Jomal

37 Capítulo 51


Rachel rodava de um lado pro outro, na torre, como Finn ordenara. Rosalie e Chord não dormiram mais. Ela podia ouvir tudo, as flechas cortando o ar, gritos, barulho de metal contra metal, bombas, cavalos relinchando, e o cheiro no ar indicava que alguém tocara fogo em algo. Estava inquieta. Não se aproximava da janela. Olhara uma vez, procurando Finn... Mas a cena quase a fez desmaiar. Haviam pessoas se matando até o horizonte.

Rachel: Tudo bem... Tudo bem... Tudo bem... – Repetia, como um mantra, andando em círculos – Tudo bem... Tudo JESUS CRISTO! – Exclamou, pondo a mão na boca pra conter o grito.

Santana: Porque diabo essa porta está destrancada? – Perguntou, irritada.

Rachel precisou de um segundo para digerir. Santana estava toda rasgada. Haviam arranhões de um cinza escuro em seus braços, mas o pior... Sua boca, seu queixo, seu pescoço, o colo... Lavados em sangue.

Santana: Não é meu. – Disse, vendo o olhar da outra – Jesse mandou lembranças.

Rachel: Jesse?! – Rachel se moveu, inconscientemente, pra mais perto do berço dos filhos – Você o viu? Ele... SURI! – Exclamou, ao ver o que Santana tinha nos braços. A testa da menina estava lavada em sangue. Rachel arregalou os olhos – É... É dela? – Perguntou, olhando a boca de Santana.

Santana: Pare de gritar e não diga tolices. Não gosto de Crianças, mas não as ataco. Devem ter um gosto horroroso. – Disse, indo até a cama de Rachel. Depositou Suri lá – Jesse estava tentando enforcá-la. Eu não sei de quem foi a idéia estúpida de manter todos separados, mas sei que não foi de Sam, então estou resolvendo. – Disse, puxando o vestido rasgado – Que oportuno. – Disse, debochando de si mesma. – Não teria um vestido, por acaso?

Rachel: Suri está bem? – Perguntou, atordoada, recuando para o guarda roupas.

Santana: Melhor que nós duas. Agora só dorme. – Rachel pegou qualquer vestido, oferecendo. Era rosa. Santana ergueu a sobrancelha – Rachel, pelo amor de Deus. – Rachel a olhou – Não tem nada escuro?

Rachel jogou o vestido rosa e branco num canto, e apanhou outro, preto e grafite. Santana agradeceu, rasgando o resto do que vestia, apanhando o outro. O vestido leve de Rachel ajudaria, pensou ela, fechando o broche prata abaixo dos seios. Rachel estava pálida.

Santana: Algum problema? – Perguntou, rasgando uma tira do vestido acabado, limpando o rosto.

Rachel: Estamos em guerra? – Perguntou, aturdida.

Santana: Vocês superestimam isso... – Ela revirou os olhos, terminando de se limpar – Mais alguma coisa?

Rachel: Fico imaginando Finn lá fora... No meio disso. E eu não posso fazer nada. – Murmurou.

Santana: Pode cuidar de Suri. – Rachel suspirou. Santana olhou em volta – Use isso. – Ela apanhou o arco e flecha pesado, parado no canto, desprezado por Finn.

Rachel: Não sei atirar. – Disse, derrotada.

Santana: Não tem problema. Só se certifique de que Sam não está no meio, e divirta-se. – Disse, indo até a janela. Ela carregava o arco pesado com facilidade. Sua expressão se fechou. – Venha aqui.

Rachel foi. Não entendeu muito bem o que Santana queria quando armou o arco e o colocou em sua mão, abraçando-a por trás, segurando-a, como alguém que segura as mãos de uma pessoa, ensinando-a a tocar bateria. Ela puxou a flecha no seu limite, os olhos negros observadores.

Santana: Na verdade é muito fácil. – Rachel procurou o alvo da flecha. Sam estava rodeado de soldados, lutando violentamente, na frente do castelo. A linha do arco tremeu pela pressão – Fácil demais. Apenas seja a flecha. – Instruiu, o hálito gelado na orelha de Rachel, e soltou a flecha, que cortou o ar, atingindo um dos soldados que Sam enfrentava na nuca.

Rachel: Como você fez isso? – Perguntou, escandalizada. Eram metros e metros de distancia e altura.

