Jornada Para Erebor

57 Ajuda inesperada


Notas iniciais
Alerta de angst para salvar Anna

Thorin não estava coerente, muito menos Bilbo. O pobre hobbit estava desolado, mas conseguiu dizer ao rei anão que usara seu anel para não ser percebido pelos orcs e assim localizara a jaula onde tinham posto Anna. Thorin foi até lá com Dwalin.

Transtornado, Thorin viu a gaiola usada para prender animais, e havia um pequeno corpo deitado no interior dela. Em poucos golpes de machado, o rei anão destruiu a odiosa gaiola e abriu caminho até sua amada.

Ajoelhado no chão, Thorin puxou-a para si, certificando-se primeiro que era mesmo Anna, sem sentidos, o rosto sujo e pálido, uma mancha de sangue no braço. O coração dele parou quando ele não conseguiu localizar no pulso nem sangue nem respiração para garantir que Anna ainda estava viva. Ele a pegou em seus braços e desesperou-se, apertando-a contra si.

Não...! Não!

Seu peito parecia incapaz de conter toda a sua dor, então Thorin jogou a cabeça para trás e gritou com toda a força de seus pulmões, um som primitivo. Era um grito amargo, contendo tamanha dor e solidão que os soldados mais próximos se afastaram até mesmo seus próprios companheiros. Mesmo as Águias Gigantes que sobrevoavam aquela parte do campo de batalha voaram para mais perto, para ver o que acontecia.

Ainda agarrado ao corpo imóvel, Thorin sentiu o tempo parar e o eixo da Terra se mexer. Louco de dor, ele provocava terror em todos e nenhuma alma ousava chegar perto dele. Então um se adiantou: Beorn (que ninguém soube dizer como chegara até ali).

O grande homem pôs uma mão no ombro do anão. Thorin se virou para ele, vendo a expressão de tristeza no rosto do homenzarrão.

Se havia algum tipo de rachadura na alma do rei de Erebor, essa abertura se abria ainda mais, como um abismo de dor. Ele se virou para Beorn e fez o impensável.

Por favor... implorou Thorin. Ela não respira... Está morrendo. Se ela morrer... Se ela m-morrer...

Não conseguiu terminar. Thorin não era homem de suplicar. Seu orgulho de descendente de Durin não o permitiria fazer isso. Mas agora isso ficara no passado. Por Anna, ele imploraria, suplicaria. Não por si mesmo, mas por sua pequena.

Sua ghivashel.

Beorn simplesmente assentiu e deixou Thorin colocá-la em seus braços gigantes, que pareciam ainda maiores em comparação ao corpinho diminuto de Anna.

Thorin Oakenshield disse Beorn , você também tem ferimentos que devem ser tratados.

Não perca tempo. Ajude minha pequena. Eu o encontrarei.

Beorn deu um grande suspiro, murmurando:

– Esquilinho...

Em plena luta, Beorn atravessou o campo de batalha sem que ninguém o incomodasse. Ninguém ousava desafiar o gigante.

Os outros membros da companhia cercaram Thorin, protegendo-o, pois a batalha ainda estava em curso. Mas para Thorin, porém, tudo parecia inútil e sem sentido. Só naquele momento, em que ele estava prestes a perder tudo aquilo que ele realmente achava importante, ele se via totalmente impotente. Naquele momento Thorin Oakenshield via a si mesmo como uma figura patética: um reizinho velho, mesquinho e ganancioso.

Durante o resto da batalha, Thorin parecia estar em transe, sem vontade própria. Mas ele não tinha mais vontade nem desejo. Seu desejo, sua vontade de viver, estava longe, ferida, lutando pela vida.

Se ainda estivesse viva.

Aliás, vida era o que menos havia naquele lugar. Sangue voava por todos os lados, orcs e goblins caindo por seu machado, morte à sua volta. Ele via uma quantidade incontável de mortos, e também muitos moribundos. Quem não estava morto morreria em breve.

