Jornada Para Erebor
55 Cães de guerra
Notas iniciais
Anna ouviu um barulho nervoso do lado de fora de sua cela. Palavras em Khuzdul voavam pelo ar. Ela reconheceu a voz jovem de Ori.
— [Vá armar-se! Thorin quer todos bem armados na muralha!]
— [O que acontece?] — perguntou Bofur.
— [Está havendo batalha! Há orcs, goblins e todo tipo de criatura do mal! Vá logo! Eu recebi ordens de vigiar a Consorte.]
Bofur desejou:
— [Lá vou eu! Ah, a chave da cela! Boa sorte, Ori!]
Anna ouviu Bofur sair correndo e sentiu um frio na espinha. Era isso. A hora chegara. A Batalha dos Cinco Exércitos começara.
Por um minuto, Anna sentiu uma raiva quente em seu corpo. Depois de tudo que ela fizera, de todos os seus esforços, a maldita batalha não pudera ser evitada. E, com ela, viria a morte de Thorin e os filhos de Dís.
Ela tinha que impedir aquilo.
Naquele minuto de angústia e dor, porém, Anna sentiu sua única certeza esfarelar-se como areia. "Impedir por quê?", indagou-se, amarga. Por que ela deveria se esforçar tanto para salvar uma pessoa que queria matá-la e que, muito provavelmente, faria exatamente isso se sobrevivesse à batalha? A ingratidão atingiu-a quase como um golpe físico, quente e doído. Depois de tudo que ela fizera, dos riscos que correram, essa era a recompensa que ela tinha? Estar no corredor da morte? Por que ela deveria mover uma palha por Thorin?
Outro pensamento ainda mais tenebroso tomou conta de Anna. E se ela mudasse a história e tudo piorasse? E se Thorin jamais se recuperasse da moléstia do ouro? E se ela o salvasse e Thorin se tornasse um tirano cruel e ganancioso, de tão doente? Poderia um reinado de sangue e lágrimas em Erebor apressar o retorno de Sauron e precipitar a Guerra do Anel antes de seu tempo? Ou pior: se estivesse tão doente assim, Thorin podia se aliar a Sauron. Não, isso não. Será que, a despeito de todos os esforços de Anna, ela teria que deixar Thorin morrer para salvar toda a Terra Média, incluindo Bilbo e Frodo, que nem tinha nascido ainda?
Anna pensou tudo isso em um minuto. Foi o tempo que ela levou para ver tudo isso passar diante de seus olhos e voltar a se concentrar no mais importante. Ela amava Thorin, amava mais que a si mesma, e era totalmente impossível para Anna sequer pensar em simplesmente deixá-lo morrer e não fazer nada. Antes que ele a matasse, ela iria salvá-lo. As consequências que se danassem.
Anna sabia que não tinha escolha que não salvar Thorin. Ou morrer tentando. Ela pensou em seu filho.
"Desculpe, filhinho, mas papai precisa de ajuda."
Sem perder mais tempo, Anna correu até a porta de pedra, para indagar:
— Ori? Ori, é você?
— Sim, Dona Anna, sou eu. Pode ficar tranquila.
— O que está acontecendo? Que barulho é esse?
Ori respondeu:
— Nada que deva se preocupar, senhora.
Anna mostrou angústia:
— Mas você falou em orcs, não foi? Já chegaram? Está havendo luta?
Ele respondeu:
— Sim, há uma luta, mas não precisa se preocupar. Eu a protegerei.
— Ori — pediu Anna, aflita —, precisa me soltar. Por favor, abra a porta!
— Estará segura aí dentro — respondeu o jovem anão com firmeza. — Ninguém vai entrar na montanha.
Anna tentou argumentar:
— Não, Ori, você não está entendendo. Eu preciso ir até lá! Por favor, Ori!
— Desculpe, milady, mas eu tenho minhas ordens.
Anna soltou um rugido de pura frustração.
Mas isso lhe deu uma ideia.
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Ori suspirou, vendo que Dona Anna finalmente parara de protestar. O Sr. Dwalin tinha razão: ela era mesmo teimosa! Queria ir até o campo de batalha, grávida e tudo!...
Depois de um intervalo, Ori a ouviu indagar:
— Que foi isso?
— Isso o quê?
A voz dela soou assustada:
— Parecia um animal. Ori, parecia estar aqui dentro.