Santana: Já disse, seja a flecha. – Repetiu – Vou buscar Kristen. Se Suri acordar dizendo alguma coisa sobre eu ter dado algo de beber a ela, ou algo que Jesse tenha dito de anormal, negue. – Instruiu – Diga que foi fruto da cabeça dela. E tranque essa porta. – Disse, saindo.

Rachel tentou com o arco, mas ser a flecha não era tão simples quanto aparentava. Por fim desistiu, apanhando uma tina com água e toalhas limpas, limpando a testa de Suri. Ela procurou com cuidado sob os cabelos da menina, mas não havia corte algum. Agora, depois de limpa, podia perfeitamente estar dormindo. Ela largou a água suja no banheiro e voltou pra janela, procurando o marido. Não durou muito...

Nina: Com licença, sua alteza. – Disse, encostada na parede da porta, sorrindo. Rachel se virou, no reflexo. De imediato ela viu o problema: Enquanto ela estava na janela, Nina estava perto da porta... Perto demais do berço.

Ojalá ela tivesse trancado a porta quando Santana mandou.

Rachel agiu por instinto: O arco ainda estava em sua mão. A pontaria foi razoável, mas a força nem tanta, e Nina apanhou a flecha com a mão, jogando-a pro lado. Rachel lançou mão de outra, e Nina desviou, ainda se aproximando, sorrindo.

Nina: Não sabe como eu esperei por esse dia. – Disse, com um sorriso ameaçador.

Então, no alvoroço, uma das flechas acertou. Abaixo do ombro, acima do seio. Nina arfou, com uma careta, e Rachel partiu pra mão. Primeiro acertou ela com o arco pesado, mas Nina reagiu, e defendeu. Nos minutos que se vieram a luta foi equilibrada, apesar de que uma das duas estava ferida. Rachel bateu, mas também levou, porém fez algo pensado, sem mostrar suas intenções: Levou a briga pra longe do berço. Se Nina fosse tocar em um de seus filhos, seria depois de matá-la. Mas ao pensar em Nina pondo as mãos em Chord, os olhos inocentes do menino sem entender, ou em Rosalie, tão delicada, tão frágil, em pensar nela machucando-os, uma fúria assassina tomou conta de Rachel. Ela podia sentir o gosto do ódio na boca, e Nina foi parar no chão. Com um rosnado a puxou junto, mas as mãos de Rachel pareciam vespas, só se via a sombra, e se sentia. Então Rachel se lembrou de uma conversa distante, em dias tranquilos, longe dali...

Santana: Quebrar o pescoço de uma pessoa é ridiculamente fácil. – Explicou, se postando atrás de Quinn, que ergueu as sobrancelhas – Apanhe a cabeça da outra pessoa com as duas mãos. – Começou, postando as mãos abertas na cabeça de Quinn, com as palmas em cima da orelha da outra – Tome impulso, balançando a cabeça pro lado... – Ela balançou a cabeça de Quinn pra direita, tomando impulso, e Quinn ergueu os olhos – Depois puxe com tudo pro outro lado. Vai ouvir um estalo, coisa muito simples, e acabou.

Ela achou graça no dia, mas agora... Rachel nunca se imaginou matando alguém.

Então ela se lembrou de como Nina deixara Chord cair propositalmente no chão, no choro assustado do menino, na marca roxa que apareceu. Nina tinha força, esmurrando-a, arranhando-a, toda a força de vontade para derrubá-la. Se ela não matasse Nina, Nina a mataria. Chord e Rosalie seriam os próximos, quem sabe até Suri, ainda desmaiada na cama. A fúria chegou ao seu ápice.

Rachel: CHEGA! – Rugiu, se ajoelhando, as mãos apanhando a cabeça de Nina pelas laterais, e o próximo que se viu foi o movimento brusco dos ombros de Rachel, apanhando força, então um barulho alto de algo se quebrando. Nina ofegou uma ultima vez e caiu no chão, os olhos abertos, e não se moveu mais.

Rachel se levantou, o ódio se abrandando como uma onda que se quebra, o pânico vindo depois. Matara uma pessoa. Com suas mãos. Sentira o estalo do pescoço se quebrando em seus dedos. Ela estava tremendo. Se sentou nos pés da cama, tirando o cabelo do rosto, e já estava chorando.

