Jornada Para Erebor
63 Diálogos
Notas iniciais
Naquela noite, a refeição de Anna foi trazida por Ori. Para a moça, foi um alívio. Nada de colóquis profundos ou assuntos secretos: apenas uma refeição leve e palavras amigáveis do doce Ori.
— Em breve as minas poderão voltar a trabalhar, segundo dizem — informou o animado anão. — As caldeiras já estão quase consertadas, e aí as fundições podem ser as primeiras áreas a entrarem em operação.
— Parece ótimo, Ori — disse Anna. — Neste momento, Erebor pode dar contribuição valiosa para reconstruir a cidade de Valle, fazendo ferramentas e outros recursos para os homens. Depois pode se dedicar à sua especialidade, que são ouro e joias. Estou certa?
Ori sorriu:
— Poderá retomar o antigo esplendor.
— Ori, será que parte desse calor que as fundições vão gerar não pode ser aproveitado para aquecer a montanha? Digo, é inverno e está frio. Se esse calor esquentar água, e essa água for canalizada de maneira apropriada...
Ori exclamou, entusiasmado:
— Poderia haver banho quente a qualquer hora!... Vou falar com os engenheiros! Eles certamente saberão fazer isso! Que boa ideia, Dona Anna!
— Fico feliz que tenha gostado, Ori.
Uma voz diferente soou na entrada da tenda.
— Oh, que bom ver pessoas alegres e de bom humor.
Anna saudou:
— Gandalf! Entre, vamos.
Ori disse:
— Já que está aqui, Sr. Gandalf, posso deixar Dona Anna em boas mãos.
Anna agradeceu:
— Obrigada pelo jantar, Ori. Diga a Bombur que estava delicioso.
O jovem anão fez uma reverência antes de sair. O mago cinzento sentou-se na cadeira ao lado da cama e indagou:
— Como se sente?
— Fisicamente estou bem. Fora isso, porém, há algumas questões me preocupando.
— Posso imaginar — disse ele, encostando-se em seu cajado. — Lord Elrond me deixou a par de algumas delas.
Anna praticamente gemeu de vergonha:
— Aparentemente, todo mundo na Terra Média sabia a meu respeito, mas ninguém achou que eu deveria saber...!
Gandalf sorriu:
— Você parece ter o dom de me surpreender, minha doce Anna. Lord Elrond me disse que lhe fez um convite dos mais incomuns, um de grande honra, mas você não respondeu.
Constrangida, Anna disse:
— Gandalf, eu entendo a honra que é ter recebido um convite desses de Lord Elrond, mas não é uma resposta fácil. Tente se colocar em meu lugar.
O olhar do mago para ela foi tão repleto de afeição e orgulho que Anna até ficou desconcertada.
— Não, Anna, doce e querida Anna, você é que parece não ter entendido. Se você aceitar o convite de Lord Elrond, a honra será toda dele. Pois você é uma joia rara, uma criatura preciosa. Para os povos desta terra, alguém como você não é vista desde tempos imemoriais, e ainda assim só em lendas. Os elfos a reverenciam pela dádiva que você representa.
Anna o encarou com ceticismo:
— Gandalf, desculpe, mas isso tudo me parece um pouco exagerado. Não, corrija isso: parece muito exagerado.
Ele se riu:
— Quando terminar seu treinamento, verá que não é exagero. Quem sabe que outras potencialidades se escondem em você? Sua vinda à Terra Média jamais foi fruto do acaso ou desprovida de intenções maiores. Não, minha cara Anna, certamente você tem um papel importante a cumprir.
— E quem sabe se eu já cumpri esse papel, mudando a história? De qualquer forma, acho tudo isso um exagero. Minha vida anterior era tão comum e totalmente corriqueira!... Sem esquecer que eu não sei quem me trouxe para cá, como ou por quê. Lord Elrond não soube me dizer, mas você sabe como os elfos podem ser quando não querem falar sobre um assunto. E você, Gandalf? Pode me esclarecer?