Ele achou estranho, mas procurou tranquilizá-la:
— Não há animais dentro da montanha. Fique sossegada.
E mal ele tinha dito isso, Anna soltou um grito pavoroso:
— ORI!!!
O anãozinho sentiu seus cabelos se arrepiarem, e chamou:
— Dona Anna! Dona Anna! O que há?
Ninguém respondeu. Nada. Silêncio total.
De repente, ele ouviu um rosnado baixo e ameaçador.
Ori sentiu o sangue fugindo de seu rosto e ele chegou perto da porta, receoso:
— Dona Anna? Está tudo bem?
Silêncio de novo. Era possível ouvir as batidas de seu coração acelerado. Durante uns poucos segundos, Ori debateu consigo mesmo a possibilidade de abrir a porta.
Mas antes que ele tomasse uma decisão, e sem aviso nenhum, várias coisas aconteceram aparentemente ao mesmo tempo: um imenso estrondo se ouviu quando a porta de pedra desmoronou, posta abaixo por um monstruoso dragão de escamas verde azuladas que irrompeu de dentro da cela. Os destroços da porta atingiram Ori em cheio, e ele foi ao chão, desacordado, sem sequer ver o que o atingira.
O dragão olhou Ori, verificou que ele estava bem e apressou-se rumo ao campo de batalha, deixando atrás de si uma cela vazia e destroços.
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Anna tinha muita pena de ter feito aquilo com Ori, mas ela não podia perder mais tempo. Ela ainda tinha muitas dúvidas sobre por onde deveria começar ou que pele deveria usar.
Seu primeiro palpite era que deveria se esmerar num ataque tanto mortal quanto cirúrgico, mas tentando se preservar das espadas e flechas. A melhor maneira de fazer isso era pelo ar.
Anna atingiu o pico da Montanha Solitária para avaliar melhor a situação. O vale, que antes era um deserto formado pela desolação de Smaug, agora fervilhava numa confusa multidão de elfos, anões e humanos que se uniam contra orcs e goblins, montados em lobos e wargs. Anna observou as posições de cada exército, calculou as estratégias e depois se deu conta de que não entendia nada daquilo. Decidiu manter a forma de dragão, a quem tinha dado o nome de Safira.
Por alguns minutos, ela imaginou se não deveria tomar a forma de uma das águias gigantes ou de um animal terrestre, como um lobo ou grande felino. Afinal, um dragão iria atrair a unanimidade de ódios daquelas raças todas. Uma águia era conhecida inimiga de orcs e amiga de elfos. Contudo, Anna foi forçada a considerar que, além de serem implacáveis máquinas de ataque, dragões tinham escamas e couraças bem mais resistentes até do que um elefante ou rinoceronte. Ela teria mais chances de sobreviver naquela pele (ou couraça).
Dragão, portanto, era a sua escolha.
Feita a opção, era hora de se juntar à refrega.
Anna abriu as imensas asas no formato de morcego e graciosamente voou para trás, como se fosse dar um cambalhota no ar. Então ela irrompeu no campo de batalha vinda do norte, mergulhando sobre o vale como uma chuva de fogo e cinzas, trazendo destruição e terror para orcs e goblins.
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Os homens do Lago foram os primeiros a gritar:
— Dragão! Dragão!
Pânico começou a se espalhar por entre os homens. Formações de arqueiros elfos mudaram seus alvos para o monstro, que cuspia fogo na nuvem de morcegos gigantes que acompanhavam os orcs.
Foi então que Bilbo viu o dragão e começou a gritar e pular:
— Não! Não! Por favor, Gandalf! Esse dragão está do nosso lado!
O mago olhou o hobbit como se o pobrezinho tivesse perdido suas faculdades.
— Bilbo, meu rapaz, do que está falando?
— Esse dragão obedece às ordens de Anna! — disse ele, rapidamente. — Peça que não atirem nela! Ela só ataca orcs!
Gandalf o encarou, abismado:
— Ela?
Bilbo explicou:
— Anna diz que o dragão é fêmea e se chama Safira. Ela ajudou a matar o velho Smaug!
— Se o que diz for verdade, teremos uma grande vantagem. — O mago cinzento ergueu a voz e bateu o cajado. — Cessar fogo contra o dragão! Poupem o dragão!
Rapidamente espalhou-se a notícia, ainda mais quando todos notaram que o dragão encurralava orcs, erguia wargs no ar com suas garras afiadas e tostava morcegos em pleno ar. Espadas e flechas eram inúteis enquanto a barriga do monstruoso réptil estivesse protegida.
