrevive à aventura. Ele será mortalmente ferido, vai morrer. Assim é a história, foi isso que eu li. Mas como posso deixar isso acontecer? Como posso ver o homem que eu amo morrer? Por outro lado, se eu salvá-lo, como posso garantir que a história não vai mudar para pior? Sauron poderá se erguer mais rápido, ou atacar diferente, enfim, o futuro estará mudado. Mas de qualquer modo, eu tenho uma teoria, uma que tenho dificuldade até de admitir.

Galadriel se interessou.

— Conte-me sua teoria.

Anna disse, cada vez mais angustiada.

— Não sou muito boa com datas, mas pelos meus cálculos, a essa altura, Sauron ainda está fraco, procurando os Anéis do Poder. Minha teoria é que ele ainda não tem o último Anel dos Anões, que foi confiado à Linhagem de Durin. É possível que o próprio Senhor das Trevas tenha mandado aqueles orcs nojentos a Moria, sabendo que Thrór iria querer tomar a montanha depois que Erebor caiu. Achei estranho que Azog tenha jurado acabar com a linhagem de Durin. Pois bastava a ele manter Moria, não precisava acabar com todos eles.

A elfa acompanhava o raciocínio:

— Então acha que foi deliberado?

— É só uma teoria, mas pelo que ouvi, esse orc é obcecado com Thorin Oakenshield. Ele pode estar cumprindo uma missão do próprio Sauron. Ele vem de Gundabag, não? O Rei-Bruxo de Angmar vivia por ali perto. Ele pode ter levado o recado de seu chefe a Azog: destruir a linhagem e pegar o último anel.

Pesadamente, Galadriel admitiu:

— Se o que você diz é certo, Thorin Oakenshield corre um grande risco.

Anna deu de ombros:

— Na minha cabeça, isso faz mais sentido como motivo para Azog perseguir a companhia do que a simples perda de uma escrava.

— Não posso fingir entender os motivos de orcs, mas ouso dizer que seu pensamento faz sentido, pequena Anna — disse Galadriel. — Você falou em Anéis de Poder. O que sabe sobre isso?

Anna chegou a olhá-la com reprovação:

— Coisas que chegam aos livros de história não o fazem por acaso. É claro que sei muito sobre os anéis. Mas o que sei sobre o futuro deles não posso revelar.

Galadriel a encarou:

— Não pode?

Anna se angustiou:

— É muito arriscado! A situação era perigosa e difícil, pelo que li. Por que eu correria o risco de mudar o desfecho dos acontecimentos?

Fez-se silêncio nervoso, no qual Anna não ousara encarar a elfa. Galadriel admirou-se:

— Você pensa numa longa guerra. Vejo em sua mente que Sauron será derrotado com muito esforço e muito sacrifício, finalmente. Você teme que seus atos possam levar à derrota dos que combatem o Mal: à vitória de Sauron!...

Anna não impediu as lágrimas de caírem por suas bochechas.

— Pedi a Gandalf para me matar se ele constatasse que Sauron estava me usando para se fortalecer ou para obter qualquer vantagem. Posso dar minha vida, de bom grado, mas não posso ver Thorin morrer sem poder fazer nada. Isso é pedir demais de alguém que ama.

— Oh, criança — Galadriel a abrigou em seus braços, apesar da diferença de tamanho. — Minha criança corajosa, adorável e generosa.

Anna chorava abertamente:

— Minha dama, por favor, minha senhora, me ajude. Não tenho mais ninguém a quem recorrer. Não posso contar isso a Gandalf, e não posso contar isso a mais ninguém.

— Você o ama muito, não? Thorin, digo.

Anna confessou:

— Até eu fiquei surpresa ao ver o quanto o amo.

Os olhos de Galadriel eram pura tristeza quando ela encarou a pequena de olhos cor de mel.

