Jornada Para Erebor
3 Experiência de horror
Notas iniciais
Acordar foi horrível, mas Anna sentia como se ainda estivesse num sonho. Num sonho horrível.
Ela estava no fundo da carroça, cercada de outras criaturas, nenhuma delas humanas. Sujas, esfarrapadas, muitas estavam feridas. Mas o pior eram as expressões: um misto de horror, de nojo e desesperança. Nenhuma delas sequer prestava atenção em Anna. A jaula estava apinhada de seres com essas expressões. Ela precisou de um esforço consciente para conter o pânico.
Anna olhou para fora da jaula. Já era dia, a carroça andava a passos lentos, sacolejando muito no terreno extremamente acidentado. Todos os cavaleiros eram aquelas criaturas deformadas montadas em lobos monstruosos e gigantes. Eles ficavam circundando a carroça, gritando abusos em uma língua que Anna jamais ouvira. De vez em quando, batiam com suas armas na gaiola de ferro que levava os prisioneiros.
Jamais Anna havia ficado tão apavorada na sua vida. Paralisada de medo, ela estava em choque, sem saber se tudo era apenas um pesadelo, se deveria se entregar ao total desespero ou se ela tentava fazer seu cérebro funcionar de alguma forma.
Uma das criaturas chegou perto, como se farejasse algo no ar. Olhou para Anna com atenção, uma expressão que ela não soube dizer se era curiosidade ou desprezo. Ela viu seu observador sair a galope e dirigir-se a outro daqueles monstros, um de corpo pálido leitoso sem camisa, montado num lobo igualmente branco. O brancão, quase albino, pegou as rédeas de seu lobo e veio até a carroça.
Por algum motivo, Anna arrepiou-se ainda mais ao ver o monstro que se aproximava. Ele estava sem camisa e seu torso era riscado de marcas semelhantes a tatuagens, mas não feitas com tinta, e sim com ponta de faca. Parecia maior do que os demais, totalmente careca, e olhos tão azuis que pareciam ser quase brancos. Anna o olhou, porque ele também a olhava. Reparou que ele não tinha um antebraço e tinha trocado por uma espécie de lança ou seta de metal, enfiado no toco de braço de maneira grotesca. O monstro encarou fixamente para Anna e gritou algo na linguagem gutural deles.
Anna se distraiu quando a carroça parou. Olhou em volta. Era uma encosta de montanha, perto de grandes rochedos e muitas árvores, num terreno extremamente irregular. A porta da gaiola foi aberta, e os prisioneiros se encolheram, temerosos. Anna procurou se encolher mais ainda. Contudo, seu coração parou. O monstro pálido montado num lobo branco tinha uma clava na mão – e a dita clava apontava diretamente para ela.
O terror só aumentou quando dois de seus captores subiram na carroça e a arrastaram para fora. Ela tentou gritar, mas não saía som de sua garganta. Caiu no chão, desorientada, o barulho dos seus carrascos ao seu redor.
Quando conseguiu ver onde estava, Anna viu o monstro branco desmontado de seu lobo. Ele era mesmo muito grande, duas ou três vezes o tamanho dela, e vinha diretamente na sua direção. Os dois seres inferiores a ergueram pelos braços e a arrastaram para perto de uma rocha.
Meu Deus eu vou morrer agora.
Ela tremia tanto e não conseguia respirar, arrastada que era para perto do rochedo enorme e então apareceu um buraco no rochedo, e era uma caverna escura, e ela foi jogada ali dentro, gritando, rolando porque a tal caverna tinha um declive suave.
Já morri.
Quando conseguiu parar de rolar, Anna estava um tanto desorientada na caverna escura. Ela ainda não respirava direito, mas era ótimo, porque o fedor daquele lugar era inacreditável. O estômago embrulhou imediatamente e ela sentiu ânsias de vômito. Mas seu coração gelou quando ela viu que estava numa caverna, cuja única saída estava bloqueada pelo monstro pálido enorme, segurando uma tocha na única mão que tinha e a encarando com um sorriso nos lábios que só a deixou ainda mais apavorada.
Na verdade, Anna nunca sentira tanto medo em toda a sua vida. Estava morta, sabia disso, mas parece que ainda sentiria muita dor. A cena dos lobos dilacerando aquela criatura ainda estava fresca na cabeça.
Sem sentir, lágrimas corriam de seus olhos, e ela tentava se arrastar para longe daquela criatura. Ele se aproximava, lentamente. Falava alguma coisa naquela língua gutural, provavelmente algum tipo de insulto ou gracejo. Ela tentou olhar para trás, ver se tinha para onde correr, mas o chão parecia cheio de objetos duros, pedras talvez.
Não, não pedras. Ela viu moedas.
Que diabo é isso?
Um segundo de distração foi o suficiente. A criatura atacou.
Anna gritou, de susto, de medo, de terror. O monstro pulou em cima dela, a seta que servia de braço furando o casaco, a mão rasgando a frente das roupas. Impossível como parecia, o terror dela cresceu ainda mais: aquele monstro estava arrancando as roupas dela!
Num impulso, ela urrou de pavor e tentou detê-lo. Mas o monstro parecia ter mais de dois metros e era forte como o diabo. Histérica, ela batia nele, mordia, mas a pele parecia uma couraça de couro puro e duro. Ele soltou gargalhadas e aí ela ficou com raiva, urrando ainda mais alto.
De nada adiantou: ele ia rasgando e retirando as roupas. Em questão de minutos, Anna estava nua em pelo, tentando se encolher, tentando não pensar no que a criatura faria a seguir. Mas ela sabia que pouco ou nada poderia fazer, pois os braços doíam e ela já estava com a garganta doendo de tanto gritar.
O monstro a soltou e ela correu para longe dele, encolhida. Então ele a encarou, o sorriso tomando outra conotação totalmente diferente. Anna parou totalmente de respirar ao perceber o que ele queria. O monstro avançou. Nesse momento, porém, um barulho surgiu do lado de fora.
Um dos monstros entrou correndo na caverna e gritou algo para o seu chefe na língua nojenta. O monstro respondeu com um grito cheio de raiva e depois se voltou para Anna.
Pronto. Agora é que eu morri.
Com uma agilidade incrível para alguém daquele tamanho, ele a agarrou pelo punho e a arrastou para a parte mais funda da caverna. Lá, ele a jogou no chão, ainda a segurando pelo punho. Gritando, Anna se esparramou no chão, sentindo o corpo todo se ferindo contra as coisas jogadas no solo. Então o monstro usou a ponta da seta de seu braço decepado para perfurar a mão dela.
A dor foi lancinante. Vendo pontos brancos na sua frente, Anna quase desmaiou de tanta dor, urrando. Atordoada, não viu quando o monstro prendeu uma corrente em seu pulso e enganchou-a num objeto próximo. Depois ele a encarou (ela ainda rolava de dor, gemendo) e saiu correndo, galgando o declive em passos largos e carregando a tocha.
Por muitos minutos, Anna só pensava em respirar ao redor da dor, tentando manter-se respirando, gemendo. Olhou em volta, na caverna escura, e não conseguiu enxergar coisa nenhuma, mas os ruídos lá fora eram altos e inequívocos.
Havia luta lá fora.
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