Jornada Para Erebor
56 A batalha continua
Notas iniciais
Ao longe, Bilbo (totalmente invisível) acompanhava tudo do alto do Morro do Corvo, o local que achou mais seguro e com uma visão privilegiada. Pois foi justamente graças à posição estratégica que ele teve a impressão de ver uma cena conhecida: Anna, na forma de dragão, despencando do céu.
— Nããoo!!
Na primeira vez que vira Safira no céu, Bilbo notara que seu coração se enchera de esperança. Pois um dragão poderia ser a única arma capaz de fazer frente ao mar de inimigos que inundava o vale e o sopé da Montanha Solitária. Do alto do morro, Bilbo observara, com uma mistura de horror e admiração por Anna, o banho de sangue produzido pelo dragão azul-esverdeado, impondo terror a orcs e goblins. De vez em quando o dragão se empenhava em atacar os morcegos gigantes que vinham como uma nuvem, atacando homens e elfos. Seu fogo não era tão arrasador quanto o de Smaug, pois ela era menor que o Magnífico, mas ainda assim Safira era maior do que duas das águias gigantes de Manwë juntas.
Do alto do morro, Bilbo via exércitos, animais e pessoas como pequenas peças. Viu o ataque dos orcs aos exércitos de Bard e do rei élfico se renovar, encarniçado. Os anões, liderados por Thorin e Dáin, avançavam contra Bolg e Azog. Mas estavam em menor número, cercados por orcs de todos os lados e sem ajuda de homens e elfos.
Nessa hora Bilbo sentiu que Safira fizera toda a diferença, com jatos de fogo que detiveram ataques de goblins e golpes de cauda tão poderosos que varreram companhias inteiras de orcs antes que chegassem perto de Thorin e seus homens. Bilbo se admirou com o cuidado (quase carinhoso) de Safira em não machucar os anões. Ela era incansável, protegendo-os amorosamente e também atacando Azog e Bolg, ainda entrincheirados atrás de sua guarda pessoal.
A situação estava cada vez mais difícil, pois a guarda dos dois senhores orcs arremeteu ensandecida contra os anões, respondendo aos ataques. Bilbo esperava alguma ajuda para os seus amigos, fosse de elfos, fosse de homens e até de um dragão. Esperar não era a palavra: Bilbo tinha esperança.
Mas naquele momento Safira despencara do alto, e Bilbo não conseguira ver aonde exatamente o dragão caíra, embora um bichão daquele tamanho (e ainda por cima azulado) fosse difícil de se misturar aos exércitos. Mas a luz não era boa, e a visão ao longe, a partir do alto, ficava prejudicada. Bilbo também imaginou que animais voadores, como águias e dragões, enxergassem melhor do que hobbits.
E era interessante que Bilbo pensasse nas águias, porque um vento soprou, afastando as nuvens e revelando um por de sol que variava do dourado ao púrpura, do oeste. De lá apareceram no céu aquelas pequenas formas à distância, em fileira. Bilbo gritou, excitado, pois sabia o que eram:
— As Águias! As Águias chegaram!
Elas vinham majestosas, batendo suas asas furiosamente. Seus gritos altos e agudos eram capazes de incutir ainda mais terror nos corações de orcs, por quem nutriam um ódio frio e profundo.
Bilbo não pensou em nada: desceu o Morro do Corvo o mais rápido que podia.
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Foi um impulso. Aquele impulso irreprimível, nascido do intervalo de uma fração de segundo.
Nesse impulso, Anna pensou apenas em minimizar o impacto do corpanzil de um dragão em cima de exércitos em guerra. Por isso, foi puro impulso que a fez se transformar em pleno ar num pequeno camundongo, que imediatamente correu para baixo de uma pilha de corpos. Ali, sentindo o ferimento no ombro, pôs o focinho de fora, tentando fazer sentido do emaranhado de pernas gigantescas no seu campo imediato de visão.
Havia um forte cheiro parecido com churrasco no ar. Anna se intrigou alguns segundos até perceber que não era ninguém cozinhando. Aquilo era obra de Safira, que queimara wargs e orcs a torto e a direito.
Demorou poucos minutos para ela se situar. Tinha caído no vale, à esquerda de onde Thorin e seus homens enfrentavam Azog e Bolg.
Enquanto muitos orcs e goblins se perguntavam para onde tinha ido o dragão, Anna sabia que não estava segura — nem seus preciosos anões. Era preciso armar uma estratégia para protegê-los. Virar animal mudava os ânimos de Anna: dava-lhe coragem.
