Jornada Para Erebor
8 Diga adeus a seus cabelos
Notas iniciais
Havia pouca ou quase nenhuma luz no céu quando Anna acordou na manhã seguinte. Ela ainda estava junto de Bilbo, e levantou-se com cuidado para não acordar o companheiro.
Mesmo pouca, a luz ajudou-a a encontrar o rio Bruinen. Lá ela tirou cuidadosamente os tênis e as meias (seus maiores tesouros), e depois as roupas de Bilbo. Arrumou tudo numa pilha perto da margem e entrou na água. Como esperava, estava gelada. Mas nem mesmo a baixa temperatura superava a vontade de se livrar do cheiro de orcs e trolls. Além disso, como diz o ditado, tudo melhorou depois que ela mergulhou a cabeça. Sem shampoo ou sabão, foi difícil se lavar apropriadamente.
Tentando não pensar nas facilidades do lar, Anna concentrou-se nos seus ferimentos. A mão era o mais profundo deles, mas dificilmente era o único. Ficou satisfeita, porém, ao ver que já começava a ter movimento na mão. Ela limpou o pano, refez o curativo e deu o banho por encerrado. Vestiu-se, observando os primeiros raios do sol saindo por detrás das montanhas.
Amanheceres sempre tiveram grande apelo em Anna. O sol, um novo dia... Os símbolos eram claros até para Anna. Ela tinha tomado uma decisão durante a noite. O novo dia só servia para reforçar o que ela decidira.
Se ela ia conviver com aquelas pessoas, ela precisava ter algum tipo de desculpa para sua presença ou explicação de sua origem. Não queria mentir, mas uma explicação precisava ser dada a eles, que tanto a ajudaram.
E ela realmente achava que poderia enganar Gandalf? Quanta pretensão! Mas talvez houvesse um jeito, e ela estava satisfeita com sua solução. Podia não ser a melhor, mas ela não via nada mais viável.
Com um passo decidido, ela se ajeitou e voltou ao acampamento.
Novamente, Anna ignorava que era observada à distância.
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Ao voltar ao acampamento, Anna viu que já estavam todos de pé. Ela cumprimentou todos e partilhou o desjejum. O resto da sopa era o que havia para comer.
Então o anão careca e tatuado, Dwalin, chegou-se até ela:
— Pronta, pequena?
Anna o encarou:
— Sim, senhor.
— Procure não se mexer.
Com o hábil manejo de uma adaga afiada, o anão cortou o cabelo de Anna mais ou menos na mesma altura do de seu “tio” Bilbo. Sem tesouras, a operação demorou menos de 15 minutos, durante os quais houve um silêncio respeitoso, quebrado apenas por um gemido ocasional de alguns dos observadores. Ori cumpriu sua palavra e ficou longe, amparado pelo irmão Dori.
Assim que deu a operação por encerrada, Dwalin curvou-se diante dela.
— Lamento pelo seu cabelo, dona.
Anna respondeu com um sorriso:
— Foi muito cuidadoso, Mestre Dwalin. Agradeço por isso.
Thorin ordenou:
— Dwalin, queime o cabelo. O resto de vocês, reúnam os pôneis! Já vamos sair.
Anna não entendeu.
— Queimar o cabelo? Por quê?
Bofur respondeu:
— Para disfarçar o seu cheiro.
Balin explicou:
— Wargs e orcs têm olfato muito apurado. Captam mesmo resquícios depois de horas.
Eles montaram, o cheiro de cabelo queimado logo invadindo o ar. Anna ficou sem saber para onde ir. Thorin montou em seu pônei marrom e deu as últimas instruções:
— Não pararemos até o anoitecer ou até chegar a Curva do Rio, o que vier primeiro. A partir desse momento, esta companhia tem dois hobbits: Bilbo Baggins e Anni Bolger de Budgefort, um ladrão e seu ajudante. Mestre Bolger passa a ser o mais novo da companhia. Os hobbits viajam juntos, comem juntos e dormem juntos. Eles estão sob nossa proteção, e têm minhas armas a seu serviço. Na Curva do Rio, procuraremos víveres e trabalho, mas ficaremos poucos dias. Mantenham os olhos abertos e suas armas à mão o tempo todo. Vamos!
