Jornada Para Erebor

53 Momento de decisão


Notas iniciais
Anna pode ter calculado mal a fúria de Thorin

A cena era tensa. Thorin encarava Anna com um olhar homicida. Gandalf e Thranduil emanavam apreensão pelos poros, enquanto Bard parecia prestes a pular em cima de Thorin se ele fizesse qualquer gesto brusco. Os anões estavam tão perplexos que pareciam petrificados. A pequena quebrou o silêncio.

— Eu pedi a Bilbo para entregar a Arkenstone, pois eu sabia que você a negociaria — Anna explicou, em lágrimas, consciente da dor que causava em Thorin. — Eu estou cumprindo meus deveres de Consorte. Entregue a eles o ouro e faça uma aliança contra os exércitos inimigos que se aproximam! É nossa única chance!

Se antes o rosto de Thorin trazia dor e decepção, agora ele endurecera em pura raiva. Jamais Anna vira tanto ódio no rosto que tanto amava, nem mesmo dirigido a elfos. Ele rosnou, seco, sua voz baixa e profunda:

— Você me traiu.

Anna tentou dizer, ignorando todos que acompanhavam a cena:

— Não! Você está doente, Thorin! Não vê? Só pensa em seu ouro e nessa pedra! Se o rei está doente, é dever da Consorte negociar em seu nome.

Thorin a agarrou pelos ombros e a sacudiu, como tinha feito com Bilbo, vociferando:

— Como ousa dizer que estou doente?!

Anna chorava, mas não deixou de dizer:

— Todos aqui me disseram que não há nada mais valioso do que um bebê para vocês, e que meu bebê valia mais que todo o ouro de Erebor. E você me chama de ghivashel, de tesouro, mas é mentira, pois seu ghivashel é a Arkenstone! — lembrou Anna, amargamente, e Thorin a largou no chão, chocado. — E agora você troca a mim e seu filho por um pedaço de rocha!

O silêncio foi tamanho que a voz de Anna chegou a fazer eco. A pausa foi interminável, e ela ofegava. Thorin não demonstrava nenhuma emoção, e seu rosto mantinha-se extremamente pálido. Anna começou a temer por sua vida.

Ai jesus desta vez morri.

De repente, Thorin ergueu o dedo em riste para ela e avisou, em voz grave e ameaçadora:

— Lidarei com você a sós. Quanto a você — virou-se para Bilbo, rosnando —, saia daqui e junte-se a seus amigos. Vá embora!

Bilbo desafiou:

— Não sem Anna!

— Ah — Thorin praticamente grunhiu. — Vejo que estão todos mancomunados!

— Eu só temo pela segurança dela — disse o hobbit, vendo como Anna estava abalada. — Não quero deixá-la sozinha com você.

Anna tentou dizer, temerosa pelo hobbit:

— Bilbo, é melhor você ir. Eu estarei bem.

Gandalf também parecia sombrio:

— Bilbo não deixa de ter uma ponta de razão. Thorin não está fazendo uma grande figura como Rei sob a Montanha até agora.

Anna garantiu:

— Agradeço a ambos, mas podem ir tranquilos. Assumirei total responsabilidade por meus atos.

Thorin se virou para Dwalin e falou, em Khuzdul:

— [É melhor levá-la para dentro.]

Balin interferiu:

— [Terá que ser feito com gentileza, meu rei. Deixe que eu cuido disso.]

Thorin assentiu e virou-se para Bilbo:

— Você usa um traje bom demais para você! Vá, ou eu o jogarei para fora!

Bilbo indagou:

— Mas e o ouro e a prata?

Anna quis ouvir a resposta de Thorin, mas sua atenção foi desviada por Balin, que gentilmente pegou seu braço e disse, em voz baixa:

— Venha, Dona Anna. Vamos para dentro. Ordens de Thorin.

Anna hesitou, receosa, mas assentiu e deixou-se ser levada enquanto os demais conduziam as negociações. Ninguém interferiu, se é que alguém notou.

Lá dentro, Balin se sentou com Anna na mesa do Grande Salão de Thrór, suspirando. Anna sentia a decepção emanar do anão como se fosse água vibrando numa superfície parada.

E não havia nada que ela pudesse fazer.

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— Maldito seja, seu descendente de ratos! — praguejou Thorin, sacudindo os punhos para Bilbo. — Darei o que me pedem, mas considere que isso sairá de sua parte do tesouro. Talvez eu não devesse honrar o contrato em vista de sua traição, mas eu o farei! Você dizia que não é ladrão. Temo o que poderia acontecer se fosse um ladrão de verdade!

O hobbit quis se certificar:

— Então nos dará o ouro e a prata?

— Sim, sim, nanico! Seguirão conforme seja possível.

Bard teve a intuição de dizer:

— Então, Thorin, você tem até amanhã, ao meio-dia. Até lá, ficaremos com a Arkenstone, por garantia. Até lá, passe bem!

Gandalf interrompeu:

— Esperem! E Anna?