Thorin estava dilacerado, obrigado a enfrentar o gosto amargo das consequências de sua teimosia. Seria esse o preço que ele iria pagar? Adicionar Anna e seu filho não-nascido ao grupo de vítimas? Mas nada fazia sentido sem ela: o tesouro, a Arkenstone, a reconquista de Erebor. Sem Anna, de que adiantaria? Nada valeria a pena.

Quando, finalmente, os gritos de vitória soaram, dando conta que o inimigo tinha sido cercado ou fugia, Thorin não se juntou à celebração. Ouviu a alegria dos combatentes, recebeu tapinhas de parabéns, tentando não parecer tão distante da euforia dos que comemoravam o fim da matança.

Para Thorin, porém, o pior mal tinha começado.

A passos trôpegos, o rei anão atravessou o campo de batalha numa espécie de estupor, incerto se tinha forças para enfrentar o que provavelmente o esperava a seguir.

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Assim que Beorn pôs-se a carregar Anna para o local onde aparentemente estavam alojando os feridos, Bilbo Baggins decidiu segui-lo. Na verdade, talvez não tenha sido uma decisão consciente, mas quando Bilbo viu Anna indo embora, alguma coisa lhe dizia para ir junto.

Foram parar numa tenda onde curadores elfos e humanos atendiam feridos dispostos em macas. Beorn era tão grande que precisou se curvar muito para entrar.

Um elfo esguio e elegante veio até o gigante, que estendeu Anna. O elfo se espantou ao ver o tamanho diminuto:

– É uma criança, é um humano?

Um outro elfo gesticulou para Bilbo:

– Você é aquele hobbit dos anões. Esse aqui é seu parente?

Bilbo assentiu:

– Minha sobrinha.

Se os elfos se espantaram por ver uma mulher, nada disseram. Um deles apontou:

– Coloque-a na maca enquanto eu chamo o curador.

Beorn obedeceu, e nunca se vira o homem gigante tão triste. Ele se virou para Bilbo.

– Preciso ir agora, coelhinho. Você ficará com o esquilinho?

Bilbo assentiu, já ao lado de Anna. Beorn disse:

– Diga ao curador que ela pode ter tomado staselas. Não perca a esperança.

Bilbo assentiu automaticamente, sem parar de encarar Anna, sentindo lágrimas quentes e grossas rolando por suas faces. O troca-peles saiu, mas o hobbit sequer prestou atenção.

Era difícil para Bilbo acreditar no que acontecia. Parecia irreal, um pesadelo do qual ele parecia ser incapaz de acordar. Ali estava Anna, mas... não parecia ser a Anna que Billbo conhecia.

Uma voz às suas costas interrompeu seus pensamentos.

– Oh, por Ilúvitar...! Essa é Lady Anna?

Bilbo se virou para o elfo recém-chegado. Ele indagou:

– Você a conhece?

– Eu a tratei em Mirkwood — disse o curador, aproximando-se para examiná-la. — Sou o curador de Sua Majestade Thranduil. E você?

– Sou tio de Anna — apresentou-se. — Bilbo Baggins.

Estendeu a mão, mas o curandeiro apenas fez um meneio de cabeça, indagando:

– Mestre Baggins, já que está aqui, pode ajudar?

– Do que precisa?

– Preciso sair e avisar meu senhor que ela está aqui. Enquanto isso, pegue água e um pano e comece a limpá-la. Aproveite e veja se tem algum ferimento mais grave que não vimos. Volto já.

O elfo se afastou e Bilbo obedeceu imediatamente. Enquanto ele fazia o que lhe era pedido, ouviu um tumulto do outro lado da tenda. Não teria prestado atenção se não tivesse ouvido vozes conhecidas:

– Saia da minha frente, elfo!

– Deixe-nos passar!

– Por favor, mestre elfo, precisamos entrar.

Bilbo se ergueu:

– Kíli! Fíli!

Os dois jovens localizaram Bilbo e foram até ele, levando também Óin e Ori, para desprazer dos elfos presentes. Todos os anões pareciam angustiados.

– Mestre Boggins — disse Kíl -i , como está ela?

– Ainda não sabemos, mas não parece nada bem. E Thorin?

– Está a caminho — disse Fíli. — Tem alguém cuidando dela?