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O que orcs e goblins não percebiam era que o dragão azulado buscava um orc em particular: Azog, o Profanador. A Safira (pois era assim que Anna pensava no dragão agora) pouco importava as posições de homens e elfos nos contrafortes da montanha, ou os avanços das briosas tropas de Dáin Ironfoot. Tudo que importava era localizar Azog, seu filho Bolg e matá-los assim que os visse, mantendo-os longe de Thorin, Kíli e Fíli.
No meio tempo, a tática era desviar-se de flechas orcs, lançar jatos de fogo em guarnições inteiras daquelas criaturas e golpear wargs com a cauda para afogá-los no Rio Corrente. O chão começava a se encharcar de sangue, cadáveres se espalhavam pelo chão. Lobos e wargs disputavam os restos, gralhas e abutres também. Anna se horrorizava, mas Safira achava tudo até estimulante, suja de sangue negro de orc.
Só que as horas se passavam, e o número de orcs não dava sinais de diminuir. Ao contrário: a uma determinada altura da batalha, Safira viu novas legiões de orcs vindo pelo lado norte (traseiro) da montanha rumo ao Portão Principal, buscando atacar os contrafortes por cima, movimentando-se como uma onda furiosa. Com um urro terrível, ela se lançou na proteção de Erebor.
Inicialmente, protegeu Dori e Bombur, que faziam a guarda do Portão e da muralha. Os dois estavam cercados por trás e Safira pegou os orcs mais próximos com as garras, usando fogo apenas para as divisões mais afastadas de seus amigos. Depois, com poderosos golpes de cauda, atingiu os que desciam as encostas da montanha, lançando-os contra penhascos e precipícios.
Numa dessas investidas, ouviu uma som de trombeta, anunciando novo ataque. E logo após a trombeta, ela reconheceu a voz do homem que amava:
— Aqui! Aqui! Elfos e homens! Meu povo! Baruk Khazâd!
Eram Thorin e seus homens avançando para o meio da batalha. Com o coração acelerado e seu amor queimando dentre dele, Safira certificou-se que a montanha estava livre de invasores e em seguida partiu para defender seu povo.
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Thorin e sua companhia ostentavam armaduras reluzentes e douradas que brilhavam tal qual tochas refletindo a luz do sol no fim do dia. Eram como faróis em meio à massa negra de orcs e goblins, especialmente Thorin, que era mais alto do que os demais de seu povo.
Como mariposa atraída pela luz, Safira voou feito uma flecha até eles, baixo, desviando-se de flechas, espadas, lanças, manguais, alviões, e mais todo tipo de arma mortal empunhada pelos orcs. Assim tão perto do chão, a visão da batalha era ainda mais horrível. Os gritos eram ensurdecedores, o cheiro de morte estava saturado no ar. As rochas ficaram negras, o solo coalhado de mortos estava empapado com o sangue dos orcs, anões, elfos e humanos.
Anna notou que os orcs haviam se reagrupado no vale, renovados por uma nova leva de guerreiros. E desta vez, o voraz exército de wargs vinha trazendo a guarda pessoal de Azog e seu filho Bolg, os orcs gigantes de Gundabag. Safira rosnou de ódio, os olhos reptilianos se estreitaram, e seu fogo saiu ainda mais mortífero.
O chamado de Thorin atraíra o exército de Dáin, e os anões das Colinas de Ferro correram até ele, com gritos em Khuzdul e menções à batalha de Azanulbizar. Também foram até ele homens com espadas e elfos lanceiros. Havia uma grande desordem, e o ataque desordenado era um convite ao desastre.
Foi aí que tudo aconteceu.
Do alto, como um poderoso lança-chamas, Safira tratou de torrar wargs e o cheiro de pelo queimado se espalhou no ar. Orcs caíam mortos aos montes, e foi com horror que Safira notou, pelo canto do olho, Thorin investindo direto contra Azog e seus guerreiros. A distração custou caro ao réptil: Safira foi atingida por uma lança arremessada por um orc na junção da asa esquerda e debateu-se no ar, enquanto caía rumo ao chão. Nada poderia ser mais desastroso do que cair bem no meio dos orcs.
E era justamente o que estava prestes a acontecer.
Palavras em Khuzdul
Baruk Khazâd! = martelo dos anões
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