Mas mal ela imaginara que poderia voltar à batalha como um lobo negro, uma visão a petrificou: Azog agarrara Kíli pelas costas e o usava como uma espécie de escudo, seu tamanho o triplo do jovem anão. Talvez o líder orc estivesse usando Kíli para forçar os anões a recuar, mas ela não o ouvia, devido aos gritos e sons da batalha. Anna sabia que não podia se arriscar, não com aquele louco chamado Azog.
Num outro impulso, sem sequer perceber o que fazia, Anna já estava de pé e correndo até lá, gritando:
— Não! Não! Azog, solte-o agora! Deixe-o ir!
O orc pálido se virou ao ouvir a voz dela, espantado.
— Snaga...!
Anna parou de correr, assustada ao de repente se dar conta do que estava fazendo: estava no meio da batalha, desarmada, exposta e vulnerável.
Uma gritaria se instalou, de orcs e anões. Uns queriam pegá-la e os outros queriam salvá-la. Num reflexo, ela pegou uma espada de um corpo próximo para afastar os orcs, ameaçando-os.
— Para trás!
Os anões gritavam:
— Anna! Saia daí!
— O que está fazendo?!
Azog gritou algo que deteve os orcs. Depois o monstrão disse, em Westron:
— Se você se entregar a mim, escrava, eu soltarei o anão.
Anna insistiu:
— Não! Solte-o já!
Houve protesto geral dos anões, incluindo Kíli. Ela não distinguia as vozes, só as frases.
— Não faça isso!
— Anna, saia daí!
Azog apressou:
— Se vier até mim, eu não vou machucá-lo, escrava. Mas se eu tiver que buscá-la, vocês dois morrerão de maneira lenta e dolorosa.
Azog não parecia disposto a discutir.
— Está bem! — gritou Anna. Ela jogou fora a espada na hora, como se ela estivesse em brasa, e ergueu os braços. — Não vou resistir. Viu? Agora solte-o!
Um dos orcs a agarrou pelo braço e Kíli gritou, esperneando:
— Nãão!! Anna, não!
Thorin adiantou-se:
— Azog! Deixe-a ir! É a mim que você quer.
O orc riu-se:
— Então ela é sua mulher, rei anão? Ou é do jovem? De qualquer modo, vocês dois podem vê-la pela última vez. Ela agora é minha.
Anna foi levada para junto do líder orc, e Kíli parecia aturdido:
— Por que, Anna? Por quê?
Ela deu de ombros, triste:
— Eu ia morrer por traição a seu rei, mas se o amor de minha vida não me ama mais, tenho orgulho em morrer para protegê-lo.
Kíli tentou argumentar, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Azog empurrou-o com força, antes de dizer:
— Oh, ela não vai morrer tão fácil, anão. Diga isso a seu rei!
Kíli tentou voltar para enfrentar o orc gigante, e Anna gritou para o anão:
— Não! Não faça isso!
Azog ergueu a manopla amputada para golpear o rapaz, e Anna se desesperou, dizendo a Kíli:
— Não! Vá, por favor! — Ela não queria dizer o nome de Kíli. — Por favor! Não me faça morrer em vão.
Foi com extrema relutância que Kíli obedeceu. Azog virou-se para os soldados que seguravam Anna e ordenou, na língua gutural:
— [Levem-na para a jaula. Vou dá-la a quem garantir nossa vitória!]
Eles riram e era um som tão repulsivo que Dwalin varou um deles com seu machado ali mesmo, de tanto ódio. A luta recomeçou instantaneamente, ainda mais feroz. Anna gritou ao ver seus amados khazâd em perigo, mas foi arrastada para o meio da guarda, longe dos anões.
Tudo parecia perdido.
Azog não sabia que ela tinha mais uma carta na manga.
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Thorin estava atônito. Como a pequena tinha ido parar em pleno campo de batalha se estava presa na montanha? E por que, em nome de Durin, ela tinha se entregado a Azog?
— Ela desistiu, Thorin — disse Kíli, tentando conter as lágrimas, numa voz que oscilava entre a revolta e a desolação. — Ela pensa que você não a ama e desistiu de viver.
— Não!!
Dwalin disse:
— Temos que pegá-la! Vamos atrás de nossa rainha!
Fíli gritou, chamando os demais:
— Para a rainha!
A resposta ecoou nos campos:
— Para a rainha!!