Santana: Para de reclamar, até parece que eu vou jogá-la no campo de batalha. – Disse, a voz vindo da escadaria. A porta se abriu – Pron... Ops. – Disse, olhando a cena. Kristen se paralisou, olhando a cena. Rachel chorava nos pés da cama, agarrada aos cabelos, e Nina estava caída no outro canto, uma mancha de sangue no colo, a boca e o nariz partidos... Morta. Então Santana estava em frente a Rachel, apanhando seu rosto – Olhe para mim. – Disse, a voz séria. Rachel quase convulsionava, tremendo, as lagrimas caindo por seu rosto – Está machucada?

Rachel: Não. – Disse, respirando fundo – Meu Deus, eu matei uma pessoa. – Disse, e Santana a olhou. Kristen checava os bebês.

Santana: É só choque. – Constatou. – Kristen, abra mais essa janela pra mim. – Pediu. Kristen correu, abrindo a janela – Pegue um copo d‟agua pra ela.

Kristen pegou da água da cabeceira da cama, levando o copo até Rachel, que ainda tremia. Santana ergueu Nina pelo vestido e simplesmente a lançou da janela da torre. Não ficou pra olhar o corpo da outra se estatelar no chão, apenas fechou a janela.

Santana: Se acalme. Eu matei uma pessoa quando tinha a metade da tua idade. – Rachel e Kristen franziram os cenhos, em uma careta. Isso era pra confortar? – Cuide dela, eu vou buscar Shelby.

Kristen: Ela é impossível. – Murmurou, se voltando pra Rachel – Respire fundo. Já acabou.

Rachel respirou fundo, assentindo. Fizera o que fora necessário. Seus filhos estavam seguros agora. Ela era uma rainha, não uma covarde. Esse problema estava resolvido... Mas o castelo estava longe de se declarar seguro novamente.

Rachel caminhava sozinha pelo castelo. Santana sumira; Aparentemente Quinn não estava em lugar algum. Suri acordou, inocente de tudo o que passara, e Rachel descera ao quarto da menina, lhe apanhando roupas. Aparentemente a algazarra tinha sido levada para fora do castelo. Ela estava voltando pra a torre quando o encontrou.

Jesse: É intrigante. – Começou, encostado em uma parede, observando-a. O sangramento em seu pescoço estancara. – Quase dá náuseas ver a ralé vestida como se fosse da realeza. – Provocou.

Rachel: Andas muito mal informado. – Disse, pondo o vestido de Suri no braço. – Se ninguém te avisou, eu sou rainha. E dentre poucas horas serei rainha do teu reino, também, embora tu não estarás mas aqui para ver-me subir ao trono. – Debochou.

Jesse: Ou, o que é mais provável, estará viúva, amarrada e amordaçada, observando enquanto eu quebro os ossos das suas crias. – O sorriso de Rachel se fechou, e o dele se abriu – Um por um, na sua frente. Para que ouça os gritos, e por fim veja os corpos.

Rachel: Eu sugiro que tenha cuidado, Jesse. Finn se aborrecerá se eu resultar fazendo o trabalho que é dele. – Rosnou.

Jesse: Não tem mais medo de mim, pombinha? – Debochou, se aproximando mais ainda.

Rachel: Onde está a desprezível da tua mulher? – Perguntou, sorrindo novamente.

Jesse: Em casa. A salvo. Esperando que eu volte. – Deu corda.

Rachel: Hum... Espero que ela goste de se decepcionar, então. – Jesse agora estava perigosamente perto de Rachel.

Jesse: Porque? Tu vais me matar, Rachel? Tu? – Debochou – Ah, não. Não creio. No começo tinhas utilidade, era bonita. Podia ter sido minha amasia. Mas agora... – Ele a olhou de cima abaixo – Está estragada. Uma fruta podre, das que dá nojo olhar. – As mãos dele apanharam o rosto dela, pela lateral... Do mesmo modo que Rachel havia pego o rosto de Nina, minutos atrás. – Pronta para ser descartada. – Completou.

Mas Rachel não o encarava. Estava prestes a morrer, mas não o encarava. Olhava algo atrás dele. Quando Jesse tomou impulso para quebrar-lhe o pescoço, no entanto, ela lhe abriu um sorriso radiante, o que o retardou por um instante, deixando-o confuso. Ele iria matá-la e ela estava sorrindo para ele. Enlouquecera? Ele se retardou um instante... Mas um instante era tudo o que era preciso.

Santana: Perdeu. – Avisou, a voz vindo de trás deles.