– O curador do rei Thranduil está encarregado dela. Disse que voltaria já.

Óin se ofendeu:

Elfos...! Humpf! Bobagem! Deixe-me vê-la, mestre ladrão.

Embora Bilbo não gostasse de ser chamado de ladrão, ele nem se importou. Afastou-se e deixou o velho Óin trabalhar.

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Thorin não parou nem pensou, e pareceu sequer não responder até entrar na enfermaria élfica improvisada. Seu coração estava ao mesmo tempo acelerado e apertado, como se quisesse estourar, mas receasse o fato.

Nada poderia minar sua determinação de ver Anna. Ele não escutava nada. O silêncio que o cercava era um inferno pessoal, abafando sua alma tentando gritar para ele que Anna morrera. Thorin não queria nem aventar essa possibilidade, muito embora no fundo de sua mente, ele soubesse o quanto isso era possível.

Ele ignorava o ambiente a seu redor. Humanos, elfos e anões retiravam seus mortos e empilhavam cadáveres de orcs e goblins. Montanhas de corpos começaram a ser queimados por motivos sanitários. Para anões, que favoreciam túmulos de pedra, a prática sempre era motivo de espanto, e só a prevenção de doenças a explicava. Thorin vira a mesma coisa em Moria. Seu irmão Frerin tinha sido um dos anões queimados.

Agora, a mesma coisa acontecia aos pés da Montanha Solitária. Thorin caminhava sem ver nada, a mente fixa em Anna. Dwalin seguia atrás de Thorin, no seu jeito grave e circunspecto. A presença de Dwalin, com seus modos sensatos e práticos, sempre representou um conforto para Thorin. Naquele momento, porém, nada seria capaz de confortá-lo.

Ao contrário de seus companheiros, Thorin entrou na tenda em silêncio. Afinal, o barulho interno em sua cabeça o fazia se sentir num ambiente caótico.

Seus olhos imediatamente localizaram Kíli e Fíli. Ambos pareciam exaustos, os cabelos desgrenhados, cortes e machucados em seus rostos sujos com resquícios da batalha. Balin estava perto deles e tinha uma expressão inacreditável de tristeza e perda irreparável. Ori parecia prestes a quebrar a qualquer momento, como se fosse uma peça de vidro. Óin parecia desgastado e exaurido além de seus longos anos. Bilbo estava irreconhecível, seu rosto desprovido de qualquer alegria e expressão de vida.

Todos tinham os olhos inchados e vermelhos. Contudo, Thorin notou que Bilbo, Fíli, Kíli e Ori ainda tinham lágrimas vazando de seus olhos.
E deitada numa cama improvisada, Anna jazia deitada, imóvel, parada. Parada demais. E estava mais pálida do que nunca, uma cor branca que não era natural.

Ela estava deitada em lençóis limpos, sem traços de sangue. Óin deve ter trocado tudo, pensou Thorin, para deixar Anna mais apresentável.

Por Mahal, ela parecia estar apenas dormindo. Anna parecia tão tranquila, tão pacífica, que se Thorin não soubesse da verdade, ele poderia pensar que sua pequena, sua pequena doce e inocente estivesse apenas dormindo. Infelizmente não era o caso.

Num passo mecânico, quase automático, Thorin foi até a cama. Kíli abriu a boca para dizer algo e foi para frente, como se fosse falar com ele, mas Balin o segurou com um toque delicado e firme. Kíli se deteve e fechou a boca, desinflando-se como se fosse um fole de forja. Thorin ignorou isso tudo, ficando ao lado da cama de Anna, suas pernas mal o sustentando quando ele olhou para a sua amada.

Naquele momento, Thorin se deu conta que achava Anna linda. A aparência dela nunca o desagradara, mas ele não tinha notado que Anna era capaz de lhe tirar o fôlego. Ela não era de sua raça, não tinha barba, mas ele já sabia que isso o agradava. Naquele momento, porém, Thorin encarava o cabelo dela, cortado por ordem do rei anão e queimado pelo fogo de dragão, levemente encaracolado, e passou os dedos pelas mechas, suaves e sedosas. Seus dedos encostaram no rosto de Anna, e Thorin teve um choque.

