Jomal
2 Capítulo 16
Mais dois meses se passaram, e ela não voltou. Finn tampouco a procurou, não a viu, nem com Suri. Ele não tinha paciência pra isso. Ou ela o queria, ou não queria. Ele não iria rastejar mais. Porém o acaso ama pregar peças...
Empregado: Senhores. – Disse, com a respiração ofegante, entrando na sala onde Finn e Puck estavam. Finn virou o rosto para olhar; Puck apenas ergueu os olhos.
Puck: O que há? – Perguntou, os olhos quase perfurando o soldado.
Empregado: Willow Creek. – Era uma das propriedades de Finn. Como uma das extremidades do território. – Está sob mira de ataque. Pelo visto temos menos de 02 horas até que o confronto ocorra.
Finn: Quantos homens? – Puck observava, sem um pingo de graça no rosto.
Empregado: Esse é o problema, o olheiro não conseguiu ver a divisa. – Finn franziu o cenho, Puck arregalou os olhos – Mais de 500 pelo que pude ver, senhor.
Finn: Mais de 500 em uma batalha neutra? – Perguntou, incrédulo.
Empregado: Não é o numero total, eu vim dar o alarme e ainda haviam homens em marcha. – Disse, e dava para se ver o porque da afobação.
Puck: Não é uma batalha neutra. – Disse, olhando para frente – Finn, Willow Creek estava com a divisa descoberta, discutimos isso ontem. Uma frente de batalha de 500 homens em um campo sem defesa, pelo amor de Deus. – Disse, apontando o óbvio. O rosto de Finn se entalhou em pedra de uma hora pra outra.
Finn: Ele está vindo. – Concluiu, e Puck assentiu erguendo a sobrancelha – Desgraçado. – Rosnou, se levantando, e saiu. Puck se levantou também. A urgência era clara agora.
Puck: Soe o alarme, eu quero, por baixo, mil homens pro campo de batalha agora. Cubram a guarda do castelo e esperem por mim e Finn lá fora. Vá! – Ordenou, antes de sair da sala, também apressado.
Quinn lia um livro; Rachel cuidava de Suri; Cada um em seus afazeres... Quando houveram sinos. Altos, ensurdecedores. Os da igreja e os do castelo. O copo que Rachel tinha na mão, vazio, caiu e se quebrou em vários cacos, mas ela não o olhou. Quinn ergueu o rosto do livro, e parecia mais branca que o normal. Ambas sabiam o que aqueles sinos significavam: Guerra. Imediata, iminente.
Suri: O que é isso? – Perguntou, atordoada com o barulho. Rachel olhou a menina, e Suri viu o pânico nos olhos dela – Rach, o que foi?
Rachel: Eu... Eu já volto. – E ela saiu correndo.
Rachel nem sabia o que estava fazendo. Os sinos continuavam tocando, e aquilo a atormentava. Ela percorreu salas e salas, procurando por ele, e nada. Onde estava? Ela parou no corredor do primeiro andar, revirando os olhos pra si mesma, e desembestou para a escadaria que dava na torre de Finn. Seu pulmão doía pelo esforço quando ela abriu as portas (novamente sem bater), encontrandoo lá. Ele já estava com a armadura, e prendia algo de metal ao seu braço, como uma proteção. Os dois pararam ao se verem.
Finn: O que há? – Perguntou, na defensiva, parado ao vê-la ali.
Rachel: Não vá. – Pediu, rouca tanto pela caminhada, tanto pelo desespero.
Finn: O que? – Perguntou, confuso.
Rachel: Finn, não vá. Não atenda o chamado, fique aqui. – Ele entendeu o medo dela.
Finn: Rachel... – Ele suspirou. Rachel viu a espada dele pousada nos pés da cama, e isso lhe pareceu um mal sinal.
Rachel: Eu estou implorando. – Ela estava chorando – Eu faço o que você quiser. Pelo amor de Deus, não vá.
E, pro choque de Finn, ela se ajoelhou perante a ele.
Finn: Ei. – Disse, se aproximando dela. Ele se abaixou, apanhando-a pelos ombros – Se acalme. – E ele a abraçou. Os sinos continuavam chamando. Rachel o abraçou, mas o metal frio entre os dois servia como barreira.
Rachel: Não vê que ele está fazendo isso para atraí-lo? Ele quer você morto, Finn, não vá. – Ele seguia calado.
Finn ergueu os olhos, e o retrato de Dulce, pousado em sua cabeceira, servia de contraproposta. Jesse matara Dulce. Finn esperou 05 anos por esse dia, por ter sua oportunidade. Ele teve novamente um flash da morte de Dulce, dos olhos dela sem vida em frente a ele, e Suri que jamais andaria...