— Anna, como gostaria de ajudá-la. Gostaria de lhe dizer o que fazer, mas não posso. Não tenho palavras. As águas do futuro estão revoltas, sem uma imagem clara. Mas eu já vi o seu coração e sei que ele é puro, e justo e sincero. Não vejo como Sauron possa corrompê-la. Confie em seu coração quando quiser saber se está ajudando o mal.

Delicadamente, Galadriel beijou a fronte de Anna.

— Tenha fé, minha corajosa Anna. E siga o seu coração.

Anna enxugou as lágrimas, inspirando profundamente.

— Agradeço tudo que fez por mim. Espero corresponder a tanta confiança, minha senhora.

— Fico feliz com suas palavras. Agora, infelizmente, devo deixá-la. O último membro do Conselho chegou para uma reunião de emergência e Saruman não gosta de esperar.

O nome provocou uma reação de Anna antes que ela pudesse se controlar.

— Saruman…!

Lady Galadriel estranhou. — Sim, Saruman, o Branco. Você o conhece?

Anna tentou disfarçar.

— Oh, não pessoalmente, não. Mas ouvi falar muito dele. Gandalf também mencionou que ele é o mais alto de sua ordem.

— Sim, é um homem muito sábio.

— Só fiquei imaginando se os livros estavam errados…

— Os livros?

— Os livros de história — explicou Anna. — De onde eu venho, diz-se que os Valar escolheram Gandalf para ser o líder da ordem dos Istari na Terra Média. Mas, por uma questão interna deles que ninguém soube explicar muito bem, Saruman terminou sendo o escolhido. Aparentemente, isso provocou certo desconforto entre os dois, especialmente em Saruman. Gandalf nunca contestou o poder de Saruman, mas Saruman sempre viu o Cinzento como uma ameaça a seu poder.

Anna calou-se nesse ponto, e Galadriel indagou:

— Seus livros dizem mais alguma coisa?

— Sim. — Anna sabia que era impossível mentir para alguém que tinha poderes sobre sua mente. — O Conselho Branco está a ponto de fazer uma intervenção crucial em Dol Guldur. É imperativo que isso seja feito. Só vai demorar anos até que a situação de Saruman chegue a um ponto que os próprios Valar poderão questionar a decisão que tomaram sobre os Istari da Terra Média. Até lá, não vale a pena mencionar o caso.

Era o máximo que Anna podia falar sem revelar que Saruman seria corrompido por Sauron ao longo do tempo. Agora mesmo, era possível que ele quisesse dissuadir o Conselho de ir a Dol Guldur. Anna sabia que nessa intervenção, Sauron abandonaria a pretensão de ser o Necromante e fugiria para Mordor, onde suas forças já começavam a se aglutinar.

Se Galadriel percebeu alguma coisa, nada disse, limitando-se a desejar:

— É melhor não pensar mais nisso agora, querida.

Anna indagou:

— Lady Galadriel, antes de sair, poderia apenas me responder uma pergunta? É sobre a água que tomei, Gil-Estel.

— O que tem ela?

Anna concentrou-se e depois indagou, falando perfeito élfico:

— [Por que ela me deu fluência em sua língua?]

Pela primeira vez desde que a conhecera, Anna viu a elfa admirar-se a ponto de ficar boquiaberta.

— [Isso é inédito!... Talvez não seja só Sindarin. Há relatos datados da Primeira Era de enviados de Valar capazes de falar todas as línguas, mesmo Khuzdul, que é secreta.]

Anna rapidamente reverteu para a língua comum:

— Mas com que objetivo?

Galadriel sorriu:

— Obviamente, essa habilidade vai facilitar sua comunicação. Pense bem naquilo que pretende comunicar, pois tudo indica que serão palavras poderosas.

Anna assentiu, pesadamente:

— É um bom conselho. Obrigada.

— Tenha um bom descanso, Anna. Você ainda precisa se recuperar.

Anna apenas fez uma reverência respeitosa e saiu, sabendo muito bem que aquela noite não seria de descanso.

Mas ela não imaginava o que o resto da noite traria.