Com gritos de guerra, o pequeno grupo investiu com ânimo redobrado contra os orcs, atraindo especialmente a guarda de Bolg e seu pai. Orcs tombavam feito moscas sob os golpes de anões e também dos humanos, que reforçaram o ataque. É que Bard vira Anna ser capturada e enviara reforços.
De repente, do alto, nova força se juntava aos combatentes: as Águias, que desceram sobre orcs com fúria implacável. Thorin sorriu ao ver as grandes aves retirando goblins dos penhascos com suas garras, jogando-os no meio dos inimigos, despedaçando wargs, seus guinchos se juntando aos sons da batalha. Os gritos de guerra antes pertenciam a orcs e goblins, mas não demorou para que esses soltassem gritos diferentes, de medo e horror. Agora os gritos de guerra eram de homens, elfos e anões.
Em meio à luta, Thorin procurava ficar de olho no local para onde Anna havia sido levada, mas ele já não mais a via. Não importava: ele iria até os confins da Terra Média para encontrá-la.
Do nada, ou aparentemente do nada, surgiu um gigantesco urso marrom que atacava orcs como se fossem feitos de palha. Sua presença diminuiu os números dos inimigos, e foi assim que Thorin se viu frente a frente com Azog.
— Essa noite beberei seu sangue, rei anão! — provocou o orc. — E vou obrigar sua mulher a olhar para sua cabeça sem vida enquanto eu a possuo!
O Rei Sob a Montanha rosnou, olhos vermelhos numa fúria gelada:
— Você fala demais, maneta.
E Thorin usou seu machado enorme no outro braço de Azog. Dessa vez não o decepou, mas o adversário sentiu o golpe. O orc gigante urrou, derrubando o mangual, e tentou furar o inimigo com o arremedo de prótese no braço amputado. A cota de mithril protegeu Thorin, mas se rasgou.
Os dois passaram a trocar golpes violentos, distanciando-se dos demais. Thorin não enxergava mais nada nem ninguém: tinha um ódio negro no coração e várias contas a acertar com Azog. Havia a morte de seu avô, de seu irmão, de Fundin, pai de Dwalin e Balin...
Mas havia muito mais. Aquele orc provocava tamanho pavor em Anna que fazia Thorin querer desossá-lo só pelo terror que causava em sua amada. E agora ele a tinha. Não, Thorin não permitiria.
Tão concentrados e encarniçados estavam os dois em sua luta pessoal e ódio mútuo que não prestaram atenção nos embates à volta.
Portanto, nem Thorin nem Azog viram quando Beorn, na pele de um urso colossal, derrotou e esmagou Bolg sozinho. Ao perceberem o fim de um de seus maiores líderes, os demais orcs se amedrontaram e recuaram, desgostosos.
O movimento em suas hostes atraiu a atenção de Azog. Quando ele viu o filho no chão, transformado em pouco mais do que uma massa disforme, o grande orc pálido soltou um urro de dor e ódio capaz de estremecer todo o vale. Thorin avançou para dar-lhe um golpe mortal, mas se deteve ao ver a expressão repentina de surpresa de Azog, interrompendo seus lamentos pela perda do filho. Então Thorin viu a ponta de uma espada saindo pelo abdômen do grande orc, um brilho azul pronunciado se destacando na escuridão.
Azog virou-se para ver o que o tinha atingido, e Thorin espantou-se ao ver o pequeno hobbit, o ladrão Bilbo, ainda com a mão no punho da espada, o rosto banhado em lágrimas crispado numa mistura de fúria e dor, dizendo:
— Isso é por Anna, seu nojento! — Bilbo retirou Ferroada das costas do orc, que caiu de joelhos, ferido. Bilbo encarou Thorin e disse, chorando: — Ela morreu, Thorin!
Ao ouvir isso, o Rei sob a Montanha sentiu algo quebrar-se dentro de si. Agarrou seu imenso machado e partiu para cima do orc, com toda sua dor e toda sua fúria, com um grito que não soava humano. Num único golpe, Thorin arrancou fora a cabeça do orc pálido, fazendo-o tombar sem vida no campo de Batalha dos Cinco Exércitos.
A cabeça de Azog, o Profanador, rolou desajeitadamente pelo terreno irregular até perder a força e ficar parada, os olhos claros sem vida olhando diretamente para Thorin.
Palavras em orcish
snaga = escravo
Palavras em Khuzdul
khazâd = anões
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