Os outros olharam em volta, alarmados por verem que ela tinha sumido bem debaixo de seus olhos. Thorin garantiu:

— Ela está dentro da montanha. Não precisam se preocupar com ela.

Bilbo respondeu, cenho franzido:

— Eu me preocupo o quanto eu quiser, Thorin! Ela é minha família agora.

Um elfo saiu de trás do rei Thranduil e garantiu, de dentes cerrados:

— Se você arrancar um fio de cabelo dela, não haverá buraco grande o suficiente nessa montanha inteira para escondê-lo, anão!

Thorin apertou os olhos, reconhecendo-o como Legolas, um dos filhos do rei élfico. O Rei sob a Montanha devolveu a ameaça:

— Esse assunto não é de sua alçada, elfo.

— Vamos — chamou Bard. — Vamos embora. Amanhã voltaremos.

— Adeus! Adeus a todos, amigos! — disse Bilbo. — Espero que algum dia possamos nos reunir como amigos novamente!

Então, depois de mais alguns olhares tortos, eles foram embora, rio abaixo, levando Bilbo. Muitos anões estavam tristes e constrangidos com a partida do hobbit, a quem consideravam como amigo. Mas nenhum deles iria contrariar a palavra de Thorin.

No momento, Thorin estava mais determinado a arrancar uma explicação para uma das maiores traições que sofrera.

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— Por quê, menina? Não consigo entender.

Anna encarou Balin, olhos cheios de água:

— Eu o amo, Balin. Amo-o como nunca pensei ser possível amar alguém. Esse foi o único jeito que encontrei de salvá-lo.

Balin apontou:

— Poderia ter falado comigo. Ou outro de nós.

Anna suspirou:

— Não tenho certeza se entenderiam. Além disso, nenhum de vocês faria o que é preciso. Vocês jamais o enfrentariam.

A voz de Thorin soou pelo salão:

— São leais a seu rei, não são traidores.

Anna respondeu, sem agressividade:

— Eu também não sou traidora, embora você não acredite nisso. E amo você.

Thorin acercou-se dela:

— Não sei o que fazer com você.

— Faça o que quiser: me mate, me prenda. Só quis salvar sua vida. — As lágrimas voltaram sem que Anna pudesse se controlar. — Eu não queria chegar a isso. Jamais quis lhe causar essa dor, mas você não me ouvia, Thorin. Está doente, não vê?

Thorin a encarava, cenho franzido, mas a animosidade parecia ter diminuído, substituída que fora por pura decepção. Aquilo quebrou ainda mais o coração de Anna, por saber que ela era responsável pelo sofrimento de seu amado.

— Como pode ter tanta certeza de que vá me salvar? — insistiu Thorin. — Ou de que minha vida esteja em perigo, para começo de conversa?

Anna o encarou, confusa, antes de indagar:

— Thorin, por que me faz essa pergunta? Você sabe de onde vim, e sabe das coisas que sei.

O rosto de Thorin ainda denunciava sua confusão (e desconfiança). Era óbvio que ele não se lembrava da explicação de Anna. Ela tentou de novo:

— Assim que cheguei à companhia, expliquei a Bilbo, a Gandalf e a você sobre quem eu era e de onde tinha vindo, e por que eu deveria vir com vocês a Erebor. Não se lembra disso?

Fíli quis saber:

— Não me lembro disso. Quando foi?

— Quando estávamos na Curva do Rio — respondeu Anna. — Pedi segredo a vocês três por causa das graves implicações.

Kíli se virou para o tio:

— Que implicações? Thorin, do que ela está falando?

O Rei sob a Montanha respondeu:

— Não me recordo de tal diálogo. Ela pode muito bem estar elaborando uma mentira para tentar nos comover.

Anna se indignou:

— Não é mentira! Pode confirmar com Bilbo e Gandalf!

— Claro — ironizou Thorin. — Os seus fiéis amigos.

Antes que Anna respondesse, Balin interveio:

— Talvez, menina, fosse melhor nos dizer do que se trata.

Anna hesitou, encarando a todos. Mas sentiu que sua situação não poderia ficar pior do que estava, então ela deu de ombros.

— Que seja. Parece que tudo está perdido mesmo. É melhor eu parar de esconder coisas de vocês, que são como minha família.

Eles se entreolharam, constrangidos, e Anna fungou, antes de começar sua narrativa:

— Pedi a Thorin que guardasse segredo por causa das consequências. O fato é que eu venho do futuro. Tudo o que aconteceu e o que está acontecendo é passado, para mim. Sua aventura, a retomada de Erebor, é contada a todos, um grande fato! — Eles pareceram espantados. — Acham que uma aventura como essa não iria ser passada a futuras gerações? Vocês todos são grandes heróis, e estou honrada por ter feito parte da companhia. A morte de Smaug, a jornada, as batalhas, as dificuldades – tudo isso é virtualmente lenda na minha terra!

Os anões estavam abismados. Fíli e Kíli pareciam excitados por serem lembrados como heróis. Óin quis saber:

— É por isso que sequer sabia acender um fogo?

— Ou matar uma galinha? — lembrou Nori.