A lança que ela atirou cruzou o ar mais rápido e com mais força que uma flecha, acertando-lhe o ombro por trás. Jesse soltou Rachel, cambaleando e caindo de joelhos, e esta limpou as roupas, se afastando dele. Não achara que essa história de ser isca daria certo, mas a adrenalina resultou deliciosa. Jesse arrancou a lança das costas com um grunhido, arfando, e virou o rosto.

Jesse: Você é teimosa. – Arfou, olhando Santana.

Santana: Sou. E você vai morrer. – Disse, abrindo aquele sorriso ameaçador de novo. Ela sumiu em um borrão, e então estava em cima dele, os braços dele presos pelo pulso ao lado do rosto – Finn realmente vai se aborrecer... Mas é irresistível. – Comentou, e tomou impulso para trás, os dentes já expostos. Iria mordê-lo outra vez, Jesse sabia, e dessa vez não o deixaria com vida. Mas no momento em que ela iria dar o bote...

Jesse: Vocês não encontraram a mulher de Puck, não foi? – Ofegou, e Santana parou, praguejando internamente de vontade, a língua passando levemente por um canino – Quinn, o nome, não é?

Santana virou o rosto para Rachel, em uma pergunta muda. O triunfo de Rachel sumiu de seu rosto, e ela negou. Não, não havia sinal de Quinn.

Jesse: Estava chorando, a coitadinha, tão nervosa... Apavorada. Andando de um lado pro outro. – Instigou. Ele não viu como, mas Santana estava de pé, e ele junto. Ela o ergueu pelo pescoço, prensando-o na parede.

Santana: Faça valer mais alguns minutos de sua vida. Onde você a deixou? – Rosnou.

Jesse: Me mate. – Provou. Santana rosnou de vontade – Mas seja rápida, se ainda pretende procurá-la. Do jeito que eu a deixei sangrando... Tsk tsk. – Ele ergueu as mãos, e havia sangue fresco ali. Fresco demais para o ferimento do pescoço dele, que já havia estancado. – Se eu fosse você, nem me daria ao trabalho. – Comentou.

Rachel: Ah, meu Deus. – Gemeu, subitamente apavorada. Viu Santana aproximar o rosto da mão ensanguentada de Jesse... Farejando. Então os olhos da morena se abriram em choque, e ela o lançou com força contra a parede.

Santana: O QUE VOCÊ FEZ?! – Rugiu, furiosa. Jesse riu.

Jesse: O tempo está passando. – Debochou. Ele abaixou a mão. O sangue de Quinn gotejou.

Santana: Eu devia mesmo matá-lo. Devia matá-lo agora. – Disse, mais furiosa do que já estivera.

Rachel: Sant, a Quinn. – Lembrou. Santana rosnou mais uma vez e arremessou Jesse, que deslizou alguns metros no chão. Por sorte veio um soldado, todo ensanguentado da batalha, pelo corredor.

Soldado: Ele está aqui. ELE ESTÁ AQUI! DÊÊM O ALERTA! EU O ENCONTREI! – Gritou, vendo Jesse, que ria gostosamente, se levantando.

Santana: Cale essa maldita boca. – Rosnou. – Escute. Sabe onde Damon está?

Soldado: Eu o vi comandando as tropas na fronteira leste, alteza. – Disse, sem entender. Jesse estava de pé novamente, escorado na parede, rindo.

Santana: Encontre Damon. Diga a ele que eu estou chamando, que é urgente, e que ele precisa vir o mais depressa possível. Diga que temos problemas graves dentro do castelo. Repita isso para cada soldado que você encontrar no caminho: Eu preciso que Damon venha até mim. VÁ! – O soldado saiu correndo.

Jesse: Não vai dar tempo. – Cantarolou. Santana se virou pra ele, possessa, mas Rachel segurou seu braço.

Rachel: Por que Damon? – Perguntou, confusa. Agora estava com medo.

Santana: Porque fora Sam, é o único que vai atender meu chamado. E ele é mais rápido: Eu preciso que ele encontre Puck imediatamente. – Disse, tirando o cabelo do rosto. Não fazia idéia de pra onde ir, por onde começar. Porque Quinn saíra sozinha do maldito quarto?

Rachel: Não pode... Não pode sentir o cheiro? Como sentiu na mão dele? – Jesse riu novamente.

Jesse: Poder ela até poderia. Mas tem gente demais sangrando aqui dentro, não há como distinguir assim, há, aberração? – Perguntou, debochado. Santana estava começando a tremer de ódio.