— Bem... — começou ele, mas logo desistiu. — não.
Anna quase virou bicho.
— Não?! Como assim, não? Por que não? Não pode, não sabe, não quer ou não tem permissão?
O mago não alterou a voz:
— Eu não tenho certeza e prefiro não arriscar.
— Bem, eu pensava que não havia criatura mais irritante do que elfos quando não queriam responder uma pergunta. Claramente, eu me esqueci dos Istari!... — Gandalf abriu a boca para responder qualquer coisa, mas Anna o interrompeu: — Tudo bem, não importa. Tenho uma pergunta importante a fazer e esta resposta eu vou exigir.
— Vamos a ela, então.
— Se (e é um grande se) eu conseguir convencer Thorin a se casar comigo o quanto antes, você me honraria em oficiar a cerimônia?
Gandalf abriu um enorme sorriso.
— Mas, minha querida Anna, já lhe disse que a honra será toda minha. Então devo comunicar a Lord Elrond que você prefere não ser treinada?
— Não seja precipitado. Meus planos de casamento destinam-se a preservar meu filho a não nascer fora dos laços do casamento. Sei que sua sociedade condena isso.
Gandalf assentiu:
— É uma medida sensata.
Anna suspirou:
— Isso se eu conseguir convencer Thorin. Quero me casar enquanto você, Bilbo, Lord Elrond e muitos outros estão aqui.
— Mas o que impede?
— Bem, há a ausência da única família de Thorin, sua irmã Dís. Mas a verdade é que ele gostaria de fazer um casamento associado à coroação.
— Ah — fez Gandalf. — Uma espécie de demonstração política.
— E também uma declaração da volta de Erebor a seu lugar como um dos grandes reinos da Terra Média. Ele não me disse isso, mas duvido que isso não tenha passado por sua cabeça.
— Ele é um rei, e reis sempre pensam no seu reino e no seu povo.
Anna sorriu:
— Talvez eu devesse ter mencionado isso primeiro.
Gandalf suspirou:
— Sim, talvez. — Ele a encarou de maneira profunda. — Anna, você está feliz?
— Sim, claro que sim. Não sei por quanto tempo ficarei feliz, mas no momento eu estou.
— O que quer dizer?
— Gandalf, Lord Elrond me diz que terei que deixar para trás Thorin e meu bebê. Acha que isso me fará feliz? Meu bebê e meu marido!...
— Mas saber que estará contribuindo para a segurança deles não ajuda?
— Não, não muito — respondeu ela, sinceramente. — Ainda não tive oportunidade de dizer a Thorin algumas das coisas a meu respeito — essas que vocês relutavam em me contar. Imagine como ele vai se sentir se eu tiver que dizer a ele que terei de abandoná-lo por causa dessas coisas!...
Gandalf suspirou:
— Nessa terra, tudo tem um preço.
— Sim. Só preciso decidir quanto estou disposta a pagar.
O velho mago suspirou:
— Essa, minha doce Anna, é uma decisão que ninguém pode ajudá-la a tomar. — Ele a encarou gravemente. — Posso ver que carrega preocupações em sua mente. Há algo que possa ajudar?
Anna deu de ombros:
— Oh, não tenho certeza. Estou com umas dúvidas bobas, que nunca me deixaram em paz.
— Dúvidas?
— Bobagens. Tolices. Inseguranças.
— Esse tipo de dúvidas nunca foram tolices. Posso sentir que você está perturbada, Anna. Se quiser falar, eu posso ouvir.
Ela se sentia envergonhada:
— A verdade, Gandalf, é que eu sei que amo Thorin muito, muito mesmo. Mas ele é um rei. Terei que ficar ao lado dele. O que sei sobre ser uma rainha ou liderar um povo? Sou uma moça simples. Não sou treinada sobre política, sobre poder, sobre etiqueta. Não sei como me comportar, sou desajeitada e-
Gandalf a interrompeu:
— Pelo que vi antes da batalha, você estava indo muito bem nos quesitos diplomáticos. O que eu vi foi uma negociação e tanto com Bard e Thranduil, a favor de Thorin... mesmo que ele tenha ficado furioso.