Finn: Eu não posso. – Ele a soltou, e Rachel o olhou, desolada. O cabelo dela estava maior, e já fazia alguns cachos. A franja se desfizera em uma camada curta do cabelo. – Eu tenho uma conta a acertar.
Rachel: Você vai morrer por essa vingança. – Disse, desolada. Ela viu Finn terminar de prender o acessório de metal no braço. Porque ele não estava ouvindo-a?!
Finn: Se tiver de ser assim... – Seria. Era a resposta clara: Ele estava disposto a morrer.
Rachel não teve mais o que falar. Não conseguia. Ele apanhou algo que lembrava um capacete, de metal, um escudo e a espada. Estava pronto. Os sinos pararam de tocar. Ele parou, frente a ela, e aquilo era uma despedida.
Finn: Espere por mim. – Pediu, olhando-a.
Rachel: Por favor... – Insistiu. Ele tocou a maxilar dela.
Finn: Ainda que não acredite, eu realmente amo você. – Disse, olhando os olhos lacrimejantes dela – Se eu não voltar... Não esqueça isso.
E ele beijou a testa dela demoradamente, saindo dali. Ainda precisava ver Suri. Um desespero tomou conta de Rachel a ponto de sufocá-la. Ela encarou o retrato de Dulce. Uma fúria desmedida justificou ela ter avançado pelo quarto, apanhando o porta retrato e atirando-o com força na parede oposta. O som do vidro quebrando foi o que veio antes dos soluços do choro assustado dela, que caiu sentada na parede do outro lado. Ela não suportaria esperar... Não suportaria perde-lo.
Finn largou a espada, o capacete e o escudo do lado de fora do quarto de Suri antes de entrar, mas a armadura já o denunciava. A menina franziu o cenho, confusa.
Suri: Papai, o senhor viu a Rach? Ela saiu daqui meio... Que roupa é essa? – Perguntou, se interrompendo. Finn se sentou perto dela na cama, e a menina bateu no peito da armadura como quem bate em uma porta.
Finn: Eu vou ter que sair. – Disse, passando a mão no cabelo dela.
Suri: Pra onde?
Finn: Enquanto... Enquanto eu estiver fora, prometa que vai ser uma boa menina. Que vai se cuidar, e crescer... E ser feliz. Prometa isso pro seu pai.
Suri: Quanto tempo o senhor vai levar fora? – Perguntou, confusa.
Finn: Eu não sei. Prometa.
Suri: Eu prometo. – Disse, sem entender.
Finn: Não esquece de uma coisa: Tanto o papai quanto a mamãe amam você demais, sim? – Perguntou, e a menina assentiu, sem entender. Ele beijou a testa dela, respirando fundo – Eu amo você.
Suri: Eu também amo você, papai. – Disse, tentando abraçá-lo. Mas seus braços eram pequenos e a armadura o tornava ainda menos acessível.
Finn: Fique bem. – Disse, abraçando-a. Finn levou bem um minuto abraçado com a filha, então, beijando-a novamente, saiu. Suri continuou sem entender. Não soube que aquilo podia ser uma despedida.
Falando em despedidas... Quinn não disse uma palavra. Permaneceu sentada em um canto, sem olhar, enquanto Puck se vestia. Uma vez com a armadura montada ele foi até ela, mas quando a puxou, fazendo-a se levantar, houve objeção. Ela se resetou ao toque dele, estapeando-o, se afastando.
Quinn: Tu não vais se despedir de mim, Puck, não! – Disse, se afastando dele.
Puck: Quinn... – Tentou, respirando fundo.
Quinn: Não vá. Essa guerra não é sua, não é nossa. Não me deixe aqui sabendo que você pode morrer lá fora, Puck, pelo amor de Deus! – E parece que Rachel não era a única a suplicar – Essa guerra não é nossa, você não precisa ir!
Puck: É minha guerra agora. – Disse, e ela revirou os olhos, impaciente e em pânico, passando as mãos no cabelo. – Não confia em mim?
Quinn: Não é o caso de confiar ou não, você vai morrer no campo de batalha, lutando por uma causa que não lhe pertence!
Puck: E se eu realmente morrer como tu pensas, vai desperdiçar os últimos minutos que tem comigo brigando? – Perguntou e ela o encarou.
Quinn encarou Puck por instantes, então, derrotada, o abraçou. Ele trouxe o rosto dela para si, beijando-a apaixonadamente, e aquela era a despedida que ela não queria ter. Os sinos voltaram a tocar, um ultimato. Ela se agarrou a ele, mas ele se libertou.
Quinn: Volte para mim. – Pediu, em um murmúrio.