Bilbo disse a Anna:
— Vamos, eu ajudo você a montar.
— Bilbo — interveio Gandalf —, se me permite uma sugestão: mesmo que Anni seja leve, acredito que a carga extra desgastará meu cavalo menos que seu pônei. Importa-se que eu leve nosso rapazinho?
— De maneira alguma.
Rapidamente, Gandalf ajudou Anna a montar no cavalo, e todos entraram na fila formada pela Companhia de Thorin Oakenshield.
Durante muito tempo, o caminho foi feito em silêncio, exceto pelo som dos cascos no chão e o suave burburinho do rio Bruinen. Gandalf indagou:
— Está tudo bem, jovem?
— Sim — respondeu Anna. — Embora eu tenha certeza que no fim do dia eu esteja diferente. Não tenho costume de cavalgar, muito menos tamanha distância.
— Bem, é mais rápido que andar.
— Sr. Gandalf, acho que preciso pedir desculpas ao nosso líder.
— E por que acha isso?
— Ele pode ter me achado mal-educada pelo que eu disse ontem. Eu não tive nenhuma intenção de ser enxerida, mas entendo a desconfiança dele. Mais do que imagina.
— É mesmo?
— Pode acreditar, Sr. Gandalf.
— Pode me chamar apenas de Gandalf. Não temos formalidades nessa companhia.
— Certo. Gandalf, então. Pensei muito desde ontem. Vou precisar falar com o senhor também. — Ela abaixou um pouco a voz antes de acrescentar: — De preferência, longe de nosso líder.
Gandalf ficou calado durante tanto tempo que Anna pensou que ele podia não ter escutado. Então ele falou, também baixinho:
— Acho que isso pode ser arranjado, jovem hobbit.
Anna suspirou, tentando apreciar a viagem. Havia árvores altas, colinas pronunciadas, campos verdes e rochas. A paisagem mudava pouco, mas Anna não estava interessada no cenário.
O dia passou moroso, as horas estendendo-se, mas eles não pararam nem para comer, repartindo biscoitos cram e água sem desmontar.
Era fim de tarde quando chegaram à estalagem e o grupo desmontou e se dispersou. Desmontar foi uma operação custosa para Anna, dolorida por não estar acostumada a montar um dia inteiro. Kíli e Fíli foram tratar dos pôneis, os outros foram buscar os ferreiros a fim de sondar trabalho. Gandalf, Thorin e os hobbits (Anna incluída) foram à estalagem negociar acomodações.
O estalajadeiro, um homem grande e sorridente, recebeu os dois com simpatia, e as negociações começaram. Anna ficou impressionada com o tamanho do humano, imaginando que ela deveria ser daquele tamanho, mas agora parecia quase um gigante. As coisas, realmente, eram muito estranhas naquele lugar.
Thorin acertou acomodações para a maior parte dos anões num galpão perto do ferreiro, e logo foi até lá tratar com o responsável. Gandalf e os hobbits tentaram ver se havia chance de conseguirem trabalho na própria estalagem.
— É uma pena que vocês não tenham nenhuma mulher no grupo — lamentou o estalajadeiro. — Minha mulher certamente gostaria de uma ajuda na cozinha.
— Meu bom homem — começou Gandalf —, está com sorte. Tenho algo melhor do que uma mulher. Tenho não um, mas dois hobbits, ambos muito bem versados nas artes culinárias. Preparam quitutes e iguarias que vão aumentar sua clientela.
