Jornada Para Erebor
2 Há vida na floresta
Notas iniciais
Depois de um “lauto” desjejum de água com chocolate, Anna retomou a caminhada na manhã seguinte. O dia estava nublado e cinzento. Sem capa ou guarda-chuva, Anna torceu para que o clima não piorasse além de um chuvisco leve.
Durante o dia inteiro, Anna caminhou pela estrada da encosta, com cuidado para não escorregar. O chuvisco começava a apertar. Os ruídos da floresta até pareciam se acalmar. Por isso, quando o sol se pôs, ela ouviu.
Havia vozes na floresta, distantes. Não dava para confundir com ruídos de animais. Definitivamente eram sons de gente falando, concluiu Anna.
Civilização, afinal! Talvez fosse um acampamento ou coisa assim.
Animada, ela apressou o passo em direção às vozes. Afinal, estava ficando cada vez mais escuro. À medida que caminhava, contudo, notou algo estranho no ar. Os gritos não eram de pessoas felizes acampando na floresta. Ela franziu o cenho.
Os barulhos aumentaram, indicando que ela estava cada vez mais perto da fonte. Resolveu se esgueirar entre as árvores, tentando chegar mais perto em segurança.
Ela deu sorte de estar num estrada alta. Ao perceber que a fonte dos barulhos estava abaixo, ela sabia que estava em vantagem. Foi aí que viu.
Abaixo, entre as árvores, estava uma espécie de caravana, iluminada com tochas que insistiam em ficar acesas apesar da chuva miúda. Um cavalo levava uma carroça de animais enjaulados, cercado de cavaleiros em estranhas montarias. Anna não conseguia enxergar bem, mas aqueles não pareciam ser cavalos normais. Os cavaleiros montados também pareciam diferentes, mas àquela distância e na luz fraca, era difícil saber.
Então Anna conseguiu notar que os cavalos não tinham caudas de cavalos, nem cabeças de cavalo, nem orelhas de cavalo. Um deles rosnou e o outro uivou.
Uivos? Lobos.
Com o coração acelerado, Anna tentou adotar uma atitude serena. Nenhum lobo que ela conhecia era grande o suficiente para um homem montar. Com um mau pressentimento, ela observou melhor os cavaleiros.
Não tinham chapéus ou capacetes. Todos pareciam ser carecas ou quase carecas. Pareciam carregar armas como espadas, machados, machetes, clavas.
Então, com horror, ela percebeu.
Não são humanos.
Anna entrou em pânico. Como podia ser? Que lugar era aquele? Quem eram aquelas criaturas? Pareciam cobertas de coisas podres, deformados...
Jesus, é o apocalipse zumbi.
Ela queria correr, mas as pernas pareciam ter virado chumbo ou pedra derretida. Seus olhos se grudaram na cena daquela caravana macabra, com aquelas criaturas levando seus animais pela floresta e...
Anna interrompeu-se, o estômago revirando. Aqueles seres enjaulados não eram animais. Será que eram humanos?
Ai meu deus ai meu deus
O pânico já tinha se instalado, e Anna lutava para não se denunciar. Então de repente a caravana se deteve. A carroça parou, os cavaleiros se espalharam. Talvez fossem fazer alguma refeição. Anna certamente estava com fome.
Mas o que ela viu embrulhou seu estômago. Um dos montados abriu a porta da jaula e de lá retirou uma das criaturas presas, com violência. O prisioneiro saiu esperneando e gritando. Anna não entendeu o que ele dizia, mas podia ver o pavor e o medo extremo. Então o cavaleiro atirou o prisioneiro longe. As montarias se atiraram em cima do pobre animal, despedaçando-o em segundos.
Chocada, Anna teve que colocar uma mão na boca para não deixar escapar um grito de surpresa, choque e horror. Ela tremia feito uma vara verde, coração parecia que ia sair do peito. Tentando controlar as emoções e recuperar o fôlego, ela recuou, engolindo o choro. Tinha que ficar bem quieta ou também viraria comida de lobo.
Foi nesse momento que ouviu um rosnado bem próximo ao seu ouvido. Virando-se num impulso, deu de cara com um daqueles lobos a encarando, presas à mostra. Talvez fosse a perspectiva, mas para Anna o animal parecia imenso, maior do que uma minivan, um urso ou rinoceronte. Montado nele, havia uma criatura monstruosa, parecendo defeituoso, rosto tão aleijado que era impossível determinar se era deformação ou esgar.
Com um grito abafado, Anna sentiu o mundo girar e escurecer.
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