Puck: Eu vou voltar. Confie. Eu amo você. – Ele selou os lábios com os dela e, após se armar de capacete, escudo e espada, saiu. Ela olhou a porta aberta por minutos, até desmoronar na poltrona novamente.
Quinn: Inferno. – Rosnou, amaldiçoando Finn pela hora em que ele mencionara pedir o apoio de Puck para essa guerra.
Mas agora já era tarde. Bastava esperar para ver quem voltaria... Ou se voltaria.
Puck: Finn. – Chamou, ao montar em seu cavalo. Os soldados iam a pé, mas Puck e Finn de cavalo, ambos negros. – Essa não é a batalha que havíamos planejado, e nós estamos esperando por Damon e por Sam, lembre-se disso.
Finn: O que quer que eu faça, entregue a coroa? – Perguntou, esperando o exercito avançar a sua frente para poder passar (Os soldados abriam frente para a cavalaria).
Puck: Não. Mas se for uma armadilha, se ele não estiver lá, nós vamos fechar fronteira e recuar.
Finn: Ele está lá. – Disse, pondo o capacete.
Puck: Espero que esteja. Mas se não estiver e tu insistires, eu vou recuar com meus homens e largá-lo lá sozinho. – Avisou, pondo o capacete também. Finn não respondeu.
Esse era todo o problema da situação. Batalhas haviam, e várias, mas era como no xadrez: Apenas os peões iam, os reis eram protegidos. Uma vez que Jesse estivesse dentre o exercito de ataque, Finn deveria sair do castelo e oferecer resistência. Se ele não fizesse isso, perderia. Porém se Finn fosse derrubado em um campo de batalha onde Jesse nem estava... Seria uma catástrofe. Haviam 1.500 homens reunidos ali. Puck queria que houvesse resistência de pelo menos 2 homens seus para cada 1 de Jesse. E em silencio todos seguiram.
Suri: Onde está meu pai? – A menina estava impaciente desde que Finn saíra – Rachel, chame ele!
Mas Rachel não respondeu. Tanto ela quanto Quinn não diriam mais nada aquela tarde. O silencio dominava o castelo. No quarto de Finn o retrato de Dulce fora recolocado em seu lugar, a pobre não tinha culpa do final que tivera. Como Rachel iria justificar a falta do vidro do porta retrato era o de mínimo agora. Ela só rezava. Rezava para que nada acontecesse a ele, para que voltasse para ela... E as horas passavam... Passavam... O campo de batalha era o caos. Finn já sumira dentre os soldados, procurando por Jesse... Matando quem passava ao seu redor. Puck não descera do cavalo, procurava como Finn, mas com os olhos.
Puck: ARQUEIROS! – Rugiu, ainda olhando pro campo de batalha. Mais de 200 arcos se montaram as suas costas, esperando as ordens – AGORA!
E voaram duas centenas de flechas juntas, enegrecendo o céu por instantes. Parecia chuva. Quando atingiram seus alvos, muitos caíram. A cena era caótica. Haviam gritos, e o som do metal cortando tudo o que aparecesse. Puck permaneceu quieto, procurando novamente. Porém a verdade o açoitava juntamente com o ódio. Ele deu a ordem aos arqueiros novamente, e mais uma revoada de flechas sobrevoaram o céu.
Haviam menos homens de Jesse agora. A vitória estava ao alcance das mãos. Porém...
Puck: Ele não está aqui. Desgraçado. – Disse, fazendo o cavalo girar para olhar em volta. Não havia sinal de Jesse por ali, só soldados. Puck ergueu o braço e com um gesto deu a ordem – RECUAR! RECUAR, AGORA!
Os soldados começaram a recuar. Os arqueiros; a montar resistência na fronteira. Mas Finn não estava dentre nenhum dos dois. Também percebera que Paul não estava ali e estava furioso. Todos os que cruzavam ao seu redor terminavam por morrer. Tanto sua espada quanto sua armadura já estavam lavadas em sangue. Perdera o capacete em algum lugar, seu rosto estava livre, e era o rosto da fúria. Ian localizou Finn rapidamente: Dentre os que ainda não recuaram ele era o mais rodeado, e o que mais derrubava homens.
Puck: FINN! – Rugiu, raivoso. Finn, se ouviu, ignorou. – É o inferno. HOMENS, RECUAR! – Ordenou, e puxou a espada da bainha, atiçando o cavalo que foi no meio – E eu que não queria me sujar de sangue. – Rosnou consigo mesmo.
Não queria, mas se sujou. Todos aqueles que não eram seus e que passaram por seu caminho caíram. Até que ele chegou a Finn. Não havia como parar, ele estava sendo atacado. O cavalo relinchou e a espada de Puck reluziu no ar, se abatendo sobre todos os que se aproximava.