Anna confirmou:

— Sim, no meu tempo as coisas são muito diferentes. Vocês não têm nem ideia.

Dwalin indagou:

— E que consequências graves são essas que tanto fala?

Anna respondeu:

— Expliquei a Gandalf que se eu falasse sobre o futuro, vocês poderiam querer modificá-lo, e aí poderíamos deixar de retomar Erebor. Tudo estaria perdido e eu não iria deixar isso acontecer.

— Por quê? — Thorin perguntou, desconfiado. — Você não tem obrigações para nossa raça. Por que tanto interesse na retomada da montanha?

Anna respondeu:

— Era importante para toda Terra Média que Smaug fosse derrotado e Erebor retomada. Há um grande mal tentando se instalar, Thorin. Se ele conseguir, o nosso presente e o futuro de minha gente estarão ameaçados. Não posso dizer mais do que isso porque este mal tem um olho que tudo vê. Se eu disser mais, ele poderá me localizar e colocar vocês todos em perigo.

Fíli indagou:

— É por isso que fala em salvar Thorin? É isso que diz o futuro?

Anna abaixou a cabeça e fechou os olhos, as lágrimas escorrendo:

— Os livros falam da doença de Thorin, trazida pelo ouro, uma ganância e uma cobiça terríveis. Esta doença perturba sua mente e o deixa louco. A doença atrai dragões ou é transmitida por dragões, não se sabe bem. De qualquer forma, a doença não deixa Thorin negociar, vem a guerra e... ele é mortalmente ferido em batalha. Thorin jamais assume o trono em Erebor, e é enterrado embaixo da montanha. — Anna soluçou. — Eu jamais iria deixar isso acontecer.

Thorin indagou:

— E como a pedra de meu pai poderia impedir isso?

Anna soluçava ao dar o longo relato:

— Não achei que fosse preciso recorrer a ela. Quando você me disse que me amava, eu acreditei que nosso amor pudesse ser como um escudo, capaz de impedir que a doença do ouro se instalasse em seu coração. Depois, quando vi sua alegria com nosso bebê, fiquei ainda mais feliz, achando que você ficaria a salvo da doença. Livre deste mal, você negociaria com elfos e homens, e todos se uniriam contra os orcs e os goblins. Mas eu me enganei. Nosso amor e nosso filho não foram suficientes. Você ficou obcecado pela Arkenstone. Então eu tive que usar a pedra para tentar salvar sua vida. Como sua consorte, era meu dever assumir decisões durante sua enfermidade.

Com ceticismo, Thorin quis saber:

— Se não sou eu a assumir o trono, então quem é rei? Fíli?

Anna o encarou, ainda mais emocionada:

— Oh, amor... Acha que isso seria possivel? Acha que Fíli e Kíli não o protegeriam em batalha? Ambos morrem formando um escudo com seus corpos para tentar salvar seu rei...!

Por muito tempo, só o que se ouvia no salão eram os soluços de Anna. Kíli quebrou o silêncio:

— Mas... Então... Você fez tudo isso... e você se arrisca a atrair a ira do rei?

Uma dor no peito quase deixou Anna sem ar, mas ela insistiu em dizer, entre soluços:

— Se isso mantiver o rei estiver vivo, eu... eu estou disposta a pagar esse preço, mesmo que o rei fique com raiva de mim. Eu o amo. Darei a minha vida por ele. É isso que vai acontecer de qualquer jeito, não é? Suponho que traição seja um crime punido com a morte.

Os anões ficaram desconfortáveis, notou Anna. Glóin se espantou e quis saber:

— Você sabia?

Anna deu de ombros:

— Não, foi só um palpite. Mas eu sempre falei sério quando disse que daria minha vida por Thorin. Aliás, se ele me odeia tanto quanto parece, para que eu iria querer viver? Se ele não me ama, minha vida acabou. Só meu filho me comoveria, mas sem o pai... — Ela não conseguiu terminar, chorando.

Thorin estava em silêncio, e os outros pareciam confusos e divididos. Anna percebera que suas palavras emocionaram alguns de seus companheiros, mas ela sabia que nenhum deles desafiaria as ordens de seu rei, se ele a condenasse à morte.

Alguns minutos se passaram. Depois Thorin rompeu o silêncio, em voz grave e solene:

— O Conselho se reunirá para deliberar a situação desta mulher. Até lá, para evitar que tente escapar, ficará sob custódia numa cela, aguardando a sentença.

Balin tentou dizer:

— Thorin...

Anna assegurou:

— Não tentarei escapar, prometo.

Ele a ignorou:

— Bofur, Bombur, podem levá-la para a prisão. Bofur, vigie-a bem e não fale com ela. Um traidor sempre tem truques escondidos.

Embora esperasse por essa reação, Anna se magoou com as palavras de Thorin. Ao ser levada para a cela, em silêncio, ela se sentiu totalmente drenada de energias, emocionalmente exausta. No fundo, ela tinha esperança de que as coisas não chegassem a esse ponto.

Talvez ela tivesse calculado mal a extensão da doença de Thorin.

Ou de sua ira.