Todas as vezes que Thorin tocara Anna, ela era quente e irradiava calor como um sol suave de primavera. Agora, porém, ela estava fria como gelo de inverno. Aquilo perturbou Thorin, embora não devesse. Ele tinha visto morte e sabia que um corpo podia ficar bem frio. Mas Anna não. Anna nunca deveria ficar fria, e Thorin não podia conter sua surpresa.

Ele a encarou, desejando fortemente que ela pudesse viver. Lágrimas que até então tinham sido negadas a ele distorceram sua visão, e seu rosto se contraiu numa máscara de desesperança e dor. Thorin sentia que seu próprio coração e sua alma também choravam a perda de sua amada. Ele queria gritar novamente, mas a garganta estava fechada pelo desespero.

Fora de controle, Thorin deixou as lágrimas caírem na pele fria e impecável de Anna. Caíam no rosto dela, nas bochechas, nos olhos, nos lábios... Lábios que ele queria beijar, olhos cor de mel que o encaravam com doçura e amor, bochechas que ele adorava ver tornarem-se rosadas...

Thorin soluçava, seu corpo sacudindo quando ele se curvou sobre o corpo de Anna, encostando sua testa na dela. O longo cabelo de Thorin os afastava dos demais, criando uma espécie de casulo entre os dois.

O que tinha acontecido? Por que Anna tinha aparecido no meio da batalha? Como Thorin tinha falhado com ela de maneira tão fragorosa?

Se Thorin tivesse sido um bom marido e um bom rei, a vida de Anna teria sido preservada. Tudo o que ele queria era consertar isso, trazer Anna de volta, ouvir a risada dela, ver seu sorriso, ver sua barriga inchar-se com o filho de seu amor. Queria beijá-la, pegá-la em seus braços, levá-la ao seu leito nupcial e fazer dela sua eterna rainha.

Thorin queria passar o resto de seus dias com Anna, vendo o filho crescer, rodeado por seus sobrinhos. Queria ver Erebor se tornar ainda mais grandiosa com Anna a seu lado. Ele também queria levar Anna a Valle, até a Rivendell ou a Mirkwood, para onde ela quisesse ir, quem sabe ao Shire de Bilbo. Na verdade, Thorin faria qualquer coisa para ver Anna viva de novo, ver os olhos cor de mel se abrindo mais uma vez, e o sorriso radiante e quente como se ela fosse o sol de Thorin.

Enquanto ele ainda se debatia com a parte de seu coração que o obrigava a encarar o fato que Anna podia ter ido para sempre e que nunca mais voltaria, um ruído lhe chamou atenção. Ele ergueu a cabeça.

E bile subiu-lhe à garganta ao ver quem estava na tenda.

Thranduil. Falando com Bilbo.

O curador elfo discutia com a companhia.

– Estão perturbando os pacientes, mestre hobbit — tentava argumentar o elfo. — Temos muito o que fazer!

Kíli insistiu, de cenho franzido:

– Ninguém vai sair daqui!

Thranduil tentou contemporizar, com uma voz suave:

– O jovem anão tem razão. A paciente é de grande importância. Talvez possamos transferi-la para uma ala mais reservada.

O elfo curvou-se a seu rei e começou a providenciar a mudança. Thorin se ergueu e foi até Thranduil. O rei élfico saudou-o:

– Salve, Thorin Oakenshield. A batalha é finda. Devemos acordar para um novo dia.

Thorin dispensou as formalidades e indagou:

– Vocês podem ajudá-la?

O elfo altivo garantiu:

– Farei o que puder. Os relatos do campo de batalha indicam que deve se reunir com seus parentes, Thorin Oakenshield. Quando voltar, teremos novidades sobre Anna.

Thorin se recusou:

– Podem chamar Dáin aqui, se quiserem que eu fale com ele. Do lado de Anna não sairei.

E voltou para o lado de sua amada, elfos que pensassem o que quisessem.

A companhia, aparentemente, pensava a mesma coisa, incluindo Bilbo.