Puck: FINN! – Dessa vez tinha certeza de que Finn ouvira – ELE NÃO ESTÁ AQUI, O QUE ESTÁS FAZENDO? – Não houve resposta. – Ótimo. – Disse, descendo do cavalo.
Desgraça pouca era realmente bobagem. Se um dia Jesse tivera chance de ganhar essa guerra era agora. Puck e Finn estavam expostos combatendo soldados! Não podia ser melhor! Finn matava homens porque estava com raiva, e Puck matava homens para tentar deter Finn. Quando não havia mais nenhum homem por perto, ou no raio de alcance deles, Puck agarrou Finn pela armadura.
Puck: Tu tens sorte por eu ser piedoso e não tê-lo largado aqui. – Rosnou, raivoso – Quando eu ordenei para recuar, se aplicava a ti também. Vamos sair daqui.
Finn não disse nada, apenas se virou para sair. Não haviam chegado ao cavalo ainda quando alguém o atacou pela costas. A espada do atacante passou pelo feche da armadura de Finn, acertando-o nas costas. Ele cambaleou, com um grunhido, e Puck se virou. Ao ver a situação Puck tirou o próprio capacete e atirou na direção do homem que atacara Finn, e foi até ele (que estava no chão), cravando sua espada em seu peito. Ele puxou a espada de volta, gotejando sangue, e se virou. Mas Finn já havia caído, e agora estava no chão, imóvel e com a espada cravada na lateral das costas.
Todos estavam paralisados. Puck fez sinal para que vigiassem ao seu redor enquanto se aproximava de Finn.
Puck: Finn, pode me ouvir? – Perguntou, olhando a espada. Por baixo uns 04 dedos da lamina haviam perfurado a carne.
Finn: Não, fiquei surdo. – Respondeu, com a voz abafada pela grama.
Puck apanhou a espada e a puxou das costas de Finn, que gritou perante a dor. Puck trouxe a espada até perto do rosto, medindo o trecho manchado de sangue. Quatro dedos, como imaginara. Ele largou a espada de lado, voltando a Finn, que ofegava no chão. Escorria sangue pela lateral da armadura.
Puck: Consegue andar? – Perguntou, se abaixando.
Finn: Não, creio que terei de voltar pro castelo engatinhando. – Respondeu, e sua voz era entrecortada. Houve um suspiro de alivio geral quando Finn se pôs a levantar... Mas ao pôr o peso na perna esquerda (O lado do corte), cambaleou, rosnando. Puck o amparou. – Adorável, não é? – Perguntou, e ainda ofegava.
Puck: Tragam o cavalo. – Ordenou, e um dos soldados saíram. – Se tivesse me escutado não estaria ferido agora.
Finn: O que é realmente reconfortante. – Finn não sabia o que estava mais forte em seu corpo: O ódio ou a dor. O empregado com o cavalo chegou. Finn penou pra conseguir subir, e uma vez lá se amparou no cavalo, ofegante.
Puck: Vocês. – Disse, se virando. – Recolham os mortos, devolvam as suas famílias para que façam os funerais como se deve. Eu não quero nenhum sobrevivente do exercito de Jesse. Se encontrarem algum... – Pra bom entendedor meia ordem basta. Puck se virou mas Finn já havia saído, se equilibrando pra segurar a rédea do cavalo com uma mão só (erguer o braço do lado ferido era lancinante). – É o inferno... Finn! – Exclamou, indo atrás.
Puck seguiu atrás de Finn. O cavalo dele estava logo ali. Ele montou com a maior facilidade após prender a espada na bainha, e seguiu o outro. Um criado ajudou Finn a descer no castelo, amparando-o até dentro de casa. Já era madrugada.
Puck: Você. – Disse, e uma criada assentiu – Vá até meu quarto e avise a Mrs. Quinn que eu voltei. – Ordenou e a empregada saiu. – Eu quero uma equipe para revezar na segurança do castelo, chamem homens que não tenham participado da batalha, eu não quero ninguém dormindo na guarnição, e tampouco quero ser atacado enquanto durmo. – Disse, irônico.
Rachel ouvira o alvoroço e viera correndo, mas parara na porta. Puck estava em cima de seu cavalo... Mas o cavalo de Finn estava livre, olhando levianamente para um canteiro de orquídeas que havia ali perto. Rachel hiperventilou. Demorou instantes até Puck vê-la parada ali, branca feito a morte. Ao encontrar o olhar dele ela avançou.
Rachel: Onde... Onde está? – Perguntou, olhando do cavalo de Finn pra Puck. Puck desceu do próprio cavalo, revirando os olhos.
Puck: Mulher, se controle. – Disse, procurando graça – Está no quarto. – Rachel quase desmaiou. – Vocês são tão precipitadas! – Disse, observando-a.
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