Bilbo encarou Anna, que estava de olhos arregalados. Ela não tinha o menor jeito na cozinha, e mal se virava no mundo moderno, onde tudo era pré-preparado e prático. O estalajadeiro olhou para os dois e indagou, apontando para Anna:
— Até o rapazinho? Ele é muito pequeno.
Gandalf concedeu:
— Bom, ele está aprendendo, porque ainda é muito novo. Mas teve excelentes professores.
— Quem decide é a mulher — disse o homenzarrão, dando de ombros. — Podem ir falar com ela, está lá atrás.
Bilbo puxou Anna pelo braço e os dois se apresentaram a Dona Edna, uma mulher tão grande e simpática quanto o marido. Bilbo expôs o caso, mas a mulher se fixou em Anna.
— Caramba, que eu nunca tinha visto um hobbit tão pequeno.
Bilbo explicou:
— Anni é meu sobrinho, madame, muito jovem. Mas é bom trabalhador e recebeu uma excelente educação dos pais. É a primeira vez que ele sai do Shire também. Meu nome é Bilbo Baggins. A seu serviço.
— E vocês querem trabalhar na cozinha?
— Por uns dias, senhora, enquanto nossa companhia descansa antes de retomar sua jornada.
— Bom, vamos ver como vocês se saem. Meu marido me disse que vocês chegaram cansados e com fome. Podem me ajudar a preparar comida para seu grupo?
— Sim, senhora — respondeu Bilbo. — É só dar as ordens.
Dona Edna disse:
— Vejam meu problema. O jantar já foi servido e só o que eu tenho são sobras do assado de carneiro. Como fazer isso servir para 15 pessoas?
— Dependendo do quanto sobrou — sugeriu Bilbo —, pode dar para fazer um empadão. Ou dois.
Anna também ofereceu uma sugestão:
— Legumes, tio. Além do empadão, eles podem comer legumes também, desde que estejam cozidos.
A mulher se espantou:
— Puxa, menino, você é novinho mesmo. Nem trocou a voz!
Anna ficou vermelha, e tentou lembrar para, mais tarde, tentar engrossar a voz. Dona Edna continuou:
— Mas tem boas ideias. Vou dizer o que faremos. Vocês farão toda a refeição, eu só fico supervisionando. Esse será o teste de vocês. Deixem que eu mostro onde fica tudo.
Uma cozinha da Terra Média era extremamente semelhante a uma cozinha na Alta Idade Média, observou Anna. Não era um cômodo à parte na maioria das casas, mas na estalagem era quase um puxadinho anexado à casa. Tinha apenas uma fogueira, onde eram cozinhadas as panelas, e o forno era do lado de fora, semelhante a um forno usado para fabricar tijolos. Anna desconfiava que fosse o mesmo forno, usado para fins diferentes.
Penduradas estavam variadas carnes de caça, algumas curtidas para preservar. Em tonéis (os mesmos usados para fabricar cerveja e vinho), havia legumes misturados. Anna ganhou um facão descomunal (um facão grande, mas descomunal para quem só tinha 1,2m de altura) para descascar os legumes, e Bilbo começou a preparar a massa dos empadões.
Em muito menos tempo do que Anna imaginou, o jantar estava pronto e toda a companhia de Thorin Oakenshield sentou-se à mesa para comer, servidos por Anna e Bilbo. Thorin mostrou-se surpreso com o arranjo, mas Gandalf garantiu que estava tudo acertado, e graças ao trabalho dos hobbits, eles teriam desconto nas acomodações.
Primeiro Anna e Bilbo tiveram que ajudar a arrumar a cozinha e só depois tiveram permissão de comer. Em seguida, foram alojados num cantinho ao lado da cozinha. Era uma cama, uma cama de verdade, que ela e Bilbo teriam que repartir (como era o costume da época). Anna nem acreditou quando pôde se deitar numa cama de verdade. Estava tão exausta que nem se importou por dormir sem se lavar, caindo no sono quase instantaneamente após um dia cheio.
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