Santana: Se Quinn morrer... Jesse, eu vou descer ao inferno para fazer você pagar. Acredite. – Prometeu – Venha. – Disse, puxando o braço de Rachel, e as duas saíram dali correndo.

Mas o castelo era muito grande, haviam cômodos demais pra gente de menos procurando. E o principal: O tempo está contra nós. Contra Quinn.

—--*

Jesse já saíra do castelo. Cuidaria de Santana assim que a guerra estivesse controlada, e Rachel seria a próxima. Agora cantava vitória do lado de fora, matando todos que cruzavam seu caminho. Logo uma pilha de corpos estava ao seu redor. Foi então que...

Finn: Finalmente. – Grunhiu, se aproximando do circulo, os olhos dilatados de ódio. Jesse se virou tranquilamente, encarando-o – Encontrei você, sua barata imunda.

Sam viu as pessoas parando de lutar para observar algo, se afastando pra dar espaço, logo um circulo se formando, e ergueu a sobrancelha, aguçando o olhar. Sorriu de canto, um rosnado ansioso saindo de seu peito, e se aproximou, não para intervir, mas para assistir o duelo que começaria ali. A espada de Finn cortou o ar no momento em que Sam parou para observar. Uma coisa era certa: Aquilo terminaria ali.

—--*

Pandemônio. Os soldados de Sam não foram treinados para abandonar uma luta, mas também não foram para atacar quem não revidava, e os soldados de Jesse pareciam estar mais interessados no duelo do que ganhar a briga em si. Sam, em seu cavalo, observando a briga, tinha o cenho franzido de concentração... Então suspirou e revirou os olhos.

Sam: Ah, pelo amor de Deus, vocês querem calar a boca? – Perguntou, exasperado. Os soldados o olharam – Eu estou tentando assistir isso aqui. Agradecido. – Disse, debochado.

Rachel, Damon, Puck e Santana saíram em uma expedição de busca pelo castelo, mas divididos. Até que Rachel notou o silencio anormal.

Rachel: Não está calmo demais? – Perguntou, caminhando com Santana. Essa invadia todas as portas que passava pela frente, sondando, procurando.

Santana: Finn deve ter encontrado Jesse. – Disse, distraída.

Rachel: O que?! – Perguntou, estancando no lugar.

Santana: É. Todos estão olhando o duelo, por isso não tem barulho. – Disse, sumindo por uma porta, voltando logo depois – Essa é a primeira guerra a qual você vai? Pelo amor de Deus. – Ela revirou os olhos.

Rachel: Eu tenho... Finn, ah meu Deus. – Disse, angustiada – Eu tenho que ir vê-lo.

Santana: Para roubar seu foco? Acredite, você não quer isso. – Disse, então parou, franzindo o cenho.

Rachel: Eu não posso apenas ficar aqui e... – Interrompida.

Santana: Shhh. – Disse, erguendo a mão. Rachel se calou, confusa. Santana farejou alguma coisa no ar, mas havia um barulho também. Algo baixo, interrompido... Engasgos.

Santana avançou a frente, então parou, gemendo consigo mesma. Rachel a alcançou logo depois, e arfou. Quinn estava caída no chão, se contorcendo... A garganta cortada.

—--*

Damon: Ela não está pra lá. Por que vocês estão aqui? – Perguntou, se aproximando. Puck viu as caras delas duas, e avançou batido pelo corredor, parando logo em seguida, o rosto sem emoções.

Puck: Quinn. – Sussurrou, vendo a esposa engasgar em sua frente, uma poça de sangue em volta do pescoço cortado.

Lá fora... As espadas de Finn e Jesse se batiam freneticamente, o barulho do metal se encontrando ecoando em volta. Agora ninguém dizia nada, todos olhavam. Havia se formado um circulo enorme em volta dos dois, para que ninguém pudesse interromper. Então Jesse tropeçou, caindo de costas no chão. Muitos prenderam a respiração, achando que o fim estava ali, mas Finn não era covarde ao ponto de atacar alguém caído.

Finn: Levante-se. – Rosnou, o rosto duro – Eu não vou permitir que uma pedra retire minha glória.