Anna respondeu:
— Eu só estava tentando salvar a vida dele e evitar uma guerra. Não tinha nada a ver com política.
— Cara Anna, muitas vezes decisões de Estado não são mais do que tentativas de salvar aqueles a quem amamos. E você tem um amor muito profundo por Thorin Oakenshield. Ele também tem semelhante sentimento por você. Esse amor pode crescer e ser o maior tesouro já produzido por Erebor. Acredite: a seu lado, Thorin poderá ser um governante muito melhor. Você já ensinou muito a ele sobre compaixão e os verdadeiros valores. E ele já lhe mostrou que você é uma pessoa muito mais importante do que sempre acreditou, a despeito de sua verdadeira herança. Juntos, poderão fazer de Erebor um lugar de paz, de progresso e virtudes.
— E eu vou me casar! — Anna sorriu de maneira triste, lágrimas nos olhos. — Gostaria que minha mãe pudesse ver isso. Ela nunca me disse, mas acho que ela tinha perdido as esperanças de me ver casada.
— Oh, você está com saudades de casa. Dá para entender.
— Na verdade, Gandalf, é só da minha mãe. Fico triste que ela não possa ver o neto, que eu não possa falar com ela sobre gravidez e coisas de mulher, ou de família. — Anna notou duas lágrimas caindo. — Não pensei que ficaria aqui. Às vezes ainda acordo achando que estou em minha casa, no meu mundo, sonhando com tudo aqui. Mas eu nunca mais verei meu mundo, não é?
Gandalf deu de ombros:
— Quem sabe o que o futuro traz? Mas de uma coisa eu tenho certeza, Anna: você pode não estar no lugar onde deseja estar, mas certamente está no lugar onde precisa estar.
— Deixe-me esclarecer. Eu quero estar aqui, Gandalf. Ficar na Terra Média pode não ter sido minha escolha, mas é uma solução que me agrada, especialmente nestas circunstâncias. — Anna suspirou. — Vai ser muito difícil viver sem eletricidade, água encanada, internet, esgoto e medicina de ponta, mas posso perfeitamente dispensar combustíveis fósseis, poluição e ritmo de vida frenético pelo resto de minha existência.
O mago confessou:
— Eu realmente gostaria que você um dia me contasse mais sobre o seu mundo. Parece ser um lugar curioso, pois às vezes você usa termos que não têm paralelo nessa terra.
Anna sentiu a onda de melancolia se esvair quando ela ironizou:
— E por que não? Já que eu consegui esculhambar com a história, por que não falar um pouco sobre meu mundo?
— Isso seria muito interessante — disse Gandalf, os olhos brilhando.
A moça suspirou, antes de dizer:
— Só lhe peço um favor: não me pergunte sobre o futuro da Terra Média. Tenho medo até de pensar nisso, pois eu já mudei a história e não sei as consequências que isso poderá ter nos anos futuros.
Gandalf sorriu:
— Oh, bem, isso seria pedir demais, não? Mas talvez você se angustie menos se considerar uma coisa. Muitas vezes, pensamos que um grande fato será um vagalhão destruidor nas águas do tempo, quando as grandes mudanças podem ser atribuídas a pequenas marolas e marés. Ademais, o que está feito não pode ser mudado. Todos lidaremos com as consequências, de um jeito ou outro.
Pela primeira vez, Anna sorriu, confortada e disse:
— Obrigada, Gandalf. Eu realmente me sinto melhor depois de suas palavras.
Gandalf deve ter respondido alguma coisa, mas Anna não ouviu e sentiu um arrepio quando viu Thorin entrando na tenda. Ele não se anunciou, apenas entrou de maneira quieta e circunspecta.
Anna não interpretou aquilo como um sinal confortador.
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