Jesse se amparou no punho da espada, se levantando... Mas Finn tinha honra, Jesse não. Em um reflexo rápido, ainda ajoelhado, ele golpeou Finn, que se esquivou, e a luta recomeçou furiosamente. Quando se tratava de um duelo a regra era clara: Não machucar; matar. Tanto que ao entrarem para o duelo, ambos os dois retiraram as armaduras, aceitando a morte clara se ela viesse. Mas como eu disse, Finn tinha honra, Jesse não. Foi por isso que, ignorando as regras, investiu contra a perna de Finn. Finn novamente desviou... Mas não a tempo de evitar o corte. Um corte grande, profundo na coxa esquerda. O sangue jorrou imediatamente e Finn grunhiu, cambaleando.

A mão de Sam apanhou a bainha da espada, ele já tomando impulso para descer do cavalo e assumir a briga, mas Jesse não esperou Finn se erguer: Deu uma coronhada com o cabo da espada na nuca de Finn, que caiu. Sam pulou do cavalo e o caminho se abriu, mas Jesse investia com a espada em direção a Finn, que desviava, rolando pelo chão, se esquivando. Sam passou na frente e bloqueou Jesse, que riu, recuando.

Sam: Verme. Eu deveria lhe dar um motivo para achar graça. – Cuspiu, e se abaixou, apanhando a espada de Finn onde ficara, indo até o outro, que ofegava no chão – Pode se levantar?

Finn: Acho que sim. – Rosnou, a mão agarrando a coxa. Jesse fizera propositalmente, para deixá-lo mancando. O riso do outro foi claro enquanto Sam ajudava Finn a se levantar, então ele se virou pro castelo, abrindo os braços.

Jesse: FOI POR ISSO QUE VOCÊ FUGIU?! – Perguntou, uma das mãos apontando para Finn caído – FOI POR ISSO QUE VOCÊ ME DEIXOU?! – A pergunta era claramente a Rachel. E ela ouviu.

Finn: Você fala demais. – Rosnou se levantando – E nunca mais se dirija a minha mulher. – Encerrou, antes de avançar pra Jesse novamente, recomeçando tudo.

Uma vez dentro do castelo...

Puck: Quinn. – Ele se ajoelhou ao lado dela, tocando o rosto da esposa, que o olhou, duas lágrimas caindo pelos cantos dos olhos. Ela mal respirava, e engasgava muito.

Quinn: Puck. – Sussurrou.

Puck: Eu estou aqui. – Disse, os olhos atordoados, tirando o cabelo do rosto dela.

Quinn: Puck. – Repetiu. Ela engasgou novamente, vendo o olhar atordoado dele – Estou – Ele franziu o cenho – Estou grávida. – Engasgou, e o choque do reconhecimento riscou os olhos dele.

Puck: Alguém faça alguma coisa, pelo amor de Deus. – Disse, olhando o corte dela. Perdera sangue demais – Não deixem que ela morra, eu imploro.

Damon: Saia daqui. Leve Rachel. – Puck fechou a cara em protesto. Rachel estava estagnada desde o grito de Jesse. – Puck, vá. – Disse, urgente. Quinn não tinha mais que minutos.

Puck: Escute. – Quinn o olhou, o rosto pálido, engasgando novamente – Eu amo você. Vai ficar tudo bem, eu prometo. – Disse, secando a lágrima que caiu dos olhos dela.

Santana: Puck! – Apressou.

Puck se levantou e Rachel o levou dali. Ele estava tão abatido que não conseguiu dizer nada, ela tampouco. Ele só conseguia implorar. Deus, por favor, por favor. Leve a mim, mas ela não. Por favor. Bastava saber se Deus ouviria.

Algum tempo depois Damon apareceu na sala. Puck estava irredutível, mas Damon se conteve em dizer que Santana estava com Quinn, que ela ia sobreviver.

Puck: Damon, é minha mulher, eu vou vê-la. – Disse, os olhos azuis ameaçando o outro a contestá-lo.

Damon: Puck, estamos em guerra. – Puck respirou fundo – Esse silencio não lhe indica nada? Vai acabar e precisaremos conter as demandas, não podemos deixar Sam sozinho com isso, quando você voltar Quinn estará aqui! No quarto de Rachel, pra ser mais exato. – Deu de ombros. Rachel, empedrada, olhou pra ele.

Puck: Ela está bem? – Perguntou, em um rosnado.

Damon: Está dormindo. Estará aqui quando voltar. Vamos. – E empurrou Puck. Quase na porta Damon se virou, vendo Rachel branca como uma estatua de cera – E tu... Fique calma. Não faça nenhuma bobagem. Volte pro quarto, lá é seguro. Vai terminar.

Rachel: Não deixe... Não deixe que ele se machuque. – Disse, com a voz quebrada. Damon assentiu e ela deu as costas, saindo.

Rachel vagou a esmo até chegar na torre. Queria sair do castelo. Queria ir até o local do duelo, e gritar até que Jesse deixasse Finn. Queria se pôr entre os dois. Queria proteger Finn. Ao entrar na torre, sua atenção foi desviada. Quinn estava deitada ao lado de Suri, branca feito a morte, o colo sujo de sangue... Mas respirava. Santana por sua vez estava amparada perto da janela, parecendo exausta, o olhar distante.

Santana: Não deixe essa porta aberta. – Disse, e Rachel olhou a porta por onde entrou. Santana ainda encarava o nada – Eu não preciso de mais ninguém morrendo.

Rachel: Você está bem? – Perguntou, se aproximando. Kristen saiu do banheiro com uma tina de água limpa e uma toalha, e se sentou ao lado de Quinn, limpando o sangue do pescoço da outra. No lugar do corte havia uma linha rosa escura, em relevo... Porém nada que jorrasse sangue. Santana virou o rosto.

Santana: Desculpe? – Rachel reparou que Santana segurava os pulsos enrolados em lenços.

Rachel: Você está bem? – Repetiu. Santana sorriu de canto. Ela sempre aparentava ser tão forte que ninguém, exceção a Sam, e algumas vezes Damon, realmente se importava com o que ela estava sentindo. Essa era a diferença em Rachel; Rachel sentia. E se importava.

Santana: Apenas cansada. – Agradeceu – Aparentemente melhor que você. – Observou, vendo a expressão de Rachel.

Rachel: Se Jesse feri-lo... Se machucá-lo... – Ela não conseguiu terminar.

Santana: Então eu vou ter que me esvair em sangue e vocês vão fugir para viver clandestinamente, contrariando o fato obvio de que ele deveria estar morto. – Rachel riu de leve. Santana sorriu, voltando a olhar a janela – Falta pouco, e tudo estará em paz. Suri vai acordar logo. – Rachel se sobressaltou, olhando a menina – Se quer ter alguma mentira bem feita, é melhor começar agora.

Não demorou nada e Suri realmente acordou. Rachel dispensou poucas palavras, ajudou a menina a se banhar e se vestir, e voltaram ao silencio e sempre. Rachel se amparou no berço, olhando os filhos. Rosalie dormia, mas Chord encarou a mãe, observador. Ela sorriu pra ele, acariciando o rostinho do menino. Enquanto Chord estava em paz, seu pai lutava bravamente. Santana não deixou Rachel se aproximar da janela porque a luta estava diante dos olhos, na escadaria do castelo. A perna de Finn doía horrivelmente. Ele podia sentir o sangue escorrendo, se esvaindo, mas não tropeçou nem por um momento. Sua espada e a de Jesse cruzaram o ar, se chocando violentamente várias vezes. Sam observava tudo, neutro. Até que, ninguém viu como, Jesse tentou atingir a cabeça de Finn com a espada, mas esse desviou, se abaixando, e cravou a espada na barriga do outro. O metal duro transpassou a barriga de Jesse, saindo pelas costas, e esse ofegou, perdendo a espada. Um silencio pesado tomou conta da cena enquanto o sangue jorrava do cabo da espada para as mãos de Finn, que se manteve, encarando o outro, ofegando de ódio.

Finn: Por Suri. – Rosnou, e arrancou a espada fora, voltando a golpeá-la em seguida. Jesse cambaleou – Pela minha paz. – Assinalou, puxando a espada de novo. Dessa vez Jesse caiu deitado, e Finn deu um passo até estar em cima dele. Ergueu a espada novamente, ainda encarando o outro – Por Rachel. – Completou, e afundou a espada no peito de Jesse, bem em cima do coração. – Jesse ofegou de modo tortuoso mais duas vezes... E não respirou mais. – Dulce María espera por você no inferno, verme.

Mais dois segundos de silencio, então a gritaria explodiu. Explodiu com uma força que sobressaltou quem estava no castelo, feriu os ouvidos. Finn recuou, olhando o corpo de Jesse no chão com nojo, agora sim permitindo cambalear sob a perna ferida. Esperara tanto por esse momento... Ele se lembrou de Suri privada na cadeira de rodas, de Rachel chorando pela morte do pai, se lembrou de sua impotência perante a isso, e o gosto da vitória em sua boca foi doce. Então...

Rachel: Finn! – Gritou, parada na escadaria atrás dele. Todos os rostos se viraram para ver. Era como se fosse o anjo da paz, descendo a terra para terminar a guerra.

Ouça quando eu digo, quando eu digo: Eu acredito!

Nada mudará, nada mudará o destino... ♫

Finn sorriu de canto. É claro que ninguém conseguiria mantê-la presa até ele voltar. Ela segurou a aba do vestido e desceu em disparada a escadaria, a imagem linda do azul delicado com o branco do vestido dela sendo levado pelo vento junto com seus cabelos dando uma sensação estranha de paz aos soldados. Parecia mesmo um anjo. Mas o anjo não olhou por ninguém; Apenas para um. Rachel se lançou no ombro do marido, abraçando-o forte, as lagrimas caindo por seu rosto. Ela nem olhou pro corpo de Jesse, mas Finn estava de pé, isso bastava.

Ele a abraçou, aspirando do perfume dela leve. Só ali teve certeza de que a maldita guerra acabara.

Rachel: Eu tive tanto medo, tanto medo. – Murmurou em seu choro, agarrada ao ombro dele.

Finn: Acabou agora. Eu disse que ia acabar. – Brincou, beijando a orelha dela – Eu amo você.

Rachel virou o rosto, tomando os lábios dele em um beijo sem sequer avisar. Ele sorriu, acolhendo-a em seus braços, retribuindo. Todos olhavam, sem ter como se desviar. Mas era bonito de se ver.

Puck: Cena estranha de se ver em uma guerra. – Debochou, se aproximando a cavalo.

Sam: Essa foi uma guerra estranha. – Pensou, tranqüilo. Puck pensou por um instante e assentiu.

Rachel se apertou mais a Finn, não querendo deixá-lo nunca... Mas ele cambaleou. O peso dos dois foi demais pra ele e Rachel se afastou, confusa. As vezes Finn a carregava em um só braço, o peso dela não o incomodava.

Rachel: O que... – O olhar dela parou no ponto onde o corte se destacava na perna dele – Ah, meu Deus.

Finn: Não entre em pânico. – Pediu, os olhos alertando-a. Tarde demais.

Rachel: Está ferido?! – Ela recuou, puxando ele até que pode ver o corte fundo. Se ouviu o riso de Sam com a cara de Finn.

Finn: Estou bem. – Garantiu, e sorriu pra ela.

Rachel: Cale a boca. – Disse, mas o abraçou. Finn riu. – Venha, vou cuidar de você. – Disse, apanhando a mão dele. Mas Finn não foi.

Finn: Não posso ir. Eu tenho que...

Rachel: Não tem que nada. – Ralhou. Ele ergueu as sobrancelhas, divertido, o que piorou quando ela virou o rosto para a multidão que observava – ESCUTEM TODOS VOCÊS: ACABOU! – Puck gargalhou – TODOS VÃO PARA SUAS CASAS, ACABOU ESSA HISTÓRIA DE SE MATAREM! – Finn observava ela, fascinado – E SE ALGUÉM ABRIR A BOCA PARA MENCIONAR A PALAVRA “GUERRA” DE NOVO, DEUS ME AJUDE, MAS EU MANDO CORTAR A CABEÇA! – Finn riu – Vão embora. E você vem comigo. – Disse, emburrada. Finn ainda ria. Ele encarou Sam que também rindo, assentiu para que ele entrasse. Não seria de ajuda nenhuma com aquele corte.

Puck: O poder da coroa conseguiu dominá-la completamente. – Disse, divertido. Sam assentiu, sorrindo. – Damon foi cobrir a área sul. Podem haver revoltosos. Não que eu consiga pensar em alguém que vá querer vingar essa morte. – Ele apontou Jesse com a cabeça. A espada de Finn ficou lá, de pé, fincada no coração dele.

Sam: É, mas temos que limpar a bagunça. – Disse, olhando em volta. Todos os soldados, aliados e inimigos derrotados esperavam por novas ordens.

Assim Rachel rebocou Finn de volta pro castelo, Sam, Puck e Damon ordenaram os soldados... E ninguém sentiu pela morte de Jesse. A guerra teve o final justo, aquele que todos esperavam e que ninguém lamentava. E foi só.